quarta-feira, 31 de agosto de 2011

Lá se vai a autonomia do Banco Central

O Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central acaba de surpreender o mercado ao anunciar um corte agressivo de 0,50 p.p. na taxa selic. As explicações do Banco Central para este corte na taxa de juros estão focadas no cenário internacional. "O Copom considera que houve substancial deterioração, consubstanciada, por exemplo, em reduções generalizadas e de grande magnitude nas projeções de crescimento para os principais blocos econômicos."

O Copom ainda declarou que "O Comitê entende que a complexidade que cerca o ambiente internacional contribuirá para intensificar e acelerar o processo em curso de moderação da atividade doméstica (... onde está havendo redução da demanda? nos shoppings?), que já se manifesta, por exemplo, no recuo das projeções para o crescimento da economia brasileira (... recuo do crescimento está mais vinculado à queda de mercado no cenário externo e não interno). Dessa forma, no horizonte relevante, o balanço de riscos para a inflação se torna mais favorável. A propósito, também aponta nessa direção a revisão do cenário para a política fiscal. (... agora sim! apareceu a palavra mágica, política fiscal!).

Dois dias antes da decisão do Copom, o governo federal anunciou que irá aumentar a meta do superávit primário em R$ 10 bilhões conforme mencionado no artigo "O efeito superávit". Logo após o anúncio a presidente Dilma Rousseff declarou publicamente que gostaria de ver os juros caindo, assim como o ministro da Fazenda, Guido Mantega. Agora está explicado porque o governo elevou a meta do superávit dias antes da decisão do Copom, para forçar uma queda na taxa de juros mesmo com o mercado de trabalho fortemente aquecido, reajustes salariais nos próximos meses, inflação de serviços elevada e demanda aquecida.

Este fatores deveriam ser levados em consideração por uma política monetária séria e autônoma. Para termos uma idéia do patamar de inflação no Brasil, o acumulado do IPCA em 12 meses está em 6,87%, já o acumulado do IGP-M está em 7,99%, isso mostra uma lacuna enorme entre oferta e demanda no país que força uma alta contínua nos preços. Vale a pena lembrar também que o Banco Central está totalmente fora da meta de inflação (atualmente em 4,5% ao ano, com um limite máximo de 6,5% ou mínimo de 2,5%).

Está evidente que o Banco Central perdeu sua autonomia para combater a inflação, dando lugar à política populista do governo federal, pois mesmo com uma desaceleração no cenário externo o nosso mercado ainda está muito aquecido, movido principalmente pela demanda do consumidor interno e não pela atividade industrial. Com esta decisão o Banco Central corre sérios riscos de fechar o ano fora do limite máximo da meta inflacionária, atualmente em 6,5%.

O movimento na Bovespa parece ter antecipado esta decisão do Copom, o índice fechou na máxima do dia com volume acima da média mirando um teste nos 57.6k. Este pivot de alta no curto prazo ainda não altera a tendência de médio e longo prazo no Ibovespa, porém se o Banco Central mantiver sua política expansionista a bolsa de valores poderá ser o refúgio dos investidores para protegerem o capital de um cenário de inflação elevada.


Nos Estados Unidos o índice Dow Jones conseguiu passar pela resistência em 11.6k e confirmar pivot de alta no curto prazo, dando forças para o movimento de repique e poderá testar em alguns dias a resistência em 11.8k.

7 comentários:

  1. Como sempre seus textos e analises são ótimos, leio sempre as atualizações, me ajudam e muito!
    Bom trabalho.

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  2. Ainda não somos desenvolvidos, mas já estamos criando a nossa bolha.
    Lamentável essa decisão de baixar os juros. Acredito que o IPCA cederá nos próximos meses, mas no começo do próximo ano vai desandar. Como Jorge Bem canta:
    Prudência e dinheiro no bolso
    Canja de galinha
    Não faz mal a ninguém...

    Mas tudo tem um lado bom. Se pegar fogo, contratam um bombeiro que não seja do PT.

    Abraços,
    Marcos

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  3. Berserker,

    Obrigado! Fico feliz em estar ajudando com o pouco do que sei

    Abcs,

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  4. Marcos,

    O que preocupa é esta evidência de que o Tombini (presidente do BC) será apenas um fantoche do governo federal. Infelizmente acho que vamos correr o risco de perder o controle da inflação já no final deste ano e início do ano que vem, nesse caso será muito pior para a economia no médio e longo prazo, onde o BC terá de atuar com a mão dobrada pra evitar um descontrole maior.

    Pelo menos na época do Meirelles ele deixou claro que quem mandava no BC era ele. Já o Tombini...

    Abcs,

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  5. Prezados,

    A sinuca é boa: cortar, manter? Ótica interna ou externa? Cenário deteriorou, ou deteriora há tempos. Aqui viemos subindo enquanto os desenvolvidos baixavam ou mantinham. Internamente, mercado aquecido sem alivio das pressões. Será que corte de juros, significa alta do mercado acionário? Como o mercado pode subir se lá fora piorar? O corte não foi em virtude da piora das condições externas. A ingerência politica se faz presente nessa decisão. O ALCOOL NÃO ESTA 1 REAL NA BOMBA MAIS 2. CAFÉ FINO(ARABICA) SUBIU 20% EM AGOSTO. Sei não, quero ver daqui 4 meses, mas truco que o Brasil, não vai ter que esquentar a cabeça com inflação again. DIA 8, super Obama anunciou que vai soltar pacote ( tá na moda)!

    ABS A TODOS

    Samuel

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  6. Samuel,

    A "desculpa" do Banco Central é o cenário externo, parece que estão prevendo uma desaceleração forte nas economias desenvolvidas. Mas não dá pra fazer política monetária tirando o olho do peixe e focando só no gato. Pra mim já ficou claro, quem manda no BC não é o Tombini, a decisão foi política e não técnica.

    Por falar no alcool ele vai subir denovo no final de ano, aliás já está subindo na safra. Se a demanda não desaquecer este corte na taxa de juros vai sair caro pra nós. A bolsa é a grande beneficiada pelo corte na taxa selic, porque consegue competir com a renda fixa. Mas temos que ter cautela nesse momento de reviravolta. Vamos monitorando

    Abcs, bons negócios

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  7. putz, vc tb tá nessa ladainha de perda de autonomia do BC. Fala sério!!!

    O "mercado" e os rentitas(me incluo) reclamam porque não querem perder nenhum centavo com investimentos. Mas não somos um país de rentitas, acho que uns 80% da população nem sabe o que é isso.

    Não compartilho dessa ideia que corte dos juros aumenta a pressão sobre a inflação. Mas agora com o desaquecimento prologando da economia mundial, fica claro que o Brasil será atingindo, ninguém sabe como. Com esse cenário a queda dos juros foi mais do que bem-vinda.

    Em tempos de crise não podemos apenas "olhar" para o nosso umbigo!

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