segunda-feira, 17 de junho de 2013

BCs não conseguiram evitar o tumulto


A era do dinheiro fácil e barato está chegando ao fim. Ben Bernanke, presidente do FED (Federal Reserve – banco central norte-americano), bem que tentou evitar a ansiedade do mercado à medida que este dia se aproxima. A possibilidade de redução, ainda este ano, dos programas de estímulo monetário está provocando uma correria generalizada entre players e gestores dos fundos de investimentos do mundo inteiro para realocação de suas respectivas carteiras.

O Banco Central dos Estados Unidos tem feito tudo da maneira correta. A política de estímulo monetário não será modificada da noite para o dia, visando, desta forma, reduzir a tensão nos mercados e eliminar o fator surpresa. Não há indicativo de que alguma alteração será realizada na reunião do Fomc (Comitê Federal de Mercado Aberto do FED) desta semana. Os diretores do FED querem, primeiro, fazer o mercado acostumar com a ideia para, posteriormente, implementar, na prática, a fase de redução dos estímulos monetários.

Esta é (ou era) uma tentativa de minimizar o efeito do choque nos preços dos ativos. Em outras palavras, o Banco Central estava pedindo aos gestores e players de mercado para saírem de suas posições “em fila indiana”, sem causar tumulto. Mas acabou acontecendo o contrário no mundo inteiro. Ninguém quer ser o último a sair para apagar a luz.

O FED injetou mais de 2,5 trilhões de dólares no sistema financeiro desde 2008. O mercado se acostumou com a longa fase de injeção monetária, mas daqui pra frente terá de se virar sozinho. O novo ambiente de mercado já pode ser traçado como um cenário de menor liquidez, valorização do dólar, fuga de ativos de risco em mercados emergentes e fuga dos títulos da dívida pública.

Até mesmo os rendimentos dos treasuries (títulos da dívida pública norte-americana, considerado o investimento de renda fixa mais seguro do mundo) estão subindo em meio ao desmonte de grandes posições. Segundo o Bank of America, somente na semana passada os investidores tiraram um volume recorde de 4,8 bilhões de dólares em fundos de bônus do governo norte-americano. Este foi o primeiro resgate líquido semanal desde dezembro de 2012.

Clientes do Barclays já receberam a recomendação para realocação de posições, com maior peso na renda variável e menor peso na renda fixa. O Morgan Stanley emitiu um relatório dando preferência para as ações em vez de bônus (títulos públicos). O Bank of America adotou a mesma postura, favorecendo a renda variável. O Goldman Sachs recomenda posições em ações e se mantêm pessimista aos bônus governamentais.

Analistas do J.P. Morgan afirmaram que o mais óbvio no momento é manter uma posição overweight (peso maior do que o referencial) nas ações em relação à renda fixa em geral. O banco também informou que as seguradoras e fundos de pensão elevaram o peso das ações em suas respectivas carteiras para 45% no primeiro trimestre deste ano. Esta é a maior proporção desde 2007. O saldo final gerou um volume comprador de 13 bilhões de dólares em ações e vendedor de 10 bilhões de dólares em bônus.

Por este motivo o índice Dow Jones e S&P500 caíram pouco em relação ao pânico ocorrido nas demais praças financeiras mundiais (principalmente emergentes). Os investidores estão realocando recursos de mercados emergentes e títulos soberanos para as ações na bolsa de Nova York.

O índice Dow Jones voltou a subir nesta segunda-feira, mostrando relutância em manter a tendência de baixa de curtíssimo prazo. Houve nova tentativa de rompimento da linha central de bollinger e LTB do topo histórico (formando uma resistência dupla), porém sem sucesso.


Se os gestores e players de mercado não formaram a famosa “fila indiana”, pretendida pelo FED, para realocarem suas posições no mercado norte-americano, o que dirá nos mercados emergentes. Aqui eles estão batendo em retirada. Percebendo o tumulto no mercado, o presidente do Banco Central do Brasil, Alexandre Tombini, tem adotado um discurso cada vez mais duro com o câmbio e com a inflação.

Tombini disse hoje que “fará o que for necessário para combater, sem alívio nem trégua, a inflação”. Na visão dele, o país está preparado para enfrentar os efeitos da redução dos estímulos monetários nos Estados Unidos. O presidente do BC também afirmou que vai usar todos os instrumentos de que dispõe exclusivamente para conter a volatilidade cambial e evitar disfunções no mercado.

Mas, até o presente momento, a munição utilizada pelo Banco Central não tem surtido efeito. Mais uma vez a autoridade monetária está sozinha no campo de batalha, já que o governo e o samba de IOFs (Imposto sobre Operações Financeiras) do ministro da Fazenda pouco colaboram para suavizar a tensão no mercado de câmbio.

Nesta segunda-feira o dólar atingiu R$ 2,16. Esta é a maior cotação desde 30 de abril de 2009. O Banco Central tentou evitar a desvalorização do real ao entrar no mercado de câmbio fazendo leilões de swap cambial tradicional (para forçar a queda do dólar). Foram vendidos 39,1 mil contratos e mesmo assim o dólar fechou o dia em alta de 0,84%.
  
dólar x real

Na bolsa de valores o dia foi marcado pela forte queda das ações do empresário Eike Batista. Circulam rumores no mercado de que os sócios do BTG Pactual estão divididos quanto ao acordo que o banco tem com o grupo EBX. O BTG está entre os bancos que mais emprestaram dinheiro para o grupo. Segundo Lauro Jardim, do radar Veja.com, alguns sócios do BTG acham que “é hora de cair fora”.

A pancadaria de hoje não é nenhuma novidade aos investidores e operadores que acompanham ou operam/investem em ativos X. Alguns destes papéis (classificados como “lixo” pela S&P) parecem ser mais tóxicos do que os tradicionais micos da Bovespa, pois carregam a camuflagem de um ativo extremamente líquido, considerado “blue chip”de mercado, afetando ou levando à quebra, infelizmente, de um número sem precedentes de investidores.

Impulsionado pelas ações do Sr. X, o índice Bovespa se descolou dos mercados externos e caiu 0,49% nesta segunda-feira. Houve uma nova tentativa de rompimento da LTB dos 57k, rechaçada pela força vendedora. O índice fechou colado na mínima do dia e poderá retornar ao suporte (fraco) dos 48.7k. A perda desta referida linha de suporte provocará o acionamento de mais um pivot de baixa.


19 comentários:

  1. Como sempre excelente análise FI !!
    e o Ibov em queda me lembrou o Raul Seixas:
    "é tanta coisa no menu que não sei o que comer!" rsrs

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    1. Obrigado!

      rsrs... na minha opinião, em se tratando de "filé mignon", tem pouca coisa barata na bolsa. As empresas boas estão sofrendo menos, já as empresas/segmentos ruins estão sofrendo mais.

      Abcs, bons investimentos

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  2. Aonde eu estava com a cabeça de comprar 400 ações da OGXP3??? kkkkkkkkkkkkk

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    1. rsrs... avisa ao seu clone pra exercer a put de 1 bilhão.

      Abcs, bons trades

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  3. Enquanto isso, a Petrobrás conseguiu uma liminar favorável para suprir a ausência da certidão negativa. Amigos do rei são assim, se fosse empresa minha ou sua, já tinha sido executada na dívida ativa da União. Um abraço.

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    1. Neomalthusiano,

      Sim, não tenho a menor dúvida. A lei aqui no Brasil só funciona para uma determinada camada da população. Mas isso iria acabar acontecendo, caso contrário iríamos sofrer uma crise sem precedentes de abastecimento.

      Abcs, bons investimentos

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  4. depois do cabaré de hoje, será que ibov amanha tem potencial pra circuit break???

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    1. Clerton,

      É mais comuns acontecer circuit break quando o mercado acelera a correção de preços após um movimento de bolha ou inchaço nos preços dos ativos. Como os preços dos ativos em bolsa não estão caros/inflados (mas também não estão em liquidação), vai ser mais difícil acontecer circuit break, a não ser que aconteça um evento fora do mercado de alta gravidade.

      Abcs, bons negócios

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  5. E aproveitando que eu estou há algumas semanas sem comentar nesse maravilhoso blog, vou abusar e deixar um segundo comentário: acho que a situação está apontando uma valorização gradual do dólar impossível de ser freada pelo BC. Fazer swap para segurar volatilidade cambial é como apagar um incêndio com copos d'água: pode até funcionar em situações de especulação (como no começo do ano), mas não afetará nada se houver fundamentos, como é o caso agora. A progressão da inflação afetou o cupom cambial de tal forma que se continuarmos nesse caminho, em um futuro próximo, para manter a atratividade da dívida pública, a SELIC terá que subir, pois a fuga de capital estrangeiro será um driver permanente de valorização do dólar enquanto não houver aumento compatível com a inflação na taxa SELIC compensando o risco país. O discurso de Tombini falando que não há limites para juros me sugeriu isso. Essa situação, apesar de ainda não ser realidade, é muito perigosa, pois a valorização do dólar tende a agravar ainda mais o IPCA. O governo teve um pouco de azar com a posição do FED, mas não podemos falar em surpresa, pois era certo que uma hora ou outra os americanos produziriam alguma medida de aperto monetário e isso não era novidade para ninguém, muito menos para os analistas do BC. O problema é que no exercício de abstração econômica de Dilma, uma expansão do crédito (através do minha casa melhor que você citou como exemplo) é plenamente compatível com o aperto monetário do Bacen, que em tese não deveria ser,já que com a liquidez da moeda permanecendo a mesma coisa, não deveria haver diminuição da inflação. Que eles torçam para que todo esse consumo não se traduza em demanda não suprida, para que não alimente a inflação, pois se isso ocorrer, a própria desvalorização da nossa moeda acabará forçando também a alta do dólar e o preço dos bens de capital... a parte "boa" é que a médio prazo, o aumento do dólar tenderá a tornar o IBOV mais atraente no futuro, apesar do panorama negativo. Não acredito que essa concentração de capital nos EUA se prolongue durante tanto tempo quanto sugerem alguns analistas.

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    1. Exatamente. Não há como evitar o movimento de valorização do dólar. O BC só vai conseguir suavizar o movimento, ou seja, ganhar um pouco de tempo para as empresas que estão mal protegidas, ou nem sequer fizeram um hedge, possam correr atrás do prejuízo antes que ele se transforme numa perda financeira volumosa. A atratividade do nosso mercado, após o ciclo de alta do dólar, vai atrair os investidores de volta. Ficou melhor também pois os drivers para o próximo ciclo de alta na bolsa ficaram bem mais claros.

      Abcs, bons investimentos

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  6. FI,

    Parabéns pelo post elucidador.

    Fico imaginando quando os EUA realmente forem subir os juros o impacto que teria sobre nossa selic.

    Abraços,

    Miguel

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    1. Obrigado Miguel,

      Acho que podemos ter Selic na casa dos dois dígitos novamente a partir de 2015. Temos dois fatores que pesam pra este lado: retomada do crescimento econômico mundial (vai gerar inflação global, obrigando o FED, BCE e demais BCs a entrarem num ciclo de aperto monetário). Deterioração da economia brasileira (principalmente entre crescimento x inflação). O governo não fez e não está emitindo nenhum sinal de que irá fazer as reformas estruturais e apertar a política fiscal. Vai empurrar com a barriga, do jeito que der, para tentar se reeleger e deixar para fazer a parte dolorosa em 2015.

      Abcs, bons negócios

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  7. Olá pessoal, desde 2010 que venho falando do faz de contas vivido por grande maioria dos brasileiros iludidos com crédito fácil. Tiveram de sentir no bolso o escorpião para acordarem!
    Quanto aos mercados uma outra ilusão, ao meu ver a correção virá e forte, está apenas começando.
    Ivan

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    1. Ivan,

      Demorou, mas até que enfim parece que a população acordou para alguns pontos. E pensar bem, o que originou todo este movimento de revolta foi um "simples" aumento de 0,20 centavos na passagem de ônibus. Na verdade a indignação já estava acumulada há muito tempo, o aumento da passagem foi só o estopim.

      Abcs, bons trades

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  8. Me desculpe mas eu tou não meio mas completamente confuso.FI vc fala aqui que com o QE a sairem de cena,os donos da massa vão colocar o seu dinheiro em titulos de risco(açoes)EUA e isso principalmente no mercado onde justamente os QE foram massivos e estao a negociar sobrecomprados.
    Fico confuso porque me lembro de as autoridades dos BRIC serem completamente contra estas injeçoes de capital massivo pelos EUA,porque provocaria protecionismo e uma concorrencia desleal com os Emergentes.


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    1. Na verdade os gestores estão fugindo dos títulos (bonds) para evitar perder dinheiro com o forte movimento de desvalorização. Muitos se posicionaram em bonds quando o mercado de renda variável estava ruim. A forte demanda compradora provocou um movimento de valorização, onde muitos acabaram comprando títulos caro demais (e, portanto, de baixo yield). O mercado (massa) se movimenta desta forma. Eu já tenho uma visão contrária das recomendações dos bancos de investimento. Acho que somente agora o momento, pelo menos aqui no Brasil, é favorável para abertura de posição em bonds (mas apenas em títulos de curto prazo). Na renda variável o raciocínio é o mesmo.

      Abcs, bons investimentos

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  9. Olá FI. Parece que essas manifestações da população estão nos primeiros capítulos e a novela pode ser longa. Você acredita que o mercado financeiro será influenciado, ou seja, mais penalizado ainda? Abs.

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    1. Olá Ze Piu,

      Tomara. Com relação ao mercado financeiro acho que não. O que poderia afetar é uma queda de governo ou mudança de regime, mas esse não é objetivo das manifestações. Agora, se a popularidade da Dilma continuar caindo, a bolsa pode até subir, a depender das propostas apresentadas pela oposição, já que o mercado passaria a precificar uma mudança (para melhor) na gestão da política econômica.

      Abcs, bons negócios

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  10. quando me referi anteriormente ao cabere, nao era no mercado, mas sim nas ruasrsrss

    mas o mercado prova que eh soberano.

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