quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

Goldfajn prepara terreno para intensificar cortes na taxa Selic


A ata do Copom (Comitê de Política Monetária do Banco Central) divulgada na última terça-feira mostrou que os membros do Comitê discutiram a possibilidade de um corte maior na taxa básica de juros. Essa informação relevante abre perspectiva para maior flexibilização da política monetária já no próximo mês, mas por algum motivo não foi apontada pelo comunicado emitido na semana anterior.

A novidade observada na ata foi endossada nesta quarta-feira pelo presidente do Banco Central, Ilan Goldfajn, em café da manhã com jornalistas. Goldfajn confirmou a discussão entre membros para intensificar os cortes na taxa básica de juros, mas salientou que o debate foi adiado para próximo encontro a ser realizado nos dias 10 e 11 de janeiro.

Segundo o presidente do Banco Central, os membros do Comitê devem se concentrar na queda da inflação e na intensificação da queda dos juros. A ancoragem da inflação à meta, segundo ele, vai se mostrar um benefício para frente, o que sinaliza claramente ao mercado que a autoridade monetária enxerga espaço praticamente consolidado para aumentar os cortes na taxa básica de juro, de 0,25 p.p. para 0,50 p.p.

O principal argumento sinalizado por Goldfajn para intensificação dos cortes é válido, desde que sejam consideradas somente as projeções de inflação do cenário de referência, feitas justamente pelo Banco Central. Conforme informação disponibilizada pela ata, a estimativa da autoridade monetária para a inflação de 2017 está em torno de 4,4%. Para 2018, as projeções encontram-se em torno de 3,6%.

Entretanto, a mediana da projeção de inflação feita pelo mercado (constatada através do último Boletim Focus), está em 4,93% para 2017, ainda com certa distância do centro da meta e, definitivamente, longe da ancoragem.

Em função dos indicadores de crescimento decepcionantes, é justificável que o Banco Central busque a meta de inflação (4,5%) com menor rigor, o que permitiria manutenção da taxa básica de juros, ou mesmo pequenos cortes para testar a reação dos preços. Não é o objetivo da autoridade monetária, mas ajudaria o governo na tentativa de empurrar a economia. Mas o quadro de inflação não ancorada, além do GAP de projeções (que precisa sumir) para a inflação entre o cenário de referência e o cenário de mercado, impõe riscos significativos ao aumento da flexibilização monetária.

A possível nova postura mais arriscada do Banco Central também vai contra a estratégia de banqueiros centrais de países emergentes. No México, o Banxico está subindo sua taxa básica de juros para acalmar os ânimos dos investidores. Na Índia, o Banco Central surpreendeu ao não cortar sua taxa básica de juros nesta quarta-feira, deixando-a inalterada, mesmo com enorme pressão do primeiro-ministro, Narendra Modi, para uma flexibilização monetária.

Modi implementou um plano drástico em 8 de novembro para acabar com as notas de 500 rúpias e 1.000 rúpias (equivalente a 7,35 dólares e 14,70 dólares, respectivamente). A medida retirou 86% da moeda em circulação, numa tentativa de reprimir a economia paralela na Índia. Mesmo com a temporária escassez de notas, o Banco Central se manteve firme na política monetária, focado na inflação.

Independente da situação no cenário externo e/ou dos motivos não muito convincentes apresentados por Ilan Goldfajn, fato é que o Banco Central brasileiro está disposto a intensificar os cortes na taxa Selic, cedendo à pressão do mercado.

Ainda no ambiente doméstico, destaque para a vitória de Renan Calheiros no STF (Supremo Tribunal Federal). A Suprema Corte revogou parcialmente a liminar do ministro Marco Aurélio Mello que afastou o parlamentar do comando da Casa. Por 6 votos a 3, os ministros do STF decidiram manter Renan à frente do Senado, mas tirá-lo da linha sucessória da Presidência da República.

líder do governo no Congresso, senador Romero Jucá, afirmou que está mantida a previsão de votar a PEC (Proposta de Emenda Constitucional) do teto dos gastos na próxima terça-feira. Apesar de o ambiente ter voltado a melhorar para o governo, o clima ainda é tenso entre os três poderes.
Já nas principais bolsas de valores mundiais, o clima é positivo. Os mercados emergentes estão conseguindo emplacar movimentos de recuperações de preços, acompanhando, agora, o otimismo de Wall Street.
O índice S&P500 fechou mais um pregão em forte alta, renovando nova máxima histórica. Apesar de sobrecomprado, mercado segue forte na ponta comprada, tanto no curto prazo, quanto no médio e longo prazo.

A bolsa do México fechou em forte alta pelo terceiro pregão consecutivo, superando, pela primeira vez desde a eleição de Donald Trump, a linha central de bollinger. Fundo duplo confirmado aos 184 pontos.

Na Índia, a bolsa de Bombay também trabalha movimento de recuperação de preços. Mercado em tendência de alta de curtíssimo prazo, mas ainda sentindo pressão da linha central de bollinger.

Na China, a bolsa de Xangai subiu mesmo com a notícia de que as reservas cambiais caíram bem mais do que o esperado no mês de novembro, atingindo o menor patamar em quase seis anos, aos 3,052 trilhões de dólares. A quantia ainda é muito significativa, mas o mercado considera a linha de 3 trilhões de dólares como um piso psicológico importante ao Banco Popular (Banco Central da China).

O índice Bovespa fechou mais um pregão em alta, iniciando rompimento da linha central de bollinger e nova aproximação sobre a LTB dos 65.3k. O segundo teste na referida linha num curto espaço de tempo revela aumento de pressão compradora no mercado, ameaçando limpar algumas posições vendedoras da praça.  

segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

Crise institucional pode acabar com a complacência dos investidores


O ministro do STF (Supremo Tribunal Federal), Marco Aurélio Mello, decidiu por uma liminar afastar o presidente do Senado, Renan Calheiros, acatando o pedido feito pelo partido Rede no processo em que réus não podem estar na linha sucessória da Presidência da República.

A decisão do ministro tem efeito imediato, ou seja, a partir de agora, o vice-presidente do Senado, Jorge Viana, assumirá o comando da Casa. Entretanto, o plenário do STF ainda precisa analisar a liminar do ministro Marco Aurélio e, no caso de uma decisão contrária, o senador Renan Calheiros voltará a presidência do Senado.

Independente da decisão da Suprema Corte, a confusão está feita. O nível de tensão já elevado entre os três poderes subiu ainda mais e uma crise institucional pode estar se agravando, ponto extremamente delicado ao futuro do País. Uma crise institucional é pior do que a não aprovação da reforma da previdência e do teto dos gastos, juntas.

Os investidores (principalmente estrangeiros) estão relativamente pacientes com o Brasil, mesmo com tantos problemas micro e macro acumulados ainda em aberto, olhando para o quadro doméstico com uma visão de mais longo prazo e com perspectiva positiva para a economia. Mas essa complacência pode ir por água abaixo com o agravamento de uma crise institucional, o que levaria a um rápido desmonte de posições compradas em ativos de risco.

O fato de Jorge Viana, novo presidente do Senado, pertencer ao PT e, portanto, se posicionar como oposição na presidência da Casa, causa uma grande dor de cabeça ao governo do presidente Michel Temer, já que a pauta de votações pode ser alterada. A PEC do teto dos gastos está sob risco de ser aprovada em segundo turno com atraso. Já a reforma da previdência, com um petista na presidência do Senado, corre sério risco de não se deslanchar, o que definitivamente seria um desastre do ponto de vista fiscal e um duro golpe ao mercado.

A bomba lançada por Marco Aurélio caiu em Brasília após o fechamento do mercado. O governo Michel Temer terá toda a madrugada para traçar uma estratégia e tentar acalmar os ânimos amanhã, o que será um novo teste à paciência dos investidores (que parece estar no limite).

O índice Bovespa permanece operando abaixo da linha central de bollinger, porém acima da principal região de suporte de curto prazo localizada na faixa dos 58,3k. A perda deste  importante patamar de sustentação poderá criar uma nova onda vendedora.


No cenário externo, destaque para avassaladora derrota do primeiro-ministro da Itália, Matteo Renzi, no referendo do último domingo sobre uma reforma constitucional. O “não” venceu com 59,1% dos votos.

Com a derrota, Renzi anunciou que irá renunciar, o que poderá abrir as portar para novas eleições antecipadas no ano que vem. O Movimento 5-Estrelas, partido anti-Europa, é o forte candidato para assumir o poder na Itália.

O fundador do partido, o comediante Beppe Grillo, já pediu eleições imediatas e disse que a partir da semana que vem os integrantes do Movimento 5-Estrelas começarão elaborar uma plataforma de políticas para divulgar a nação. Uma das principais bandeiras defendidas pelo partido é justamente a ruptura com o Euro.

A decisão, entretanto, precisa ser endossada por um referendo. Por esse motivo os mercados europeus reagiram com certa irrelevância à reviravolta política na Itália. A ruptura, se ocorrer, demandará algum bom tempo.