quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

0,50 p.p. a mais de credibilidade


O Copom (Comitê de Política Monetária do Banco Central) decidiu manter o ritmo de alta da taxa Selic nesta quarta-feira. A decisão foi acompanhada pelo seguinte comunicado: ”Avaliando o cenário macroeconômico e as perspectivas para a inflação, o Copom decidiu, por unanimidade, elevar a taxa Selic em 0,50 p.p., para 12,25% a.a., sem viés

A decisão era amplamente esperada e não surpreendeu o mercado. O Relatório de Inflação, divulgado no final do ano passado, alterou oficialmente a mensagem de política monetária constatada na última ata divulgada no dia 11 de dezembro.

Banco Central afirmava que “considerando os efeitos cumulativos e defasados da política monetária, entre outros fatores, o Comitê avalia que o esforço adicional de política monetária tende a ser implementado com parcimônia.”

Este trecho foi totalmente removido no Relatório de Inflação e deu lugar a uma nova afirmativa: “o Comitê irá fazer o que for necessário para que no próximo ano a inflação entre em longo período de declínio, que a levará à meta de 4,5% em 2016.”

A mensagem é mais firme e sinaliza possibilidade relevante de continuação do ritmo de aperto monetário em 0,50 p.p., fato confirmado na noite desta quarta-feira.

As últimas projeções do Banco Central para a taxa inflação subiram para 6,4% em 2014, 6,1% em 2015 e 5,0% em 2016, levando em consideração a manutenção da taxa de câmbio em R$ 2,55 e taxa Selic em 11,75% (cenário de referência). Não há espaço para parcimônia com a taxa inflação acima do centro da meta em todo o horizonte de projeções.

Além de combater a pressão natural da inflação, a continuação do ritmo de aumento de 0,50 p.p. na taxa Selic tem a função de recuperar a credibilidade perdida nos anos anteriores, ponto de extrema relevância para impedir uma possível fuga de capitais na fase de normalização das condições monetárias nos Estados Unidos e Inglaterra.

O Banco Central transmite entender, através de suas últimas ações, risco não desprezível de novos choques no mercado global da dívida soberana. O momento atual é delicado, pois mostra excesso de otimismo nos preços dos ativos espalhados mundo afora, acompanhando o deslocamento da taxa de juros do título de 10 anos do Tesouro norte-americano (referência).


No gráfico acima podemos observar o intenso movimento corretivo da Treasury. Os juros futuros nos Estados Unidos caíram abaixo do patamar marcado pelo discurso de anúncio antecipado do tapering (redução gradual no volume dos programas de estímulos monetários) do então presidente do FED (Federal Reserve – Banco Central dos Estados Unidos), Ben Bernanke, em 2013.

A Treasury devolveu todo o movimento de pânico observado nos meses seguintes ao anúncio do Bernanke. Os preços praticados hoje refletem uma expectativa irreal de que a Federal Funds Rate (taxa básica de juros norte-americana) não vai subir esse ano e nem no ano que vem.

O mercado está claramente subestimando a velocidade com que o FED possa elevar a taxa básica de juros. A reversão desta expectativa extremamente otimista do mercado, provada pela aproximação do aperto monetário nos Estados Unidos, tem potencial de provocar uma nova onda de pânico nas praças financeiras mundias.

Quanto mais a Treasury ceder, maior será a dificuldade para o FED e demais banqueiros centrais mundiais (principalmente de países emergentes) administrar choques de mercado.

Nos meses que sucederam o anúncio do Bernanke em 2013, o Banco Central brasileiro fazia o possível para frear a fuga de capitais (em versão “light”) com ritmos de aperto de 0,50 p.p. Mas a taxa Selic só chegou aos dois dígitos no final de 2013, e ainda assim não fez muito efeito. O alívio no mercado da dívida soberana brasileira só veio no mês de fevereiro de 2014, quando a taxa Selic saltou para 10,75% ao ano.

Hoje a taxa Selic está em 12,25% ao ano e o Banco Central começa fazer contas para encontrar um patamar suficientemente elevado para frear/suavizar uma possível nova fuga de capitais, fruto da complexidade em torno da normalização das condições monetárias nos dois principais polos financeiros mundiais.

Importante destacar o fato de a política fiscal estar se deslocando na mesma direção da política monetária, fato que não ocorria no passado. Ponto para nova equipe econômica, que tem objetivo de retomar a confiança de investidores e empresários. A definição de rumo, transparência de ações e planejamento de médio prazo são outros fatores relevantes para que os agentes saibam as condições gerais do País para poderem assumir riscos.

No mercado de capitais o índice Bovespa mostrou novamente reação ao aproximar-se da linha de suporte dos 47.3k. No curtíssimo prazo, mercado permanece travado dentro de uma zona de congestão entre 46k a 51k.


Nos Estados Unidos o índice Dow Jones fechou o pregão em leva alta, sem apresentar novidades. Mercado também trabalhando dentro de uma zona de congestão entre 17k a 18.1k.


segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

Golaço do Levy


Em conversa a jornalistas na semana passada, o ministro Joaquim Levy usou o futebol para fazer uma analogia às mudanças a serem implementadas pela Fazenda durante o segundo mandato da presidente Dilma Rousseff.

Levy afirmou que vai acertar o jogo no segundo tempo para sair do zero a zero e começar a fazer gol. Algumas medidas anunciadas anteriormente, tais como mudanças nos benefícios sociais, elevação das taxas de juros subsidiadas pelo BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) e aumento do IPI para automóveis sinalizavam que o jeito de jogar (ainda utilizando a analogia do ministro) é realmente diferente daquele time “perna de pau” do passado.

O segundo tempo começou com pressão total do time de Levy. O goleiro do “time rival” já havia defendido uma cobrança de falta do ministro do Planejamento. Nelson Barbosa realizou uma cobrança precipitada, favorecendo a defesa do goleiro.

Mas a pressão continuou e nesta segunda-feira Joaquim Levy conseguiu marcar seu primeiro gol. E foi um golaço. O ministro da Fazenda anunciou hoje que vai restabelecer a alíquota de IOF (Imposto sobre Operações Financeiras) em operações de crédito para pessoas físicas com prazo de até 365 dias, elevando-a de 1,5% para 3%. Com essa medida, o governo espera arrecadar 7,38 bilhões de reais neste ano.

Além de aumentar a arrecadação, o governo vai corrigir (em parte) o grande desequilíbrio (entre oferta x demanda) criado pela gestão anterior focada no incentivo insustentável do consumo a qualquer custo. Haverá importante reflexo positivo na inflação, mostrando, na prática, que a política fiscal desloca-se na mesma direção da política monetária.

Levy também anunciou que vai subir o PIS/Cofins e a Cide sobre os combustíveis. O impacto será de 0,22 real/litro para a gasolina e de 0,15 real/litro para o diesel. A expectativa é arrecadar 12,18 bilhões de reais com o aumento da tributação sobre combustíveis.

A expressiva desvalorização do preço do barril de petróleo abriu espaço para elevação dos impostos sobre os combustíveis, sem que os preços sejam repassados às bombas. Há gordura de sobra para a Petrobras “bancar” este aumento de impostos (até mais, se for necessário) e ainda manter boa margem de lucro na revenda do combustível importado.

O ministro da Fazenda também anunciou a criação de um decreto para equiparar o setor atacadista e o industrial no IPI incidente sobre cosméticos. Segundo Levy, a medida apenas equaliza a tributação ao longo da cadeia de produção e distribuição desse setor. A medida deve criar arrecadação extra de 381 milhões de reais neste ano.

Nas importações, o ministro informou que está elevando o PIS/Cofins de 9,25% para 11,75%. O objetivo, segundo o ministro, é compensar a decisão do STF (Supremo Tribunal Federal) que excluiu o ICMS das importações. O aumento da alíquota tende a gerar arrecadação extra de 694 milhões neste ano.

O pacote com as quatro medidas fiscais deve elevar a arrecadação em 20,63 bilhões de reais em 2015. É mais uma importante atitude tomada no sentido de colocar as contas públicas em ordem e, por tabela, reconquistar a confiança dos agentes econômicos.

Totalizando tudo o que foi feito pelo time do Levy até agora (ou seja, levando em consideração outras medidas já anunciadas), houve uma melhora da ordem de 70 bilhões de reais no quadro fiscal, entre medidas para aumentar as receitas e cortar gastos.

Novas ações deverão ser tomadas nas próximas semanas/meses com objetivo de aumentar a cifra do parágrafo anterior. O novo ministro da Fazenda começou muito bem. Não só está mostrando comprometimento com o enorme desafio de arrumar a casa, mas também contribuindo com a sua parte para recuperação da credibilidade do governo entre investidores, consumidores e empresários.

Uma pena que o golaço do Levy foi ofuscado pelo apagão que atingiu pelo menos 10 Estados nas regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste, além do Distrito Federal, fato que alimenta temores de racionamento de energia este ano.

No mercado de capitais o índice Bovespa fechou o pregão em baixa de 2,57%, aproximando-se, novamente da região de suporte dos 47.3k, com risco não desprezível de rompimento. Mercado segue congestionado no curtíssimo prazo, sem apresentar novidades.


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