quarta-feira, 4 de março de 2015

Taxa Selic vai a 12,75% ao ano. Copom quer a meta


Lá se vai a economia brasileira. Ajuste fiscal e aperto monetário são mais uma parcela da pesada conta que estamos pagando pelos inúmeros erros cometidos nos últimos anos.

Não há solução milagrosa. O remédio é cada vez mais amargo, mas necessário. O Copom (Comitê de Política Monetária) decidiu nesta quarta-feira elevar novamente a taxa básica de juros em 0,50 p.p., para 12,75% ao ano, patamar mais elevado desde janeiro de 2009.

Superar a marca de 2009 mostra lamentável retrocesso no movimento de longo prazo de redução sustentada da taxa básica de juros, processo pelo qual foi iniciado no final da década de 1990.

Os diretores do Banco Central não tiveram escolha. O dólar subiu cerca de 15% desde a reunião de Comitê realizada no mês de janeiro, onde pretendia-se reduzir o atual ritmo de aperto monetário. O rali do dólar deixa os produtos e insumos importados cada vez mais caros, provocando impacto imediato na taxa de inflação, que segue persistentemente elevada, distante do centro da meta.

Passar aperto com a inflação doméstica não é nada agradável num ambiente externo deflacionário e/ou desinflacionário. É algo extremamente alarmante. O Copom não estaria determinado em buscar a meta de inflação (4,5% ao ano), num ambiente interno tão desfavorável ao crescimento no curto prazo, se a situação não fosse grave.

Lá fora, governos de economias com PIB positivo e/ou ascendente seguem preocupados com a deflação e/ou inflação muito baixa. Aqui dentro, o PIB é descendente (provavelmente negativo), enquanto a inflação é elevada e ascendente. Estamos atolados numa estagflação, cuja rota de saída é dolorosa: passa por juros altos (para conter a inflação) e aperto fiscal (para retomar a confiança, fator fundamental ao crescimento no médio prazo).

O Copom repetiu o comunicado de janeiro, (“avaliando o cenário macroeconômico e as perspectivas para a inflação, o Copom decidiu, por unanimidade, elevar a taxa Selic em 0,50 p.p., para 12,75% a.a., sem viés”), o que pode ser um indicativo de que o ciclo de aperto monetário não chegou ao fim.

Neste último final de semana, o mercado financeiro foi surpreendido por uma manobra de outro importante banqueiro central. O Banco Popular (Banco Central da China) reduziu em 0,25 p.p. a taxa de juros de referência no País, para 5,35% ao ano. A taxa de remuneração das reservas que os bancos depositam na instituição também caiu 0,25 p.p., para 2,5% ao ano.

Em novembro do ano passado, o Banco Popular cortou os juros pela primeira vez em mais de dois anos. No mês de janeiro deste ano, a autoridade monetária chinesa voltou a atuar, desta vez relaxando o compulsório (exigência de reserva de capital dos bancos no cofre do Banco Popular), liberando, portanto, mais recursos para os bancos emprestarem.

O novo corte na taxa de juros de referência realizado neste último sábado acelerou o ciclo de afrouxamento monetário na China. O Banco Popular citou uma possível onda de deflação como razão para iniciativa.

O fato de o Banco Central de um dos países que mais crescem no mundo temer a deflação não é algo que se possa desprezar. Demonstra sério problema causado pela demanda fraca (tanto no mercado doméstico, quanto no externo) e o persistente excesso de capacidade pressionando cada vez mais não só os fabricantes chineses, mas do mundo inteiro. São hematomas ainda visíveis causados pelo estouro da gravíssima crise de 2008 e que devem desaparecer gradualmente no médio e longo prazo, com aceleração do crescimento global.

Com o movimento deste último sábado, o Banco Popular entrou definitivamente para o grupo dos banqueiros centrais que utilizam ao máximo políticas de afrouxamento monetário, dentro de suas respectivas limitações, para combater a deflação e estimular o crescimento. A estratégia bem sucedida nos Estados Unidos e Inglaterra foi copiada pelo BoJ (Banco Central do Japão), posteriormente pelo BCE (Banco Central Europeu) e começa a ser implementada na China.

Entretanto, o afrouxamento monetário chinês é mais peculiar. O Banco Central não pode ser agressivo demais (ou utilizar outras ferramentas, como relaxamento quantitativo), caso contrário poderá agravar os já elevados níveis de endividamento das empresas e governos locais.

A limitada margem de manobra do Banco Popular é, em parte, contra atacada pelos projetos de infraestrutura do governo chinês (outra importante válvula estimuladora do crescimento). Ainda assim, mesmo com atuação coordenada entre governo e Banco Central, a China seguirá em processo de desaceleração do crescimento. O PIB (Produto Interno Bruto) de 2014 caiu para 7,4%, a menor taxa em quase 25 anos, e tende a recuar para algo em torno de 7% em 2015, que não será o fundo do poço. A desaceleração tende a persistir nos próximos anos.

Mais afrouxamento na China, mas liquidez global, mais carry trade para o Brasil (que vai a contragosto na contramão) continuar respirando dentro de sua própria armadilha.

Na agenda doméstica, o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia a Estatística) divulgou hoje seu indicador de produção da indústria brasileira, onde pode-se constatar alta de 2% em janeiro/2015 na comparação com dezembro/2014. O indicador do IBGE ficou em linha com a medição do Índice Gerente de Compras do mês de janeiro, calculado pelo Instituto Markit, em parceria com o banco HSBC.

Entretanto, o Índice Gerente de Compras do mês de fevereiro, divulgado no início desta semana, mostrou novo recuo da atividade industrial brasileira. O indicador saiu dos 50,7 pontos registrados no mês de janeiro para 49,6 pontos em fevereiro, voltando a mostrar contração da atividade manufatureira.

O novo escorregão da indústria é justificado pelo enfraquecimento do real. Os aumentos dos novos pedidos de exportação não compensaram as perdas com o enfraquecimento da demanda interna. Além disso, a escalada do dólar está cada vez mais pressionando para cima os preços dos insumos, aumentando os custos de produção.

No mercado financeiro doméstico o clima é bem diferente. O carry trade segue sustentando prêmio nulo na curva de juros futuros com vencimento em 2018 (levando em consideração a nova taxa Selic de 12,75%) e prêmio negativo com vencimento a partir de 2019.

A bolsa de valores cedeu nesta quarta-feira, mas ainda está relativamente longe da mínima registrada no pós-eleições em dezembro do ano passado. O tombo de hoje não invalida a tendência de alta de curto prazo, mas devolve os preços para dentro da antiga zona de congestão, o que pode sinalizar retorno à lateralização na ausência de um fundo ascendente nos próximos dias.


Nos Estados Unidos o índice Dow Jones fechou o pregão em baixa de 0,58%, num movimento natural de realização de lucros após superar a máxima histórica na semana passada.


sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

Esqueceram de ouvir a opinião do Sr. Mercado


Como de costume, as notícias negativas do quadro doméstico foram predominantes neste mês. Os novos assuntos que vieram à tona, como a derrota do governo na Câmara, substituição da diretoria da Petrobras, rebaixamento da Petrobras e greve dos caminhoneiros se juntaram aos velhos e conhecidos problemas nos déficits públicos, corrupção, inflação elevada, baixo crescimento, risco de racionamento de água e energia elétrica, juros altos, ambiente de negócios desfavorável, infraestrutura deficitária, excesso de burocracia, carga tributária elevada e baixo nível de educação.

Notícias volumosas e pesadas que permitiram a mídia “especializada” em mercado financeiro vender o sentimento de revolta, indignação e pessimismo aos seus leitores. Publico este, que por sinal, procura informações com objetivo de rentabilizar seu patrimônio. Não existe outro objetivo ao investidor/operador no mercado financeiro que não seja o de ganhar dinheiro, independente do cenário X ou Y.

Revolta, indignação, pessimismo (ou mesmo otimismo) são sentimentos que podem se manifestar em qualquer lugar, menos no mercado financeiro. Um bom negociador de ativos sabe que precisa filtrar, o tempo todo, as informações despejadas no mercado. Focar na evolução dos indicadores econômicos, nos movimentos dos Bancos Centrais, dos governos, dos ministros de Finanças/Economia/Fazenda e das principais instituições globais, para conseguir fazer a leitura correta do quadro macroeconômico e traçar perspectivas.

O filtro dos investidores/operadores passou por mais uma dura prova de teste neste mês de fevereiro. A mídia brasileira ouviu todo mundo, menos a opinião do “Sr. Mercado”. Análises e comentários rotineiramente errados e de elevada carga emocional, totalmente desconectados do ambiente de negócios do mercado financeiro.

O mercado financeiro brasileiro não é uma ilha fechada movida ao sentimento vendido pelos “jornais do bairro”. O mercado é aberto. O fluxo entre compradores e vendedores, que define os preços dos ativos, vem de todos os cantos do planeta. A decisão, portanto, de comprar ou vender determinado ativo não é fruto único e exclusivo do noticiário bairrista. É o resultado de um emaranhado de informações avaliadas de sob diversos pontos de vista entre investidores/operadores.

O ponto de vista que prevaleceu neste mês jogou os preços para cima, ao contrário do que sugeriam os “jornais do bairro”. Bolsa de valores em forte alta e baixo rendimento dos títulos soberanos são resultados de uma grande onda compradora que atingiu ativos de diferentes segmentos no nosso mercado.

O contrato de juros futuros com vencimento em 2018, por exemplo, encerrou o mês em 12,52% ao ano, o que significa prêmio nulo, levando em consideração que a taxa Selic subirá 0,25 p.p. na próxima reunião do Copom (Comitê de Política Monetária do Banco Central do Brasil) a ser realizada na semana que vem. Já o contrato de juros futuros com vencimento em 2019 encerrou o mês em 12,44%, o que representa prêmio negativo, levando em consideração a nova taxa Selic em 12,50% na semana que vem. A partir de 2019, todas as curvas de juros operam com prêmios negativos. A ausência de prêmio nos contratos de juros futuros revela como está o apetite do mercado.

O índice Bovespa fechou o mês de fevereiro com significativa valorização de 9,97%, registrando o maior ganho mensal desde janeiro de 2012. Esta é a terceira vez, nos últimos dois anos, que o mercado brasileiro reage ao aproximar-se da região de suporte dos 45k.


Destaque para nova medida de ajuste fiscal anunciada nesta sexta-feira. O governo reduziu a ineficiente desoneração da folha de pagamentos da lista de beneficiados criada na gestão do antigo ministro da Fazenda, que, por sua vez, não gerou impacto positivo na economia. Empresas que pagavam 1% do faturamento à Previdência Social passarão a recolher 2,5%. Empresas que pagavam 2% do faturamento à Previdência Social passarão a recolher 4,5%. As novas alíquotas serão válidas a partir de junho e as empresas beneficiadas poderão optar entre recolher o imposto sobre a folha de salários (como as demais não beneficiadas) ou pelo faturamento.

A medida é mais uma bela jogada do ministro Joaquim Levy, pois não só corrige parte das distorções causadas pelo intervencionismo ineficiente do passado, como aumenta o caixa do governo. Somente no ano passado o governo queimou mais de 21 bilhões de reais com as desonerações. É mais uma injeção fiscal que joga o País na rota do superávit primário de 1,2% do PIB (Produto Interno Bruto) em 2015. É mais uma reafirmação de autonomia da Fazenda, reafirmação de abandono das infrutíferas políticas anticíclicas predominantes no primeiro mandato da presidente Dilma Rousseff, reafirmação de apoio e comprometimento do governo federal com uma nova política econômica e, por fim, reafirmação da nossa atual classificação de risco (grau de investimento).

Aos poucos, o ministro da Fazenda vai derrubando teses daqueles que não prestaram atenção ou não confiaram no que foi revelado ano passado após as eleições. A casa está sendo parcialmente arrumada para que o País volte a crescer no médio prazo. Muito ainda precisa ser feito, mas felizmente entramos numa nova rota.

A onda compradora que atingiu o mês de fevereiro não foi uma particularidade do mercado brasileiro. Ativos de outras praças financeiras também experimentaram valorizações expressivas no mês, influenciados, sobretudo, pelas orientações/atuações de política monetária dos principais banqueiros centrais mundiais.

Wall Street segue bull. Os principais índices da bolsa de Nova York fecharam o mês em forte alta, renovando a máxima histórica.


O mesmo quadro pode ser constatado nos mercados europeus. Na Alemanha, o índice DAX fechou mais um mês em forte alta, apesar do elevado nível de sobrecompra, acelerando o rali.


O índice Nikkei, da bolsa de Tóquio, no Japão, disparou neste mês, rompendo a máxima registrada em 2007. Mercado segue numa forte tendência de alta, com boa perspectiva para superar a máxima histórica ainda este ano. Nikkei em bull market é mais um feito histórico.
  
  
O desempenho da bolsa de Xangai, na China, é, também, um feito histórico. O mercado fechou o mês em forte alta, recuperando as perdas registradas no mês anterior, mostrando a força do rali iniciado no final do ano passado.


Na Índia, a bolsa de Bombay fechou o mês em leve alta, mostrando forte recuperação na última semana. Apesar do elevado nível de sobrecompra, não houve surgimento de força vendedora suficientemente necessária para forçar o mercado trabalhar uma correção natural desde o rompimento da máxima histórica, na virada de 2013 para 2014.


A bolsa do México também disparou no mês de fevereiro, após registrar três meses consecutivos de perdas relevantes. O movimento de recuperação marcou fundo na região dos 240 pontos.


Bom final de semana!
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