quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

Parcimônia é para quem pode


A presença da palavra “parcimônia” na comunicação de política monetária do Banco Central brasileiro mexeu com o mercado financeiro nacional e levantou duras críticas de economistas e analistas.

O mercado esperava um tom mais agressivo no comunicado, fazendo jus à intensificação do ritmo de aperto monetário (de 0,25 p.p. para 0,50 p.p.). Mas aconteceu o oposto. O texto mostrou que Banco Central será mais cauteloso no ano que vem, apresentando sinais de pretensão de redução do atual ritmo de aperto monetário para 0,25 p.p. A parcimônia do Banco Central brasileiro frustrou o mercado, que descontou sua ira nos preços dos ativos, principalmente na curva de juros futuros.

Na tarde desta quarta-feira o FED (Federal Reserve – Banco Central dos Estados Unidos) alterou um importante trecho em seu comunicado de política monetária. Tal como a autoridade monetária brasileira, o FED também está mais "parcimonioso".

A famosa expressão “tempo considerável” (ou “horizonte relevante”), utilizada para caracterizar por quanto tempo o FED pretende esperar para elevar a taxa básica de juros após o fim dos programas de estímulos monetários, foi eliminada do comunicado. Agora, o Banco Central norte-americano afirma que vai adotar uma postura "paciente" para decidir quando elevar os juros.

Este é o primeiro e importante passo de mudança direcional da política monetária. Tem a função de antecipar (e se possível preparar) ao mercado a possibilidade considerável de elevação da Federal Funds Rate (taxa básica de juros) em meados de 2015.

Por outro lado (como de costume nos comunicados do FED), a autoridade monetária norte-americana frisou no comunicado que a nova orientação de política é consistente com a versão anterior, de que provavelmente será apropriado manter a Federal Funds Rate entre zero e 0,25% por um tempo considerável após o programa de compra de ativos encerrado em outubro deste ano.

Ou seja, o FED abandonou o termo “tempo considerável” na sua orientação de política monetária, mas a expressão voltou aparecer no parágrafo seguinte, embora sob outra ótica. Essa é uma estratégia utilizada possivelmente na tentativa de conter os ânimos dos investidores, em meio a aflição constatada nos últimos dias.

O FED não só antecipa a possibilidade relevante de elevação da taxa básica de juros, mas também garante tempo para que os players de mercado possam fazer realocação de portfólio nos próximos meses, sem pressa. É um ponto crucial para evitar volatilidade excessiva no mercado e, consequentemente, exigir atuação dos banqueiros centrais.

A garantia do tempo vendida pelo FED pode estar respaldada na perspectiva de inflação abaixo da meta de 2% no ano que vem, estimulada pela recente correção nos preços das commodities. A mediana das projeções dos membros do Comitê de Política Monetária do Banco Central dos Estados Unidos aponta para inflação entre 1% a 1,6% em 2015, de 1,7% a 2% em 2016 e de 1,8% a 2% em 2017.

A mediana das estimativas para a taxa de desemprego está entre 5,2% a 5,3% em 2015, inferior ao prognóstico anterior de 5,4% a 5,6%. Para 2016 a estimativa é de 5% a 5,2% e para 2017 a projeção está entre 4,9% a 5,3%. Já com relação ao PIB (Produto Interno Bruto) de 2015, a perspectiva está entre 2,6% a 3%. Para 2016, entre 2,5% a 3% e para 2017 entre 2,3% e 2,5%.

No que se refere à Federal Funds Rate, a mediana das projeções dos membros do Comitê recuou para 1,125% ao final de 2015. Em setembro deste ano a previsão era de juros em 1,375% no encerramento de 2015. Para o fim de 2016, a estimativa é de 2,5% e para o final de 2017, de 3,625%.

As projeções menos otimistas dos membros do FED para a taxa de inflação e taxa de juros tendem a acalmar os fluxos intensos no mercado e corroboram com o fator tempo.

Além disso, o Banco Central norte-americano segue afirmando seu objetivo de criar condições para o máximo emprego e inflação de 2%. Consequentemente, esses indicadores econômicos continuarão sendo guias relevantes no processo de tomada de decisão no futuro. Caso os números mostrem avanço mais rápido em direção às metas de emprego e inflação, a Federal Funds Rate deverá subir mais rápido do que o esperado. Da mesma forma, se os números mostrarem progressos mais lentos em direção às metas de emprego e inflação, a Federal Funds Rate deverá subir mais tarde do que o esperado.

Em uma entrevista coletiva concedida à imprensa logo após o término da reunião de política monetária, a chair do FED, Janet Yellen, definiu aos repórteres que a nova palavra "paciente", utilizada no comunicado do Banco Central, pode ser traduzida em "pelo menos duas reuniões". Isso significa que o FED, muito provavelmente, não iniciará o ciclo de aperto monetário até o mês de abril do próximo ano, quando ocorrerá o terceiro encontro. Posteriormente, Yellen reforçou que “isso não aponta para nenhum tempo pré-marcado ou pré-determinado”.

Quando o ciclo de aperto monetário começar, a presidente do FED antecipou que a autoridade monetária não vai repetir o padrão adotado na década passada, em ritmo de 0,25 p.p. a cada reunião. Yellen disse que o Banco Central vai elevar o juro num ritmo que será “determinado pela evolução dos indicadores”.

A paciência do FED expressa no comunicado está alinhada à parcimônia do Banco Central brasileiro. Mas existe uma grande diferença de cenário entre os dois. O FED pode ser paciente para subir os juros, pois a taxa de inflação segue abaixo da meta e as projeções recuaram para o ano que vem. Já o Banco Central brasileiro quer enfrentar com parcimônia a inflação persistentemente elevada, sem que as projeções apontem cumprimento da meta de 4,5% em nenhum momento até o terceiro trimestre de 2016.

No mercado de capitais o índice Bovespa fechou o pregão em forte alta de 3,63%, impulsionado pelo movimento de alívio constatado nas principais praças financeiras mundiais. O choque de juros provocado pelo Banco Central da Rússia começa a emitir sinais positivos ao impedir a continuação da expressiva desvalorização do rublo frente ao dólar, fato que respingou nas moedas e títulos da dívida soberana dos demais mercados emergentes.

O movimento de hoje na bolsa brasileira confirma fundo, a princípio temporário, na região dos 45.8k. O respiro pode ganhar força caso a região dos 48.7k (antigo suporte, atual ponto de pullback/resistência) seja retomada nos próximos pregões.


Nos Estados Unidos o índice Dow Jones marcou fundo levemente acima da média móvel simples de 200 períodos diária, impulsionado pelo resultado da reunião do FED.

sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

Tempo considerável está com tempo esgotado


A famosa expressão “tempo considerável” (ou “horizonte relevante”), utilizada para caracterizar por quanto tempo o FED (Federal Reserve - Banco Central dos Estados Unidos) pretende esperar para elevar a taxa básica de juros após o fim dos programas de estímulos monetários, pode estar com seu tempo esgotado nos comunicados da autoridade monetária norte-americana.

Predominante em quase todo o ano de 2014, a expressão adotada pelo FED tornou-se o principal driver dos mercados no mundo inteiro. Juntas, essas duas palavras reabriram portas para o fluxo de capital aproveitar, temporariamente, retornos atrativos em ativos de risco até mesmo em praças financeiras que não possuem grau de investimento.

A contínua melhora dos indicadores econômicos norte-americanos é a principal sinalização de que o FED precisará abandonar o “tempo considerável” e adotar uma nova expressão para preparar o mercado, com a devida cautela, às importantes mudanças de política monetária que deverão surgir em 2015.

Mas o fato de os indicadores econômicos estarem se deslocando em velocidade considerável à meta informal do FED (principalmente no que se refere ao mercado de trabalho) acaba camuflando, ou jogando para segundo plano, as atenções do mercado (mas não do Banco Central norte-americano) em dois pontos importantes.

O primeiro deles é o rali do dólar contra as demais moedas globais. Grande parte da significativa valorização deste ano foi provocada pela reabertura de mercado para o dólar norte-americano se aventurar em “playgrounds distantes”.


O gráfico acima mostra a dimensão deste movimento. Com o sistema norte-americano operando em elevada liquidez (fruto dos programas de estímulos monetários), o dólar transbordou para todos os cantos do planeta.

Esse transbordamento foi importante para manter a inflação abaixo da meta nos Estados Unidos, enquanto o FED despejava novos dólares no sistema. Indiscutivelmente o programa funcionou. A primeira fase eliminou o risco de uma catástrofe financeira. A segunda fase construiu a base de sustentação para a economia sair do buraco. A terceira fase recolocou parte dos desempregados no mercado de trabalho. Tudo isso com a inflação sempre abaixo da meta, um feito histórico.

Mas economia nunca foi uma ciência perfeita. Enquanto se resolve um problema, cria-se outro. O próximo passo do FED é impedir que o transbordamento de dólares atrapalhe o processo de retomada do crescimento. A maior economia do mundo não quer perder competitividade com uma moeda muito mais forte que as demais.

Para isso, o FED precisa chamar parte desses dólares transbordados de volta aos Estados Unidos. Esse processo poderá suavizar o rali, ou mesmo estabelecer um ponto de equilíbrio frente às principais moedas globais, garantindo a competitividade da indústria norte-americana. Tarefa relativamente simples. Uma singela mudança de expressão no comunicado será suficiente.

O desembarque de dólares no sistema financeiro norte-americano contribuirá, inevitavelmente, para aumentar as pressões inflacionárias domésticas. Esse é o segundo ponto importante que também está relativamente camuflado das atenções do mercado. O FED precisa da inflação para subir os juros. As duas juntas (inflação e juros) serão as primeiras ferramentas que iniciarão o processo de desalavancagem do sistema, ainda que de forma bastante tímida, mas importante para uma fase de “testes” e avaliação de comportamento do mercado.

Com o retorno da inflação e a subida gradual da taxa básica de juros fazendo o processo inicial de desalavancagem do sistema, o FED tentará conduzir os juros futuros para uma nova trajetória (ascendente) de forma menos traumática possível.


No gráfico acima podemos notar que a taxa de juros do título de 10 anos do Tesouro norte-americano trabalha próxima da mínima do ano, bem distante do objetivo projetado para a Federal Funds Rate (taxa básica de juros) nos próximos três anos.

Para se aproximar do objetivo da Federal Funds Rate, a taxa de juros do título de 10 anos do Tesouro norte-americano precisa superar com folga o patamar de 3% ao ano. É um caminho longo, onde o FED tentará conduzi-lo de forma mais gradual possível.

Com a economia mostrando sinais de que estará forte o suficiente para aguentar as mudanças relevantes de política monetária nos próximos anos, os membros do Comitê de Política Monetária do FED se reunirão na próxima semana para dar a primeira sinalização ao mercado de que o “tempo considerável” está com tempo esgotado.

Adiar esta importante sinalização pode não ser uma boa ideia, já que a reunião da semana que vem será acompanhada por uma coletiva à impressa concedida pela chair do FED, Janet Yellen. A entrevista de Yellen será importante para reforçar o conteúdo do comunicado e, ao mesmo tempo, tranquilizar o mercado.

O FED não tem outra coletiva marcada até março do ano que vem. Alterar pontos delicados no comunicado, sem o respaldo de uma entrevista coletiva da presidente da instituição, é arriscado demais. O mercado, estressado, pode se precipitar demais ou não captar corretamente a mensagem transmitida pela autoridade monetária.

A reunião de dezembro é uma janela de oportunidade para o FED. Adiar essa importante sinalização para o final do primeiro trimestre de 2015 significa comprar um tempo considerável que os Estados Unidos não tem. O dólar está em rali. A inflação está pronta pra pisar no acelerador. Os juros futuros estão desconectados da política monetária e as bolsas sobrevalorizadas podem formar bolhas. A autoridade monetária precisa agir, pois, agora, o fator tempo joga no outro time.

No Brasil, a ata do Banco Central confirmou nesta semana a pretensão de redução do ritmo de aperto monetário, de 0,50 p.p. para 0,25 p.p., na próxima reunião do Copom a ser realizada no mês de janeiro.

As projeções para inflação realizadas no cenário de referência com dólar a R$ 2,55 e taxa Selic em 11,25%, na última reunião do Copom apontaram para inflação acima da meta em todo o horizonte de projeções (que vai até o terceiro trimestre de 2016). Destaque para antecipação do Banco Central ao afirmar na ata que a inflação permanecerá elevada em 2015. A trajetória de conversão para a meta é mais visível apenas em 2016, o que não deixa de ser algo preocupante.

O dólar x real segue trabalhando dentro da tendência de alta, com aceleração do movimento nos últimos dias. Os juros futuros já devolveram boa parte do movimento corretivo que se iniciou no começo do mês de novembro, buscando retomar as máximas de 2014.

A bolsa de valores permanece em tendência de queda iniciada na região dos 62.3k. A perda do suporte dos 48.7k provocará o acionamento de um grande pivot de baixa, aumentando a força da tendência predominante.


A bolsa de Bombay, na Índia, também segue trabalhando dentro de um movimento corretivo, iniciado no começo deste mês, após renovar máxima história na região dos 28.8k.


Tal como ocorre no Brasil, a correção no mercado mexicano está mais avançada. A bolsa do México perdeu a importante região de sustentação dos 253 pontos, fragilizada pela perda da média móvel simples de 200 períodos diária, fato responsável por acelerar o movimento corretivo.


A bolsa de Xangai, na China, é um caso isolado devido às mudanças relevantes na legislação doméstica. O governo chinês abriu a bolsa de Xangai para investidores estrangeiros e também permitiu que investidores de Hong Kong possam operar na bolsa de Xangai e vice-versa. As mudanças provocaram uma corrida para compras sem precedentes em Xangai. O principal índice de ações subiu cerca de 50% desde a mínima registrada no mês de junho deste ano.


No Japão, o principal índice da bolsa de Tóquio iniciou movimento corretivo esta semana, após renovar a máxima do ano.
  
  
Os principais índices acionários na Europa também voltaram a mostrar pressão vendedora. Na Alemanha, o índice DAX tende se sustentar acima da LTA dos 8.3k.


Na Inglaterra, a bolsa de Londres acelerou o movimento corretivo esta semana após perder a média móvel simples de 200 períodos diária.


Além das pressões externas, dos graves problemas econômicos internos e da briga contra os russos, a União Europeia volta a ser ameaçada pela velha e conhecida Grécia. O Parlamento grego vai fazer uma votação para escolher um novo presidente já na próxima semana (17 de dezembro), dois meses antes do previsto.

Se não conseguir eleger um novo presidente para substituir Karolos Papoulias, o Parlamento será dissolvido e, consequentemente, iniciará o processo para a realização de novas eleições gerais. Isso abriria espaço para o partido radical de esquerda Syriza (que por sinal está cada vez mais forte) chegar ao poder. A principal proposta do Syriza é acabar com o programa de austeridade e as reformas necessárias para o País receber os resgates parcelados da União Europeia e FMI (Fundo Monetário Internacional).

Nos Estados Unidos, os principais índices acionários iniciaram movimento de correção após renovar a máxima histórica no começo desta semana. O primeiro ponto de apoio no índice Dow Jones está localizado na região dos 17.3k.


Bom final de semana a todos!
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