quarta-feira, 26 de abril de 2017

O temor da greve geral


A sinalização de que a greve geral, convocada para esta sexta-feira, pode ser bem maior do que a prevista anteriormente pelo governo, tem contribuído para aumentar o clima de tensão no mercado, dificultando a manutenção do nível de tolerância verificado nos últimos meses.

Temer está subestimando os efeitos negativos de sua baixa popularidade e disparada da taxa de desemprego, o que, somado ao clima de total repúdio à classe política, cria um barril de pólvora prestes a explodir a qualquer momento. A pressa para aprovar as reformas trabalhista e previdenciária pode ser considerada um erro estratégico até o momento, pois certamente aumentou a desconfiança de boa parte da população e, consequentemente, está estimulando mais setores da sociedade civil a participarem das manifestações.

O que seria um protesto de viés à esquerda está se tornando num novo ato de revolta mais abrangente, pois está incorporando pessoas e setores com diferentes motivações políticas e ideológicas. Contribui para o aumento da adesão às manifestações as delações da Odebrecht ainda frescas nas mentes das pessoas, que afetam em cheio o governo Temer e sua base.

O deputado federal Paulinho da Força, do partido SD, que por sinal integra a base do governo Temer, é justamente um dos organizadores da greve geral. Outro partido da base, o PSB, fechou questão contra a reforma trabalhista e previdenciária, com previsões de punições aos que não seguirem a orientação.

As duas reformas são extremamente relevantes, mas a propaganda do governo não tem funcionado e a forma como os temas tem sido tratados no Congresso e na própria mídia dificulta o entendimento e a aceitação por parte da população.

Para conseguir aprovar o texto-base da reforma trabalhista na Câmara, por 296 votos a favor e 177 contra (superior a maioria simples necessária de 257 votos), o governo teve que ceder em alguns pontos, como de costume. A votação de hoje é encarada pelo mercado como grande teste à reforma da previdência, que precisa de pelo menos 308 votos para ser aprovada.

Mesmo empenhando máximo esforço na articulação, o governo não conseguiu alcançar os simbólicos 308 votos necessários. Chegou perto, mas ainda não demonstra possuir base forte e unida para vencer na reforma da previdência, que por sinal é mais problemática e impopular. Além disso, o governo ainda precisaria de uma margem de gordura (ou segurança), pois clima no Congresso nas próximas semanas pode azedar de vez, a depender do desfecho das manifestações desta sexta-feira em várias cidades do País.

Investidores e operadores de juros futuros começaram a fechar posições na ponta comprada dos contratos mais longos, movimento que se tornou mais nítido nesta semana. A contragosto do Banco Central, as curvas longas iniciaram trajetória ascendente. Os contratos que vencem a partir de 2021 voltaram a pagar prêmio de dois dígitos.


Confirmando as expectativas, a janela para liquidação de posições compradas começa a se fechar. Investidores ainda muito expostos na compra em contratos de juros futuros ou títulos soberanos locais precisam redobrar atenção e analisar rebalanceamento da carteira.

Na bolsa de valores o viés permanece vendido, embora com preços lateralizados no curtíssimo prazo. O mercado continua brigando pela LTB dos 69,5k, ainda sem sinalizar rompimento da zona de congestão.


Nos Estados Unidos, o índice S&P500 fechou o pregão com leve recuo, mais ainda permanece colado à máxima histórica. Donald Trump revelou nesta quarta-feira seu plano de cortes de impostos. Embora ainda escasso de detalhes (decepcionando o mercado), o projeto propõe corte de 35% para 15% na alíquota do imposto de renda para as empresas.
 

Trump também propôs que os lucros corporativos gerados no exterior por multinacionais norte-americanas sejam repatriados com uma taxa de imposto bem menor que a atual alíquota de 35%, mas não revelou qual será o novo percentual.

A princípio, o pacote tributário de Trump está muito aquém de uma reforma mais abrangente que ambos os partidos buscavam nos anos anteriores. O plano também deve elevar consideravelmente o déficit fiscal e, por conta disso, foi recebido com muita cautela no mercado.

Logo após a divulgação da proposta, parlamentares democratas demonstraram insatisfação com as mudanças alegando irresponsabilidade fiscal e abundância de benefícios para os norte-americanos mais ricos e grandes corporações.

segunda-feira, 24 de abril de 2017

Todos contra Le Pen


O temido primeiro turno da disputada eleição presidencial francesa terminou com um grande alívio ao mercado. O candidato da esquerda radical, Jean-Luc Mélenchon, admirador do bolivarianismo latino-americano, que vinha numa forte ascensão nas últimas semanas, está fora do segundo turno.

Mélenchon ficou em quarto lugar na disputa, com 19,2% dos votos. O candidato ultraliberal François Fillon, admirador de Margaret Thatcher, mostrou certa recuperação nos momentos finais da campanha e alcançou 19,7% dos votos. Marine Le Pen, candidata da direita radical anti-imigranção e anti-Europa, ficou em segundo lugar com 21,53% dos votos. O centrista Emmanuel Macron, ex-ministro da economia, se destacou na reta final e ficou com 23,75% dos votos em primeiro lugar.

Uma rápida mobilização pró-Macron se iniciou assim que os resultados apontaram os dois candidatos a disputar o segundo turno no dia 7 de maio. Benoît Hamon, candidato do partido socialista que ficou em quinto colocado com apenas 6,2% dos votos, foi o primeiro da grande lista anunciar seu apoio a Emmanuel Macron no segundo turno.

François Fillon admitiu uma derrota de cunho pessoal e pediu que seus eleitores se mobilizem a favor de Macron, a fim de evitar uma abstenção no segundo turno. Em seu discurso de derrota, Fillon declarou que votará em Macron.

O ex-primeiro-ministro Alain Juppé, derrotado nas primárias da direita por Fillon, também expressou seu voto ao candidato centrista Emmanuel Macron. Juppé tem grande influência para a direita francesa e afirmou que a extrema-direita de Marine Le Pen conduzirá seu País ao desastre. Bernard Cazeneuve, atual primeiro-ministro, também pediu no último domingo para que os franceses votem contra Le Pen.

O radical de esquerda Mélenchon, do movimento França Insubmissa, se recusou a dar qualquer recomendação de voto no segundo turno assim como Philippe Poutou, do Partido Anticapitalista. Entretanto, é altamente esperado que boa parte dos eleitores da esquerda radical francesa não deverão votar num candidato da direita radical no segundo turno, nem sob forma de protesto.

O segundo turno na França, portanto, será uma disputa de todos contra Le Pen. A direita radical não recebeu nenhum apoio de figura pública relevante e o mercado já contabiliza uma vitória esmagadora de Emmanuel Macron sobre Marine Le Pen no segundo turno. Pesquisas de intenção de voto também apontam amplo favoritismo de Macron, com cerca de 61% dos votos.

Apesar de ser considerado um outsider, Macron, que fundou seu próprio partido em abril de 2016, não pretende quebrar o establishment na França. O candidato tem um programa abertamente pró-europeu, com intenção de fortalecer ainda mais o bloco. Defende um “Buy European Act”, uma forma de preferência de acesso ao mercado europeu para indústrias estrangeiras que deslocarem parte da sua produção para algum país do bloco. Também defende o acordo de livre-comércio entre a União Europeia e o Canadá, além de um corte na carga tributária das empresas de 35% para 25%.

Além das propostas tentadoras aos empresários, o centrista Macron é o candidato queridinho do mercado pela sua conhecida reputação e passagem pelos bancos de investimentos na França.

Macron é um outsider que nasceu do mercado de capitais e isso definitivamente agrada os investidores/operadores por toda a Europa. A bolsa de Paris disparou mais de 4% nesta segunda-feira, registrando a alta mais forte desde agosto de 2012. A máxima de 2015 foi superada com um GAP de fuga (a ser confirmado nos próximos pregões), agregando força à tendência de alta iniciada aos 3,9k.


Na Alemanha, o índice DAX subiu 3,37%, renovando nova máxima histórica, num forte movimento de recuperação iniciado em fevereiro de 2016.


Londres também disparou nesta segunda-feira, confirmando fundo ascendente na região dos 7,1k. A característica técnica do movimento abre espaço para novo teste na máxima histórica nos próximos pregões, com possível rompimento.


A euforia dos mercados europeus se espalhou rapidamente pelas demais praças financeiras mundiais. O pregão em Wall Street abriu em clima positivo, jogando o S&P500 para perto da máxima histórica.


No Brasil o índice Bovespa subiu 0,99%, trabalhando teste sobre a LTB dos 69,5k. Apesar de o mercado seguir congestionado no curtíssimo prazo entre os 63k e 66k, um eventual rompimento desta importante LTB agregará força para novo teste sobre a resistência dos 66k, principal linha de manutenção do viés vendedor no mercado local.