quarta-feira, 17 de setembro de 2014

FED renova garantia de juro zero e divulga plano para normalização das condições monetárias


A melhora geral nos indicadores de desempenho da economia norte-americana não foi suficiente para o FED (Federal Reserve - Banco Central dos Estados Unidos) alterar sua orientação futura sobre os juros, mantendo a mesma perspectiva adotada desde o mês de março deste ano.

Na reunião de dois dias encerrada na tarde desta quarta-feira, o FED decidiu reduzir as compras mensais de ativos para 15 bilhões de dólares a partir do próximo mês, com objetivo de encerrar totalmente os programas de estímulos monetários na próxima reunião de Comitê a ser realizada nos dias 28 e 29 de outubro. A taxa básica de juros segue inalterada, entre zero e 0,25%.

A famosa expressão “tempo considerável” (ou “horizonte relevante”), utilizada para caracterizar por quanto tempo o Banco Central pretende esperar para elevar a taxa básica de juros após o fim dos programas de estímulos monetários, foi mantida no comunicado emitido ao mercado na tarde desta quarta-feira.  Também foi mantida a frase “significativa subutilização dos recursos de mão de obra”, o que revela o desconforto da autoridade monetária com a atual situação do mercado de trabalho norte-americano.

As novidades surgiram através das projeções dos membros do Comitê para a taxa básica de juros. Na última reunião realizada no mês de junho, 12 dos 17 membros do Comitê estimavam iniciar o ciclo de aperto monetário em 2015. Este número subiu para 14 na reunião encerrada na tarde desta quarta-feira. A mediana do target para a taxa básica de juros subiu de 1,125% para 1,375% no encerramento do ano que vem. De 2,50% para 2,875% em 2016. A mediana das projeções para 2017 ficou estável em 3,75%, provável fase final do ciclo de aperto monetário a ser iniciado em 2015.

As revisões destas importantes projeções sugerem que os membros do FED estão um pouco mais preocupados com a inflação futura, já que os juros devem subir numa intensidade maior do que se esperava anteriormente.

O FED divulgou um segundo comunicado onde mostra, pela primeira vez, o plano traçado para normalização da política monetária. Na verdade, este segundo comunicado é, também, uma conversa direta e formal do FED com os demais banqueiros centrais mundiais. Neste documento, o FED mostra que: (i) determinará o momento e o ritmo de normalização da política monetária de forma a manter o máximo emprego e estabilidade de preço; (ii) a meta para a Federal Funds Rate (taxa básica de juros) será elevada quando as condições econômicas permitirem; (iii) durante a fase de normalização, o FED provocará o deslocamento da Federal Funds Rante dentro de uma banda pré-estabelecida pelo Comitê e poderá utilizar uma linha de recompra overnight para ajudar a controlar as taxas de juros; (iv) a carteira de ativos do FED deverá ser reduzida de forma gradual e previsível através do encerramento ou diminuição dos reinvestimentos dos rendimentos de seu enorme estoque de títulos, a depender das condições econômicas e financeiras após o inicio do ciclo de aperto monetário; (v) não há perspectiva, no momento, para venda de ativos lastreados em hipotecas; (vi) no longo prazo, o FED pretende manter apenas uma carteira de ativos (basicamente formada por Treasurys) necessária para implementar a política monetária de maneira eficiente; (vii) detalhes poderão ser ajustados no plano de normalização das condições monetárias conforme os desenvolvimentos econômicos e financeiros.

Em entrevista coletiva à imprensa, a presidente do FED, Janet Yellen, disse que a divulgação do plano de normalização da política monetária não sinaliza período para mudança e ocorrerá, principalmente, via taxa de juros e não pela redução do balanço do FED. O balanço do Banco Central norte-americano será reduzido de forma gradual e previsível. Yellen também destacou que, durante algum tempo, a economia pedirá taxas de juros mais baixas do que as consideradas normais (leia-se 3,75%, patamar considerado neutro - nem restritivo, nem estimulador). Segundo a presidente do FED, o ciclo de alta dos juros tende a ser gradual, porém dependente dos indicadores econômicos a serem divulgados.

O índice Dow Jones fechou o pregão em leve alta, mostrando novamente candle de indecisão colado na máxima histórica, ainda sinalizando possibilidade de novas correções. A taxa de juros da Treasury de 10 anos se mantêm aos 2,62%.


No Brasil, o índice Bovespa fechou estável, devolvendo ganhos acumulados ao longo do dia no final do pregão. O pavio longo superior relevante mostra dificuldade de superação da linha central de bollinger pelo segundo pregão consecutivo, o que sinaliza novas possibilidades de correções no curtíssimo prazo.


sexta-feira, 12 de setembro de 2014

Pânico na Treasury


As vésperas da reunião do Comitê de Política Monetária do FED (Federal Reserve – Banco Central dos Estados Unidos), a Treasury de 10 anos (título público do Tesouro norte-americano), referência no mercado da dívida soberana global, entrou em pânico no mercado, passando a preocupar seriamente os diretores do Comitê que se reúnem na próxima semana.

A agressividade do atual movimento é semelhante ao evento ocorrido na segunda metade do ano passado, quando Ben Bernanke, o então presidente do FED, antecipou ao mercado que o tapering (redução do volume dos programas de estímulos monetários) estava a caminho. A estratégia de Bernanke havia falhado, pois, a intenção, com o aviso antecipado, era a de acalmar o mercado.  Mas acabou acontecendo o inverso. Como seria o tapering? Qual intensidade? Quando exatamente? Dúvidas que o FED não poderia responder naquele momento, responsáveis por provocarem abalos em todas as praças financeiras mundiais, principalmente em países emergentes.

Cerca de um ano após o primeiro tremor, o mercado é novamente impactado. Desta vez por um estudo realizado por pesquisadores da unidade regional do FED de São Francisco, no qual os desconhecidos economistas Jens Christensen e Simon Kwan concluíram que a baixa volatilidade nos mercados financeiros pode sinalizar que investidores/operadores estão (ou estavam) subestimando a velocidade com que o FED possa elevar a taxa básica de juros.  Ou seja, o mercado parece (ou parecia) esperar uma política monetária mais acomodatícia do que a sugerida pelo próprio FED no Sumário das Projeções Econômicas.

Outras autoridades do FED estavam mostrando certo desconforto com a volatilidade excessivamente baixa constatada nos meses anteriores. A Treasury de 10 anos chegou a perder o patamar de 2,40% em duas oportunidades somente nos últimos 30 dias, nível incompatível com as projeções de aperto monetário nos Estados Unidos.


Conforme podemos observar no gráfico acima, apenas nas últimas duas semanas a Treasury de 10 anos acumula desvalorização de 12%. A taxa de juros saltou de 2,34% para 2,62%. A velocidade deste movimento mostra que os investidores/operadores estão correndo para acertar, desesperadamente, seus respectivos portfólios, o que leva, consequentemente, ao desmonte de posições em ativos de risco (principalmente em praças emergentes). O movimento agressivo preocupa os diretores do FED, pois o deslocamento dos juros futuros neste ritmo não é saudável, pode brecar a recuperação econômica dos Estados Unidos e detonar uma nova crise no mercado.

O pânico na Treasury surge justamente no momento em que os indicadores econômicos mostram melhora no processo de retomada da economia norte-americana, fato que provoca aumento das discussões, no mercado e dentro do Banco Central, quanto ao início do ciclo de aperto monetário. O mercado vai esperar uma sinalização do FED na semana que vem quanto à estratégia de política monetária para o próximo ano. Entretanto, com o clima de tensão elevado, a janela para apresentação de um novo comunicado, menos expansionista, está fechada. O Banco Central deve, provavelmente, tentar acalmar o mercado, na tentativa de ganhar mais tempo ou uma nova janela de oportunidade.

O movimento de valorização do dólar frente a uma cesta de moedas globais foi acentuado pelo deslocamento da Treasury. No gráfico abaixo podemos observar que o rali se intensificou no final do mês de agosto, o que também causa preocupação dentro do FED, já que os produtos norte-americanos ficam menos competitivos no mercado externo.


A situação do câmbio no Brasil é diferenciada devido às ininterruptas intervenções do Banco Central no mercado, que manteve o dólar oscilando nos últimos cinco meses dentro de uma banda preferencial bastante visível no gráfico abaixo.
  
  
O Banco Central fez o que pode para brecar os avanços do dólar. Mas parece que boa parte deste trabalho ficou em vão. A intensificação do rali do dólar mundo afora rompeu com extrema facilidade a barreira informal utilizada pelo Banco Central no câmbio brasileiro. Mas como a ferramenta cambial continua sendo (muito) utilizada para combater a inflação, o Banco Central pode acabar entrando num ciclo vicioso de intervenções, em volumes cada vez mais elevados, aumentando a nossa vulnerabilidade à medida que as reservas vão sendo consumidas.

O índice Bovespa foi duramente impactado esta semana com o aumento da tensão no mercado, refletindo o deslocamento da Treasury e da cesta de moedas globais. O marubozu de baixa iniciou rompimento da média móvel simples de 200 períodos semanal, recentemente superada, o que pode caracterizar bull trap em cima da média mais popular do mercado, acompanhada de perto pelos gestores. A zona região de suporte está localizada na região dos 55.5k e poderá ser testada nas próximas semanas, já que o movimento corretivo está ganhando força.


Destaque para o forte movimento corretivo no mercado de commodities, o que, de fato, alimenta a pressão vendedora nos principais ativos da bolsa brasileira.


Desejo a todos vocês um ótimo final de semana!
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