segunda-feira, 24 de agosto de 2015

Gingante asiático não consegue reagir à artilharia fiscal


Desde novembro do ano passado, o governo chinês tem adotado uma série de medidas com objetivo de suavizar o processo de desaceleração econômica e reduzir a volatilidade no mercado financeiro. A taxa básica de juros foi cortada em quatro reuniões do Comitê de Política Monetária do Banco Popular (Banco Central chinês), novas injeções bilionárias foram feitas no sistema financeiro (objetivo de elevar os empréstimos bancários), foram anunciados novos programas de investimento em infraestrutura, suportes a mais operações de financiamentos aos governos locais, ações surpresas no mercado de câmbio, além dos esforços sem precedentes para impulsionar o mercado de ações local.

Mesmo com os canhões de artilharia fiscal do governo chinês descarregando toneladas de yuans na economia e no sistema financeiro, os indicadores não mostram reação. Enquanto a velocidade de desaceleração econômica aumenta, impactando diretamente as principais commodities globais, o mercado financeiro entra em pânico, suplicando por mais liquidez.

Na última sexta-feira o Instituto Markit provocou calafrios nos líderes do Partido Comunista Chinês. A atividade do setor industrial despencou no maior ritmo em quase seis anos e meio. A prévia do Índice Gerente de Compras do setor manufatureiro caiu para 47,1 pontos em agosto, bem abaixo das expectativas dos analistas já pessimistas (47,7 pontos) e, ainda, distante do resultado registrado no mês de julho (47,8 pontos), que já era considerado preocupante.


A faixa dos 48 pontos, embora contracionista, é considerada um importante divisor de águas, pois todas as vezes (nos últimos anos) que a atividade industrial chinesa derrapava com mais intensidade, conseguia reagir logo em seguida com relativa rapidez, aproximando-se dos 50 pontos (região neutra) ou mesmo superando-a, voltando a atingir o patamar de expansão.

Mas desta vez isso não aconteceu. O divisor de águas foi arrebentado com força não desprezível, quebrando um padrão que impedia o mercado de se preocupar tanto com o futuro da China.

O aumento do ritmo de desaceleração da atividade industrial chinesa mostra uma fraqueza persistente da demanda doméstica e baixo desempenho das exportações, alimentando temores no mercado de uma possível desaceleração mais forte na segunda maior economia do planeta (ou um pouso forçado desorganizado, o que causaria elevado grau de impacto econômico global).

Como de costume, os temores com relação à economia chinesa são transferidos diretamente aos preços das commodities. O derretimento constatado nesta segunda-feira é apenas uma espécie de aceleração de um movimento corretivo de longo prazo, iniciado há alguns anos.


A queda de 8,5% registrada nesta segunda-feira na bolsa de Xangai também contaminou os índices acionários das demais praças financeiras mundiais. Mesmo com uma infinidade de medidas desesperadas implementadas pelo governo com objetivo de reverter/suavizar a queda abrupta das ações na bolsa de Xangai, o principal índice acionário segue despencando.


A principal linha de suporte localizada na região dos 3.4k foi rompida, acionando um importante pivot de baixa capaz de reforçar a tendência descendente iniciada em 5.2k. Ainda assim, a bolsa de Xangai segue distante da pontuação que costumava oscilar nos anos anteriores (faixa de 2.000 pontos).

Seguindo os movimentos na Ásia e Europa, Wall Street sucumbiu na abertura dos negócios. O índice S&P500 fechou em forte queda pelo terceiro pregão consecutivo, com a sinalização técnica denunciando pânico de mercado, quadro que pode ameaçar seriamente a tendência de alta de longo prazo.


O índice Bovespa também foi impactado pelo forte movimento de aversão ao risco global, atingindo a mínima de 2013 (região de apoio fragilizada pelo rompimento das mínimas de 2014 e 2015). Tendência de baixa segue robusta e predominante.


Destaque para escolha da rota de fuga do capital. Desta vez, os investidores/operadores estão mostrando relutância em se protegerem no dólar. Conforme podemos notar no gráfico abaixo, o dólar americano contra a cesta de principais moedas globais está vendido no curto prazo, voltando ao preço registrado na mínima do mês de maio.
  

Por outro lado, a taxa de juros da Treasury de 10 anos (título público do Tesouro norte-americano) registrou nova mínima neste mês, atingindo os 2,01%, denunciando expressiva força compradora nos últimos dias. Além disso, a cotação do ouro em Nova York já subiu cerca de 7% neste mês, mostrando que o metal tem sido uma segunda opção de fuga no momento.

quarta-feira, 19 de agosto de 2015

Levy perde mais uma e bull market político está de volta


Esquecido na passagem de 2014 para 2015, o ciclo de bull market político brasileiro, constatado em meados de 2011, quando o Banco Central iniciou um forte e irresponsável ciclo de afrouxamento monetário (responsável por levar a taxa básica de juros a 7,25% ao ano em 2012), voltou com força neste mês de agosto.

Ciclos de bull market político são conhecidos no mercado por períodos de elevada intervenção do Estado na economia. Por outro lado, ciclos de bear market político são caracterizados por períodos de baixa (ou redução progressiva) intervenção do Estado na economia, tal como ocorreu na gestão de FHC, seguida pelo governo Lula.

Entretanto, ao assumir o seu primeiro mandato em 2011, a presidente Dilma Rousseff colocou em prática os conceitos da nova matriz econômica, sob o respaldo de uma ideologia que simplesmente destruiu os fundamentos da economia brasileira. A atitude do Banco Central em 2011 deixou o mercado estarrecido, o que confirmou a existência de um preocupante ciclo de bull market político.

Ao mesmo tempo em que o governo atropelou a política monetária, forçando uma queda insustentável da taxa básica de juros, o câmbio foi desvalorizado, alguns setores da economia foram “blindados” com pesados incentivos, barreiras a determinados produtos importados foram levantadas e o consumo das famílias foi impulsionado pela rápida concessão de crédito/financiamentos. Além disso, houve tentativa de forçar a redução das contas de luz e derrubar o spread bancário.

O resultado de tudo o que foi feito no primeiro mandato do governo Dilma está criando o que será, possivelmente, a pior crise brasileira desde a criação do plano Real. Erros sucessivos cometidos por um Estado intervencionista, mas também incompetente.

A entrada de Joaquim Levy, no Ministério da Fazenda, criou esperança de que o ciclo de bull market político chegaria ao fim no segundo mandato da presidente Dilma. Levy entrou no governo defendendo o fim do patrimonialismo (que favorece indivíduos e setores via créditos baratos e proteções) para, assim, criar um sistema que dê igualdade de oportunidade a todos, ampliando, consequentemente, a competição interna e externa da economia.

Infelizmente o governo provou nesta semana que não só desarmou mais uma importante frente de ataque do ministro Levy, mas também confirmou o retorno do bull market político. A mão pesada do Estado está de volta e, com ela, novos problemas serão criados, antes mesmo de superar os velhos e conhecidos imbróglios do passado.

Um dia após a Caixa anunciar um pacote bilionário de crédito camarada ao setor automotivo, além de descontos generosos em juros de empresas que se comprometerem a não demitir funcionários, o Banco do Brasil informa ao mercado que fez acordos com associações do setor automotivo para facilitar o acesso ao crédito. A previsão de desembolsos do Banco do Brasil chega a 9 bilhões de reais, já que outros setores e empresas, escolhidos a dedo, claro, também serão beneficiados.

A justificativa dada pelos bancos lembra os velhos tempos de Guido Mantega no ministério da Fazenda, com suas explicativas lunáticas (e no mínimo cômicas) para a economia. A generosidade destas operações de crédito são frutos de compromissos firmados com líderes da cadeia automotiva, o que permitiu redução do risco de crédito e, consequentemente, redução das taxas.

Em tempos de Selic aos 14,25% ao ano, forte retração da atividade econômica, aumento da taxa de desemprego e elevado nível de endividamento das famílias, chegar a tal façanha pode ser considerado um milagre.

Como se não bastasse, a nova guinada dos bancos públicos brasileiros prejudica o trabalho, já duvidoso e limitado, da política monetária, com mais crédito barato e circulante na economia concorrendo com a Selic contracionista de 14,25% aos “não sortudos”. Também favorece a manutenção de um ambiente de baixa produtividade em alguns setores, limita o acesso ao crédito a segmentos/empresas não beneficiados (as), cria desigualdade de oportunidades e prejudica a livre competição. O que será que acontecerá com o humor daquele empresário que ficou fora da festa? Filme repetido, mais uma vez.

As atitudes tomadas pelo governo nos últimos meses mostram que houve sim mudança de rumo naquilo que se projetava no início deste ano. Uma após a outra, propostas e ideias defendidas pelo ministro Levy, de cunho mais ortodoxo, vão sendo derrubadas numa velocidade relativamente surpreendente.

A prioridade também mudou. Parece não existir ninguém no ambiente político disposto a trabalhar pelo futuro do País. Brasília se tornou numa sangrenta praça de guerra, onde uns disputam o poder, enquanto outros tentam salvar a própria pele.

Para complicar, o povo brasileiro, que poderia mudar o foco dessa situação extremamente grave, resolveu lotar as arquibancadas de nosso “Coliseu” em Brasília, para assistir e incentivar a luta sangrenta.

Perdemos totalmente o foco da direção a ser tomada. O País precisa fazer um pesado ajuste fiscal (revisar seriamente gastos e receitas), implementar reformas tributária, trabalhista e previdenciária, acelerar programas de investimento em infraestrutura e reduzir o tamanho do Estado, inclusive na economia. Mas essa agenda é, sequer, discutida pela sociedade, que dirá no ambiente político.

Com as evidências de que o bull market político está de volta e, que a própria sociedade endossa o foco na direção errada, estamos fadados ao retrocesso lento e angustiante. Um País com carteirinha de emergente, mas com políticas populistas atrasadas e números de república subdesenvolvida.

No mercado de capitais o índice Bovespa encerrou mais um pregão em forte queda, refletindo temores de investidores/operadores com mais uma derrota de Levy, marcando o ressurgimento do bull market político.

O movimento vendedor atingiu as mínimas de 2015 e 2014 ao longo do pregão, ponto importante de sustentação, responsável por provocar pequeno alívio após a realização dos testes nas referidas linhas. Apesar de sobrevendido, mercado permanece em tendência principal de baixa, sem sinalização de reversão, ou mesmo alívio para os próximos dias.


Nos Estados Unidos o índice Dow Jones fechou o pregão desta quarta-feira em baixa de 0,93%, confirmando a formação de mais um topo descendente na região dos 17.6k, antigo suporte, caracterizando movimento de pull back, abrindo espaço para continuação da tendência de baixa de curto prazo.
  


A ata do FED (Federal Reserve – Banco Central norte-americano) divulgada hoje não apresentou nenhuma novidade, apenas surpreendeu aqueles que, por conta própria, esperam (ou esperavam) início do ciclo de aperto monetário no próximo mês.

O documento reforça análises anteriores, de que o FED se apoie cada vez mais na inflação persistentemente baixa como justificativa de manutenção da taxa básica de juros entre 0 e 0,25%.
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