quinta-feira, 27 de novembro de 2014

Música aos ouvidos do mercado


O comunicado emitido pelo Palácio do Planalto na tarde desta quinta-feira confirmou a equipe econômica amplamente especulada pelo mercado na semana passada. Joaquim Levy vai assumir o Ministério da Fazenda. Nelson Barbosa comandará o Ministério do Planejamento. Alexandre Tombini permanecerá à frente do Banco Central.

Tão importante quanto à confirmação dos nomes foi a primeira entrevista coletiva da nova equipe econômica. Levy foi muito inteligente ao anunciar, sem a menor cerimônia, que o governo perseguirá em 2015 uma meta de superávit primário de 1,2% do PIB (Produto Interno Bruto). A partir de 2016, a meta não será menor do que 2% do PIB. Ponto.

Esses números são a música que o mercado quer ouvir, pois revelam um resultado possível de ser alcançado. Não é tão (desnecessariamente) forte, e nem tão (ineficientemente) fraco. É um número “pé no chão” diante do quadro macroeconômico e da postura do governo. É um número que oferece, também, todas as condições para sustentar o grau de investimento da nota de crédito brasileira, já que apresenta condições para que, dentro do planejamento de Levy, provoque o declínio da relação dívida/PIB.

Além do superávit primário, o novo ministro da Fazenda listou outras prioridades: compromisso com a transparência, divulgação de dados tempestivos, abrangentes e detalhados das contas fiscais, redução da incerteza em relação ao setor público (em outras palavras, retomada da confiança dos empresários e consumidores, ponto extremamente relevante) e aumentar a taxa de poupança interna (neste último, ressaltando, ainda, que empresas e famílias sigam o mesmo caminho do governo).

Barbosa afirmou que trabalhará em conjunto com os demais membros da equipe econômica para fomentar o crescimento da economia, com controle rigoroso da inflação, estabilidade fiscal e geração de emprego. O novo ministro do Planejamento disse também que vai avaliar custos e benefícios de diversos programas do governo.

Já o presidente do Banco Central, Alexandre Tombini, foi muito duro com a inflação. Mostrou que a autoridade monetária está empenhada em provocar o recuo da inflação para o centro da meta no horizonte relevante (leia-se início de 2016). Destacou corretamente também o trabalho de elevada regulação do sistema financeiro nacional, o que de fato rende elogios ao Banco Central brasileiro no mundo inteiro.

Outro destaque importante está na sinalização direcional da política fiscal e monetária. Tombini afirmou que o fortalecimento da política fiscal por meio de um processo crível de consolidação de receitas e despesas facilitará a convergência da inflação para o centro da meta. Diferente do que acontecia no passado, as duas políticas tendem se deslocar na mesma direção daqui pra frente.

Em nenhum momento durante a entrevista dos três ministros houve indicação de manutenção da política anticíclica feita no primeiro mandato do governo Dilma. Este é outro fator de extrema relevância. A política econômica (espinha dorsal de todos os problemas dos últimos anos) vai mudar.

O primeiro passo desta mudança será o processo de reversão das inúmeras e incompreensíveis desonerações tributárias. O simples fato de acabar, gradualmente, com as desonerações, provocará aumento imediato na arrecadação do governo e amenizará o ambiente pesado no setor empresarial. Somente nos 10 meses deste ano, as desonerações tributárias somaram quase 85 bilhões de reais.

Com o fim das desonerações, microgerenciamento de gastos e o possível retorno da Cide (Contribuição de Intervenção do Domínio Econômico) sobre combustíveis, Levy não terá dificuldade de alcançar a meta de superávit proposta para 2015.

Em suma, os nomes são excelentes e o discurso inicial dos ministros passou uma impressão melhor ainda. Ninguém está fora de órbita. Todos estão com os pés no chão. Querem reconquistar a credibilidade com o controle da inflação, ajuste fiscal crível e retomada do crescimento econômico.

Não há razão para justificar a tese de alguns analistas que esperavam algo a mais. Essa é a continuação de um governo que saiu vitorioso, mas que reconheceu a enorme pressão das urnas. Não é uma mudança brusca de rumo.

Não há razão, também, para duvidar da autonomia “concedida” à Levy. Ninguém em sã consciência aceitaria abandonar um cargo de elevado prestígio numa das maiores instituições financeiras do País para trabalhar como ministro, recebendo um salário bem menor, e ainda sob o risco de arruinar sua reputação no mercado. Levy terá o espaço que precisa para fazer o seu trabalho no Ministério da Fazenda.

O índice Bovespa fechou o pregão em baixa de 0,68% pressionado pelo mercado de commodities. O barril de petróleo do Brent atingiu o menor nível desde 2010, depois que produtores liderados pela Arábia Saudita venceram a discussão na Opep (Organização dos Países Exportadores de Petróleo) para manter a produção inalterada.

A queda desta quinta-feira não alterou o quadro técnico do índice Bovespa. Mercado em correção de curtíssimo prazo, retestando a antiga resistência dos 54.6k, sem afetar a tendência de alta de curto prazo.


sexta-feira, 21 de novembro de 2014

Brasil entra em novo rali


Semana histórica para o mercado financeiro nacional. O dólar despencou. A bolsa disparou. Os juros futuros derreteram. Movimento de euforia generalizada. O impressionante desempenho dos ativos brasileiros é justificado por uma bateria de notícias e especulações positivas ao mercado.

Tudo começou na última quarta-feira quando a ata do FED (Federal Reserve – Banco Central dos Estados Unidos) mostrou discussões relevantes que não saíram no comunicado emitido ao final da reunião de Comitê no mês passado. O documento desta semana revelou que, na verdade, a autoridade monetária norte-americana continua “dovish” e tende a manter sua postura cautelosa por um bom tempo.

O conteúdo presente da ata do FED manteve a janela de oportunidade aberta para investidores/operadores especularem em ativos de risco, o que, de fato, proporciona condições para dar novo impulso aos ativos com retornos apetitosos em mercados emergentes.

O clima mais positivo criado pela ata do FED foi reforçado nesta sexta-feira pelo tom mais firme do presidente do BCE (Banco Central Europeu), Mario Draghi. “Estamos dispostos a reavaliar a importância, o ritmo e a composição de nossas compras se for necessário para reforçar nosso mandato... e sem demora". Draghi ainda afirmou que “é essencial aproximar a inflação ao seu objetivo”.

O objetivo do BCE é manter a inflação ancorada na meta de 2%. Mas o aumento de preços na zona do euro está estancado a um nível muito fraco há bastante tempo. Em outubro, a inflação acumulada dos últimos 12 meses atingiu 0,4%.

As advertências mais firmes de Mario Draghi sobre a inflação baixa e disposição em reavaliar os estímulos são fortes indicativos de que o BCE deverá aumentar os programas de afrouxamento monetário na próxima reunião de Comitê a ser realizada no mês de dezembro.

Surfando a mesma onda “dovish” do FED e BCE, o Banco Popular da China surpreendeu os mercados nesta sexta-feira ao reduzir a taxa dos depósitos a um ano em 0,25 p.p., para 2,75%. A taxa de empréstimos a um ano sofreu corte de 0,40 p.p., para 5,6%. O Banco Central chinês também permitirá que os bancos paguem aos depositantes 1,2 vez a taxa de referência, acima de 1,1 vez anteriormente.

Essa é a primeira vez em mais de dois anos que o Banco Popular anuncia corte na taxa básica de juros. A prévia do Índice Gerentes de Compras sacramentou a decisão do Banco Central chinês. Segundo estudo do Instituto Markit, em parceria com o banco HSBC, a prévia do Índice Gerente de Compras do setor manufatureiro recuou para 50 pontos no mês de novembro, ante os 50,4 pontos registrados no mês de outubro.

O resultado de novembro é o mais baixo em seis meses e revelou que o mercado de trabalho está enfraquecendo. Além disso, as pressões sobre os preços estão fracas, o mercado imobiliário está desacelerando e a demanda interna precisa crescer mais para atender a capacidade de oferta. O PIB (Produto Interno Bruto) da China no terceiro trimestre recuou para 7,3%, nível mais baixo desde o primeiro trimestre de 2009.

Vale ressaltar que a decisão sobre as taxas de juros na China vem após a surpresa do BoJ (Banco Central do Japão) na reunião de Comitê encerrada no 31 de outubro, marcada pelo aumento inesperado do já elevado volume dos programas de compras de ativos em bolsa e títulos da dívida soberana.

A sinalização de manutenção (ou aumento) da artilharia monetária dos principais banqueiros centrais mundiais impulsionou fortemente os preços dos ativos no mundo inteiro.

No Brasil não foi diferente. Além do arsenal positivo dos banqueiros centrais, o mercado nacional foi brindado com a fortificação dos boatos em torno dos nomes que integrarão a nova equipe econômica do governo Dilma.

Fontes de diferentes origens estão relevando os mesmos nomes, indicando que boa parte da equipe já está definida. Os boatos mostram que Joaquim Levy, ex-secretário do Tesouro Nacional e atual diretor-superintendente do Bradesco Asset Mangement, deve assumir o ministério da Fazenda. Levy é conhecido como um formulador de políticas ortodoxas e pró-mercado, tem credibilidade semelhante ao Trabuco (atual presidente do Bradesco, que, segundo boatos, recusou o convite, pois deve ocupar o cargo do Lázaro Brandão na presidência do Conselho do Bradesco).

Nelson Barbosa, ex-secretário-executivo da Fazenda, deve assumir o ministério do Planejamento. Barbosa pediu demissão em meados de 2014 por supostos desentendimentos com o ministro Guido Mantega. Isso por si só já é um bom sinal.

Outra mudança positiva deve acontecer no Tesouro Nacional. O atual diretor de Administração do Banco Central, Altamir Lopes, deve ser o novo secretário do Tesouro, ocupando a cadeira que hoje é do Arno Augustin (conhecido no mercado como grande maquiador das contas do governo). Lopes é funcionário de carreira do Banco Central, de formação bastante técnica. Trabalhou de maneira próxima a Levy quando era chefe do Departamento Econômico da autoridade monetária. O atual presidente do Banco Central, Alexandre Tombini, deve continuar no cargo.

São profissionais altamente qualificados, de postura pró-mercado. Suas reputações valem mais do que um cargo importante no governo. Portanto, estima-se que o trabalho a ser executado nos próximos quatro anos será desenvolvido forma diferente daquele amplamente conhecido nos últimos três anos e meio. Em outras palavras, o intervencionismo do governo nas pastas deve a ser bem menor.

O mercado aprovou os nomes com razão e, mais do que isso, enxerga a necessidade de ajustes no ano que vem. Não há outra opção sobre a mesa. Com tantas notícias e especulações positivas, o índice Bovespa fechou a semana em forte alta, revertendo a tendência de curto prazo.


Mercado segue comprado para as próximas semanas. A superação da resistência tripla formada pela média móvel simples de 200 períodos semanal, linha central de bollinger e LTB dos 62.3k abrirá espaço para fortalecimento da tendência de alta de curto.

Bom final de semana!
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