quarta-feira, 20 de agosto de 2014

Artilharia financeira


Influenciado ou não pela rápida ascensão da candidata à presidência da República Marina Silva, o governo federal abriu uma verdadeira artilharia financeira nesta quarta-feira, mostrando que tem bala na agulha para lutar pela popularidade. O último cartucho queimado, e de grande impacto, ocorreu no final do mês de agosto, quando a presidente Dilma anunciou em rede nacional reajuste do Bolsa Família e da tabela do Imposto de Renda.

Desta vez o governo federal anunciou uma série de medidas com certo potencial de impacto, supostamente na tentativa de se reaproximar de parte da população até então insatisfeita com seus representantes em Brasília.

O ministro da Fazenda, Guido Mantega, informou na tarde desta quarta-feira que o governo vai simplificar o procedimento de aquisição de imóveis por meio de financiamentos, concentrando na matrícula do imóvel todas as informações que possam resultar em ônus sobre o imóvel. A burocracia exagerada das operações de financiamentos será reduzida, a segurança jurídica será mantida e as certidões poderão ser emitidas num único cartório.

Mantega também anunciou estímulo às importantes, e pouco utilizadas no Brasil, operações de empréstimos que possuem o imóvel quitado como garantia. Conhecida no mundo como Home Equity, a operação é um refinanciamento imobiliário, que permite que o tomador com uma casa quitada dê o seu imóvel como garantia para tomar um crédito de uso geral.

Para estimular este tipo de operação, o governo permitirá que os bancos utilizem até 3% dos recursos da caderneta de poupança para lastrear estas operações de empréstimo. A taxa de juros deverá ficar mais baixa, barateando o custo do empréstimo. Segundo cálculos do próprio governo, a medida pode gerar cerca de 16 bilhões em novas operações de crédito. Nestas condições, o risco para o sistema financeiro é significativamente baixo, devido à garantia do imóvel quitado no contrato.

O governo também criará um novo título para captação de recursos no mercado com objetivo de incentivar o crédito imobiliário. A chamada Letra Imobiliária Garantida contará com isenção de Imposto de Renda acima de 2 anos e terá como garantia extra o patrimônio da instituição que tem carteira de financiamentos imobiliários. É um funding adicional às já conhecidas LCIs (Letras de Crédito Imobiliário) para atrair investidores estrangeiros.

Os estímulos não param por aí. O governo vai incentivar a utilização do crédito consignado para trabalhadores da iniciativa privada. Para isso, o ministro da Fazenda informou que vai aumentar a segurança jurídica da operação, permitindo que o tomador do empréstimo autorize a instituição financeira a debitar o valor da prestação simultaneamente ao crédito do salário na conta corrente.

A recuperação de bens financiados com alienação fiduciária também será facilitada. O comprador do bem móvel (bastante comum nas operações de financiamento de veículos, por exemplo) autorizará a recuperação expressa por parte da instituição financeira do bem financiado em caso de inadimplência sem burocracia. Isso significa que os bancos estão dispensados da obrigação de cobrança judicial em operações sem garantia de até 100 mil reais e operações com garantia de até 50 mil reais.

Tanto o crédito consignado, quanto o crédito imobiliário, é considerado pela autoridade monetária como “crédito bom”, devido à segurança jurídica, potencial de impacto limitado no sistema financeiro em casos de inadimplência e por possuírem taxas de juros mais baixas.

Ainda nesta quarta-feira o Banco Central anunciou novas medidas para estimular o mercado de crédito com potencial para injetar mais 25 bilhões de reais na economia brasileira. Somando com as medidas semelhantes adotadas pela autoridade monetária no final do mês passado, o Banco Central abriu espaço para que entrem cerca de 70 bilhões de reais no mercado de crédito.

Em comunicado, o Banco Central afirmou que “os ajustes consideram a fase atual do ciclo de crédito no Brasil e se inserem nos processos de revisão das medidas macroprudenciais adotadas a partir de 2010 e de continuidade da convergência da regulação brasileira aos parâmetros internacionais de Basileia.”

Os impactos que serão provocados por todas estas medidas não são irrelevantes. Não são medidas irresponsáveis do ponto de vista da liberação do crédito, pois há potencial de crescimento das operações de “crédito bom” e a boa solvência do sistema financeiro brasileiro comporta este crescimento. Será possível observar reação da economia nos próximos trimestres, sob intensidade ainda discutível, porém, melhor do que se pode constatar nos trimestres anteriores.

Entretanto, existem dois pontos negativos, que são, na verdade, velhos erros não reconhecidos pelo governo: criam-se novas pressões inflacionárias e aumenta-se a desigualdade do custo do capital. Uns pagam mais para obter crédito, outros pagam menos. Neste ritmo, cada vez mais haverá necessidade de aumentar a parcela dos que pagam menos.

No cenário externo, destaque para divulgação das atas de importantes banqueiros centrais mundiais. O FED (Federal Reserve – Banco Central dos Estados Unidos) destacou que a maioria dos membros de Comitê quer esperar mais informações sobre as trajetórias da atividade econômica, do mercado de trabalho, e inflação para alterar sua visão sobre quando começar a subir os juros, mas reconheceram que, se a convergência em direção aos objetivos do Comitê ocorrer num ritmo mais rápido do que o esperado, pode ser apropriado começar a remover a política monetária de sua posição acomodática mais cedo do que se antecipa atualmente. Não houve novidades relevantes.

Na Inglaterra, dois dos nove membros votantes do Comitê de Política Monetária do Banco Central inglês optaram inesperadamente pelo aperto da política monetária (de 0,50% para 0,75%) na última reunião, o que pode sinalizar aumento dos juros já no final deste ano.

Por fim, destaque para o movimento técnico relevante no Ibovespa, ao romper a máxima do ano, acionando mais um pivot de alta na tendência iniciada na região dos 44.9k.


sábado, 16 de agosto de 2014

Alívio nos preços do atacado nos Estados Unidos renova ânimo nos mercados emergentes


Dados do Departamento de Trabalho dos Estados Unidos surpreenderam os analistas nesta sexta-feira. A alta dos preços ao atacado desacelerou em julho, depois de um aumento relativamente expressivo no mês anterior. O índice de preços da produção aumentou apenas 0,1% em relação ao mês anterior, depois de uma alta de 0,4% em junho. O mercado esperava uma alta de pelo menos 0,2%.

O número veio menor do que o esperado e sinaliza interrupção momentânea no movimento de leve aceleração da inflação norte-americana constatado nos últimos meses. Este quadro corrobora para manutenção da postura cautelosa do FED (Federal Reserve – Banco Central norte-americano) antes de iniciar o ciclo de aperto monetário em meados de 2015.

A manutenção da inflação comportada, e abaixo da meta, nos Estados Unidos favorece o posicionamento de curto prazo dos investidores/operadores em ativos de risco nas praças emergentes, que por sinal estão aproveitando bem a janela de oportunidade criada pelo clareamento do calendário do FED.

Por este motivo pode-se observar sustentação do rali nos preços dos ativos em várias praças emergentes. O alívio nos preços do atacado nos Estados Unidos renovou o ânimo nos mercados emergentes, que voltaram a se aproximar de suas respectivas máximas do ano.

A bolsa de Bombay, na Índia, fechou a semana em forte alta, sinalizando interrupção do movimento corretivo de curtíssimo prazo que atingiu o mercado indiano nas duas semanas anteriores. Bolsa em pleno rali.


Na China, a bolsa de Xangai conseguiu invalidar a sinalização de possível reversão da semana anterior e voltou a subir forte. Índice em pleno rali, aproximando-se da LTB do canal de baixa de longo prazo, fato que não acontecia desde março de 2011. Movimento relevante.


A bolsa do México também subiu forte na semana, interrompendo o movimento corretivo de curtíssimo prazo constatado nas duas semanas anteriores. Mercado em tendência de alta, aproximando-se da máxima do ano.


No Brasil não poderia ser diferente. É importante insistir no ponto de que não há menor relação de desempenho do índice Bovespa com as especulações eleitorais, pois esta tese infundamentada é defendida quase que pela totalidade de analistas, economistas e participantes do mercado. Pode-se notar claramente que os mercados emergentes estão se movimentando em bloco, influenciados por um importantíssimo driver: a política monetária do Banco Central dos Estados Unidos.

O índice Bovespa subiu forte na semana, sustentando-se acima da importante linha de suporte localizada na região dos 55.3k e LTA dos 44.9k. Com este fechamento, o mercado voltou a se aproximar da máxima do ano, mantendo a tendência de alta de curto prazo.
  

Desejo a todos vocês um ótimo final de semana!
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