terça-feira, 30 de abril de 2013

E quando o pessimismo não é justificável?


Abril marcou o quarto mês consecutivo de queda da bolsa brasileira. Sem fazer muita cerimônia o índice Bovespa despencou dos 63.4k, registrados no início deste ano, para a região dos 52.5k, principal linha de suporte de curto e médio prazo. Parte desta queda ocorrida no mercado brasileiro é justificada pela deterioração do cenário macroeconômico e corporativo brasileiro, inúmeras vezes ressaltadas e discutidas aqui no blog.

Mas será que estes 17% de queda (entre a máxima registrada nos 63.4k e a mínima atingida nos 52.5k), em apenas quatro meses, não ultrapassaram o patamar de pontuação considerado justificável para a nossa situação atual? Será que este nível de preço (pontuação) está refletindo corretamente as expectativas futuras para o nosso mercado? Será que esta queda não foi um pouco exagerada?

Sabemos de cor e salteado os pontos negativos que desqualificam o nosso mercado. Somos bombardeados diariamente pela mídia com estas informações. Mas e os pontos positivos? No geral, os investidores (principalmente nacionais) estão avaliando o mercado brasileiro desprezando o outro lado da balança. Talvez com certa justiça, pois este é o tipo de informação que não cai de paraquedas na tela do seu computador quando o mercado está em baixa.

2012 foi um ano terrível para economia brasileira e, de certa forma, desapontador para o mercado de capitais nacional, descolado dos seus pares externos. Conseguimos produzir uma inflação de 5,83% mesmo com o vergonhoso crescimento de 0,9% (o mais baixo entre os BRICs e principais emergentes). Tudo o que tinha que dar errado aconteceu no ano passado. Mas podemos extrair um ponto positivo deste vexame de 2012. Ele não se repetirá este ano. O governo acordou para alguns pontos cruciais ao processo de crescimento minimamente sustentável.

Os investimentos, que desapareceram em 2012, começarão a surgir este ano com a melhora da taxa de retorno para as concessões. O Banco Central, mesmo que alinhado à estratégia do governo, iniciou o ciclo de aperto monetário este mês para frear a pressão inflacionária e alta dispersão dos preços. Este é um importante passo para a instituição mostrar ao mercado seu comprometimento com a estabilidade econômico-financeira. A interrupção futura da escalada nos preços poderá, inclusive, colaborar para melhora do índice de produtividade.

Além disso, o reserva de 380 bilhões de dólares do governo federal deverá aumentar para 400 bilhões até o final deste ano.  Não é uma quantia desprezível. São recursos que servem de respaldo para administração da taxa de câmbio e/ou blindagem a eventuais tropeços da economia global.

Até mesmo a forte intervenção do Estado sobre a economia tem lá os seus pequenos pontos positivos. A redução do PIS/COFINS e desonerações nas folhas de pagamentos para alguns setores, ainda que vinculados àqueles que proporcionam maior impacto sobre o consumo/índice de preços, é um raro exemplo deste lado positivo da intervenção.

No que se refere ao mercado corporativo, existe uma expectativa de melhora na produtividade das empresas exportadoras de commodities, refletindo a retomada do crescimento. Os balanços da Vale e Petrobras, os principais carros chefes do índice, vieram positivos e superaram as expectativas do mercado.

O setor financeiro, que juntamente com as commodities ocupa mais da metade da composição da carteira teórica do índice Bovespa, permanece bem fundamentado e com boas perspectivas. Existe ainda uma expectativa de redução na agressividade do spread bancário por parte dos bancos estatais, com o término das propagandas políticas e institucionais na mídia popular, melhorando/aliviando, de certa forma, as condições/margens para todo o setor.

Partindo para análise técnica podemos observar pelo gráfico que mede o spread entre o Ibovespa x Dow Jones uma queda exagerada ao nosso favor que o mercado já tratou de começar a corrigi-la. A forte queda no spread durante todo o ano de 2013 (ou seja, o nosso desempenho ficou bem abaixo do índice Dow Jones) parece ter chegado ao fim. O desempenho do Ibovespa vem sendo superior ao índice Dow Jones desde a segunda quinzena do mês de Abril.

Ibov Dji

O nosso desempenho também está muito abaixo com a média dos mercados emergentes, conforme podemos observar no gráfico abaixo:
  
Ibovespa Spread


Todas as vezes que esta diferença atingiu os 1.850 pontos neste ano, o índice Bovespa conseguiu reverter o pessimismo e descontar parte do atrasado perdido com relação ao desempenho dos demais mercados emergentes. O mesmo parece estar ocorrendo agora novamente com uma boa margem de recuperação.

Já no gráfico mensal do índice Bovespa podemos observar a mesma formação de candle que originou toda esta queda dos últimos meses. Acontece que desta vez o candle está ao contrário. O pavio longo superior relevante do mês de janeiro, indicando forte aparecimento da força vendedora na região dos 63.4k, deu lugar ao pavio inferior relevante do mês de abril, indicando forte aparecimento de força compradora na região dos 52.5k.

Gráfico da bolsa no mês de abril

Esta formação sugere que nos próximos meses poderemos subir novamente, com boas possibilidades de retomada dos 60k ainda este ano, permanecendo, pelo menos, dentro da zona de congestão de médio e longo prazo.

Vale ressaltar que este post não é uma recomendação de compra. Esta decisão precisa estar aliada a estratégia e objetivos de cada investidor. A intenção deste texto é apenas salientar a atratividade e/ou pontos positivos do nosso mercado, que muitas vezes são ignorados em momentos mais sensíveis de quedas nos preços.

Da mesma forma que devemos considerar os pontos positivos, não podemos descartar os pontos negativos relevantes do nosso mercado. Por este motivo estamos trabalhando dentro de uma zona de congestão de médio/longo prazo. Permaneceremos nesta situação (sobe e desce - 50k/70k) até que o cenário macroeconômico e corporativo apresente melhoras ou deteriorações significativas que justifiquem um crash ou uma retomada consistente de alta. Portanto, o atual potencial de retomada nos preços é limitado, da mesma forma que recente perna de baixa possuía potencial de queda limitado.


Bom feriado a todos vocês e até quinta-feira!

18 comentários:

  1. Olá Fi, vale ressaltar que nossa bolsa é muito mais especulativa, se fosse por fundamentos já deveria estar abaixo dos 30K, ano após ano a população Brasileira empobrece em educação, saúde, segurança e principalmente em valores morais;
    Más para o governo esta tudo ótimo, já contão vitória ano que vem, é uma vergonha!!
    É bem capaz do IBOV testar novamente o topo da congestão nos 70k caso rompa a região dos 57K e a Ltb de médio prazo.
    Ivan

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Ivan,

      Concordo com relação à educação, saúde, segurança, etc. Mas acho que o mercado de capitais brasileiro não tem fundamento para se posicionar abaixo dos 30k, caso isso ocorresse seria uma verdadeira liquidação. Oportunidade única de comprar de olhos fechados o que aparecer na frente rs.. Romper os 57k vai ser crucial para o índice carimbar o ticket e superar os 60k. Esta perna de alta promete ser melhor do que a anterior (iniciada no final de julho do ano passado).

      Abcs, bom feriado!

      Excluir
  2. Acho o endividamento da população preocupante, mais ainda com a perspectiva de alta dos juros para contenção da inflação. Por enquanto, é bom torcer p o Federal Reserve não aumentar a taxa básica de juros americana (Só em 2015 mas... vai saber...). Triste perceber que o governo perdeu uma excelente janela para executar as reformas que o país tanto precisa na última década. Não vejo um cenário de muito crescimento mas também nada de muito ruim a frente.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Preocupa um pouco pois há uma expectativa de elevação na taxa de desemprego com o aperto monetário, o que pode elevar um pouco os níveis de inadimplência. Mas o BC monitora isso de perto e os bancos estão bem capitalizados/preparados para administrar as carteiras. Só não pode permitir uma disparada na inadimplência, mas por enquanto isso é bastante improvável. Posso afirmar com 99% de certeza (100% não, porque no mercado nada é garantido rss..) que o FED não vai aumentar os juros de jeito nenhum este ano e talvez nem vai pensar nisso em 2014. A inflação nos Estados Unidos está baixa, o processo de retomada do crescimento está lento e a taxa de desemprego permanece elevada. A única coisa que o FED poderá fazer este ano, na minha opinião, é interromper a Operação Twist (que pra mim é um mecanismo de baixa eficácia na economia, serve apenas para impulsionar os ativos) entre o terceiro e o quarto trimestre. Já o QE3 acho que vai ser estendido até 2014.

      Concordo plenamente com relação à oportunidade perdida para realizar as reformas na década passada. O super ciclo de alta nas commodities (que já terminou) foi o presente do século para o Brasil. O mundo estava nas mãos do Brasil, principalmente os chineses. O governo tinha condições de sobra para fazer as reformas e ainda montar um programa para tirar proveito da situação e agregar valor aos nossos produtos. Mas não fizemos nada disso. Fizemos o trabalho de cigarra. Outra oportunidade como esta não vai aparecer nos próximos anos/décadas.

      Abcs, bom feriado

      Excluir
  3. Respostas
    1. Liquidação é uma palavra muito forte para o mercado rsrs.. Diria que foi apenas uma promoção relâmpago, do tipo leve 3 e pague 2. Nada muito chamativo que salte aos olhos.

      Abcs, bom feriado

      Excluir
  4. FI, Bom dia. Existem alguns dias em que seu blog apresenta artigos que despertam um interesse maior. O blog apresentado hoje é um deles. Procuro às vezes uma forma de selecionar tais artigos para voltar a apreciá-los novamente quando quiser. Gostaria que você me informasse se dentro do próprio blog existe algum mecanismo onde eu possa fazer esta operação de seleção. Obrigado e mais uma vez parabéns pelas suas excelentes análises.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Boa tarde, tudo bom?

      Na barra lateral esquerda você vai encontrar um "quadrado" escrito: Arquivo do blog

      Todos os posts são armazenados por data. Basta escolher o mês. Esta é a única opção. Mas quando eu quero procurar algo que escrevi no passado e não lembro a data, tento achar pelo google mesmo.

      Obrigado!

      Abcs, bom feriado

      Excluir
  5. FI., você investe em ações?

    Se sim quais ?

    Obrigado







    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Quando as condições são favoráveis ao stocking picking, sim. Normalmente isso acontece em mercados de queda acentuada, onde as boas empresas acabam sendo exageradamente penalizadas. Gosto de comprar ações de boas empresas, mas somente quando o preço está descontado. Se o preço não me agradar eu não compro. Se o risco for muito alto eu também não compro. Atualmente só tenho posições de médio e longo prazo em ETFs e FIIs. ETFs para tirar proveito da volatilidade do índice e FIIs são posições montadas sempre quando ocorre uma boa queda no preço das cotas. Fora isso comecei a comprar um pouquinho de ELPL na semana passada. No curto prazo utilizo ações para especular.

      Abcs, bom feriado

      Excluir
  6. FI você investe em ações ? quais?

    ResponderExcluir
  7. acho q essa eh a primeira vez que vejo o FI bullishkkkkkkkk

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. rsrss... que nada. Por mim o mercado pode ser de bullish ou bearish, tanto faz. O importante é ter uma estratégia pra tentar tirar proveito das situações.

      Abcs, bons negócios

      Excluir
  8. FI é o sell in may and go away, não vai funcionar para o ibov este ano?

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Isso é superstição, não pode ser relevante numa análise. Algumas vezes dá certo, outras não. Mas acho que o Ibov pode sofrer novas quedas de curto prazo sim. Minha expectativa é recuperação dos 60k ainda este ano, então temos muito chão pela frente.

      Abcs, bons investimentos

      Excluir
  9. A bolsa tem oscilado muito nos ultimos anos, sempre no final tem caido mais. Acredito que possa haver uma alta, mas esta seria momentanea. O periodo de bear market ainda deve durar. Abs, Miguel

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Sim, por isso destaquei que o potencial de retomada nos preços é limitado. Ainda acho que vamos permanecer por mais algum tempo dentro desta zona congestão de longo prazo.

      Abcs, bons negócios

      Excluir
  10. O Brasil está todo maquiado, com câmbio valorizado frente ao dólar para inutilmente tentar segurar uma inflação galopante, gerando sensação de que está tudo bem para um povo com 'grande' poder de compra. O governo gasta mais que arrecada, e nenhuma empresa investe mais, pois as regras são mudadas a todo instante. Agora que começou a entrar menos dólares do que gastamos, vai começar a complicar nossa rolagem da dívida. Confiar no BC é uma piada de mau gosto, pois atualmente ele se limita a possibilitar as loucuras do PT, se distanciando cada vez mais de suas funções básicas. Nossas 'reservas' são menores que as dívidas, derreterão facilmente. Já gastamos demais com juros hoje, e como os juros vão ter que aumentar, vai ficar difícil para o povo do Lulla rolar sua alavancagem também. Nêgo que vive sem saneamento básico 'compra' smartphone de R$1K em trocentas vezes se achando o máximo... A espiral negativa é inevitável com desemprego, acelerado pelo fim da bolha imobiliária, e depois inadimplência. Como já comentado, perdemos a década passada nos achando bons, e qando passar a copa veremos que nadamos nus há algum tempo. Nesse contexto, o 'pessimismo' vira realismo, e não é só justificável, é a análise correta. É claro que os estrangeiros (que ditam a bovespa) já sacaram tudo e a cada dia só restam os 'trouxas'. Com o colapso eminente da economia bananense, nenhuma empresa vai se dar bem, e por isso o bovespa vai derreter bastante ainda. Essa nova geração que nunca viu uma crise na vida (afinal, 2008 foi marolinha) vai aprender da pior forma que o que Lulla inventa pode até parecer verdade por algum tempo. Mas na vida real, as máscaras sempre caem... Já passamos por isso várias vezes, e quem estiver líquido vai poder se dar bem, porque o Brasil tem sido tudo a ser feito (infra, etc), mas não antes de passarmos por um inevitável, longo e tenebroso inverno.

    ResponderExcluir