quarta-feira, 24 de agosto de 2011

A inacreditável política econômica brasileira

Antes de começar a análise de hoje gostaria de fazer uma pergunta aos leitores do Finanças Inteligentes. Você emprestaria a alguém uma quantia em dinheiro cobrando juros de 8% ao ano? E ainda sem a necessidade de se provar qualquer garantia? Eu sei que parece uma proposta absurda mas é isso que o governo irá fazer. O ministro da Fazenda, Guido Mantega, anunciou nesta quarta-feira o novo programa de microcrédito, batizado de Crescer, que terá as menores taxas de juros do mercado, 8% ao ano (com excessão da TJLP para os "apadrinhados" do BNDES). A taxa anterior destinada à linha de microcrédito girava em torno de 4% a 5% ao mês. Logicamente o programa irá estimular o empreendedorismo e abrirá muitas oportunidades de negócio no Brasil, já que o custo do capital será baixo.

Mas as benfeitorias param por aí. A taxa de juros baixa será bancada pelos bancos públicos e pelo Tesouro Nacional (leia-se indiretamente o seu bolso). Os bancos públicos reduzirão por conta própria os juros para um patamar de 1,3% ao mês, a partir deste ponto o Tesouro cobrirá a redução das taxas para até 0,64% ao mês, fechando a conta em 8% ao ano. Ou seja, além de abaixar os juros para um patamar de rentabilidade crítica (já que o custo do dinheiro gira em torno de 12,50% ao ano para os bancos) o Tesouro irá bancar quase metade do custo de toda a operação do microcrédito.

Outro ponto preocupante é a facilidade na concessão do crédito, os tomadores do microcrédito não precisarão apresentar nenhuma garantia para receber o recurso. Esta linha de crédito é a mais problemática (maior risco de inadimplência) do mercado, pois a grande maioria das pequenas empresas não sobrevivem até os 3 anos de vida. A eficácia do microcrédito está muito duvidosa, o grande responsável pela falência das micro e pequenas empresas é a carga tributária sufocante. Se a intenção do governo é estimular o empreendedorismo (o que é uma ótima idéia), o primeiro passo seria realizar uma reforma tributária e não distribuir dinheiro no mercado sem pedir garantia.

A falta de planejamento dentro do governo está evidente. Ao mesmo tempo em que o Banco Central luta para combater a inflação apertando a economia, o ministro da Fazenda joga mais lenha na fogueira do outro lado impulsionando ainda mais o crédito na economia. De um lado pagamos caro (com o aumento da taxa selic) para o Banco Central cortar o crédito no mercado, e do oturo lado também pagamos caro pois estamos financiando a liberação de mais crédito no mercado. Dá pra entender?

Nos mercados de capitais não tivemos novidades. O índice Dow Jones continua refletindo a expectativa para a reunião de sexta-feira em Jackson Hole nos Estados Unidos, maiores informações sobre esta importante reunião estão disponíveis nos artigos: A espera por Bernanke e Wall Street compra QE3. Dow Jones fechou pelo segundo dia consecutivo na máxima e se aproxima da linha central de bollinger onde poderá encontrar certa resistência.


No Brasil, o índice Bovespa conseguiu realizar o teste na linha central de bollinger e fechou o dia com um doji de indecisão, reforçando o sinal de cautela para os próximos dias. A análise se mantêm a mesma no qual divulgamos ontem, com excessão do teste na linha central de bollinger que já foi feito hoje.

6 comentários:

  1. OLá, vai ter muita gente trocando de carro, mobiliando casa com estes empréstimos, ou melhor doações!!! Já estou montando minhas operações na ponta vendedora, já já os ursos saem da toca, amanhã te falo alguns papéis que estou vendo interessantes, pra ver sua opinião;
    Ivan

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  2. Posso estar enganado, mas o Ministro Mantega Burrino parece "casado" com a idéia do imposto mais perverso que existe para o povo - a inflação. Trocar Henrique Meirelles pelo Burrino foi a pior decisao do governo petista. Esta era a hora de fazer caixa, diminuir a dívida e atacar na área de educação e tecnologia. Santa Ignorancia! Abracos

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  3. Ivan,

    O que esperar de um governo populista com afinidades ao modelo de governância venezuelano? Está difícil...

    Ok!

    Abcs,

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  4. Anônimo,

    Apesar do Tombini estar fazendo o seu papel (tentando combater a inflação) ele não consegue peitar as maluquices do Mantega, o Meirelles pelo menos colocava algum respeito na casa.

    Estamos no melhor momento para cortar o déficit, reduzir impostos, limpar um pouco a liquidez exagerada no sistema e direcionar os investimentos mais para área de infraestrutura e educação. Mas o governo está fazendo exatamente o contrário...

    Abcs,

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  5. Sou absolutamente contra a grande maioria das politicas públicas do governo PT.
    Mas gostaria de esclarecer algumas coisas em relação ao microcrédito.

    Sou funcionário do BB e me tornei um dos responsáveis pelo microcrédito em minha agência, então tive que estudar a fundo como o microcrédito irá funcionar.

    O primeiro ponto de descordância, segundo os estudos do BB, é que esse tipo de crédito tem baixíssimo índice de inadimplência, como foi estudado em outros paises.
    Em relação ao funding da operação (que é de onde vem os recursos a serem emprestados) é o dinheiro dos bancos que ficam imobilizados no BC. Pra quem não sabe, os bancos são obrigados a depositar no BC um percentual da quantia total emprestada no mercado, que por sua vez não tem rendimento algum. Os bancos poderão usar cerca de 4% desse valor. E é melhor render 8% a.a. do que 0% a.a.
    Sobre o valor, o máximo a ser liberado por operação é de apenas 15 mil reais e com destinação comprovada do recurso, nada de dinheiro em conta. E se não bastasse tudo isso, o agente de crédito precisa concordar com o investimento e bla bla bla....
    Por último, o crédito só será concedido pra empreendimentos já em funcionamento.

    Mas ainda acho que seria mais útildiminuir a carga tributária pra incentivar o empreendedorismo.

    Espero ter ajudado...

    Parabéns pelo Blog, tenho lido todo dia. Muito bom mesmo!

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  6. Olá Roberto,

    Obrigado pelas contribuições!

    O problema da inadimplência ao meu ver é o índice de falência dessas empresas, das últimas vezes que consultei no Sebrae este número girava em torno de 60% ou mais até 3 anos de vida.

    Liberando o dinheiro do compulsório que fica no BC aí sim a operação pode trazer uma rentabilidade, essa informação é nova pra mim.

    Acho que o governo fez uma propaganda errada ao anunciar o microcrédito. Deu a entender que iriam incentivar a criação de micro e pequenas empresas, mas liberando apenas R$ 15.000,00 e somente para empresas em funcionamento realmente não vai ajudar muito.

    Concordo com você. Aliviando a carga tributária seria muito mais eficiente.

    Muito bom suas informações. Participe sempre que puder!

    Abcs,

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