terça-feira, 19 de março de 2013

Além das ilhas do Mediterrâneo


O Parlamento do Chipre reprovou. A contrapartida do confisco, para garantir o recebimento do empréstimo de 10 bilhões de euros, foi rejeita pela maioria esmagadora. Não houve um voto a favor do confisco. Foram 36 votos contrários e 19 abstenções. Apenas um parlamentar não compareceu à votação.

Sem ajuda financeira da zona do euro e do FMI (Fundo Monetário Internacional) o sistema financeiro cipriota entrará em colapso e o país poderá literalmente ir à falência. Certo? Na teoria sim, mas na prática parece que o Chipre tem uma carta na manga.

Por que será que nenhum Parlamentar votou a favor do confisco? Perderiam a reeleição, mas garantiram o salário no final do mês. Será que não há outra opção além das linhas do Mediterrâneo? Pode apostar que sim. Convenhamos, se o problema fosse realmente “apenas” 10 bilhões de euros, a Merkel dividiria esta conta com Hollande, pagando “do próprio bolso”.

A questão do Chipre é muito maior do que um simples socorro de 10 bilhões. Envolve gigantescos esquemas de lavagens de dinheiro. O dinheiro russo lavado em euros incomoda as autoridades da zona do euro desde que o Chipre conseguiu entrar para a União Europeia. É a ponte que conecta todo o processo.

Então como resolver o problema do paraíso fiscal no desregulado sistema financeiro do Chipre? Criando motivos para expulsar o inexpressivo país da União Europeia, forçando o sistema financeiro cipriota a retornar para sua moeda antiga.

Acontece que a conversão para o câmbio antigo seria um desastre para os russos, devido à excessiva desvalorização da moeda. Por este motivo nenhum parlamentar votou a favor do confisco. A carta na manga do Chipre está, agora, bem visível. A solução não vem da União Europeia ou do FMI, mas sim da Rússia.

A reprovação do confisco não foi suficiente para derrubar os mercados nesta terça-feira. Os bancos, insolventes, permanecerão fechados até quinta-feira, pelo menos. Mas, conforme destacamos na análise de ontem, pouco importa o que acontece ou deixa de acontecer no Chipre. O socorro de 10 bilhões esconde o que realmente está por trás das linhas do Mediterrâneo.

Nos Estados Unidos o índice Dow Jones fechou o pregão de lado, deixando um doji de indecisão. É o primeiro sinal de que a correção de curtíssimo prazo perdeu fôlego. Caso a região dos 14.4k seja mantida, o índice criará condições para testar e romper o último topo ascendente registrado na semana passada.

Bolsa de valores

No Brasil o índice Bovespa fechou o pregão em baixa, praticamente invalidando o sinal de recuperação de ontem. A LTA formada a partir do fundo em 55.4k foi perdida. Caso a região de suporte em 56.1k seja, também, perdida, retornaremos para os 55.4k.

Brasil


O índice foi impactado pela queda nas ações da Vale e CSN. O Goldman Sachs cortou suas estimativas para os preços do minério este ano e aproveitou para reduzir o preço-alvo das ADRs da Vale, negociadas em Nova York. A queda da CSN foi influenciada pela proposta de compra das siderúrgicas da ThyssenKrupp (no Brasil e nos Estados Unidos).

9 comentários:

  1. Realmente, o Sr. detém o conhecimento das entranhas do sistema financeiro mundial maculado pela rapinagem dos governos representativos, que, em nome do "interesse público", individualizam lucros e repartem prejuízos.

    Saudações cordiais.

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    1. Olá amigo,

      Que nada, só procurei as informações e liguei os pontos rsrs..

      Obrigado,

      Abcs, bons investimentos

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  2. Abstraindo um pouco os efeitos do mercado financeiro, já que eu não acredito que a questão do Chipre tenha nenhum impacto real na economia mundial, a não ser no máximo uma oscilação temporária no humor de alguns investidores, eu considero que essa questão traz uma consequência muito maior em respeito a soberania dos Estados do que de repercussão econômica. Por mais que exista uma grande necessidade de monitorar a lavagem de dinheiro em virtude do terrorismo e do tráfico internacional de drogas, o verdadeiro interesse dos grandes países é atingir sempre que possível os paraísos fiscais como forma de controlar melhor a riqueza de seus nacionais. Hoje, querer apontar o Chipre como algoz é um tanto quanto infantil, pois os russos podem com facilidade fazer as mesmas coisas no Panamá, ou em Seychelles, ou em Luxemburgo ou vários outros lugares. O Chipre não surgiu do nada. Os russos passaram a aplicar lá principalmente após os escândalos de lavagem de dinheiro em Nauru passarem a receber muita atenção da mídia. Se essa preocupação com dinheiro sujo fosse real, o Reino Unido deveria ser o primeiro a proibir as atividades de Jersey, Man, Bermudas, Ilhas Virgens, etc... que fazem igual ou pior. Mas para os ingleses esse sistema é interessante pois facilita algum controle sobre os multimilionários ingleses (ao invés deixarem de residir na Inglaterra ou jogarem todo seu capital para holdings no exterior, esse dinheiro acaba ficando no próprio Reino Unido). A composição do dinheiro sujo no sistema financeiro ainda é pouco comparado a sistemas em espécie como no hawala ou até mesmo em diversas aquisições de ativos reais sem necessidade de lavagem, como fazem os figurões das drogas em vários países periféricos. No final das contas é o pequeno poupador que perde, correndo o risco de ser taxado por dinheiro nos bancos ou no mínimo tendo a sua vida pessoal invadida de forma absurda como acontece aqui no Brasil.

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    1. Neomalthusiano,

      Acho que Luxemburgo recebe até mais recursos de correntistas russos do que o Chipre (primeiro maior destino é Luxemburgo, segundo maior destino é o Chipre). A questão é que Luxemburgo é "bem-vinda" ao bloco, pois tem um dos maiores PIB per capita do mundo e pode servir de espelho para mostrar "a força" o euro. Interessante é que durante toda esta confusão envolvendo o Chipre, mau se ouviu falar da chanceler alemã. Querem visivelmente atingir os russos. Mas por que será que os alemães estão tão acuados?

      Abcs, bons negócios

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  3. Fiquei pasmo com a popularidade da Dilma !! Isso é que chamo de manipulação, o povo brasileiro literalmente quebrando em dividas, isso não sai na imprensa senão cortam as polpudas propagandas, acorda Brasil!!
    Fi, fortes emoções será quando o IBOV perder essa grande zona de congestão, não vejo fundamentos de romper para cima de forma alguma, o futuro dirá se estou errado, jovens que não estão nem ai pra estudar, milhões recebendo dinheiro por nada, problemas gravíssimos na saúde, violência, estruturais e o governo só se preocupando em se perpetuar no poder e copa;
    Ivan

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    1. Também fiquei pasmo.

      Não sei o que está acontecendo.

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    2. Pessoal,

      Governo populista é assim mesmo. Infelizmente. Jogo barato para conquista de poder. Mas a história mostra que o populismo tem vida curta. A única certeza é que vamos pagar esta conta no futuro. É praticamente certo que teremos mais 4 anos de governo Dilma. Mudança, talvez, só em 2018.

      Abcs, bons investimentos

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  4. Recentemente o Gary North escreveu um artigo muito interessante sobre o caso do Chipre. Na visão dele, é irrelevante se o parlamente iria aprovar ou não o confisco, a questão é que independentemente do resultado haverá uma corrida aos bancos, e portanto um risco altíssimo de torná-los insolventes. Para ele é exatamente essa a intenção, para que sirva de "recado" para os PIIGS, do tipo, "olha o que vai acontecer se vocês não fizerem a lição de casa... ninguém vai te ajudar não bebê".

    Veremos o desenrolar disso amanhã...

    Abs
    Pobre Paulista

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    1. Pobre Paulista,

      Interessante, pois os políticos da periferia da zona do euro lutam para relaxar as medidas de austeridade fiscal tão defendidas pelos alemães. Na minha opinião os bancos já estão insolventes, a corrida bancária vai quebrar um sistema financeiro do Chipre. Se os bancos reabrirem amanhã, terão de limitar os saques até o dinheiro (empréstimo) aparecer.

      Abcs, bons investimentos

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