sexta-feira, 29 de julho de 2011

A primeira parcela do carnê

Crise fiscal nos países desenvolvidos, inflação nos países emergentes. Niguém conseguiu fugir da primeira parcela do carnê do subprime americano. Os países do hemisfério norte, que já não estavam com as contas ajustadas antes da crise de 2008, estão em pior situação devido aos insustentáveis déficits fiscais. Alguns países, como a Grécia por exemplo, gastaram tanto que suas dívidas tornaram-se impagáveis. Esses países precisaram de vender títulos da dívida pública no mercado, acima da capacidade de pagamento, para conseguir captar recurso suficiente no intuito de se injetar dinheiro na economia e sair da processo recessivo, mantendo a economia respirando. Os Estados Unidos são um caso à parte pois muitas empresas estavam envolvidas em operações de alto risco no mercado e o governo teve que agir injetando dinheiro nas grandes corporações (bancos, seguradoras e indústrias) para evitar uma falência em massa ao efeito dominó.

Antes disso, os Estados Unidos já haviam gastado muito dinheiro ao longo dos anos para financiar guerras e ações militares. Iniciadas há quase dez anos, após os atentados de 11 de setembro de 2001. Despesas com seguros-desemprego e demais benefícios sociais aumentaram bastante após o estouro da crise em 2008, que aliado à um efeito de corte nos impostos (principalmente para os mais ricos, diminuindo assim a arrecadação) levaram o país rumo aos 14,29 trilhões de dólares em dívidas a pagar.

O grande problema não está na elevação do endividamento norte-americano, que terá de ser feito a qualquer custo, mesmo que seja por decreto do presidente Obama. O ponto crucial da questão é o que virá depois? Este tema foi abordado no artigo: "Pra onde está indo a economia mundial?" e recomendamos a leitura do mesmo. "Curiosamente" o índice de volatilidade do mercado disparou esta semana conforme podemos observar logo abaixo.

O VIX é o melhor indicador de volatilidade do mercado. Quando ele sobe significa que os investidores estão mais apreensivos e com isso vendem ativos e correm para investimentos mais seguros, como o ouro por exemplo (que por sinal está batendo recordes de alta). O índice pulou de 19 para 25 pontos em apenas uma semana devido à deterioração da economia mundial, principalmente na Europa e nos Estados Unidos.


Na Europa a semana foi marcada pela avalanche de vendas nas ações das principais instituições financeiras do continente, nem os bancos ingleses foram poupados. O principal índice acionário da Europa (DAX - Alemanha) fechou a semana em baixa perto de testar a sua LTA (linha de tendência de alta) desde o fundo da crise em 3.5k.


Nos Estados Unidos, a Câmara aprovou agora pouco o projeto do lider republicano John Boehner para reduzir o déficit orçamentário do país e elevar o limite de endividamento do governo federal. O projeto é diferente do plano proposto pelos democratas e poderá ser barrado no Senado. Mesmo assim foi dado um passo importante para as negociações finais entre republicanos e democratas. Algumas alterações poderão acontecer de acordo com os interesses de cada partido, mas é a única forma de ficar pronto até o dia 2 de agosto (prazo final para eleveção da dívida norte-americana).

Dow Jones despencou nesta semana em um candle de grande expressividade. O indice chegou com muita violência para testar a LTA de longo prazo que está sustentando todo o ciclo de alta desde o fundo da crise em 6.4k. Esta linha de sustentação corre o risco de ser perdida nas próximas semanas, o que poderia marcar o fim da tendência de alta no médio/longo prazo em Wall Street.


A China, maior maior credora da dívida dos Estados Unidos (1,1 trilhão de dólares, seguida pelo Japão com 882,3 bilhões de dólares, Reino Unido com 272,1 bilhões de dólares, exportadores de petróleo com 211,9 bilhões de dólares e finalmente Brasil com 187 bilhões de dólares) pediu que o governo norte-americano adote medidas mais responsáveis a fim de proteger os interesses dos investidores nos títulos do Tesouro americano. O país está preocupado também com um novo surto inflacionário que poderá ser ocasionado em caso de um improvável calote dos Estados Unidos.

A bolsa de Xangai fechou a semana em baixa refletindo as incertezas dos investidores quanto a enorme posição da China em treasuries (títulos do tesouro americano). Este segundo candle semanal de baixa após o teste na resistência da média móvel simples de 50 períodos deverá jogar o índice para teste de uma LTA mais curtra dentro do canal de baixa de longo prazo.


A bolsa brasileira fechou a semana abaixo dos 60k e se complicou novamente pois vai se despedindo da zona de congestão de médio/longo prazo (importante ler o artigo "Tecnicamente em bear market"). A última esperança está na frágil linha de suporte em torno dos 57.6k que poderá ser testada nas próximas semanas. O índice está sob duas LTBs, sendo uma (a mais curta) bem inclinada, que aliada aos níveis de sobrevenda pode tentar ensaiar um repique para a próxima semana, se tivermos boas notícias (mesmo que temporárias) nos Estados Unidos.


A grande complicação está no gráfico mensal do índice. Esta é uma das principais razões técnicas que me impedem de dizer que chegou a hora de voltar pra bolsa visando operações de positions ou de longo prazo. São quatro candles seguidos de baixa, que se itensificaram após a perda da média móvel simples de 20 períodos (ou linha central de bollinger). As bandas de bollinger que estavam bem estreitas começaram a se abrir com os preços indo para baixo, isso é um péssimo sinal para os comprados. O aumento da volatilidade do mercado está sendo dominante pelos vendedores que vai confirmando a divergência de baixa expressada pelo MACD.


Mesmo se houver um repique de alta nas bolsas mundiais na próxima semana a situação ainda continuará delicada. A Europa foi deixada de lado pela mídia por enquanto, mas os problemas com os déficits fiscais em vários países da periferia do continente estão sem resolução e com risco de contágio do sistema financeiro via ativos podres da dívida pública de países como Grécia por exemplo. Os países emergentes não estão livres da inflação, principalmente o Brasil, com provável retomada de alta nos preços a partir do mês de setembro deste ano, devido à sazonalidade do mercado, além da bomba do salário mínimo (14% de aumento) prevista para início de 2012.

O PIB dos Estados Unidos poderia ser um respiro para um processo de ajuste no déficit. Poderia, mas saiu bem abaixo do esperado. A economia do país cresceu 1,3% no segundo trimestre deste ano, na comparação com o mesmo período do ano anterior, o mercado esperava avanço de 1,8%. A economia está emitindo sinais de desaceleração à juro zero com dois programas de quantitative easing concluídos. Vamos torcer para que as parcelas deste carnê não sejam tão longas.

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