segunda-feira, 29 de setembro de 2014

Mercado atropela otimismo do Banco Central


O novo Relatório de Inflação do Banco Central divulgado nesta segunda-feira mostra como é difícil sair da armadilha de baixo crescimento e inflação elevada, criada pela incompreensível estratégia de política econômica do atual governo.

As últimas decisões de política monetária, respaldadas na manutenção da taxa Selic, haviam transmitido certo otimismo da autoridade monetária com estes dois importantes indicadores. Perspectiva de aceleração do ritmo de crescimento e recuo da inflação em direção ao centro da meta no horizonte relevante para a política monetária.

Entretanto, os números apresentados no Relatório de Inflação não justificam o otimismo da autoridade monetária. A projeção para o PIB (Produto Interno Bruto) de 2014 despencou de 1,6% (estimativa apresentada no Relatório de Inflação de junho deste ano) para 0,7%. Já a projeção para o IPCA de 2014 manteve-se muito próxima do teto da meta, aos 6,3% (praticamente estável em relação a estimativa divulgada no Relatório de Inflação do mês de junho, de 6,4%).

Para 2015 e 2016, ano de provável retomada da inflação na Inglaterra e nos Estados Unidos, as projeções do Banco Central para o IPCA pioraram. A inflação fecharia 2015 em 5,8%, recuaria para 5,6% até o mês de março de 2016 e 5,3% até o mês de junho desse mesmo ano. As estimativas do relatório anterior, divulgado no mês de junho, apontavam para inflação de 5,7%, 5,4% e 5,1%, respectivamente.

Para complicar, as projeções do Relatório de Inflação divulgado hoje foram traçadas no dia 05 de setembro de 2014, onde a taxa de câmbio estava num patamar bem mais baixo. O Banco Central considerou manutenção da taxa de câmbio constante em todo horizonte de previsão em R$2,25 e taxa Selic em 11% a.a.

Nesta segunda-feira o dólar atingiu R$ 2,4557, alcançando o maior patamar desde o dia 9 de dezembro de 2008. Isso significa que: (i) a ferramenta cambial, utilizada até pouco tempo para auxiliar a política monetária no combate à inflação, foi detonada pelo mercado; (ii) não se pode confiar nas projeções defasadas do Banco Central, já que a valorização do dólar frente ao Real impulsiona a inflação.

A manutenção da taxa de câmbio neste patamar, ou acima, provocará, inevitavelmente, revisões para cima no IPCA durante a próxima reunião do Copom (Comitê de Política Monetária), a ser realizada nos dias 28 e 29 de outubro.

Levando em consideração a retomada da inflação global, fruto do processo de retomada do crescimento das economias de países desenvolvidos, persistência da inflação doméstica próxima do limite da margem de tolerância (mesmo num quadro de recessão técnica e baixa confiança dos consumidores e empresários) e manutenção da política fiscal expansionista (contrariando, novamente, a avaliação de neutralidade fiscal do Banco Central), de onde vem o otimismo da autoridade monetária? A inflação segue persistentemente elevada mesmo com o País em recessão, por que deveria estar mais baixa com as recentes políticas de incentivo ao crédito, provável retomada do crescimento econômico brasileiro (ainda que modesta) e ressurgimento da inflação global? E ainda, por que na última ata do Copom, divulgada no dia 11 desse mês, o Banco Central passou a ver que a inflação não é mais "resistente", se as próprias projeções não permitem vislumbrar o momento em que a inflação voltaria ao centro da meta (4,5%)?

Lamentavelmente voltaram a surgir suspeitas de inconsistências nas avaliações e decisões do Copom frente ao quadro atual e aos desafios que estão batendo na nossa porta.  Esta percepção de deterioração provocou forte disparada dos juros futuros no mercado doméstico, obrigando o Tesouro Nacional atrasar a abertura do Tesouro Direto na parte da manhã e suspender temporariamente as negociações na parte da tarde.

A bolsa de valores despencou 4,52%, registrando a maior queda desde 22 de setembro de 2011. O movimento seguiu o clima de aversão ao risco constatado nas demais praças financeiras mundiais. Entretanto, pode-se notar intensidade atipicamente maior no mercado brasileiro nesta segunda-feira devido à liquidação maciça de investidores/operadores que estavam comprados em papéis “indicados” pelas corretoras nacionais, especialmente na última sexta-feira.


Com o tombo desta segunda-feira, o índice Bovespa perdeu a linha de suporte localizada na região dos 55k, acelerando o movimento corretivo iniciado nos 62.3k. O próximo ponto de apoio está enfraquecido e passa pela média móvel simples de 200 períodos diária.

Nos Estados Unidos o índice Dow Jones abriu o pregão em forte baixa, mas conseguiu respirar na região de suporte dos 16.9k. Destaque para desaceleração da inflação no mês de agosto, que atingiu 1,5% no acumulado dos últimos 12 meses, menor do que os 1,6% registrados no mês anterior. A inflação segue abaixo da meta do FED (Federal Reserve) de 2% e sua desaceleração permite a manutenção do cronograma adotado pelo Comitê de Política Monetária.


segunda-feira, 22 de setembro de 2014

China reforça movimento de aversão ao risco


Figuras importantes do alto escalão do governo chinês reforçaram o movimento de aversão ao risco nas principais praças financeiras mundiais. Durante o encontro de ministros de finanças e banqueiros centrais do G-20 neste fim de semana, o ministro das Finanças da China, Lou Jiwei, disse que o deslize observado nos últimos indicadores do País não é motivo suficiente para uma mudança drástica na política econômica.

Havia uma expectativa no mercado de que o governo chinês implementaria, nas próximas semanas, medidas pró-crescimento de maior impacto (corte na taxa básica de juro ou forte redução no compulsório). Mas as declarações de Jiwei no G-20 foram na direção oposta, detonando a expectativa criada pelo mercado.

Pouco antes, numa reunião do Fórum Econômico Mundial, o primeiro-ministro Li Keqiang destacou que a China vai manter sua política de estímulos direcionados, evitar a impressão de dinheiro e continuar empenhada em reformas estruturais destinadas a inclinar a economia para os serviços e o consumo.

Nesta segunda-feira, o vice-ministro da Indústria e Tecnologia de Informação, Mao Weiming, reforçou a posição do governo chinês ao afirmar que a economia do País segue estável e que os indicadores decepcionantes registrados no mês de agosto tiveram origem em parte de ajustes econômicos necessários que o país está fazendo (referindo-se às reformas, em curso, para a transição do modelo de crescimento chinês).

As declarações de Lou Jiwei, Li Keqiang e Mao Weiming demonstraram claramente que o governo reconhece a desaceleração da atividade econômica no País, mas, apesar disso, nenhuma medida significativa de estímulo está em estudo. Até o momento, os dados ruins ainda não são suficientes para o governo ajustar o importante cronograma econômico de longo prazo em curso.

Com isso, aumentou o pessimismo do mercado quanto ao Índice Gerente de Compras do setor manufatureiro chinês calculado pelo Banco HSBC, em parceria com o Instituto Markit, a ser divulgado nesta terça-feira. Espera-se uma leitura abaixo do patamar de 50 pontos, o que indica contração da atividade.

O mercado de commodities foi novamente golpeado nesta segunda-feira. O minério de ferro caiu abaixo de 80,00 dólares por tonelada pela primeira vez em cinco anos. O barril de petróleo tipo Brent, negociado no mercado inglês, atingiu a mínima do ano passado aos 96,97 dólares. O barril de petróleo tipo Light, negociado no mercado norte-americano, renovou a mínima deste ano aos 90,67 dólares.

Os mercados de matéria-prima na China seguem em baixa, devido ao excedente de oferta num momento de crescimento mais lento da demanda no País. O índice de commodities CRB Jefferies/Reuters segue despencando. Atingiu os 277, 67 pontos nesta segunda-feira.


O tombo das commodities é um dos responsáveis pela intensidade maior do movimento de aversão ao risco em algumas praças emergentes (Brasil, por exemplo), justamente por serem importantes players exportadores.

O atual movimento corretivo é o mais forte desde o início do rali no mês de março deste ano, marcado, na época, pelo importante clareamento do calendário de política monetária do FED (Federal Reserve – Banco Central norte-americano), fato que abriu uma boa janela de oportunidade para o capital experimentar ativos com retornos mais elevados em praças mais arriscadas (principalmente emergentes).


Destaque para irritação da presidente Dilma Rousseff, na última sexta-feira, frente à vinculação das pesquisas eleitorais ao desempenho do índice Bovespa. Segundo ela, “está ficando ridículo isso”. E realmente está, pois o consenso (infundamentado) do mercado influenciou até mesmo a opinião da presidente da República. Os principais motivos responsáveis pelo deslocamento do índice Bovespa nos últimos meses não estão, nem mesmo, dentro do Brasil. São extremamente relevantes e foram amplamente levantados neste espaço nos últimos meses.

A propósito, o gráfico de linha apresentado acima do parágrafo anterior não é do Ibovespa. Parece muito. Mas não é. Utilizei propositalmente o gráfico de um ETF (iShare) que faz a réplica do índice MSCI de mercados emergentes.

Serve como exercício de alerta aos que não desconfiaram deste “erro proposital”. O investidor/operador precisa saber filtrar grande parte das informações e estar atento ao que realmente importa. Abaixo, segue o gráfico de linha do Ibovespa:


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