quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

FED não irá interromper o QE3


A ata da última reunião do Comitê Federal de Mercado Aberto, divulgada hoje, assustou a mídia que faz a cobertura, muito amadora por sinal, do mercado financeiro. A queda de quase 2% do índice Bovespa nesta quarta-feira foi justificada pelo conteúdo que consta nesta ata.

O documento mostra que uma parte dos seus 19 membros (ou seja, não é uma avaliação unânime e nem da maioria, pois a política manteve-se inalterada) considera desacelerar ou interromper a compra de ativos antes de uma recuperação no mercado de trabalho norte-americano, devido aos custos desta operação.

Observe este trecho retirado da ata: “uma contínua avaliação de eficácia, custos e riscos de compra de ativos pode levar o comitê a reduzir ou interromper suas compras antes de julgar que tenha ocorrido uma melhora significativa na perspectiva para o mercado de trabalho”.

O que isso quer dizer? Em primeiro lugar esta é uma referência à Operação Twist, programa que consiste basicamente na venda de títulos de curto prazo (em carteira no Banco Central) e compra de títulos de longo prazo, que por sua vez estava com prazo para terminar no final do primeiro semestre de 2012.

A eficácia da Operação Twist é relativamente baixa. Todos os meses o FED troca cerca de 45 bilhões de dólares em títulos de longo prazo por títulos de curto prazo. Além da baixa eficácia, o custo desta operação acaba saindo caro para a autoridade monetária. O Banco Central norte-americano mais do que triplicou o tamanho de seu portfólio desde o estouro da crise em 2008 por meio destes programas de compras de títulos, que visam manter o baixo custo dos empréstimos de longo prazo. Portanto, o Banco Central não está errado em almejar reduzir o tamanho de seu portfólio por meio de programas considerados caros e ineficientes.

Por outro lado, a estratégia utilizada no QE3 (quantitative easing 3 - compra de 40 bilhões de dólares em dívida hipotecária por mês), diferente e muito mais eficiente, permanecerá inalterada e com prazo ilimitado. A durabilidade do QE3 continuará vinculada à meta de reduzir a taxa de desemprego para 6,5%, desde que a inflação não ameace superar 2,5%.

Além disso, para que a maioria dos integrantes do Comitê possa votar por uma redução ou interrupção da Operação Twist nas próximas reuniões, as projeções para a economia norte-americana precisarão mostrar baixo risco de retração no crescimento. Evitando assim uma interrupção prematura.

O que realmente impactou o índice Bovespa nesta quarta-feira foi a queda brusca das commodities conforme podemos observar no gráfico abaixo:

Gráfico do preço das commodities

A forte queda que atingiu o mercado de commodities começou logo na abertura dos negócios, anterior à divulgação da ata do FED. O índice Bovespa é uma carteira teórica com alta concentração no setor de commodities e, portanto, seguiu o movimento de queda das commodities, fechando o pregão em forte baixa.

Gráfico do índice Bovespa
  
Com a queda de hoje o índice se distancia cada vez mais da média móvel simples de 200 períodos diária, ao mesmo tempo em que se aproxima da principal linha de suporte no curto prazo, os 55.1k.

Nos Estados Unidos o índice Dow Jones fechou em baixa de 0,77%, mantendo-se dentro da zona de congestão de curto prazo. Parou exatamente acima da linha central de bollinger, onde o rompimento da mesma poderá provocar perda da zona de congestão, iniciando uma perna de baixa.

Gráfico do Índice Dow Jones

9 comentários:

  1. FI,

    Petróleo também teve um bom recuo hoje. Se a queda continuar, vai dar uma ajudinha para acalmar a inflação e aliviar a sangria do caixa da Petro. Será que tem espaço para mais quedas?

    Abraços,
    Sir Income

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    1. Sir Income,

      Tudo bom? Acho que esta ajudinha será bastante limitada, já que o preço da gasolina subiu muito nas últimas semanas, se aproximou do topo histórico. Precisaria cair muito, mas normalmente estas quedas acontecem com agravamento do cenário macroeconômico. Sobre o petróleo acho que o barril do tipo light vai permanecer oscilando entre 80,00 e 100,00 dólares por um bom tempo ainda.

      Abcs, bons negócios

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  2. Bom dia, FI!

    Vou trazer para este post uma discussão que não está relacionada ao assunto trazido nesta oportunidade, mas acho pertinente, porque outro dia houve um debate sobre o assunto.
    Quando se fala de referência em mercado americano, existem opiniões para todos os gostos. Eu encontrei um artigo, cujo link é: http://lapresse.tv.br/pdf/CASSIO_YOUNIS_Artigo.pdf

    onde se fala sobre o tema. Eu gostaria da sua opinião, se for possível, é claro.

    Obrigado.

    LFB.

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    1. LFB,

      Bom artigo. Só não concordo com os itens 1, 2, 3 e 4 que ele relacionou no texto. O fato de um índice subir mais do que o outro não significa, necessariamente, que o fluxo de capital está indo para empresas de característica X. Os motivos são diversos e ele se esqueceu do principal: a especulação. Para especular você não precisa de "motivos justificáveis" ou do respaldo dos indicadores macroeconômico. Acho um erro tremendo considerar o índice Dow Jones como um índice de valuation. Dow Jones é puramente liquidez, composto por empresas líderes de mercado. O investidor de valuation vai garimpar suas ações no S&P500, que possui um leque muito maior de opções. É lá que estão as empresas muitas vezes pequenas, boas e baratas (afinal de contas, é isso que o investidor de valor busca). Como Dow Jones é um índice muito líquido, ele acaba servindo de referência. Um banco/corretora/institucional ou mesmo um grande investidor PF estrangeiro que opera no Brasil, certamente opera algum papel no Dow Jones, pois estes ativos são a nata do mercado que oferecem liquidez necessária para os giros milionários. Por isso, o que eles fazem no Dow Jones deve ser analisado por nós. Penso eu.

      Abcs, bons trades

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    2. FI, obrigado pela resposta.

      Não gosto de abusar de ninguém, mas gostaria da sua opinião sobre tesouro direto. Vi em outro post um comentário sobre este assunto. Penso em montar uma carteira de renda fixa composta da seguinte maneira:

      NTN-B Principal 150824 taxa 4,05% = 30%;
      LTN 010116 taxa 8,97% = 15%
      LFT 070317 SELIC = 55%

      O que acha? Seria uma boa composição ou você tem outra sugestão melhor.

      Obrigado.

      LFB.

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    3. LFB,

      Hehe, que nada. Estou à disposição. Eu acho o seguinte, bônus da NTNB Principal 150824 está razoavelmente baixo ao observarmos o vencimento do título. Não acho viável comprar NTN-B neste momento, pois o governo parou de vender títulos de curto prazo atrelados à inflação, e como sabemos que o FED (e demais bancos centrais mundiais) está na fase final do ciclo de afrouxamento monetário, é de se esperar que a partir de 2015 as taxas de juros voltem a subir gradualmente no mundo inteiro, afim de se combater à inflação com a retomada do crescimento econômico mundial. Não tenha a menor dúvida que esta NTN-B de 2024 irá se desvalorizar (consequentemente o bônus/taxa irá subir) com um movimento de alta na taxa básica de juros. Por isso seria interessante manter uma alocação em títulos de curto prazo mais ou menos da seguinte forma:

      - 40% em LFT 070317
      - 60% em LTN 010116 (pré-fixado aos 9% ao ano gera um spread de 1,75 p.p. sobre a taxa Selic. Não é mau negócio e ainda pode melhorar)

      É importante também manter recurso líquido para futuras novas compras em títulos do tesouro, pois as oportunidades irão, certamente, aparecer nos próximos meses/semestres. Caso a LTN supere 9,10 ou 9,25% aumente a alocação da compra para 70% em LTN e reduza para 30% a alocação da compra de LFT. Não compre NTN-B de prazo superior à 2019. Tem muita água pra rolar nos próximos anos. Não compre NTN-B 2019 com bônus abaixo dos 4,00%, é o título mais curto, porém este bônus certamente irá melhorar no médio/longo prazo, oferecendo então boa oportunidade para compra.

      Com relação à proteção contra inflação precisamos destacar dois pontos: A preocupação do Banco Central aumentou bastante, há um sentimento de retomada de autonomia da autoridade monetária. Portanto, é de se esperar que dificilmente o Banco Central irá deixar o IPCA fechar o ano próximo ao limite máximo da banda de oscilação, aos 6,50%. Sendo assim, podemos projetar uma inflação (sendo um pouco pessimista) em torno de 5,5% para os próximos anos. Nestas condições, uma NTNB que pague 3,60% + IPCA (2019) irá remunerar ao investidor 9,10% (3,60 + 5,50) ano ano. Praticamente empatando com a LTN 2016. Como a LTN vence 3 anos antes, é melhor posicionar no pré-fixado. E você receberá o pagamento deste título no momento de mudança da política monetária de diversos bancos centrais mundiais, onde o cenário será completamente diferente.

      Abcs, bons negócios

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    4. FI, muito o obrigado pela aula.
      Considerando as suas informações, verifica-se que é muito importante estar sempre atento aos "detalhes" que podem comprometer a rentabilidade até mesmo de um portifólio de renda fixa.

      LFB.

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    5. A sua aula de tesouro nacional eh um show pela clareza e riqueza de informacoes.
      Como eh prazeiroso poder entender o raciocinio apresentada de um forma tao clara.
      Adoro ler os seus posts!
      parabens!!

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    6. Valeu pessoal!

      Aula nada, é só a minha humilde análise e opinião. Mercado de renda fixa é tão interessante/importante quanto ao mercado de renda variável, e tem todas as condições de oferecer remuneração acima da média do mercado (CDI). Basta fazer bons negócios.

      Abraços a todos

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