sexta-feira, 19 de agosto de 2011

FED, bancos e liquidez. A combinação do desastre

Os recentes dados divulgados sobre a economia norte-americana estão fazendo renascer o fantasma da recessão na maior potência econômica mundial. Acontece que o cenário está ficando cada vez mais complexo, os líderes europeus continuam batendo cabeça, o desemprego nos Estados Unidos continua alto, a economia está desacelerando e agora a inflação começou a dar sinal de vida assustando o mercado. Inflação sem crescimento econômico é a receita de bolo para se criar uma estagflação na economia, como aconteceu na década de 70 (inflação combinada com alto desemprego).

Diferentemente da receita de bolo para se criar uma estagflação, não há um remédio pronto para tirar uma economia deste processo, basta observar o que aconteceu com o Japão nestas duas últimas décadas. Tudo que o FED (Federal Reserve - Banco Central dos Estados Unidos) não quer neste momento é ter de lidar com um provável cenário de estagflação na economia. Não há como combater uma estagflação com políticas monetárias expansionistas (baixa taxa de juros, quantitative easing, etc), pois a inflação irá subir ainda mais. Por outro lado o desemprego alto exige políticas monetárias expansionistas para impulsionar a economia. O FED teria que quebrar a cabeça para tentar tirar a economia americana do atoleiro de uma estagflação.

Por incrível que pareça, o principal causador de uma possível estagflação americana é o próprio Banco Central. Justamente por manter uma polícia monetária expansionista que não consegue resolver o problema grave do desemprego alto no país. O resultado das injeções de liquidez no sistema financeiro foi ineficaz, pois o crédito não foi repassado à economia, o dinheiro dormiu dentro dos grandes bancos americanos e retornou para o mercado de capitais. O excesso de liquidez dos grandes bancos não foi nem para o mercado interbancário (como costumava ser antes da crise em 2008), para financiar as necessidades de bancos menores.

Esse excesso de liquidez está bancando a alavancagem das posições destes grandes bancos (diga-se players) nos mercados futuros, como petróleo, ouro, cobre, soja, açúcar, café e outros. Reparem abaixo um dado curioso sobre os contratos futuros de ouro:


O número 1 marcado no gráfico representa a corrida por ouro quando a crise do subprime estourou nos Estados Unidos, arrastando todo o sistema financeiro. A cotação do ouro disparou refletindo uma busca por segurança, já que o clima era de aversão à risco. Quando a tensão no mercado diminuiu a cotação do ouro também caiu, os investidores passaram a liquidar ouro para aproveitar as oportunidades de compras baratas nas bolsas de valores.

Mas assim que o FED começou com o programa de injeção de liquidez nos grandes bancos, a cotação do ouro voltou a subir, ou melhor disparar, conforme podemos observar onde está marcado o número 2 no gráfico. Matou a charada? Os bancos, com "dinheiro de graça" do governo americano, apostaram em peso nos mercados futuros originando esta alta robusta desde 2009. Este movimento pode ser observado não só no ouro, como no petróleo, soja, cobre, prata, e entre outros.

Os mesmos bancos que quase acabaram com o sistema financeiro mundial, utilizaram o recurso do FED (que deveria ser repassado à economia) para apostar em mercados futuros de commodities. E pelo visto, estas instituições embolsaram lucros exorbitantes, já que no mercado futuro opera-se de forma alavancada.

O FED tem que assumir o erro da política monetária expansionista e achar um jeito de enxugar essa liquidez excessiva em poder de poucos bancos poderosos americanos e repassar este recurso para onde ele deveria ter sido entregue: a economia norte-americana. O resultado seria a solução de quase todos os problemas do país: geração de empregos, crescimento econômico e inflação sustentada que permitiria uma elevação na taxa de juros. Caso contrário, se nada for feito, os Estados Unidos podem estar caminhando para uma recessão dentro de um temido cenário de estagflação na economia.

O índice Dow Jones fechou a semana em forte baixa invalidando o martelo da semana anterior que poderia indicar fundo temporário. A resistência dos 11.6k atuou como forte barreira para impedir a continuação do repique de alta e o índice fechou colado no suporte dos 10.8k. As bandas de bollinger continuam fazendo movimento de abertura abrindo espaço para mais quedas, a média móvel simples de 200 períodos é uma das últimas esperanças para segurar esta queda no Dow Jones. Abaixo desta linha o mercado indica que a tendência é realmente de baixa para o médio e longo prazo.


Os mercados continuam penalizando também os índices europeus. As divergências de opiniões e atitudes protecionistas de alguns políticos estão revelando a incapacidade da União Europeia em resolver a sua primeira grande crise desde a criação do euro. Na Alemanha, o DAX fechou a semana com mais um forte candle de baixa, o pânico não diminuiu na Europa e já está na sua terceira semana consecutiva.


O sistema financeiro europeu pode estar passando por uma grave crise de confiança onde as ações de grandes instituições financeiras estão sendo duramente penalizadas nas bolsas de valores. Na França por exemplo, país com maior exposição bancária à dívida grega, o índice CAC está caindo em linha reta e já se aproxima do fundo da crise de 2008. O último suporte relevante antes de testar este fundo é a linha dos 2.9k.


Nos mercados emergentes a queda da semana foi menos intensa. O índice da bolsa de Xangai na China anulou o doji de indecisão da última semana e fechou colado nos 2.5k dentro de um canal de baixa no curto prazo que pertence a um outro maior de longo prazo.


No Brasil a queda da Bovespa também invalidou o martelo da semana anterior. O repique de alta foi barrado na linha dos 55k, região de resistência no curto prazo. O movimento apenas lateralizou os candles no gráfico semanal, empurrando-os para dentro da banda de bollinger. Há uma grande faixa para oscilação dos preços com poucas resistências/suportes relevantes, exatamente entre a região dos 57.6k e 47.8k, onde deverá continuar mostrando bastante volatilidade. Para médio e longo prazo a tendência de baixa se mantêm sem nenhuma alteração ou indicação de reversão.


O Brasil, e nenhum outro país do mundo, estará imune há uma desaceleração da economia mundial. A expectativa de crescimento para o país mudou e muitas empresas de consultorias e instituições financeiras já reavaliaram suas projeções deixando-as mais pessimistas. O banco UBS está projetando um crescimento de 3,1% em 2011, ante 3,9% da projeção anterior. O Goldman Sachs revisou sua previsão para 3,7% este ano e no último relatório Focus do Banco Central, a projeção para o PIB em 2011 recuou para 3,93%.

Além dos fatores externos o Brasil já mostra sinais de uma economia mais fraca, devido à política de aperto monetário do Banco Central. A produção industrial teve forte queda de 1,3% no mês de junho e o Índice de Atividade Econômica do Banco Central (considerado como uma prévia PIB), registrou sua primeira queda em 30 meses, caindo 0,26% em junho ante o mês de maio.

Diante do exposto, recomenda-se manter cautela no mercado de capitais. Algumas poucas empresas estão baratas na bolsa, o que permite uma leve exposição ao mercado. Mas o cenário econômico não é nada bom e mais quedas poderão acontecer nos próximos meses, gerando boas oportunidades de negócio para os investidores que conseguirem manter a disciplina e sangue frio.

10 comentários:

  1. Olá FI,

    "Não há como combater uma deflação com políticas monetárias expansionistas (baixa taxa de juros, quantitative easing, etc), pois a inflação irá subir ainda mais."

    Fiquei confuso. Deflação não é inflação negativa ? Como vai subir ainda mais a inflação ? Existe inflação em um quadro deflacionário ?

    abs

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  2. "Algumas poucas empresas estão baratas na bolsa, o que permite uma leve exposição ao mercado. Mas o cenário econômico não é nada bom e mais quedas poderão acontecer nos próximos meses, gerando boas oportunidades de negócio para os investidores que manterem a disciplina e sangue frio". Pode detalhar melhor essa parte? Seria o caso de realizar o prejuízo para tentar entrar num ponto de desvalorização ainda maior? Ou manter o B&H diminuindo o PM? Abs.

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  3. Major,

    Chegando agora ví que o artigo está errado, eu troquei estagflação por deflação (erro grosseiro! rsrs). Deflação é redução de preços ou inflação negativa como você mesmo disse. Estagflação é quando a inflação sobe e a economia não.

    Vou arrumar o texto assim vai ficar mais fácil de entender. Qualquer coisa pode perguntar.

    Abcs,

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  4. Kaschperl,

    Seria o caso de manter o Buy & Hold para quem já tem exposição em bolsa, aproveitando as quedas para comprar mais, porém com bastante cautela, nada de aportes pesados. Ou pra quem ainda não está exposto começar a abrir uma carteira de leve, sem muita exposição.

    Se tiver como dar prioridade ao fluxo de caixa será bom também, manter reserva disponível para as futuras oportunidades.

    Abcs,

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  5. Grato pela resposta, FI.

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  6. Olá, exelente post, um fato que me está chamando a atenção é o movimento da Csn com Usiminas, ontem foi declarado que a Csn aumentou um bocado sua participação, quanto deverá ser comprado para que realmente a Csn tenha direito no conselho de administração?? Parece que tem de comprar muitas ações ainda, se for teremos boas chances nos papéis;;
    Para a crise Européia creio que tem dois caminhos, ou unificam as dívidas, projeto que começa ser desenhado, ou vão ter de fazer o que todo mundo faz quando não se consegue honrar compromissos, perdão da dívida...
    Quanto a economia americana o pib nem negativou ainda e já falam em recessão, que DJ vai furar pra baixo o Subprime, o mundo vai se acabar, que exageiro!!!
    Ivan
    Ivan

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  7. Kaschperl,

    As ordens, estamos aqui pra ajudar

    Abcs,

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  8. Ivan,

    Acho que a intenção da CSN é ter uma cadeira no conselho, mais ou menos como o Buffet faz. Tendo uma cadeira no conselho você pode exercer sua influência dentro da empresa. E a CSN está fazendo isso de forma magistral, socando venda de um lado, em corretoras diferentes e comprando aos poucos na outra ponta.

    Também acho que um caminho seria unificar as dívidas (caminho e não a solução), mas a Alemanha não está afim de bancar a irresponsabilidade fiscal dos demais países.

    É por isso que não gosto muito do que se fala na mídia. Está cheia de profeta do apocalipse prevendo o fim do mundo, infelizmente desgraça vende notícia. Isso só vai mudar quando o ser humano parar de dar atenção pra essas bobagens que falam por aí...

    Abcs,

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  9. Eu continuo com a visão que o investidor de longo prazo, os acima de 10 anos, devem continuar fazendo aportes em boas empresas. Algumas empresas estão com preços bem chamativos para compra.

    Como é difícil saber quando chegou o fundo do poço, o negócio é aportes periódicas e esperar a valorização lá na frente.

    Abraço.

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  10. Jônatas,

    Eu utilizo uma estratégia própria. Mas esta é sem dúvida uma boa estratégia, simples mas funciona, acaba reduzindo o preço médio no longo prazo e se os dividendos forem reaplicados melhor ainda.

    Abcs,

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