quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

A desindexação do CDI


O descolamento entre o CDI (Certificado de Depósito Interbancário) e a taxa Selic (Sistema Especial de Liquidação e Custódia) tem chamando atenção do mercado financeiro nos últimos meses. Historicamente os dois indicadores sempre andaram juntos, basicamente apresentando os mesmos percentuais. Esta situação mudou no curto prazo.

Em novembro de 2012 o CDI fechou em 0,54% enquanto a Selic atingiu 0,57%. No mês passado o CDI caiu para 0,53% enquanto a taxa Selic subiu para 0,59%. No mês de janeiro, há exatos dois dias atrás, a diferença entre CDI e Selic subiu para 0,17 pontos percentuais. Uma diferença relevante que pode indicar o início de um movimento de desindexação entre as taxas.

CDI são títulos emitidos no mercado interbancário nas operações de empréstimos de curtíssimo prazo entre os bancos. Uma instituição financeira com sobra de caixa, naquele determinado momento, pode emprestar recursos para outra instituição com necessidade de compor o caixa, naquele determinado momento. A taxa utilizada nestas operações de empréstimos interbancários é respaldada (praticamente a mesma) na taxa Selic, definida pelo Comitê de Política Monetária do Banco Central.

Acontece que no ano passado o Banco Central adotou uma série de medidas para aumentar a liquidez dos bancos, entre elas está a redução no depósito compulsório (obrigação dos bancos depositarem no Banco Central uma pequena parte de suas captações no mercado). Estas medidas colaboraram para reduzir as transações interbancárias, pois os bancos passaram a ficar com um maior volume financeiro em caixa.

Em 2006 eram realizadas mais de 100 operações por dia no mercado interbancário. Ano passado a média de operações diárias caiu para 20. A queda no volume de transações no mercado interbancário, incentivada pelo excesso de liquidez, pode ser um dos planos do governo para permitir a desindexação do CDI quanto à taxa Selic.

Com um crédito mais barato e farto no mercado interbancário, a taxa de juros para empréstimos às pessoas físicas e jurídicas poderiam, em tese, cair. O problema é que as taxas de juros não estão caindo, na mesma intensidade, para o tomador de empréstimos nem com a redução drástica da taxa Selic.

Na outra ponta, os investidores de aplicações conservadoras estão correndo o risco de receber menos por emprestar dinheiro às instituições financeiras, enquanto as mesmas podem utilizar este recurso captado para fazer operações de arbitragem (literalmente criar dinheiro) entre CDI e taxa Selic (títulos públicos).

O baixo volume de negócios no mercado interbancário também é perigoso, pois torna-se relativamente fácil manipular operações para favorecer o descolamento (redução) do CDI com a taxa Selic.

Atualmente cerca de 1,5 trilhão de títulos no mercado financeiro estão atrelados ao CDI. A maior parte destes títulos são CDBs e debêntures. Como o Banco Central não está “conseguindo” (em tese, esta é uma das funções da autoridade monetária) manter o juro de um dia o mais próximo possível da taxa Selic, recomenda-se ao investidor evitar aplicações atreladas ao CDI devido ao risco da desindexação. A melhor opção para este investidor conservador é comprar LFTs (estes sim, indexados pela taxa Selic) diretamente do Tesouro Nacional.

No mercado de capitais os índices acionários mostraram retomada da força compradora, motivada pelos números de pedidos de auxílio-desemprego nos Estados Unidos que caíram para 37 mil na semana passada, atingindo 335 mil solicitações. O número veio bem melhor do que o esperado pelo mercado, (esperava-se um recuo para 369 mil). As construções de novas casas avançaram 12,1% em dezembro. O dado também veio acima do esperado pelo mercado. Com isso o índice Dow Jones conseguiu subir e se aproximar da forte resistência em 13.6k.

Gráfico da bolsa dos Estados Unidos
  
No Brasil o índice Bovespa também subiu acompanhando o movimento de Wall Street. Paramos colado na principal resistência de curtíssimo prazo (região dos 62.2k, topo da zona de congestão melhor visualizada nos gráficos intradiários). Caso esta linha seja rompida amanhã o índice pegará impulso para atacar com mais força a resistência dos 63.4k, aumentando as possibilidades de rompimento.

Gráfico da Bolsa do Brasil

7 comentários:

  1. WT, vejo o aumento do spread entre a SELIC e o CDI como uma consequência natural do avanço do SPB. Hoje, a liquidez no CDI é muito reduzida em comparação ao passado principalmente pela maior capacidade dos bancos em monitorar através do sistema de pagamentos seus saldos operacionais em tempo real, reduzindo a necessidade de recorrer ao interbancário para não "dormirem" descobertos. Se por um lado isso mostra uma distorção do mercado em aceitar ativos mais arriscados com remuneração menor do que ativos livres de risco, por outro comprova que o banco central já há algum tempo tem fundamentos para reduzir a SELIC meta, como tem feito nas últimas reuniões do COPOM.

    De uma maneira mais pontual, vejo que as mudanças do BC em relação ao compulsório realmente foram o gatilho para o maior descolamento das taxas que estamos vendo. A liquidez dos pequenos o governo garantiu, primeiro diminuindo o compulsório, aumentando imediatamente a liquidez do sistema e depois cortando progressivamente a rentabilidade do compulsório, o que diretamente beneficiou a carteira dos pequenos e médios e indiretamente reduziu a necessidade destes em recorrer ao CDI. Nesse cenário vejo a queda da paridade CDI/SELIC como manifestação das forças de oferta e demanda do mercado, pois a oferta existe com folga, e a demanda natural foi reduzida, sendo aumentada até por esta possibilidade de arbitragem sem risco proporcionada pelo nosso Tesouro Nacional, pois do contrário, a demanda no CDI seria possivelmente menor.

    Como investidor porém, ainda vejo vantagem em manter meus investimentos de curtíssimo e curto prazo em CDI, e não em LFT, pois a liquidez do sistema da CETIP é maior (diária) do que a da SELIC (que só existe nas quartas-feiras). Porém, para quem tem o espectro de médio e longo prazos, a vantagem dos títulos é clara.

    Um abraço.

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    1. Neomalthusiano,

      Sim, também é uma consequência do Sistema de Pagamentos Brasileiro e da consolidação de algumas instituições financeiras. Hoje somos basicamente formados por 3 grandes players nacionais (Bradesco, Itaú e BB) e duas grandes instituições estrangeiras (HSBC e Santander) mas que não chegam a incomodar tanto as operações destes 3 players. Eu acho que o Banco Central acertou em cheio ao reduzir o compulsório pois ano passado o mercado estava começando a ficar pesado para os pequenos com a redução do spread bancário e algumas intervenções do BC. Mas acho que a autoridade monetária não poderia permitir tamanho descolamento entre as taxas, pelo menos neste momento, pois há uma tonelada de ativos indexados pelo CDI no sistema financeiro.

      Se este ritmo de rentabilidade menor (do CDI em relação à taxa Selic) se manter/piorar nos próximos meses, o mercado certamente vai chiar e podemos ter uma queda de confiança no CDI. Isso é muito perigoso porque o mercado gira basicamente em torno do CDI, não só em investimentos, como nos reajustes de contratos, empréstimos, etc. A confiança é a base que sustenta estes ativos e operações no sistema. O governo deveria, primeiramente, oferecer condições (uma boa dica você já deu: melhorar a liquidez dos títulos públicos. ou, quem sabe também, reduzir as cobranças das taxas e tributos) para que parte deste fluxo de capital, tão concentrado em DIs, procure outro indexador/fundo, para que num segundo momento, os efeitos desta queda de confiança sejam minimizados.

      Vamos ter que monitorar o DI mais de perto e torcer para que este descolamento não piore, pelo menos neste momento.

      Abcs, bons investimentos

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  2. Bom, isso quer dizer que CDB's e qualquer fundo ligado à CDI irão morrer.

    Onde iremos investir?

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    1. Pobretao,

      Por enquanto é apenas um sinal de alerta, mas o investidor deve ficar de olho na rentabilidade do CDI daqui pra frente. Se este descolamento se manter será um bom sinal para procurar outros indexadores no sistema.

      Ainda assim uma boa opção no momento para curto prazo são as LCIs, que contam com a grande vantagem de isenção de imposto de renda. Basta procurar títulos de liquidez melhor (1 a 6 meses), caso ocorra alguma "mudança" você não ficará engessado por muito tempo na LCI. Debêntures estão aparecendo mais e sendo indicadas como boas opções, mas acho bem mais arriscado. Entre investir em debêntures e comprar ações de boas empresas, ou mesmo um ETF de dividendos, prefiro a segundo opção. Fora isso o investidor tem a opção de comprar títulos públicos e conseguir uma rentabilidade melhor (o prazo precisa ser maior também, preferencialmente carregando o título até o vencimento) do que a dos fundos DI, CDBs, LCIs, etc. Outro ponto muito importante que irá fazer diferença no mercado de renda fixa brasileira é saber operar títulos pré-fixados. Estes costumam apresentar boas oportunidades de compra quando o mercado exagera nas projeções de elevação da taxa básica de juros, normalmente acontecem no final do ciclo de aperto monetário do Banco Central. A última vez que isso aconteceu foi no segundo trimestre de 2011. As taxas pré-fixadas estavam sendo negociadas com rendimentos bem elevados, tanto nos títulos com vencimentos de curto prazo, quanto nos títulos com vencimentos de médio e longo prazo.

      Abcs, bons investimentos

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  3. FI -- Profissa os seus textos hein?! Parabéns ... bom ficar alerta.

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    1. Que nada... São uns rabiscos rsrs..

      Obrigado!

      Abcs, bons investimentos

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