quarta-feira, 12 de junho de 2013

Juro, sozinho, não faz milagre


A era de experimentalismos do governo federal pode estar chegando ao fim. Se não aproveitamos a excelente oportunidade criada pelo super ciclo de alta das commodities para fazermos as tão necessárias reformas estruturais no país, não será agora, com a expectativa de redução da liquidez nos mercados (por conta da indicação de mudança de postura dos principais banqueiros centrais mundiais), que elas (as reformas) serão realizadas.

Tentamos administrar um câmbio naturalmente flutuante. Não deu certo. Tentamos controlar o fluxo de capital, brincamos de fazer mágica com superávit primário, alteramos inúmeras vezes a regra do jogo. Nada disso deu certo e nossa credibilidade foi para o espaço. Tiramos a autonomia do Banco Central e a política de metas de inflação passou a ser regida pelo Palácio do Planalto sob uma “nova meta”. Também não deu certo e o carnê desta conta nós já estamos pagando através da perda do poder de compra da moeda.

A inflação persistentemente elevada, conjugada com o cenário de baixo crescimento, era o primeiro sinal de que algo não estava dando certo na economia. Mas ao invés de substituir a fórmula do experimento, o governo aumentou ainda mais o volume dos componentes que estavam falhando. Estendemos o corte nos juros, afrouxamos a política fiscal e incentivamos o consumo e endividamento da população. Pressionamos a demanda, pressionamos a demanda e pressionamos a demanda. Esquecemos da oferta.

O ambiente de negócio extremamente desfavorável no Brasil impediu que a oferta pudesse acompanhar o crescimento desenfreado da demanda. O resultado não poderia ser diferente. A inflação disparou e se dissipou perigosamente por todos os setores da economia. Com as contas públicas deterioradas e a credibilidade abalada, o déficit em conta corrente aumentou significativamente. A economia havia chegado no limite.

A inflação mostrava (e ainda mostra) relutância em ceder mesmo aos 6,5% ao ano (acumulado dos últimos 12 meses). O governo bem que tentou administrar o índice de preços. Segurou o aumento do preço da gasolina, reduziu as contas de energia elétrica, prorrogou o reajuste nas tarifas de ônibus, desonerou setores de peso relevante no índice oficial de inflação. E mais uma vez, nada disso funcionou.

O Banco Central foi chamado para apagar o incêndio. Os juros começaram a subir no mês de abril, com a perspectiva, na visão do governo, de que o aperto monetário corrigirá as falhas da era experimentalista. E mais uma vez não vai funcionar, pois o juro sozinho não faz milagre.

Não adianta nada o Banco Central subir a taxa básica de juros, apertando a economia com a restrição/encarecimento do crédito, se o governo federal faz exatamente o contrário na outra ponta. A política monetária é restritiva, mas a política fiscal é expansionista. Em outras palavras, enquanto o Banco Central tira dinheiro da economia, o governo federal jorra mais dinheiro na economia. No final das contas o efeito será nulo e não vamos sair do lugar.

Hoje mesmo a presidente Dilma Rousseff anunciou um pacote para despejar 18,7 bilhões de reais na economia. O governo lançou uma linha de crédito para financiar a compra de eletrodomésticos e móveis por beneficiários do programa habitacional Minha Casa, Minha Vida.

Será concedido empréstimo de até 5 mil reais por beneficiário a uma taxa de juros de 5% ao ano com prazo de 48 meses para pagar. É praticamente um dinheiro de graça subsidiado, inicialmente, pelo Tesouro Nacional (ou seja, todos nós).

A medida do governo aumentará ainda mais a pressão da demanda, praticamente anulando o efeito da alta dos juros. Além de incentivar o consumo via operações de crédito de risco elevado (podendo provocar, inclusive, aumento futuro da inadimplência), o governo estará colaborando para persistência da inflação em patamares elevados, que se tornou o principal entrave ao crescimento da economia.

Portanto, o novo pacote do governo não faz o menor sentido do ponto de vista econômico. Mas então, qual será o motivo? O que será que está por trás de tudo isso? As dúvidas desaparecem, quase que instantaneamente, ao observarmos a queda da popularidade da presidente Dilma nas últimas pesquisas de opinião.

No mercado de capitais o índice Bovespa tombou pelo quarto pregão consecutivo, marcando mais um dia de pregão dominado pelo clima de tensão e insatisfação dos investidores. O mercado está caindo sem chão para segurar, já que as linhas de suportes são fracas, dificultando, desta forma, o início da formação e identificação dos movimentos de repiques. O nível de sobrevenda aumenta a cada dia, desfavorecendo a abertura de novas posições vendidas. O mercado está caindo por falta de comprador no pregão.

Bovespa

Nos Estados Unidos o índice Dow Jones fechou o pregão em baixa, mantendo a tendência de queda de curto prazo. A linha de suporte em 14.8k deverá ser testada novamente, onde o seu rompimento provocará o acionamento de um pivot de baixa.


24 comentários:

  1. Quando eu vi essa notícia do Minha Casa Minha Dívida eu tive vontade de chorar, put* que pariu. O populismo está muito descarado, é nojento, é ofensivo, é obsceno. 8% de queda em um mês da Bovespa, títulos públicos afundando, e o governo dessa gorda imbecil faz mais uma cagada. Agora nos resta só esquentar a pipoca e observar os preços dos eletrodomésticos disparando.

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    1. Calma, o governo vai baixar o IPI para que isso não aconteça! O governo não pensa em longo prazo, só reage (tardiamente). O bom mesmo é fingir que nada está acontecendo e que o Brasil está ótimo. Aguarde para ver até onde vai a inadimplência.
      Não se preocupe o governo está dando corda para se enforcar!
      Julio

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    2. Populismo tem vida curta. É uma situação insustentável. O governo está lutando para garantir a reeleição, apenas (é o que parece). Continuo apostando que 2015 será o ano para começar a lavar toda essa roupa suja.

      Abcs a todos e bons negócios

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    3. O que eu fico puto é que essa bosta do nordeste sustenta os índices de popularidade lá em cima em 54%.

      Como pode isso cara, Brasil afundando faz anos e essa porra de PT não cai nunca.

      É a porra do emprego alto e bolsa família. Galera tá toda socada no setor de serviços empregada então a casa pode estar caindo lá foda que neguinho tá nem aí

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    4. Quando digo bosta é as pessoas petistas que estão em alta concentração aí atrasando o crescimento do país dando tanto voto pra essa porra

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  2. Isso forçará uma SELIC ainda mais alta.

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    1. Inevitável. Minha projeção para a taxa Selic fechar o ano de 2013 é de 8,75%, mas estou pretendendo subir para 9,00 ou 9,25%. Só não fiz a mudança ainda pois quero ver a sinalização nesta próxima reunião do Copom em julho.

      Abcs, bons investimentos

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  3. Vou falar a verdade... A única coisa boa que essa Dilmá fez de bom até agora foi promulgar a lei 12764 de 27/12/12, a lei do autismo...

    É isso que dá votar num poste...

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    1. Estamos pagando caro por isso meu amigo.

      Abcs, bons negócios

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  4. Excelente análise, FI
    Bem que eu imaginei que a queda da popularidade da jumenta iria fazê-la cometer mais uma m.
    Mas enfim, vejo promoções na bolsa e estou comprando aos poucos. Hoje foi dia de pegar mais um pouquinho de BBAS3 e VALE5. Quem sabe amanhã ou depois mais um pouquinho de ELPL4, esperando visitar os 5,xx.
    Abraço
    Investidor Paciente

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    1. Obrigado Investidor Paciente!

      Estou de olho em todas estas três que você citou. Em especial ELPL4 e BBAS3. Mas ainda estou preferindo fazer compras parciais e crescentes em ETFs. O mercado precisa cair mais para compensar o risco do stock picking.

      Abcs, bons investimentos

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  5. O governo fala de voltar a seguir as receitas clássicas de diminuir o déficit nos próximos anos, ao mesmo tempo anuncia programa Minha casa minha vida e aumento dos gastos, sendo que o orçamento de 2015 (2015!) já está com parte comprometida... Continua assim para ver aonde vai parar.

    Bom post.

    Miguel.

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    1. Obrigado Miguel,

      Governo fala uma coisa e faz outra. Como destaquei neste post, é mais fácil acreditar em Papei Noel. http://www.financasinteligentes.com/2013/06/e-mais-facil-acreditar-em-papai-noel.html

      Abcs, bons negócios

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  6. Parabéns FI seu blog , analises e comentários são excelentes, sou seguidor assíduo desde que descobri o blog.

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  7. Eu na verdade não entendo um C**** de economia,mas o que nao estou a entender é se as previsoes de lucro para as principais empresas Brasileiras com tudo isto vão ter de baixar ou se tem de baixar as estimativas de lucro pro futuro.
    A unica coisa que eu sei é que aqui na Europa a coisa ficou mto feia em 2012 e ai todo os analistas afundaram os price target para valores de loucos que nunca la chegaram e toda a gente dizia que ainda tinha mto mais pra cair.Passo dar um exemplo a Peugeot deram target de 1,50 euros e nem chegou 4,30.e como estes muitos e muitos outros.Por isso agora no Brasil ta se passando ta em queda e claro todo o mundo vai pintar o IBOV de sangue.Temos de tomar cuidado e ficar atento com o apoio no nosso grande amigo FI

    Abraços

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    1. Obrigado!

      As previsões dos analistas são um belo termômetro para compra. O seu exemplo da Peugeot é muito interessante. Normalmente, quando o mercado engata uma boa tendência de alta, as previsões são demasiadamente otimistas. Quando o mercado engata uma boa tendência de baixa, as previsões são demasiadamente pessimistas. No geral, os resultados das empresas brasileiras no primeiro trimestre de 2013 deixaram a desejar, por conta da deterioração econômica (principalmente inflação). Mas esta queda na bolsa está abrindo uma oportunidade para formação de carteira visando médio e longo prazo.

      Abcs, bons negócios

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  8. O que é certo é que empresas com uma divida grande (em dolar ou real) irao sofrer. Os juros da divida comerão parte dos lucros. Esse é o grande risco da ELPL. Ela tomou uma paulada nas receitas por causa da MP do setor eletrico, e irá tomar outra com o custo de sua dívida. As eletricas se tornaram um exclente negocio quando os juros baixaram e a inflação aumentou (receitas corrigidas via IGPM). Muitas delas se alavancaram (exemplo ELPL, Equatorial). Acho que enquanto houver perspectiva e incerteza até onde chegam os juros, fica dificil voltar para as eletricas.

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    1. Apesar de ser uma crise temporária, a situação da ELPL é muito complicada no curto prazo. Para vingar um investimento nesta empresa, as posições precisam ser mantidas no médio e longo prazo. No curto prazo acho que poderá buscar os R$ 5,00 e até mesmo perder este patamar.

      Abcs, bons negócios

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  9. FI, Se este governo esta querendo se reeleger, escolheu a praia errada para surfar. Economia não é brincadeira para experiências inconsequentes. O mais provável é que toda esta trapalhada que esta ocorrendo agora, venha a estourar com força no próximo ano. Ai sim teremos alguma chance de despedir dos petralhas.
    Forte abraço.

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    1. O pior de tudo é que desperdiçamos uma das melhores oportunidades das últimas décadas para fazermos as reformas estruturais e desenvolvermos a economia. Tudo estava ao nosso favor. Outra oportunidade como esta dificilmente vai aparecer. O PT não se sustenta no poder por muito tempo, no máximo até 2018, se conseguirem empurrar os problemas para 2015.

      Abcs, bons investimentos

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  10. Parabéns pelo blog e pelos excelentes comentários.Não consigo entender como diante de tudo isso, esse governo tem ainda altos índices de aprovação,e o petralha mor é tão endeusado.Que país é este?Estou também de olho em BBAS3 e VALE5.Vale parece em queda livre.Já BBAS3 abaixo de 20,00 uma boa opção de compra.Estava pensando em entrar em PRBC4(como forma de diversificar),mas com bb abrindo essas janelas de oportunidade,vou aumentar posição.
    Abs,Acionista25!

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  11. Olá Fi, hoje tá repicando legal!! A vale5 alarmou os R$ 27,xx ontem pra mim, este foi o preço que vendi em 2009..más minha grana tá no giro não tive como comprar alguma coisa no curtíssimo prazo.
    Más estou pensando em não comprar nada até passar as eleições ano que vem, quem sabe o povão manda embora estes incompetentes populistas! To naquele investimento, tá indo muito bom graças à Deus!
    Ivan

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