sexta-feira, 27 de maio de 2016

Onde foi parar a lua de mel?


Michel Temer assumiu interinamente a presidência da República sob a forte expectativa de receber uma lua de mel com o mercado por algumas semanas/meses. As primeiras ações e medidas tomadas, dentro do possível, são indiscutivelmente pró-mercado e extremamente importantes à reversão do quadro macroeconômico.

Um importante banco de investimentos global chegou apelidar de “time dos sonhos” a nova equipe econômica formada por Temer. São profissionais altamente prestigiados pelo mercado, de elevada expertise e com bom potencial para reordenar a política econômica brasileira.

Mas o mercado mudou desde que Temer assumiu e o time dos sonhos entrou em campo. Apesar de amplamente esperado pelos analistas/economistas, não houve lua de mel com o mercado. Pelo contrário, o ambiente ficou mais tenso e os ativos se desvalorizaram. O dólar contra real saltou para R$ 3,60, taxas de juros futuros colaram em 13% ao ano e a bolsa de valores tombou para 49.000 pontos.

O que aconteceu de tão negativo no ambiente doméstico nas últimas semanas para fazer o mercado mudar de direção no câmbio, juros e bolsa? Nada diferente do que se esperava. Temer e sua nova equipe econômica começaram muito bem os trabalhos, mas estão encontrando certas dificuldades naturais, o que não poderia ser diferente, pois a casa foi entregue totalmente desarrumada.

O mercado azedou com Temer e o time dos sonhos por uma infeliz coincidência. Nas últimas semanas surgiram indicadores, fora do esperado, que alteraram as expectativas do mercado em relação à política monetária de curto prazo de dois importantes banqueiros centrais mundiais: Japão e Estados Unidos.

O PIB (Produto Interno Bruto) do Japão cresceu 1,7% anualizado no primeiro trimestre deste ano, recuperando-se da contração de 1,7% registrada no trimestre anterior. O mercado não esperava uma reação tão forte da economia japonesa neste primeiro trimestre, fato que levanta expectativa de uma postura expansionista menos agressiva do BoJ (Banco Central do Japão) na próxima reunião de política monetária.

Nos Estados Unidos, o FED (Federal Reserve) resolveu aproveitar os juros extremamente baixos das Treasuries (títulos públicos do governo norte-americano) para iniciar os trabalhos de condução das expectativas do mercado para uma nova alta na FFR (Federal Funds Rate - taxa básica de juros).


Isso significa que, muito possivelmente, a taxa básica de juros subirá 0,25 p.p. pela segunda vez desde a mínima história, para a faixa de 0,50% a 0,75% ao ano, na reunião de Comitê do mês de junho ou de julho, confirmando o deslocamento altamente gradualista e cauteloso da política de aperto monetário. O primeiro aumento ocorreu em dezembro de 2015, o que abre uma perspectiva de novas altas na FFR a cada 6 ou 7 meses.

Tal como ocorreu na primeira vez, o segundo aumento da FFR também será praticamente irrelevante sobre os preços dos ativos globais, isso porque o FED continua tendo sucesso na sua estratégia de comunicação, proporcionando deslocamentos suaves no mercado de juros futuros.

Portanto, o foco continua sobre as Treasuries e não sobre a FFR como se comenta nas mídias especializadas em mercado financeiro. Enquanto as Treasuries se manterem comportadas, menores serão as chances de fuga de capitais em praças mais arriscadas, mesmo que a FFR esteja alguns pontos mais acima.

Apesar de pouco efeito prático sobre os preços dos ativos, a mudança de perspectiva em relação às estratégias de curto prazo de dois importantes banqueiros centrais mundiais causa impacto psicológico no mercado, responsável, portanto, por alterar a trajetória de preços não só no Brasil, mas em outras praças emergentes.

No Brasil, o índice Bovespa opera vendido no curto prazo, mas ainda acima da principal linha de suporte formada pela média móvel simples de 200 períodos diária. A tendência principal de alta, iniciada aos 37k, será ameaçada caso perca este importante ponto de sustentação.



quarta-feira, 11 de maio de 2016

Junk is good


Nem parece que há cerca de doze meses atrás sentia-se no Brasil a iminência da perda do grau de investimento. O ambiente era terrível, as metas fiscais eram revisadas para baixo, pautas-bomba circulavam no Congresso, Joaquim Levy era bombardeado por todas as direções, o governo estava isolado, sem força e sem capacidade de articulação.

O mercado era depressivo, a mídia tocava o terror e os analistas previam um desastre caso a nota de crédito fosse rebaixada. Dia após dia repetia-se com muita convicção os duros choques contratados para acontecer a partir do momento da confirmação do rebaixamento da nota brasileira para grau especulativo: o dólar e as taxas de juros iriam disparar, pois os investidores seriam obrigados a vender títulos e sair do País.

Essa avaliação era praticamente unânime no mercado. Os “especialistas” sentiam-se tão seguros com suas previsões que já traçavam um cenário-base posterior ao esperado choque.

Em setembro do ano passado as expectativas foram confirmadas. A agência de classificação de risco S&P (Standard & Poor’s) deu a largada e jogou a nota de crédito brasileira para grau especulativo. Nesta época o dólar era negociado acima dos R$ 4,00 (máxima em R$ 4,25) e os contratos de juros futuros oscilavam na faixa dos 17% ao ano (curva de 2018 chegou a pagar 17,67%).

Imediatamente após o rebaixamento da S&P o que se viu no mercado foi um quadro totalmente diferente daquilo que era amplamente esperado pelos analistas. O dólar contra real parou de subir, cravou topo e passou a cair, revertendo a tendência principal de alta para baixa.


As taxas de juros realizaram movimento idêntico, numa intensidade ainda maior. Cravaram máxima em setembro e reverteram a tendência principal de alta para baixa. O tombo fenomenal dos contratos de juros futuros denuncia forte movimento comprador desde o ano passado.


Hoje as taxas de juros futuros operam próximas das mínimas registradas em 2015. Nem parece que o Brasil desceu alguns importantes degraus na escala de grau especulativo, com manutenção de perspectivas negativas. O movimento é curioso, quanto mais as notas brasileiras foram sendo cortadas pelas agências de classificação de risco, mais compras de títulos públicos e privados faziam os investidores/operadores.

O apetite voraz do mercado por ativos brasileiros não parece estar perto do fim. Cada vez mais gestores de fundos nacionais e internacionais afirmam estar comprando títulos da dívida pública brasileira, enxergando espaço para juros futuros cada vez menores.

Esse quadro, entretanto, não é uma característica exclusiva do Brasil. Movimentos semelhantes podem ser constatados em outras praças emergentes que também sofreram rebaixamentos nos últimos meses/anos, o que denuncia um movimento de fluxo global relevante.

Pressionados pelos baixos retornos proporcionados por ativos grau de investimento em praças desenvolvidas, cresce cada vez mais o número de investidores/operadores em busca de ativos junk (lixo/grau especulativo), com objetivo de aumentar o retorno do portfólio, mas com certa delimitação de risco.

O alvo desse fluxo de capital relevante são justamente ativos de boa qualidade, considerados grau de investimento no passado recente, mas que se tornaram ativos junk por conta de vários fatores que, na visão desses investidores/operadores, são temporários e reversíveis a médio e longo prazo.

Junk is good, portanto, parece ser a nova máxima no mercado global. Junk com DNA grau de investimento, mas com preço de grau especulativo.

No mercado internacional, esse movimento é conhecido como compra de “anjos caídos”, que são justamente ativos grau de investimento recentemente rebaixados para grau especulativo. Esses ativos, apesar de rebaixados, continuam tendo boa avaliação de risco e aceitação no mercado, não por conta dos fundamentos (que se tornaram ruins temporariamente), mas por falta de opções.

Outro ponto importante é que nem todos os ativos que se mudaram pro terreno junk são considerados “anjos” no mercado. Os investidores/operadores estão apenas aprendendo a separar os poucos bons ativos presentes hoje na vasta gama de opções tóxicas do terreno junk.

Títulos da dívida pública brasileira, por exemplo, são considerados anjos caídos no mercado global, não só por conta do alto volume das reservas internacionais, como da própria força, dinamismo e capacidade de reação da economia. A mesma avaliação não vale para países com nota semelhante à brasileira, tal como Guatemala e Bolívia ou mesmo para países com notas até um pouco melhores, como o Azerbaijão.

Na bolsa de valores, houve denúncia de ressurgimento de força compradora no curtíssimo prazo após os preços visitarem a importante região de suporte psicológico localizada na faixa dos 50k. Isso significa que a tendência principal de alta iniciada na casa dos 37k ainda continua mostrando força relevante, pois os movimentos descendentes intermediários permanecem curtos, dando origem a fundos ascendentes próximos das máximas recentes.