quarta-feira, 30 de julho de 2014

FED reconhece aceleração da inflação, mas não altera perspectiva para alta dos juros


A decisão de política monetária do FED (Federal Reserve – Banco Central dos Estados Unidos) não surpreendeu o mercado. A autoridade monetária reduziu novamente, em 10 bilhões de dólares, as compras mensais de ativos. De 35 bilhões para 25 bilhões de dólares, dando prosseguindo ao plano traçado no início deste ano.

Entretanto, houve melhora na avaliação dos indicadores de peso relevante em futuras decisões de política monetária (mas especificamente na segunda fase, onde entrará o ciclo de aperto monetário). Em comunicado após a reunião de Comitê, o FED citou melhora nas condições do mercado de trabalho e queda na taxa de desemprego, além de reconhecer o (importante) avanço da taxa de inflação.

Apesar das divergências de opiniões, os membros votantes do Comitê de política monetária chegaram a um consenso de que "a inflação se moveu para um pouco mais perto do objetivo de longo prazo do Comitê". Esta frase causou forte impacto no mercado de juros futuros norte-americano, levantando os rendimentos das dívidas soberanas de diversos países no mundo inteiro, pois sugere que o FED está prestando mais atenção aos riscos inflacionários, o que pode resultar numa antecipação do importante ciclo de aperto monetário.

Conforme podemos observar no gráfico abaixo, a Treasury de 10 anos (título público do Tesouro norte-americano) disparou para 2,57% nesta quarta-feira, formando fundo ascendente a ser monitorado de perto pelos participantes do mercado nos próximos dias/semanas.


O PIB (Produto Interno Bruto) de 4% do segundo trimestre divulgado hoje pelo governo norte-americano reforçou o debate no mercado sobre quando os juros devem subir.

Ainda neste mês, a presidente do FED, Janet Yellen, alertou que um aumento de juros poderia vir "mais cedo e ser mais rápido" que o esperado se o mercado de trabalho continuar a melhorar mais rápido do que o esperado.

Mas a cautela ainda parece predominar dentro do Banco Central dos Estados Unidos. O FED voltou a afirmar no documento divulgado após a reunião de Comitê que não tem pressa para aumentar os juros e que a política monetária expansionista é necessária. Isso significa que, por enquanto, o FED provavelmente vai manter as taxas de juros perto de zero por um "horizonte relevante" após o fim das compras de títulos.

Portanto, o impacto observado no mercado da dívida soberana pode ser fruto do efeito psicológico da notícia quente, pós-reunião de Comitê, do que uma mudança na precificação do timming do aperto monetário pelo mercado, já que o FED não alterou, em comunicado, sua perspectiva para tal.

O índice Dow Jones fechou o pregão em leve baixa de 0,19%, trabalhando mais um movimento corretivo de curtíssimo prazo, que, a princípio, não afeta a tendência de alta de curto, médio e longo prazo.


No Brasil o índice Bovespa fechou o pregão em baixa de 0,42%, trabalhando mais um movimento corretivo de curtíssimo prazo, que, também, a princípio, não afeta a tendência de alta iniciada na região dos 44.9k, mantendo avaliação de que o quadro técnico segue totalmente descolado do quadro macroeconômico.
  

Destaque para o surgimento de uma estratégia de reação mais dura e aberta do governo (o que não acontecia nos últimos meses/anos) frente às críticas que vem recebendo de determinados grupos que representam públicos de renda mais elevada. A grande repercussão do caso Santander pode ser considerada um triunfo para o “suposto” plano do governo de vincular o debate eleitoral aos interesses de determinadas camadas da população, o que de fato provocará uma grande divisão de interesses na sociedade, niveladas pelos supostos benefícios às diferentes classes sociais e não pela ampla necessidade de reformas e mudanças, desviando o debate para ataques/agressões verbais e abordagens de assuntos inúteis/improdutivos que não resultarão nas modificações necessárias que favoreceriam ao País inteiro.

sábado, 26 de julho de 2014

Quem não tem cão caça com gato


A ata do Copom (Comitê de Política Monetária) divulgada na última quinta-feira apresentou informações importantes ao horizonte de curto prazo, e possivelmente de médio prazo, para a política monetária brasileira.

Além disso, o Banco Central surpreendeu ao ser bem objetivo no texto. A autoridade monetária foi direto ao ponto, talvez para acabar com as especulações que estavam surgindo no mercado devido à aproximação das eleições presidenciais. O documento lembra a objetividade e clareamento das perspectivas de trabalho encontrada nas atas dos Bancos Centrais de países desenvolvidos.

A primeira informação relevante pode ser encontrada no parágrafo 31 da última ata do Copom. Todo o trecho abaixo foi acrescentado no documento: “O Copom avalia que pressões inflacionárias ora presentes na economia – a exemplo das decorrentes dos processos de realinhamentos de preços citados anteriormente e de ganhos salariais incompatíveis com ganhos de produtividade – tendem a arrefecer ou, até mesmo, a se esgotarem ao longo do horizonte relevante para a política monetária. Em prazos mais curtos, some-se a isso o deslocamento do hiato do produto para o campo desinflacionário. Ainda assim, o Comitê antecipa cenário que contempla inflação resistente nos próximos trimestres, mas, que, mantidas as condições monetárias – isto é, levando em conta estratégia que não contempla redução do instrumento de política monetária – tende a entrar em trajetória de convergência para a meta nos trimestres finais do horizonte de projeção.”

Em suma, os diretores do Banco Central deixaram bastante claro que não pretendem alterar a taxa básica de juros tão cedo. Este trecho importante foi colocado estrategicamente ao final do documento, onde são apresentados os principais fatores que serão levados em consideração nas próximas decisões de política monetária. Esta é a parte do documento onde costuma surgir pistas cruciais dos próximos passos do Banco Central.

Mas com a Selic inalterada, o que fazer para acordar a economia brasileira? A segunda opção mais viável seria permitir o deslocamento natural da taxa de câmbio (leia-se desvalorização do real frente ao dólar). Entretanto, este instrumento está sendo nitidamente utilizado para frear a inflação de curto prazo. Com a Selic e câmbio descartados, sobrou para as velhas conhecidas medidas macroprudenciais dar um respiro à economia doméstica.

O trecho apresentado no parágrafo 25 antecipou claramente a novidade que o Banco Central iria apresentar ao mercado nesta semana: “Importa destacar que, após anos em forte expansão – arrefecida com a introdução de medidas macroprudenciais em finais de 2010 – o mercado de crédito voltado ao consumo passou por uma moderação, de modo que, nos últimos trimestres observaram-se, de um lado, redução de exposição por parte de bancos, de outro, desalavancagem das famílias. No agregado, portanto, infere-se que os riscos no segmento de crédito ao consumo vêm sendo mitigados.”

No dia seguinte após a divulgação da ata, o Banco Central anunciou a redução no recolhimento de parte dos compulsórios e no requerimento de capital para risco de crédito ao varejo. Estas duas medidas tem potencial para injetar cerca de 45 bilhões de reais na economia, estimulando o mercado de crédito. Isto é, facilitar as condições para que os bancos voltem a emprestar mais e aumentar a alavancagem das famílias, que, de acordo com a avaliação da autoridade monetária, tem espaço para subir sem apresentar risco ao sistema financeiro.

De certa forma pode ser considerado uma contradição manter a taxa básica de juros inalterada (elevada) e, ao mesmo tempo, estimular a circulação de crédito na economia. Mas foi a única solução encontrada pelos diretores de política monetária. No fundo, o Banco Central quer mesmo estimular a economia e dar menos atenção ao combate efetivo à inflação. Entretanto, a manutenção da taxa Selic em 11% e taxa de câmbio na banda de R$ 2,20 a R$ 2,25 tem um poderoso objetivo de não permitir que as expectativas dos agentes sejam ainda mais deterioradas, fato que aumentaria a intensidade dos mecanismos de indexação, num ambiente de total descrença na política econômica, fiscal e monetária.

O esperado afrouxamento veio pelo canal macroprudencial. Tem impacto limitado, mas cumpre o objetivo de evitar um vexame ainda maior do que estávamos acostumados a observar nos últimos trimestres na economia brasileira. Talvez, o famoso provérbio “quem não tem cão caça com gato” possa resumir esta nova fase da política monetária brasileira.

No mercado de capitais os ativos seguem refletindo o excesso de otimismo constatado nas principais praças financeiras mundiais. Preços colados em máximas históricas/máximas do ano.

Com os juros futuros comportados em 2,50% nos Estados Unidos (o que significa juro real de 0,50%, levando em consideração o deslocamento da taxa de inflação à meta de 2% no próximo ano) e clareamento do calendário de política monetária do FED (Federal Reserve – Banco Central norte-americano), o capital segue “liberado” para se aventurar em posições de risco (evidentemente mais rentáveis) no mundo inteiro.

Destaque para o rali no mercado brasileiro. O índice Bovespa atingiu a importante média móvel simples de 200 períodos semanal. Desde o topo descendente registrado em 2012, responsável por intensificar o bear market na bolsa brasileira, os preços não conseguem se distanciar acima desta referida média. Trabalhou como um importante divisor de águas nos últimos anos.


O mercado está caro, mas permanece em tendência de alta, sem perspectiva de topo ou reversão.

Os preços salgados dos ativos poderiam justificar uma perspectiva de acerto de contas. Mas ao contrário do que o mercado imagina, isso não irá ocorrer em 2015, independente de quem vencer as eleições presidenciais, devido à elevada impopularidade das medidas requisitadas pelos economistas, consideradas holofotes dos investidores, empresários e participantes do mercado financeiro nacional.  Pode-se esperar pequenos ajustes pontuais (em maior ou menor intensidade, a depender do candidato vencedor), mas sem alterações bruscas na rota de percurso.
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