sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

Mudança de postura do Banco Central


O resultado extremamente fraco do PIB brasileiro no terceirotrimestre de 2012 abriu espaço para o mercado financeiro refazer sua projeção para a taxa Selic em 2013. Grande parte dos economistas, equipes de analistas dos bancos/corretoras e consultorias especializadas reduziram suas projeções para a taxa básica de juros (ao redor de 6,50% a.a. no fechamento de 2013), acreditando no potencial de corte provocado pelo baixo crescimento da economia brasileira.

Esta visão também compactua com a preferência do governo federal em dar ênfase às políticas expansionistas, principalmente no que se refere à expansão do crédito e aumento do consumo da população. Ontem os juros futuros despencaram na BM&F, refletindo este entendimento do mercado. O alvoroço foi tão grande que houve recorde de negócios no contrato futuro de taxa média de depósitos interfinanceiros de um dia (DI1).

Mas a última declaração do presidente do Banco Central mostrou outro cenário completamente diferente daquele que o mercado espera. Alexandre Tombini disse que a última ata do Copom não está desatualizada, apesar de ter sido elaborada antes da divulgação do PIB do terceiro trimestre.

"A ata está mais atual do que nunca", disse Tombini. "A estratégia adequada para trazer a inflação para a meta é manter a estabilidade das condições monetárias por um período suficientemente prolongado.”

Esta declaração contraria aquela possibilidade de que o Banco Central não teria incorporado o fraco desempenho do PIB divulgado dois dias depois do Copom. Além disso mostra um erro por parte da minha análise realizada nos comentários do post de ontem (“A vez do setor portuário”), pois a minha expectativa também era de novos cortes na taxa básica de juros.

Tombini fez questão de reforçar a “estabilidade das condições monetárias por um período suficientemente prolongado”. Isso significa que o Banco Central não espera realizar novos cortes na taxa básica de juros, mesmo com a economia brasileira patinando (crescimento abaixo da média mundial).

Mas por quê? O governo não comprou (e venceu) a briga com o mercado para reduzir os juros? Porque não reduzir mais um pouco agora que as condições econômicas são favoráveis (dentro da ótica do governo)?

Alguns podem dizer que este motivo é a própria inflação que não da trégua. O IPCA de novembro fechou em 0,60% (nível mais alto desde abril deste ano) e superou as estimativas do mercado. Mas o Banco Central não se preocupou com ela (meta de inflação) nos últimos dois anos e vai se preocupar agora? A inflação de 2011 estava bem mais forte e mesmo assim o Banco Central continuou cortando os juros. Será que não existe outro motivo?

Existe sim e ele está no mercado de trabalho. Este talvez seja o principal fator responsável pela mudança de postura do Banco Central. A taxa de desemprego caiu tanto, que o nível ficou abaixo do ideal para estimular novos investimentos e agregar competitividade ao setor produtivo.

A queda do desemprego também provoca aumento dos salários. Com menos profissionais qualificados disponíveis no mercado de trabalho, as empresas precisam elevar os salários para manterem os empregados na casa ou realizarem novas contratações. A Organização Mundial do Trabalho divulgou um relatório mostrando que os salários no Brasil cresceram mais que o dobro da média mundial em 2011.

Nos últimos 3 anos, a média anual de crescimento do salário real no Brasil superou a média mundial . No mundo, os salários cresceram 1,3% em 2009 (no Brasil cresceu 3,2%), 2,1% em 2010 (no Brasil cresceu 3,8%) e 1,2% em 2011 (no Brasil cresceu 2,7%). Grande parte deste descompasso refere-se à nova política de valorização do salário mínimo.

Custos trabalhistas altos demais inibem o investimento e deixam os empresários na defensiva. Neste caso, não adianta o Banco Central impulsionar ainda mais a demanda (via corte de juro), se a outra ponta da balança (o lado da oferta) está com problemas.

Para completar, o aumento da renda no Brasil elevou o nível de endividamento da população, mas não, em mesmas proporções, o nível de investimento. Fato resultante da baixa educação financeira. Apesar de administrável, o Banco Central parece não estar tão confortável com o nível de endividamento e inadimplência da pessoa física, que mostra relutância em cair.

No mercado de capitais a semana foi bastante movimentada. Volatilidade alta provocou muito sobe e desce nos pregões, mas “nos finalmentes” conseguimos fechar o semanal colado na máxima com um bom candle de alta após o doji de indecisão colado na LTA de 2008.

Mercado de ações brasileiro

O índice Bovespa começou a trabalhar rompimento da linha central de bollinger. A confirmação deste rompimento poderá jogar o índice de volta para os 60k (zona de forte resistência psicológica).

Nos Estados Unidos o índice Dow Jones também fechou a semana com uma boa alta se aproximando da linha central de bollinger. Segue bem armado para romper esta referida linha e testar a resistência dos 13.3k.

Mercado de ações norte-americano
  
No principal mercado europeu o índice DAX (Alemanha) também fechou a semana em alta confirmando rompimento da LTB que vem do topo histórico. Está próximo de testar a região dos 7.6k (principal barreira abaixo do topo histórico) e poderá sofrer pressão vendedora na próxima semana.

Mercado de ações alemão

Na China a bolsa de Xangai fechou a semana em forte alta configurando movimento de bear trap sobre a perda da linha de suporte forte em 2k. Houve forte movimento de recuperação nesta semana, limpando o terreno para manter o movimento de alta até chegar na linha central de bollinger.

Mercado de ações chinês

Bom pessoal, vamos encerrando por aqui nossas atividades na semana. Os principais mercados começaram o mês de dezembro presenteando os touros com uma pequena demonstração do rally de natal. Aos que se aventuraram na compra, recomenda-se manter as posições com proteção de lucro. Aos que ficaram de fora, mas que desejam entrar, ainda há espaço para subir (pois como disse, passando pela linha central de bollinger podemos testar os 60k), porém o risco agora é um pouco maior. Bom descanso a todos e até segunda!

23 comentários:

  1. Cortar a taxa de juros não teve o resultado que o governo esperava, tanto que a capitação de recursos para a poupança não para de avançar. A verdadeira classe média brasileira está preocupada com a crise econômica e não está nem um pouco a fim de sair se endividando. O governo precisa diminuir a carga tributária e transferir parte dos seus ganhos para a população que é quem de fato faz a economia girar.
    Estou aprendendo bastante com suas analises!

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    1. O governo está perdido, está pagando o preço da irresponsabilidade de abrir crédito em um país de pouca educação financeira...não me faltam exemplos práticos, as pessoas chegam em uma concessionária e fazem contas imediatas " dá pra pagar a prestação" , hoje dá e no ano que vem??
      Viram ai os estados já se mechendo pra subir o Icms na eletricidade?? No final para os consumidores não dará em nada.
      Ivan

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    2. Olá Anônimo,

      Obrigado! Também aprendo muito com vocês. O governo achou que mexendo na taxa de juros resolveria o problema de competitividade da economia. Tentou o câmbio e também não deu certo. Estavam olhando pro lado errado. Mas pelo menos a queda e posterior manutenção dos juros abaixo dos dois dígitos já é alguma coisa. Mas agora o governo precisa trabalhar, criar condições de negócios favoráveis para o capital se desprender do mercado financeiro e irrigar a economia. Acho que essa captação da poupança é uma mistura da baixa educação financeira da população (não sabem onde investir) e medo de colocar o dinheiro para trabalhar, em outras palavras, receios quanto ao empreendedorismo.

      Abcs, bons investimentos

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    3. Ivan,

      O Banco Central esperava uma redução na inadimplência, o que acabou não acontecendo, mesmo com a manutenção das taxas de desemprego extremamente baixas. Perceberam que tem algo de errado nessa conta e podem estar reavaliando os reflexos da política monetária nestes últimos 2 anos. Bom, pelo menos eu acho que devem estar fazendo isso, mas vai saber né rsrs..

      Abcs, boa semana

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  2. FI,
    Vc é economista?
    Parabéns pelo post.

    Voltando ao assunto Juros:
    "está confirmando a sinuca de bico que postamos aqui a um tempo atrás".

    Se reduzir demasiadamente os juros, além do problema da falta de MO, forçaremos a retirada, de dinheiro gringo que está aqui ainda aproveitando as taxas. E como vc bem sabe, nessa retirada o nosso famoso US$ subirá muito.....ou não?
    Vide 2008, quando eles tiveram que cobrir posições lá fora!

    O custo Brasil faz toda a diferença nessa hora.

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    1. Como todos sabem, o investidor/especulador estrangeiro, atua fortemente nos índices futuros da bmf, até pelo fato de terem no ibov cerca de R$200 bilhões em ações;
      vejam abaixo, como está a fomação das garantias exigidas pela bmf para atuar na bmf:
      http://www.bmfbovespa.com.br/shared/iframe.aspx?altura=400&idioma=pt-br&url=www.bmf.com.br/bmfbovespa/pages/boletim1/bd_manual/Garantias1clearingDerivativos.asp

      No primeiro item, títulos públicos federais, vemos que é a maior posição dessas garantias, perfazendo um total de R$100.620.686.174,34, o quê corresponde a mais de 92% de todas as garantias.

      E qual o raciocínio:
      "por exemplo, no ind. fut. cheio, os inv. estrangeiros, movimentam mais de 60% de todo o montante, o quê existe uma margem muita alta".

      Se por ventura, resolverem sair daqui, devido ao efeito Dilma......, sabem o quê podem acontecer no mercado como um todo, né!!!

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    2. Anônimo 1,

      Obrigado! Não sou economista, minha formação é na área administrativa. Apesar de tudo gosto bastante de economia.

      Com certeza. Uma fuga de capital do Brasil "quebraria" nosso crescimento econômico e o Banco Central não tem bala na agulha pra segurar o câmbio se os estrangeiros baterem em retirada. Receita para o desastre. Inflação alta, crédito baixo, investimentos evaporam, dívidas externas explodem pra cima, bancos se fecham (para se proteger), indústria torna-se obsoleta e paramos no tempo (perdemos aí alguns anos de crescimento).

      Abcs, boa semana

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    3. Anônimo 2,

      Boa! Legal estes dados são importantes.

      Não havia lido o seu comentário ao responder ao Anônimo 1. No campo econômico seria basicamente aquilo que escrevi logo acima. Já no mercado de capitais seria bastante simples (e acho que você concorda comigo): entramos em crash. E aquele de 2008 foi só uma demonstração do estrago que os estrangeiros fazem quando pulam fora do mercado. Aqui não tem liquidez pra suportar o tranco, alguns fundos, inclusive, quebrariam.

      Abcs, bons negócios

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    4. FI,
      Se vc verificar o grafo do ibov, essa queda começou lá atrás quando o mantega "resolveu" taxar o $$ estrangeiro, via IOF;
      Depois disso o mercado subiu/desceu/subiu/desceu; até a eleição da "companheira" Dilma....
      Quando todo mundo "achava" que ela ia reduzir os juros, ela fêz o contrário, subiu, isso em janeiro/11.........depois, como prometido na campanha, reduzir drasticamente até 7,25%aa;

      Portanto, o quê tá pegando na nossa economia, é o efeito Dilma/mantega.

      Como vc bem sabe, investidor pensa lá na frente, se por acaso, "ver" terão problemas, eles não entram......e sem dinheiro deles, infelizmente nossa bolsa não vai a lugar algum!

      Mais ai tem um dilema:
      "Eles(I.E.), estão entrando em alguns segmentos, por exemplo, saúde, já compraram a amil, por quase 10 bilhões......"
      Prá eles é mais fácil, comprar empreas, do quê entrar em bolsa!

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    5. Anônimo 2,

      Exatamente. Investidor detesta insegurança, instabilidade, mudanças constantes de regras, etc ("patrocinado" pelo Mantega). Isso gera incerteza. Nós, numa situação de economia emergente deveríamos fazer o contrário, oferecer um prêmio maior ao investimento e condições favoráveis/estáveis de negócio. Esses casos esporádicos (investimento direto, compras de empresas, etc) sempre irão acontecer, mais o grosso do dinheiro foi pra outro lugar. Veja por exemplo o desempenho da bolsa do México. Bastou o governo gerar boas condições de negócio para atrair os investidores. O mercado cresceu absurdamente por lá, as empresas se capitalizaram e o acionista saiu beneficiado com a valorização das ações.

      Abcs,

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    6. José,
      Vc quer comparar o chile com o brasil, esqueça, lá é um país SÉRIO é que funciona!

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  3. Caro Finanças inteligentes,

    Transcrevo abaixo um trecho do texto acima:

    Custos trabalhistas altos demais inibem o investimento e deixam os empresários na defensiva. Neste caso, não adianta o Banco Central impulsionar ainda mais a demanda (via corte de juro), se a outra ponta da balança (o lado da oferta) está com problemas.


    Todos tem ultimamente comentado na diminuição do investimento. E quem é esse investidor. Todos comentam sobre os empresários e não vejo nenhum comentário sobre o pequeno acionista que participa do capital das empresas abertas.

    Principalmente pelo fato de acionista atualmente ser pejorativo. Tivemos até recentemente um comentário no setor elétrico pejorativo sobre o mesmo.

    Imaginemos o acionista que aplicou na megacapitalização da petrobrás e encontra a ação nos 19,00.

    Ou aquele que investiu em vale e apareceram uma série de cobranças de impostos e criação de novas taxas.

    Ou ainda o acionista, novamente êle, que adquiriu ações de bancos e viu a pressão sobre as instituições sobre os lucros absurdos.

    Ou então sobre o setor elétrico, considerado antes como defensivo e agora no meio de uma briga de redução de tarifas.

    Não consideram a importância do pequeno acionista no mercado acionário. Pois bem a importância se vê no limitado tamanho de nosso mercado, bem como nas diversas ocasiões em que empresas deixaram de abrir o capital no presente ano em função de condições de mercado negativas.


    Se o tal do investimento que todos mencionam como importante é realmente tão importante, talvez seja o momento de revisarem o papel do acionista, se importante ou não numa economia.

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    1. Anônimo,

      Muito bem lembrado. Nossa cultura aqui é atrasada. O governo parece que não reconhece a importância enorme do mercado de ações na economia. É a forma mais barata de captação de recursos às empresas. Mas o que esperar de um governo com raciocínio limitado, alvo de chacotas no cenário externo? Lembra quando há pouco mais de 2 anos atrás o ministro Mantega implantou IOF sobre entrada de capital estrangeiro no mercado de ações? A "desculpa" do governo, para implantar o novo tributo, era pra evitar a formação de uma bolha no mercado de ações. Foi a partir daí que os investidores começaram a olhar com bastante desconfiança para o nosso mercado. Resultado é que depois deste período só andamos pra trás e os demais emergentes continuaram crescendo e captando recursos dos estrangeiros.

      Abcs, boa semana

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    2. FI,

      O investidor brasileiro é conservador, já levou tantas ferradas por ai...vide: BB, petrobrás, telebrás(lá atrás), siderbrás, milk(se esqueceu), paranapanema(lá atrás).....

      E, investidor tem memória, e parece que brasileiro tem ela(memória) boa. Preferem, empatar com a inflação(em algumas aplicações, perdem prá ela), do quê entrar em verdadeiras arapucar armadas prá pegar os minoritários......QUE CALADO TÁ ERRADO!!!
      Ou não?

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    3. Acho que o investidor que entra despreparado hoje na bolsa tem alta probabilidade de sair machucado pra nunca mais voltar (pra começar a imagem que as pessoas, de fora do mercado, tem da bolsa de valores é de chorar). Não tem dinheiro novo (pessoa física) no pregão, então basicamente o que acontece é briga de tubarão o dia inteiro. Quando não estão brigando por posições estão armando estas arapucas pra pegar o pouco do que restou da pessoa física do mercado. É assim que eles sobrevivem. E se o mercado não apresenta a liquidez do dinheiro novo e inexperiente (pessoa física), estes players dificilmente irão encarteirar posições pois não terão pra quem desovar depois.

      Muita gente saiu machucada da bolsa nestes últimos 4 anos e dificilmente voltarão operar ativamente. A maioria que não perdeu dinheiro/não mudou de segmento e resolveu ficar no mercado está adotando uma postura passiva (diversifica os investimentos e pronto, você minimiza o risco à troco de uma rentabilidade baixa).

      Agora acho que os poucos que não desistiram estão sendo recompensados pelo aprendizado e desenvolvimento de uma boa estratégia operacional (seja ela trading, stock picking, etc). Não é difícil superar o benchmark do mercado, pelo contrário, para um investidor pessoa física que não tem um estatuto com centenas de páginas à respeitar, é relativamente fácil superar o benchmark do mercado. O difícil é superar traumas passados, reconhecer a superioridade e dinâmica do mercado, gerenciar (e aceitar) o risco e seus efeitos psicológicos.

      Abcs, bons investimentos

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    4. Em linha com os comentários, o saldo de PF é o mais baixo

      http://www.dadosdabolsa.com/Fluxo%20Bovespa

      A Bovespa devia conversar com o governo.

      Seria esse o motivo daquela bolsa americana desistir do Brasil?

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    5. Sir Income,

      Acho que eles acabaram desistindo, primeiro devido aos custos e segundo devido a baixa educação financeira da população. Brasileiro não tem cultura de investir na renda variável. Além disso o nosso mercado é muito atrasado em relação aos produtos de investimento oferecidos em outras praças. Aqui tem potencial para crescer, mas ainda estamos engatinhando.

      Abcs, boa semana

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  4. Olá FI, será que hj teremos um belo Bear-trap na Elpl4?? Se perder os R$ 13,20 e voltar será uma bela indicação que os players estão encarteirando ou se for embora distribuindo, qual seu palpite??
    Ivan

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    1. Ivan,

      Fiquei monitorando a ELPL4 na sexta-feira mas não senti firmeza pra entrar. Estou de olho nos 60 minutos dela. Continuo de olho pra hoje, vontade é o que não falta pra tentar pegar ali nos 13,20. Acho que pode dar um caldo. Acho difícil algum player estar encarteirando ELPL4 no meio de tantas incertezas, acho que nem os insiders pularam nela ainda. Mas pode dar um trade.

      Abcs, bons trades

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  5. FI e o que você me diz da PTR4 neste momento? Abraços e parabéns pelas análises

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