sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016

Indústria brasileira emite forte sinalização de recuperação


O Índice Gerente de Compras brasileiro surpreendeu positivamente no mês de janeiro ao mostrar forte sinalização de recuperação da atividade industrial. O indicador, calculado pelo Instituto Markit, saltou de 45,6 pontos em dezembro de 2015 para 47,4 pontos em janeiro de 2016, atingindo o nível mais alto em 11 meses.


A pesquisa mostra que o nível de contração da atividade industrial brasileira diminuiu drasticamente no mês passado, provocando uma reversão positiva ascendente muito semelhante às guinadas ocorridas em 2006, 2009, 2010 e 2011.

A inclinação da curva no indicador sinaliza manutenção do movimento de recuperação nos próximos meses, podendo se transformar numa nova fase de expansão da atividade industrial (acima de 50 pontos), tal como ocorreu nas últimas quatro ocasiões citadas (marcadas por sinalizações de força nos pontos de reversão).

Diferentemente das últimas guinadas, desta vez a indústria brasileira se apóia sobre a taxa de câmbio (e não na demanda interna) para alavancar as vendas. O volume de novos negócios com exportação expandiu pelo segundo mês consecutivo, atingindo o ritmo mais rápido indicado pela pesquisa nos últimos seis anos.

A leitura dessa última pesquisa do Instituto Markit poderia sinalizar o nascimento de uma nova fase de crescimento no Brasil, puxada pelas exportações de um importante setor gerador de efeito cascata na economia. A indústria está fazendo o seu papel, aproveitando uma janela de oportunidade no exterior para compensar a fraqueza doméstica, mas infelizmente os ânimos serão contidos ao se chocarem com a muralha de problemas estruturais não resolvidos.

Nos últimos dez anos, toda recuperação da atividade industrial brasileira se colidiu na tal muralha. Quando as máquinas começam a esquentar, a trajetória de recuperação (e crescimento) se esbarra na deficitária infraestrutura para escoamento de produção, aumentos de carga tributária, custos trabalhistas, falta de mão de obra qualificada, excesso de burocracia e, mais recentemente, na inflação persistentemente elevada.

Se ao menos a inflação estivesse, hoje, ancorada no centro da meta (4,5%), como prometia o Banco Central no passado, haveria alguma esperança de a indústria interromper a série de vôos de galinha na economia brasileira. O poder da inflação persistentemente elevada é devastador para as expectativas de investidores, empresários e consumidores. E sem expectativa, não há possibilidade de o crescimento vingar no médio e longo prazo.

O destaque negativo presente na última pesquisa do Instituto Markit é justamente protagonizado pela inflação. Os preços médios de fábrica cresceram pelo décimo sexto mês consecutivo, com a taxa de aumento registrada em janeiro ficando entre as mais rápidas da série. Os preços mais elevados foram atribuídos ao repasse de aumentos de custos de produção.

O IPCA de janeiro, calculado pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), vai na mesma direção preocupante apontada pela pesquisa do Instituto Markit. A inflação oficial brasileira subiu inaceitáveis 1,27% em janeiro deste ano, mesmo com a economia em recessão aguda, o que só reforça a gravidade do quadro macroeconômico.

O índice de difusão do IPCA atingiu 78%, revelando movimento de alta generalizada de preços. A alta de 1,53% do IGP-DI em janeiro, frente aos 0,44% registrados em dezembro do ano passado, também mostra sinalização de aceleração ascendente generalizada de preços.

O pessimismo dos agentes, justificado pela incompetência do Banco Central, tende a continuar sustentando índices de inflação em patamares elevados até que a confiança seja restabelecida. Lamentavelmente, a trajetória permanece na direção contrária, em deterioração.

No cenário externo, enquanto o BCE (Banco Central Europeu) e BoJ (Banco do Japão) acenam para mais impulso monetário, na tentativa de criar inflação, o Banco do México sinaliza mais um aumento de sua taxa básica de juros, após a primeira elevação de 3% para 3,25% realizada em dezembro do ano passado (pela primeira vez em sete anos), na tentativa de criar proteção contra o deslocamento da taxa de câmbio. Outros banqueiros centrais de economias com deslocamento de câmbio semelhante também estão com o dedo no gatilho para agir.

Já o BoE (Banco da Inglaterra) tem sinalizado pouca vontade de iniciar o ciclo de aperto monetário no curto prazo, enquanto o FED (Federal Reserve - Banco Central dos Estados Unidos) segue trabalhando com as condições econômicas favoráveis ao gradualismo no ciclo de aperto monetário.

De forma geral, os prêmios de risco dos títulos da dívida soberana permanecem em rota descendente, reagindo às sinalizações mais flexíveis dos banqueiros centrais de países desenvolvidos. A taxa de juros da Treasury de 10 anos (referência global), segue despencando, aproximando-se da mínima dos últimos dois anos.
  

Apesar de parecer interessante à primeira vista, o forte movimento comprador volta incomodar as autoridades monetárias, pois os preços começam embutir um excesso de otimismo relacionado às políticas monetárias no médio e longo prazo.

sexta-feira, 29 de janeiro de 2016

Festival de erros de diagnóstico


As medidas anunciadas ontem no Conselhão poderão prolongar o sofrimento da economia brasileira por mais algum tempo. Os velhos erros cometidos no passado estão de volta, mostrando a incrível capacidade do governo em fazer diagnósticos errados.

Sob o respaldo de uma ideologia ridicularizada pelo mercado, o governo decidiu novamente recorrer à oferta de crédito na tentativa de impulsionar a economia. O pacote de crédito de 83 bilhões de reais, com possibilidade de utilização de recursos do FGTS, foi anunciado ontem sem qualquer detalhe relevante, mas com uma suspeita de que os beneficiados por taxas de juros possivelmente menores, entre outras generosidades, serão os velhos e conhecidos amigos do rei.

Obviamente, grupos que supostamente estariam compondo o círculo dos amigos do rei aplaudiram as medidas anunciadas e as direções sinalizadas pelo governo. Enquanto isso, o resto do País que se vire para trabalhar num cenário econômico desafiador, recorrendo às taxas de juros exorbitantes nos momentos de fraqueza ou necessidade.

Tal como ocorreu no passado, quando a nova matriz econômica foi colocada em prática pela primeira vez, o ministro da Fazenda (agora Nelson Barbosa) segue repetindo que as injeções de crédito não pressionam a inflação. Aberrações econômicas semelhantes, declaradas por diferentes ministros, mostram que as decisões continuam partindo de outro lugar.

A flexibilidade fiscal também está claramente ativa. Durante o Conselhão, Barbosa propôs estabelecer uma banda para a meta fiscal, curiosamente no mesmo dia em que foi divulgado o maior déficit primário da história.

O Banco Central também vai contribuir com sua parcela de flexibilidade, na inflação. A ata divulgada ontem se mostrou um show de desculpas esfarrapadas para manutenção da taxa básica de juros, mesmo com as projeções da autoridade monetária apontando para elevação da inflação, tanto em 2016 quanto em 2017.

O fato técnico e concreto (elevação nas projeções de inflação) foi descartado pelo Banco Central na implementação da política monetária. Por outro lado, a maioria dos membros do Copom considerou que as incertezas externas, tais como preocupação com o desempenho da economia chinesa e evolução dos preços do petróleo, foram determinantes para decisão de manter a taxa Selic em 14,25%.

Buscar incertezas no cenário externo, injustificáveis à inflação doméstica e condução da política monetária, não é uma novidade ao Banco Central da era da nova matriz econômica. Na ata de reunião dos dias 30 e 31/08/2011, quando o Copom decidiu cortar a taxa Selic de 12,50% para 12,00% ao ano, iniciando um ciclo de afrouxamento monetário no qual levou a taxa básica de juros aos 7,25% ao ano em outubro de 2012, é possível encontrar trechos como: “Também se apresentam como importantes fatores de contenção, a substancial deterioração do cenário internacional” ou “Dessa forma, o Comitê avalia que o cenário internacional manifesta viés desinflacionário no horizonte relevante”.

Entre agosto de 2011 a dezembro de 2015, o IPCA acumulou expressiva alta de 35,14%. O Banco Central pode tentar esconder sua incompetência, mas os números são cruéis, pois revelam uma falha, utilizando a palavra da presidente Dilma Rousseff, estarrecedora.

Após a sinalização de retorno da nova matriz econômica, emitida pelo governo no final do ano passado, o início de 2016 é marcado por mais um festival de erros de diagnósticos. Os mesmos erros que nos levaram ao atual atoleiro.

A grande diferença, agora, é que a situação econômica é tão complicada que não dá mais para empurrar com a barriga. A inflação atingiu dois dígitos, o rombo fiscal é insustentável, a inadimplência está mais alta e a confiança está mais baixa. O governo decepcionou mais uma vez, não só por insistir nos erros do passado, mas, principalmente, por fugir da responsabilidade de propor as necessárias reformas estruturais.

No ambiente externo, o FED (Federal Reserve - Banco Central dos Estados Unidos) continua se mostrando um exemplo de eficiência na comunicação com o mercado. A FFR (Federal Funds Rate - taxa básica de juros) se manteve estável entre 0,25% a 0,50% na reunião de Comitê realizada nesta semana, confirmando o gradualismo na política de aperto monetário.

O recuo da taxa de juros da Treasury de 10 anos (título público do Tesouro norte-americano) para a faixa dos 2,00% ao ano mostra o sucesso na estratégia do FED, inviabilizando oscilações ascendentes abruptas na curva de juros futuros.


Mais do que isso, a curva dos juros futuros se mantêm descendente desde que a FFR subiu de zero a 0,25% para 0,25% a 0,50% ao ano, revelando movimento comprador intenso nas últimas semanas/meses. Contribuiu para corrida às Treasuries o aumento da tensão nas principais praças financeiras globais, o que provocou fuga de ativos de risco para a segurança.

O forte movimento de alívio nas Treasuries também abriu espaço para recuo nas taxas de juros dos títulos da dívida soberana em outras praças, incluindo a de países vulneráveis, como o Brasil. Isso explica o fato de as taxas brasileiras estarem despencando mesmo com os novos sinais de deterioração do quadro doméstico.

Além disso, o BoJ (Banco do Japão) reforçou o viés comprador nesta sexta-feira ao anunciar, inesperadamente, taxa de juros negativa em 0,1% sobre os depósitos que as instituições financeiras detêm no banco. A decisão apertada (5 votos a favor e 4 contra) mostra uma autoridade monetária dividida, porém pressionada a tomar mais medidas de impulso para que a recente tensão no mercado financeiro global não contamine a necessária confiança entre empresários e consumidores para que a economia possa sair da deflação.

Os principais mercados de ações globais seguem trabalhando movimento de recuperação no curtíssimo prazo. Nos Estados Unidos, o índice Dow Jones já se aproxima da linha central de bollinger, ainda sem sinalização de retorno predominante da força vendedora.


O PIB norte-americano anualizado do quarto trimestre subiu 0,7%, um pouco abaixo da previsão de 0,8% dos analistas, dando respaldo à política monetária gradualista tocada pelo FED.

Na zona do euro, destaque para o aumento da inflação de 0,2% em dezembro para 0,4% em janeiro, ambas na comparação com o ano anterior. Já o núcleo de inflação subiu de 0,9% em dezembro para 1,0% em janeiro. Apesar de serem números ainda muito baixos e distantes do centro da meta, revelam importante sinal de aceleração da pressão inflacionária.

Seguindo a mesma direção dos principais índices acionários globais, o Ibovespa segue trabalhando movimento de alívio, já conseguindo realizar teste na linha central de bollinger, mostrando predomínio da força compradora no curtíssimo prazo.

  
Algumas praças que caíram em intensidade semelhante ao tombo do Ibovespa nos últimos meses, tal como a mexicana, já conseguiram superar a linha central de bollinger no gráfico diário, abrindo espaço para manutenção do movimento de alívio nos próximos dias.