terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

Tombini confundiu


O discurso do presidente do Banco Central, Alexandre Tombini, nesta terça-feira durante o lançamento do Otimiza BC confundiu o mercado financeiro mais uma vez. As taxas de juros futuras estão subindo refletindo a expectativa de alta na Selic, motivada pelas últimas declarações do próprio presidente do Banco Central e do ministro da Fazenda, Guido Mantega.

Apesar de tudo as análises estão muito distorcidas. Existem analistas que apostam na elevação dos juros já na reunião do mês de abril, outros apostam numa alta a partir do terceiro trimestre, outros acreditam que os juros só deverão subir no ano que vem e por fim existem aqueles que acreditam que os juros nem irão subir. O mercado não tem uma decisão unânime, há muita incerteza no ar com relação à política monetária e econômica do governo.

Este tipo de incerteza é um dos pontos que poderiam ser combatidos facilmente pelo governo ao adotar uma linguagem mais simples, clara e objetiva, tal como é feito pelo FED (Federal Reserve - banco central dos Estados Unidos) ou pelo BoE (banco central do Japão), por exemplo. O FED, por exemplo, deixa claro que pretende manter a taxa básica de juros entre 0 e 0,25% até 2015.

Mas aqui no Brasil, os discursos e as regras estão sempre em mudança. Num belo dia a Fazenda pode subir o IOF para determinado produto, no outro dia pode cortá-lo, a antiga política de câmbio X passa a se transformar na política Y, um determinado setor passa a sofrer com as intervenções pesadas no Estado enquanto outro será beneficiado.

A mais recente distorção está no próprio discurso do presidente do Banco Central. Se por um lado Tombini diz que “a estratégia da autoridade monetária já comunicada permanece válida neste momento” (ou seja, manutenção dos juros por tempo suficientemente prolongado), por outro ele diz que isso evidentemente não significa que os ciclos monetários foram abolidos” (ou seja, a manutenção dos juros pode não ser prolongada).

Tombini ainda disse que “nesse novo ambiente macroeconômico, há pouco descrito, a taxa Selic oscilará em patamares mais baixos do que no passado” (ou seja, a taxa de juros poderá cair ainda mais?), mas também disse que “a depender do comportamento dos preços dos produtos, a estratégia pode ser ajustada” (ou seja, como os preços resistem em ceder o Banco Central poderá intervir elevando os juros).

O que será que o presidente do Banco Central está querendo dizer ao mercado? Que ele, assim como todos nós, está confuso também? Ou quer mostrar que a autoridade monetária recuperou sua autonomia abrindo um leque de possibilidades para o futuro da taxa Selic?

A resposta certa ninguém tem. A verdade é que o mercado continua perdido, cobrando por uma melhora na comunicação, transparência e credibilidade do governo. Particularmente acredito que a taxa Selic permanecerá em 7,25% até o final do segundo trimestre deste ano, onde a partir deste ponto aumentarão as probabilidades reais de aumento na taxa básica de juros, com a pressão do acumulado do IPCA (últimos 12 meses), mantendo-se acima de 6%, o que deverá comprometer o centro da meta em 2014 (4,5%). Mas uma parte do mercado está apostando literalmente na alta desde já, haja vista que os contratos de juros futuros de curto prazo estão disparando na BM&F.

A bolsa de valores, que até então operava em alta, não reagiu bem às declarações de Tombini e virou, fechando o pregão desta terça-feira em baixa mantendo o descolamento com os demais índices mundiais. A média móvel simples de 200 períodos e a LTB mais rápida de curto prazo atuaram como resistência dupla na região dos 58k. Índice em tendência de baixa, ainda sem sinal de fundo ou repique.

Ibovespa

Nos Estados Unidos o mercado acionário continua mostrando sua força compradora. O fluxo de investidores pessoa física tem aumentado nos últimos meses na bolsa de Nova York, movimento que está impulsionando a escalada dos índices no curto prazo. Caso os investidores pessoa física mantenham esta tendência de retorno ao mercado (muitos saíram e permaneceram fora desde o crash de 2008), o mercado norte-americano ficará respaldado para manter a tendência de alta no médio e longo prazo, mesmo com uma provável correção de curto prazo.

Mesmo no curto prazo os índices se mostram relutantes em corrigir. A congestão de curto prazo no índice Dow Jones parece que será rompida para cima, o que impulsionará o índice para atacar com mais força o topo histórico, aumentando as probabilidades de rompimento.
 
Índice Dow Jones
  
O S&P500 já rompeu a sua pequena congestão de curto prazo, o que pode ser um indicativo de que um movimento semelhante acontecerá no índice Dow Jones.

Índice S&P500

A queda brusca do ouro nos últimos meses confirma a tendência do retorno ao risco por parte dos investidores pessoa física. Ouro é basicamente uma proteção contra à incerteza dos ativos de risco, uma proteção contra o clima de aversão ao risco no mercado financeiro. Quando a cotação está em baixa significa que os investidores não estão interessados em procurar proteção (ou liquidando estas posições seguras) contra os riscos do mercado, ou seja, o medo dos investidores é menor, a demanda por ativos em bolsa aumenta e consequentemente o preço também sobe.

Cotação do ouro. Valor do ouro.

14 comentários:

  1. Olá Fi, Sp500 já está testando o TH pela 3° vez!! Se romper tecnicamente poderá chegar nos 2000 pts, ai vem a questão, será que tem fundamento?? Um pais atolado numa crise sem precedentes, mercado movido por uma liquidez facilitada pelo governo..
    Bom resumindo está chegando a hora da verdade, ou vai ou racha;
    Ivan

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    1. Ivan,

      Fundamentos macroeconômicos não. Taxa de desemprego continua alta, endividamento elevado (embora saudável pois o custo de captação de recursos no mercado é praticamente zero) e cortes graduais no orçamento. Mas com relação aos fundamentos das empresas sim. Os balanços estão superando as expectativas trimestre após trimestre. Mesmo com a crise as empresas estão conseguindo aumentar o lucro líquido, e é isso que os acionistas querem ver. Por isso as ações em Wall Street não estão caras mesmo com os principais índices se aproximando do TH. Para efeito comparativo, se o Ibovespa estivesse hoje aos 74k poderíamos dizer que a maioria das ações da carteira teórica do índice estariam caras.

      Abcs, bons trades

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  2. FI, pq vc acha que a nossa bolsa não decola?
    Todo o mundo esta subindo e nós sem perspectivas... sei que gringo detesta intervenção, mas sua opinião?
    Será que até na bolsa seremos sempre o pais do futuro?
    Abraço

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    1. Bruno,

      Infelizmente devido às intervenções excessivas do governo na economia. Este artigo que escrevi na primeira metade do ano passado ajuda a explicar um pouco:

      Brasil é um bull market.... político
      http://www.financasinteligentes.com/2012/05/brasil-e-um-bull-market-politico_10.html

      Esta intervenção, somada às inúmeras medidas atrapalhadas do governo nos últimos anos (IOFs, câmbio, juros, etc) colaborou para aumentar desconfiança e insatisfação dos investidores. A confiança é uma base poderosa de sustentação para qualquer preço de qualquer ativo. Veja o que a falta de confiança está fazendo com as ações do Eike Batista, por exemplo. Além disso o custo Brasil continua elevado, produzir no Brasil não é nada barato (para um país emergente), isso dificulta a melhora nos fundamentos das nossas empresas. Por fim, não há fluxo de investidores nacionais no pregão. Hoje a Bovespa é praticamente movida à fluxo de investidores estrangeiros. O fluxo dos investidores pessoas físicas, bem como investidores institucionais, presente hoje no pregão está muito abaixo daquele fluxo de 2007/2008 (aproximadamente 1/4 do que giravam naquela época). Acredito que o investidor pessoa física dificilmente retornará para a bolsa, muitos saíram machucados nos últimos anos. As pessoas estão com o pé atrás (medo) para investir em renda variável e só deverão voltar caso o índice supere o TH. Fato que reduziria o medo e provocaria um estado psicológico mais propício à correr riscos. Esta é a minha opinião.

      Abcs, bons negócios

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  3. Cara eu naum vi o discurso do Tombini, mas acho que quando ele diz que “nesse novo ambiente macroeconômico, há pouco descrito, a taxa Selic oscilará em patamares mais baixos do que no passado” , não significa, necessariamente, que estão prevendo uma Selic menor que a atual. Ele pode estar querendo dizer que, quando for necessário apertar a política, a Selic não deve alcançar os valores altos que historicamente foram vistos no Brasil (digamos, em vez de subir pra 12,5% de dois anos atrás, eles podem subir só pra 10% ou 11%).

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    1. CoisAtivo,

      Cheguei a pensar nisso também. Ou também pode estar se referindo à média da taxa básica de juros em 2012 (mesmo com uma elevação este ano, ficaria abaixo da média do ano passado). Mas depois fiquei imaginando, por que dizer isso num momento de inflação elevada, mercado apreensivo, cobrando por uma atitude do Banco Central desvinculada aos interesses do governo? Acho que o Tombini não foi feliz no seu discurso, pode ser um reflexo da pressão que ele está sofrendo do mercado no momento. Mas enfim, de fato a comunicação precisa melhorar, e muito.

      Abcs, bons investimentos

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  4. FI, Esta turma fala, desfala, fala errado de novo. Assim confunde mesmo. É um amadorismo total (infelizmente).

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    1. Anônimo,

      Pois é. Isso não pode acontecer. Além da perda de credibilidade e confiança passa a impressão de que o governo não tem a mínima noção do que está fazendo.

      Abcs, bons negócois

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  5. Olá FI,

    Fiquei confuso com o discurso do Tombini... Na minha opinião a Selic não deve subir neste primeiro semestre e quando subir será 0,25% no máximo, como foi quando estava abaixando gradativamente no ano passado. Elevar a Selic para 10% por exemplo, seria um retrocesso para o país e duvido muito que algo assim seja feito. No máximo aumentarão gradativamente 0,25% até que se estabeleça um índice de inflação melhor como 5,5% o que estaria dentro da margem de objetivo do centro da meta. De qualquer forma devemos ficar de olho nos bancos, será que com a Selic aumentando estes poderão voltar suas antigas taxas absurdas? Ou vão assumir um belo prejuízo.

    Uma pergunta: Quais as outras ferramentas que o Governo dispõe para controlar a inflação?

    Abraços!

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    1. A inflaçao disparou simplesmente por três fatores;
      - Alta do salário mínimo;
      - Bolsas família como instrumento político;
      - Alta dos combustíveis;
      É como colocar combustível numa fogueira!!
      Ivan

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