quinta-feira, 23 de março de 2017

Freedom Caucus no sapato de Trump


A articulação do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, falhou em seu primeiro e importante teste no Congresso. Convicto em desmantelar o Obamacare no dia de seu sétimo aniversário, Trump tentou fazer algumas alterações de última hora no texto, mas não conseguiu alcançar os votos necessários de parlamentares de seu próprio partido para aprovar a nova legislação da saúde.

A votação, marcada para a noite desta quinta-feira, teve de ser adiada indefinidamente, podendo azedar o humor dos investidores/operadores no mercado. A nova lei da saúde é vista como um teste crucial das habilidades de articulação de Trump com o Congresso para conseguir implementar suas promessas de campanha, principalmente a tão aguardada reforma tributária (com forte redução de impostos) e investimentos pesados em infra-estrutura.

O grupo ultraconservador da Câmara dos Representantes, conhecido como Freedom Caucus, é a pedra no sapato de Trump. Com cerca de 30 congressistas, o Freedom Caucus é considerado a ala mais radical do Partido Republicano e se posiciona contra as propostas de Trump para a nova lei da saúde por considerá-las brandas demais. O problema é que, se o presidente dos Estados Unidos atender as exigências rigorosas do Freedom Caucus, certamente perderá apoio da ala mais moderada (Tuesday Group) do Partido Republicano.

Trump precisa de 216 votos dos 435 congressistas na Câmara para aprovar a nova lei e partir para a mesma batalha no Senado. Com a oposição Democrata já posicionada para votar unida para defender o Obamacare, se apenas 22 republicanos votarem junto com os democratas (ou seja, contra as mudanças), Trump será derrotado.

O levantamento feito pelo New York Times nesta quinta-feira aponta que 33 dos 237 deputados republicanos ainda são contra o texto para mudança da lei da saúde. Já a conta feita pelo Washington Post mostra que 37 republicanos são contra as mudanças defendidas por Trump.

O peso vem justamente do Freedom Caucus, pois o grupo costuma votar unido na Câmara dos Representantes. Se Trump convencer a ala mais radical de seu partido, conseguirá derrubar o Obamacare e cumprir sua principal promessa de campanha.

Apesar do adiamento da votação, as circunstâncias não estão tão desfavoráveis ao presidente dos Estados Unidos. Mark Meadows, presidente do Freedom Caucus, disse que houve progressos nas negociações, sinalizando que um acordo pode estar próximo.

O índice S&P500 fechou o dia de lado, após ensaiar uma retomada durante o pregão que não se sustentou em função do adiamento da votação na Câmara dos Representantes. Apesar de o jogo estar aberto, o mercado segue vendido no curtíssimo prazo, sem apresentar novidade.


No Brasil, o índice Bovespa também fechou o pregão de lado, vendido no curto prazo, sem apresentar novidade.

  
Na Europa, destaque para a forte demanda das instituições financeiras ao programa TLTRO (Operações de Refinanciamento Direcionadas de Longo Prazo, com taxa de juro zero). O BCE (Banco Central Europeu) concedeu um total de 233,5 bilhões de euros, marcando a maior quantia líquida desde a criação do programa.

Os bancos entraram forte na TLTRO por temerem que as condições para a autoridade monetária continuar tocando seus agressivos programas de estímulos monetários estão cada vez mais restritas. O BCE já acumula saldo de impressionantes 2,28 trilhões de euros em compras de ativos no mercado, possivelmente indo além do seu limite.

Nesta quinta-feira, Mario Draghi, presidente do BCE, fez uma afirmação pouco usual ao insinuar que está terminando o prazo para os bancos colocarem a casa em ordem. Excessos de capacidade, ineficiência e “ativos de legado” (possivelmente podres) são fatores que contribuem para a baixa lucratividade dos bancos. Segundo Draghi, está chegando o momento de os bancos encontrarem respostas aos seus próprios desafios.

quarta-feira, 22 de março de 2017

Acabaram as cartas da manga


A amplamente esperada entrevista coletiva com o ministro da Fazenda, Henrique Meirelles e o ministro do Planejamento, Dyogo de Oliveira, realizada no fim da tarde desta quarta-feira, decepcionou o mercado que contava com uma solução para o gigantesco rombo dentro de uma meta primária já significativamente deficitária a ser perseguida neste ano.

A primeira frustração começou logo na projeção revisada para o PIB (Produto Interno Bruto) de 2017. Quando foi elaborada a peça orçamentária, o governo estimou que a economia cresceria 1,6% neste ano. O mercado estava ciente do excesso de otimismo da equipe econômica na projeção para o PIB, mas a redução foi mais drástica do que se esperava. Agora, o governo projeta um crescimento de apenas 0,5% em 2017.

Com uma expectativa bem menor de crescimento, o governo teve de rever para baixo sua projeção de arrecadação. Como, na prática, não está havendo cortes de gastos (pelo contrário, nesta nova estimativa, por exemplo, as despesas primárias são 3,4 bilhões maiores que as previstas no Orçamento), ao somar todas essas revisões foi encontrado um rombo de 58,2 bilhões de reais para o cumprimento de uma meta de déficit primário de 139 bilhões de reais. Ou seja, faltam 58,2 bilhões para o governo conseguir fechar o ano devedor em 139 bilhões. Uma verdadeira catástrofe.

A equipe econômica deveria anunciar nesta quarta-feira como deverá tapar esse novo buraco de 58,2 bilhões para conseguir cumprir a meta de déficit primário. Entretanto, num gesto bastante incomum, Meirelles afirmou que vai divulgar o corte de despesas e um possível aumento de impostos somente na próxima terça-feira.

O ministro da Fazenda empurrou a solução para a próxima semana porque está avaliando possível ingresso de recursos (entre 14 bilhões a 18 bilhões de reais) no Orçamento em decisões judiciais favoráveis à União (julgamento dos casos das usinas hidrelétricas e precatórios).

Contar com uma receita extra, vindas de vitórias na Suprema Corte, para tapar um buraco no Orçamento dentro de um buraco ainda maior na meta a ser perseguida, é uma clara sinalização de que acabaram as cartas na manga. O governo parece não saber o que fazer para tapar novos buracos e, por isso, precisa de mais tempo, talvez a espera de um milagre.

A única certeza que parece estar sobre a mesa é mais um lamentável aumento de impostos. Meirelles afirmou que existe uma boa possibilidade de elevação tributária para cobertura de parte do rombo divulgado no relatório desta quarta-feira, mas não entrou em nenhum detalhe.

Mesmo com a máquina pública tão inchada, o governo se recusa tocar uma agenda para cortar gastos desnecessários e ineficientes. Grande parte dos cidadãos brasileiros que acompanham o noticiário político e econômico sabe onde o serviço precisa ser feito para cortar o excesso: privilégios, salários, cargos públicos, fundo partidário, entre outros. Uma boa tesourada nessas áreas colocaria o governo em situação de superávit primário.

No cenário externo, o ataque terrorista ao Parlamento britânico dominou os noticiários, onde 5 pessoas morreram e mais de 40 ficaram feridas depois que um carro avançou sobre os pedestres. Um policial que estava protegendo o Parlamento morreu. O agressor foi baleado por outro policial.

Mark Rowley, autoridade máxima britânica de contraterrorismo, afirmou que o agressor agiu supostamente inspirado no terrorismo islâmico, mas recusou revelar sua identidade. O atentado aconteceu às vésperas das eleições na França, podendo alimentar ainda mais a crescente onda da extrema-direita e/ou pressionar os atuais líderes europeus a tomarem atitudes mais enérgicas em relação à segurança.

A bolsa de Londres despencou novamente no pregão desta quarta-feira, já se aproximando da primeira (frágil) linha de suporte aos 7.271 pontos.


Nos Estados Unidos o índice S&P500 fechou o pregão em leve alta, ainda vendido no curtíssimo prazo, aguardando o desfecho da importante disputa a ser travada amanhã no Congresso.


No Brasil, o índice Bovespa trabalhou movimento de alívio, fechando o pregão em alta de 0,86%. O respiro é um movimento técnico de pullback sobre a região de pivot dos 64k e ainda é insuficiente para alterar a tendência descendente iniciada aos 69,4k.