quarta-feira, 15 de outubro de 2014

Austeridade falhou na Europa


A recente intensificação das políticas de estímulos monetários por parte do BCE (Banco Central Europeu) não deixa dúvida de que as medidas de austeridade fiscal, impostas pela troika (comissão composta pelos líderes da União Europeia, Fundo Monetário Internacional e do próprio Banco Central Europeu), tanto para “reorganizar” (leia-se cortar) os orçamentos dos governos europeus, quanto para ajudar Países à beira do colapso, falharam na Europa.

Até pouco tempo atrás havia sensação de que o antídoto adotado pela troika estava realmente funcionado. Apesar das altas taxas de desemprego, as economias do bloco experimentaram redução do superávit primário e certa recuperação do crescimento, embora anêmica. No mercado financeiro, as fortes intervenções do BCE “resolveram” (adiaram) o problema da dívida soberana. Os governos voltaram respirar aliviados, podendo rolar dívidas a taxas de juros mais baixas. Mas tudo isso teve um preço: austeridade na veia.

A recente deterioração dos indicadores econômicos demonstra que os cortes orçamentários agressivos impostos pela troika impediram a recuperação econômica da zona do euro. De um crescimento anêmico condicionado à inflação extremamente baixa e elevadas taxas de desemprego, a Europa prepara-se para mergulhar numa nova recessão com a manutenção das preocupantes condicionantes inflacionárias e do mercado de trabalho. O novo quadro que se desenha na Europa é mais grave do que aquele constatado há cerca de três anos atrás e pode arrastar o bloco para uma década perdida.

Não é por acaso que se nota mudança radical no discurso do FMI (Fundo Monetário Internacional). De uma forte imposição a austeridade fiscal, a instituição, agora, recomenda o oposto: que os chefes de Estados passem a gastar mais. O BCE, que solidariamente tem feito esforço para estimular o crescimento, reclama que está fazendo um trabalho árduo e precisa da ajuda dos governos.

Acontece que não há margem de manobra para grande parte dos governos europeus. Os países que receberam ajuda estão ainda mais endividados e não podem fazer nada. Alguns possuem dívidas impagáveis, como é o caso da Grécia. Os países que experimentaram períodos de recessão ou baixas taxas de crescimento estão arrecadando menos e, portanto, seguem com as mãos atadas. Já os poucos países que degustaram taxas melhores de crescimento nos últimos anos e/ou apresentam folga no orçamento, como a Alemanha, não querem estender a mão amiga para o bloco.

Para complicar, os estímulos monetários adotados pelo BCE na Europa mostram-se menos eficazes do que os estímulos monetários implementados pelo FED (Federal Reserve) nos Estados Unidos. Isso ocorre devido a suspeita de que o rombo no sistema financeiro europeu é muito maior do que o rombo no sistema financeiro norte-americano, provocando menor repasse do crédito à economia.

Embora a atuação do BCE, juntamente com o retorno dos superávits primários, tenha tranquilizado o mercado nos últimos anos, permitindo, inclusive, renovação de máximas históricas em índices acionários e significativa redução dos prêmios de risco (alguns mais baixos do que o prêmio pago pelo título de 10 anos do Tesouro norte-americano, considerado, portanto, uma aberração), a combinação de bancos travados e governos de mãos atadas acabaram fortalecendo o problema criado pelas políticas de austeridade fiscal. Baixa arrecadação, desemprego de dois dígitos, inflação quase nula e recessão à vista. O que seria uma solução para a Europa está se tornando num problema ainda maior, agora difícil de resolver.

A troika foi muito afoita na imposição das duras medidas de austeridade e otimista demais na perspectiva de retomada do comércio global. A força e a rapidez com que as medidas foram tomadas inviabilizaram o processo de recuperação econômica. Já as exportações, que permitiram um respiro do bloco nos últimos dois anos (sendo a Alemanha, país com a melhor balança comercial do mundo, a grande beneficiada), minguaram. Bastou uma recaída no comércio internacional para a Europa render-se de joelhos no chão.

A falta de coordenação entre as políticas fiscal e monetária dentro da zona do euro (algo semelhante ao que ocorre no Brasil, mas de maneira invertida) também está brecando o crescimento e reduzindo as esperanças de uma solução definitiva para impedir o agravamento da crise no bloco europeu. Enquanto o BCE pisa no acelerador (medidas de estímulo), os governos pisam no freio (austeridade fiscal) sob pressão dos alemães, e ninguém se entende na união monetária.

Não restam dúvidas de que o BCE pisará com mais força no acelerador. O quadro se deteriorou rapidamente. Mas é necessário haver esforço coordenado na Europa para que a política monetária mais agressiva seja bem sucedida. Isso é, precisa ser respaldada pela flexibilização do orçamento na Alemanha, reformas na França e Itália e políticas fiscais menos austeras nos demais países.

Entretanto, líderes da zona do euro parecem longe de chegarem num entendimento. Os alemães detestam flexibilização fiscal e o partido da chanceler Angela Merkel não quer perder o apoio do povo. As reformas para desburocratizar a economia francesa e italiana, e flexibilizar as regras trabalhistas, são impopulares e só seriam tomadas em último caso. Já a redução da austeridade nos demais países é bastante limitada pela ausência de margem de manobra, além de ser um incentivo ao desagrado dos alemães.

Sem uma coordenação entre as políticas (fiscal e monetária) e melhor entendimento entre os chefes de Estado, a zona do euro poderá entrar num longo período de inflação muito baixa, desemprego elevado e crescimento medíocre.

Os indicadores europeus deterioram-se de tal forma que já se especula dentro do FED a possibilidade de prorrogar o aperto monetário previsto para meados de 2015. O continente europeu representa quase 1/3 da economia global e os impactos de uma estagnação do bloco afetaria inevitavelmente o mundo inteiro. Além disso, a significativa piora dos indicadores europeus provoca natural fuga de capitais para ativos mais seguros nos Estados Unidos.

Estes dois motivos citados no parágrafo anterior são responsáveis pela rápida (e impressionante) valorização da Treasury de 10 anos nos últimos dias.

Os rendimentos dos demais títulos da dívida soberana (incluindo de países emergentes, tal como o Brasil), não seguiram o movimento da Treasury, já que o clima de aversão ao risco toma conta das principais praças financeiras globais. O capital busca segurança/proteção que só o governo norte-americano pode oferecer através de sua moeda ou dos títulos de sua dívida soberana.

A taxa de juros da Treasury de 10 anos perdeu o patamar psicológico de 2%, atingindo a mínima de 1,86% na manhã desta quarta-feira, aproximando-se do nível que antecedeu o primeiro anúncio antecipado do tapering pelo então chair do FED, Ben Bernanke, no ano passado (responsável, na época, por provocar uma forte disparada dos juros, rumo aos 3%). No final do pregão, a valorização perdeu força e a Treasury fechou aos 2,15%.


O índice Dow Jones fechou em baixa pelo quinto pregão consecutivo. Atingiu a região dos 15.9k muito rapidamente nesta quarta-feira e conseguiu recuperar-se parcialmente na parte da tarde, mostrando alívio que pode ser estendido para os próximos pregões, devido à sobrevenda elevada. Os principais índices da bolsa de Nova York trabalham dentro da mais forte correção deste ano. Ambos perderam recentemente a média móvel simples de 200 períodos diária.


No Brasil o índice Bovespa caiu 3,24%. O doji de ontem, juntamente o forte candle de baixa de hoje, confirmou a formação do terceiro topo descendente da tendência de baixa iniciada na região dos 62.3k. Destaque para sequência de pavios longos superiores, revelando insistência da força vendedora na região dos 58.9k. 


Cabe ressaltar a importância de distinguir os efeitos provocados pela nova crise da zona do euro e a deterioração dos fundamentos econômicos brasileiros, especialmente nos últimos quatro anos. Logo no início do governo Dilma pode-se constatar as primeiras falhas na condução da política econômica. Além de não tomar ações para resolver os graves problemas estruturais, a insistência no modelo errático acelerou o processo de degradação da economia, aumentou as intervenções desastrosas do Estado, reduziu os níveis de confiança e dos investimentos e provocou o deslocamento da inflação para a margem de tolerância (6,5%), que parece ser a “nova meta” a ser perseguida pela desacreditada política monetária do Banco Central.

sexta-feira, 10 de outubro de 2014

Está difícil convencer os alemães


O FMI (Fundo Monetário Internacional), Estados Unidos e outros membros do G20 (grupo que representa as principais potências industriais e em desenvolvimento – 85% da produção econômica mundial) têm repetidamente convocado a Alemanha a usar seu espaço de manobra para elevar os gastos e sustentar o crescimento.

As cobranças surgiram com mais peso nas reuniões anuais do FMI e do Banco Mundial. Jack Lew, secretário do Tesouro norte-americano, pediu aos líderes mundiais com posições orçamentárias fortes a fazer mais pelo crescimento e sustentar a demanda global. Chefes de finanças do G20 também se reúnem nesta sexta-feira e estão preparados para pressionar os alemães.

As exportações, encomendas e produção da indústria alemã sofreram as maiores quedas desde o auge da crise financeira global, sinalizando possibilidade relevante de recessão, o que pode arrastar a zona do euro para a deflação, com o agravamento do quadro de baixas taxas crescimento e inflação.

Mas os alemães estão relutantes. A chanceler Angela Merkel disse a jornalistas que a demanda interna no País ainda é forte e que, no geral, a Alemanha está em boa condição. O ministro das Finanças, Wolfgang Schauble, afirmou que seria loucura colocar em risco o saneamento das finanças públicas com políticas de estímulo que, de qualquer forma, não forneceriam grande coisa, na sua avaliação. O presidente do Banco Central, Jens Weidmann, considerou que os investimentos públicos alemães podem aumentar, mas alertou contra a tentação de abandonar o objetivo de equilíbrio orçamentário.

Sem a ajuda dos alemães, pouco pode ser feito de imediato para impulsionar o crescimento na região, já que outros governos da zona do euro estão paralisados por excessivas dívidas e déficits fiscais. Nesta sexta-feira, a agência de classificação de risco Standard & Poor's reduziu a perspectiva do rating da França, de estável para negativa, citando diminuição do espaço fiscal do governo diante das limitações da economia. Diante deste cenário, novamente o BCE (Banco Central Europeu) será pressionado a criar mais medidas de estímulos monetários na tentativa de reverter a trajetória de deterioração dos indicadores econômicos na zona do euro.

No mercado de capitais, os principais índices acionários fecharam a semana em baixa. Quedas relevantes na Europa e nos Estados Unidos. O índice S&P500 encostou na média móvel simples de 200 períodos diária mostrando candle de força relevante, o que aumenta a possibilidade de rompimento. Desde meados de 2012 o índice não tocava nesta referida média.


A bolsa do México devolveu quase todos os ganhos acumulados no rali dos meses anteriores, voltando a se aproximar da média móvel simples de 200 períodos semanal, principal ponto de apoio dos últimos dois anos.


No Brasil, o índice Bovespa despencou 3,42% nesta sexta-feira, mas ainda assim conseguiu fechar a semana em leve alta, devido à euforia constatada no início desta semana frente aos resultados do primeiro turno. Entretanto, o pavio longo do candle semanal, mostrando resistência da média móvel simples de 200 períodos, corrobora para manutenção da pressão vendedora nas próximas semanas.


Destaque para o debate entre Armínio Fraga e o ministro da Fazenda, Guido Mantega, exibido na GloboNews nesta última quinta-feira. Aos que ainda não assistiram, segue o link do vídeo.
  
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