sexta-feira, 22 de julho de 2011

Pra onde está indo a economia mundial?

Os problemas recentes com a crise fiscal na Europa e ampliação do liminte de endividamento dos Estados Unidos estão longe de ser os grandes empecilhos para a retomada do crescimento econômico mundial. A questão do endividamento das economias desenvolvidas é apenas uma ramificação de uma grande rachadura provocada pela crise do subprime em 2008, nos Estados Unidos. Uma crise que tinha tudo para ser superada se a base do capitalismo, o sistema financeiro, fosse um pouco mais responsável ou no mínimo regulado e/ou fiscalizado.

Após a crise de 2008, os grandes bancos que quase arrasaram com o sistema financeiro mundial, ficaram ainda maiores com os aportes, fusões e aquisições patrocinados pelo governo. O que era grande demais para falir, passou a ser grande e poderoso demais para falir. Essas mesmas instituições financeiras não aprenderam a lição da crise e continuam se aventurando no mercado em operações de risco considerável sem apresentar uma margem de segurança para possíveis perdas. Qualquer investidor, seja ele do mercado de renda fixa ou de renda variável, sabe que em qualquer tipo de investimento existe um risco implícito. Não existe nenhuma aplicação no mundo 100% garantida isenta de qualquer risco, nem mesmo a poupança.

Mas para as grandes instituições financeiras essa regra não existe. O que será que aconteceu com o departamento de análise de risco de um banco ao permitir a compra de títulos públicos de um país como a Grécia, Irlanda e Portugal por exemplo? Países potencialmente insolventes antes mesmo de se estourar a crise de 2008. A irresponsabilidade tornou-se característica comum entre os tomadores e financiadores da dívida pública. Por um lado os políticos gastaram muito além do limite suportável do orçamento público na intenção de se reerguer uma economia abatida pelo crash de 2008. Por outro lado os grandes bancos financiaram boa parte destes gastos públicos na ganância de se obter retornos maiores sobre os investimentos.

Não há nenhum problema em comprar moderadamente papeis de risco no mercado, desde que você assuma o risco e mantenha uma reserva segura para permitir a solvência da instituição financeira em situações excepcionais. É aí que mora o perigo, há muito dinheiro privado (leia-se bancos) nas dívidas dos países, não só da Europa mas no mundo inteiro, para pouca reserva. Portanto o sistema financeiro não está preparado para um calote generalizado e dependerá do governo para conseguir se desfazer desses ativos podres e se manter solvente.

Outro complicador é o fato de que 70% da economia mundial (Estados Unidos, Europa e Japão) está na corda bamba e caminhando na estrada errada. Parece que austeridade fiscal "virou lei" entre as economias desenvolvidas. Os governos estão cortando gastos no momento em que a economia pede justamente o contrário, impulso. Porém, como continuar gastando se estes países estão com déficits fiscais astronômicos? Ficou sem resposta? Os políticos também! As economias desenvolvidas entraram em xeque devido à irresponsabilidade do passado recente. Infelizmente não há outra saída, aquele remédio amargo terá de ser tomado mais cedo ou mais tarde. Em outras palavras, a economia terá de ser sacrificada para colocar ordem na casa.

Curioso é que a reação dos mercados quanto aos problemas citados neste artigo é quase que insignificante pela gravidade nele imbutida, talvez por serem problemas potenciais de longo prazo e não de curto prazo. Reparem como Dow Jones (assim como o DAX na Alemanha) mantêm a sua tendência de alta intacta.


Wall Street parece estar comprando a idéia de que o teto da dívida nos Estados Unidos será elevado ao mesmo tempo em que serão feitos cortes nos gastos públicos para reduzir o déficit fiscal do país. Mais uma vez a população de classe mais baixa será a mais prejudicada com a redução dos programas sociais e aumento do desemprego. Consequentemente a economia crescerá menos no futuro e poderá entrar em uma perigosa retração.

Os mercados emergentes continuarão a ser o motor da economia mundial, mas isso não é suficiente pois estes países representam apenas 20% de toda a economia. Além do mais estas economias estão superaquecidas e os governos destes países estão com problemas para controlar a inflação. A política na China é claramente restritiva, além da inflação o governo tenta combater um possível estouro no mercado imobiliário.

No Brasil, o aumento da inflação é apenas um dos problemas de nossa economia. O superávit primário está sendo conquistado as custas do aumento recorde na arrecadação do governo, o que permite manter a máquina pública funcionando a todo vapor. O governo não reduz os gastos e a economia aquece demais gerando inflação no primeiro momento e posteriormente (vamos começar a passar por isso agora) aumento nos salários, já que o desemprego continua baixo em um mercado de baixa capacitação profissional. Esse é um problema grave, o salário nominal deve ser contido a qualquer custo para se evitar choques inflacionários ainda maiores no futuro próximo, o que consequentemente inviabilizaria a produção de alguns setores da economia.

No primeiro momento, a reação do mercado quanto ao aumento da inflação é nítida pelo gráfico do Ibovespa. O investimento em renda fixa acaba atraindo os investidores (pelo aumento da taxa selic) que reduzem exposição no mercado de renda variável para comprar taxa de juro. Com isso o Ibovespa testou a sua zona de suporte da congestão em 60k. Houve uma perda desta linha na semana passada mas logo foi recuperada caracterizando um bear trap sobre a base da congestão. Podemos estar marcando mais um fundo temporário no gráfico que projeta um repique para teste na LTB mais rápida.


Para finalizar, gostaria imensamente de escrever um artigo otimista e com boas projeções macroeconômicas. Mas infelizmente, 3 anos após o estouro da crise, o mundo continua batendo cabeça sobre o que fazer.

18 comentários:

  1. Olá, exelente abordagem, creio que teremos sim um pouco de calma no mercado, ontem a Petrobras finalmente anunciou o tão esperado Capex, à principio nada de empolgação no after-market, vamos ver segunda os grandes player o que vão fazer;
    Houve um rapa-stop esta semana na Petro, creio que deverá testar novamente o topo da congestão, lugar onde tenho de pensar!!!
    Ivan

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  2. Ivan,

    Obrigado! O mundo está precisando de uma faxina geral, tanto nos mercados quanto na economia. Do jeito que as coisas estão, não me arrisco ser otimista no longo prazo, prefiro manter cautela por enquanto.

    Eu ví esse rapa-stop, insano como conseguiram fazer isso na Petro, papel de alta liquidez. Gerou um alvoroço no mercado e bateram carteira de muita gente. Mas faz parte do jogo, as corretoras sabem onde ficam os stops. O mercado está priorizando operações curtas e recentemente pegaram os micos pra tirar mais algum, o problema é que muita gente entra atrazado e acaba comprando topo pagando a conta.

    Abcs, bons trades.

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  3. Excelente artigo onde vc colocou de forma clara o que eu penso sobre o mercado. Acredito que os governos sao reféns do sistema bancário - os banqueiros fazem, acontecem, se arriscam comprando titulos podres e claro que sabem da insolvencia dos países afinal é só olhar para a dívida e o déficit fiscal. O que comanda hoje é a ganancia, a responsabilidade ficou para trás. Mas, para que ter responsabilidade se as máquinas de impressao de dinheiro vem salvá-los. Preocupante este caminho e nao vejo volta, como bem colocou num futuro próximo a recessao vai bater na porta dos países e os banqueiros se aproveitarao para aumentar a fatia de riqueza. Somos apenas peoes no jogo dos banqueiros e políticos. Um abraço e parabéns pela clareza de pensamento.

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  4. Anônimo,

    Ótimas colocações! A crise de 2008 demonstrou claramente isso e nada foi feito (pelo contrário, piorou ainda mais) para mudar essa perigosa situação. Uma dúzia de impérios financeiros fazem o que querem nos mercados porque sabem que a impressora está de prontidão, o sistema é a própria solvência dos bancos. Por isso que eu digo, acho que tem de ser feita uma faxina geral, nos governos, na política econômica e no sistema financeiro, que vai sacrificar a economia num primeiro momento, mas extremamente necessário para evitar uma dura recessão no longo prazo. Infelizmente na atual situação não há remédio sem efeitos colaterais.

    Obrigado pela crítica positiva

    Abcs,

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  5. Primeiramente parabéns pela qualidade do blog e dos artigos, realmente levam a uma profunda reflexão de onde estamos e aonde isso tudo nos levará.
    Também acredito que uma faxina e ordem na casa se fazem extremamente necessários, a começar com a revisão do dólar como moeda global.
    É impressionante ver como os países assistem passivamente à pujança monetária com que o governo estadunidense vem inundado o sistema financeiro. Enquanto qualquer outro país tem que resolver seus problemas econômicos com duros programas de austeridade, os EUA têm o privilégio de produzir o que eles fazem de melhor: moeda. Enquanto isso todos vêem suas reservas se depreciando frente a uma moeda com valor em queda. Não fossem países como a China e Japão "enxugar" essa liquidez excessiva de dólar no mercado (as reservas chinesas já somam mais de US$ 3 tri), veríamos um dólar ainda mais fraco.
    É evidente que esse tipo de política é insustentável, e a conta cada vez fica mais cara aos EUA.

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  6. Parabéns pelo post ,, ótima informação!

    abços

    ITM

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  7. Saindo um Pouco do Tema Abordado,Que Por Sinal (Elogiar a Lucidez Deste Site,já Não é Mais Nenhuma Novidade)Esta Simplesmente Perfeita.
    A CVM é mais Uma das Muitas Instituições que não Serve Para Nada Neste Pais.
    Segue o Link:

    http://vitormiziara.blogspot.com/2011/07/carta-enviada-cvm-mundial.html

    Unabraço.

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  8. Leandro,

    Obrigado!

    Você tocou num ponto interessante, pra mim o dólar está perdendo sua representatividade como moeda internacional justamente pela infeliz política monetária dos EUA. Percebe-se claramente que os programas de quantitative easing não foram eficientes para a economia, o desemprego continua alto e o crescimento fraco. Mas não duvido nada que as injeções de dólares na economia tiveram outro objetivo: o de inundar os mercados de liquidez, principalmente os emergentes, podendo gerar possíveis bolhas nestes países. Parte da inflação é consequência disto.

    Abcs,

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  9. macr3,

    Obrigado!

    Sobre a CVM é simplesmente lamentável. Esse caso da Mundial é apenas um dos milhares que passam pelos olhos da CVM e nada acontece. E o pior é que pega justamente o investidor menos experiente, que acaba sendo expulso do mercado por estas armadilhas. Eu mesmo quando entrei pra bolsa há quase 5 anos atrás, não sabia nada e levei um belo de um sacode nesses micos, o esquema era o mesmo...

    Abcs,

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  10. Fico muito feliz em receber tantos elogios por um simples e humilde artigo! A intenção foi colocar "o preto no branco" e esboçar a minha visão.

    Estamos aqui para ajudar (uns aos outros) e aprender a sobreviver (e tirar vantagem) neste mercado insano que não dá segunda chance à ninguém.

    A todos uma ótima semana!

    Abcs,

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  11. Boa tarde,

    Gostaria de saber quem escreve os artigos ?

    São muito bons! Parabéns!

    Att,

    Gabriel Rodrigues

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  12. FI, Você tem recebido muitos elogios porque suas análises macroeconômicas são excelentes!
    Você consegue expressar com clareza as maluquices que tentamos compreender nessa economia tão irresponsável do séc. XXI!

    Parabéns e um grande abraço!

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  13. Gabriel Rodrigues,

    Obrigado! Todos os artigos são de minha modesta autoria, expressam a minha visão conjugada com macroeconomia, fundamentalismo e técnica.

    Abcs,

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  14. Felipe Medeiros,

    Obrigado! Acho que esse é o resultado quando fazemos uma coisa que realmente gostamos de fazer. No meu caso é isso aí. Estou ferrado rsrs...

    Abcs,

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  15. Finanças tudo bem? é o RJC. Ótima análise, agora com todo respeito a Grécia, Irlanda, Portugal são "café pequeno". Só está servindo para deixar o Sr. mercado nervosinho. O problema com seus défits públicos já não é de hoje... era uma caçapa cantada. O problema mesmo é com os EUA (cachorro grande) e o aumento do teto de sua dívida e que está sendo muito bem explorado e até chantagiado por parte do governo americano em cima dos congressistas... Acho extremamente improvável que os EUA darão o calote caso não se eleve o seu teto. Muito difícil...Acabarão por fazer um acordo, político é político em qualquer lugar.
    abraços,

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  16. Olá RJC !

    Sim, Grécia, Irlanda e Portugal são economias irrelevantes ao PIB mundial, realmente este não é o problema. A questão é que os bancos privados estão montados em dívidas de alto risco destes países periféricos da Europa (não deveriam, mas o bônus é mais alto e tem o governo pra "salvar", parece com o subprime americano porém muito pior) e podem não estar solventes para suportar um default maior. Nesse caso uma crise de liquidez atingiria em cheio o sistema financeiro europeu e seria 10 vezes pior do que aquele estouro de 2008. Liquidez e confiança é a base pro sistema funcionar.

    Também acho muito impróvavel os EUA darem calote. Chega uma hora que os políticos tem que olhar aonde é que estão pisando. E atualmente estão bem à beira do abismo, políticos são as vezes irracionais, mas não são suicidas.

    Abcs,

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