segunda-feira, 18 de setembro de 2017

Janela aberta para o FED defender sua moeda


Janet Yellen, presidente do FED (Federal Reserve – Banco Central dos Estados Unidos), assistiu de camarote o encontro anual de banqueiros centrais mundiais realizado no mês passado em Jackson Hole. A estratégia, naquele momento, era pressionar Mario Draghi, presidente do BCE (Banco Central Europeu), a sair da acomodação excessivamente dovish de seu programa de compras mensais.

O FED estava literalmente incomodado em antecipar qualquer novidade relacionada ao seu programa de normalização monetária, já que o BCE estava se locomovendo em rota agressivamente dovish, impactando fluxos financeiros e preços dos ativos, principalmente no mercado de bonds e de moedas.

Agora, esse incômodo não existe mais. O BCE já sinalizou que vai encarar o mercado em sua próxima reunião de Comitê e anunciar o cronograma para redução do volume de compras mensais de ativos. Quase que imediatamente, o BoE (Bank of England) passou a mostrar possibilidade de aumento da taxa básica de juros nos próximos meses.

A pausa no viés extremamente dovish das duas principais autoridades monetárias na Europa criou uma janela de oportunidade para o FED deixar de ser tão cauteloso quanto nos bimestres anteriores e voltar a engrossar sua voz no mercado.

Para se livrar da exagerada fantasia dovish, o FED precisa apenas anunciar os detalhes do seu plano de desalavancagem financeira. Por mais que a desalavancagem desta fase inicial comece num volume muito pequeno (inexpressivo) e num ritmo muito gradual, o simples fato de dar o pontapé, com o comunicado adequado, será um importante driver para acertar os preços dos ativos esticados demais no curto prazo.

O dólar contra cesta de moedas globais é o grande alvo a ser perseguido. A significativa derrocada da moeda norte-americana neste ano criou efeito cascata de busca por oportunidades em ativos de risco em várias praças financeiras mundiais. O capital tem circulado em plena euforia nos mercados globais, retroalimentando o clima extremamente otimista.

O FED, obviamente, não está preocupado com o elástico esticado (ao menos no curto prazo) em alguns ativos de praças financeiras de economias desenvolvidas e emergentes. A preocupação é com o nível baixo da moeda norte-americana e seus impactos sobre a inflação, confiança e trajetória de crescimento.

O ponto técnico da moeda norte-americana também é propício para aumentar a eficácia de uma possível atuação de defesa do FED. O dólar contra cesta de principais moedas globais acaba de perder a principal sustentação de médio prazo, localizada no ponto de apoio de 2015 e 2016, na mesma região da média móvel simples de 200 períodos semanal.


Um comunicado mais firme, diferente do tom extremamente dovish das últimas reuniões, poderia jorrar um pouco de receio ou medo no mercado de capitais, influenciando investidores, atualmente muito expostos aos ativos de risco, a procurarem proteção no dólar, inflando, portanto, a força compradora na moeda.

Na hipótese de ressurgimento de predominância da força compradora no dólar, um bear trap seria fatalmente armado, forçando investidores vendidos na moeda a desmontarem suas posições, o que só alimenta a força do potencial de upside.

Além disso, os rendimentos das Treasurys respaldam o espaço para a estratégia de defesa da moeda. O título do tesouro norte-americano com vencimento em 10 anos está pagando 2,23%, relativamente próximo da mínima de 2017 e muito distante do objetivo de longo prazo/taxa neutra para a Fed Funds Rate (hoje estimado em 3% ao ano). O rendimento, portanto, mostra excesso de expectativa do mercado com uma rota muito dovish que o FED não tem condições de perseguir nos próximos anos.


Até o presente momento, não somente os investidores e players no mercado de capitais, como os demais banqueiros centrais de países emergentes ou em desenvolvimento estão surfando a onda dovish do FED, BCE e BoE.

O Bank of Russia, por exemplo, assim como o Bacen, aproveita o bom momento para cortar ao máximo sua taxa básica de juros. Na semana passada, a autoridade monetária da Rússia cortou a taxa de juros de 9% para 8,5% e adiantou que esse movimento poderá se repetir durante os próximos dois trimestres.

Com o dólar até então vendido no mundo inteiro, as moedas locais, consequentemente, estão mais fortes. Esse quadro tem se sido altamente benigno para inflação, favorecendo recuo dos índices oficiais em vários países.

Para a infelicidade de banqueiros centrais (como o brasileiro) que surfam esse bom momento externo, a manutenção desse quadro benigno no câmbio ao longo dos próximos trimestres (ou do próximo ano) está cada vez mais difícil. Caso o instinto do FED se confirme, a defesa do dólar poderá influenciar efeito cascata em mudanças de estratégias de política monetária nos próximos trimestres.

segunda-feira, 11 de setembro de 2017

Buy, buy, buy!


Na corrida para descontar o atraso dos últimos anos, o Índice Bovespa segue trabalhando dentro de uma forte tendência principal de alta, iniciada aos 37,5k em janeiro de 2016. Nesta histórica segunda-feira, o antigo topo histórico, formado em 2008, foi enfim superado.

O rompimento da máxima histórica no Brasil em nada surpreende dentro de um contexto mais amplo, a nível global. Na verdade, nós estávamos (e ainda estamos) atrasados. O mercado brasileiro estava em dívida de upside, tanto na comparação com as praças desenvolvidas, quanto na comparação com as praças emergentes.

A recente melhora do cenário doméstico foi cantada aos quatro cantos do país como grande válvula de impulso para nossa superação da máxima histórica. O diagnóstico presente na mídia não parece o mais correto, até porque os fundamentos permanecem deteriorados. Esse descompasso, por sinal, é característica muito comum detectada em nascimentos de ciclos de bull market.

O mais recente driver responsável por empurrar preços de ativos para cima vem, mais uma vez, de um importante banqueiro central. Seguindo o tom de cautela adotado pelo FED (Federal Reserve – Banco Central dos Estados Unidos) nos últimos meses, o BCE (Banco Central Europeu) surpreendeu em sua última reunião de política monetária ao não detalhar um plano para a necessária redução de compras de ativos mensais.

Apesar de estar se preparando para reduzir seu programa de estímulos monetários, o BCE está mais preocupado, no momento, em acalmar os investidores, assim como tem feito o FED desde a era Bernanke. Ardo Hansson, membro do Conselho do BCE, reafirmou nesta segunda-feira que a estratégia da autoridade monetária é conscientizar o mercado de que o processo de normalização será muito gradual.

Uma decisão será tomada somente no próximo encontro de outubro, mas ela não será nada traumática. Muito pelo contrário, o processo de redução do volume mensal de compras será tão pequeno e demorado a ponto de não causar efeito prático no mercado.

Na verdade, poucos no mercado entendem que o processo já se iniciou. Em dezembro de 2016 o BCE decidiu agendar um corte 20 bilhões no seu volume de compras mensais a partir do mês de abril de 2017. Até então BCE continuou comprando 80 bilhões de euros no mercado. A partir do mês e abril, o BCE passou a comprar 60 bilhões de euros. O GAP de 3 meses criado entre a data de anúncio de corte e a data da efetivação foi suficiente para fazer os investidores se esquecerem ou deixarem de se preocupar com a redução no volume de compras mensal.

20 bilhões de euros a mais ou a menos não altera em absolutamente nada o atual quadro de excesso de liquidez no sistema. O BCE poderia até mesmo interromper integralmente a partir do próximo dia útil seu programa de compras mensais, atualmente em 60 bilhões de euros, que ainda assim não iria causar impacto do ponto de vista da liquidez no sistema.

Considerando apenas o atual programa de estímulo do BCE, foram mais de 2 trilhões de euros injetados no sistema através de compras de ativos. Reflexo do transbordamento de liquidez pode ser notado pela a emissão de eurobônus pelo Tajiquistão ou mesmo na nivelação dos prêmios dos títulos de alto risco denominados em euros com as super seguras Treasurys norte-americanas (isso nunca aconteceu antes).

Analistas do Bank of America Merrill Lynch calculam que os bancos centrais inundaram os mercados com mais de 14 trilhões de dólares em diversos programas de estímulos implementados em vários países desde o estouro da crise do subprime. É como se uma China fosse transformada em dinheiro e injetada no mercado.

A tática do BCE parece ser justamente a de reforçar o status de excesso de liquidez no sistema financeiro. Assim, aos poucos, conseguem convencer os investidores de que mesmo com uma redução gradual no volume de compras mensais, a política monetária permanecerá muito expansionista. Até porque, o capital que já foi injetado não será retirado do sistema tão cedo.

O tom mais dovish do BCE realinhou sua postura com o excesso de cautela do FED, juntamente com o BoE (Bank of England) e BoJ (Bank of Japan). Os mercados no mundo inteiro responderam com intensificação de ralis. As praças europeias, que até então operavam vendidas, descoladas do mundo, voltaram a trabalhar na ponta comprada.

O quadro é de euforia generalizada. S&P500 voltou para máxima histórica em uma forte arrancada, Nikkei mal realizou e já se sustentou no primeiro ponto de suporte (média móvel simples de 200 períodos diária), Bombay (Índia) voltou para máxima do mês, trabalhando reaproximação com a máxima histórica, os russos estão subindo sem parar, atropelando níveis de sobrecompra e o mercado turco opera praticamente na vertical, um foguete sobrecomprado desde o mês de abril.

São vários os casos de ralis impressionantes mundo afora. São vários os casos de sobrepreço em descompasso com os fundamentos domésticos. São vários os casos de bolhas em formação. Não é pra menos, boa parte dos 14 trilhões de dólares injetados pelos bancos centrais estão "passeando" no mercado de capitais.

A superação da máxima histórica no Índice Bovespa parece, portanto, apenas um reflexo tardio dos impactos dos programas de relaxamento quantitativo. Estamos acumulando um excelente desempenho desde janeiro de 2016, mas ainda pode ser pouco comparado ao nível de euforia global.


Superamos a primeira barreira na LTB do canal de baixa (círculo 1) e, agora, atropelamos a última resistência técnica do índice (círculo 2), ratificando, mais uma vez, o status de mercado bullish.