terça-feira, 11 de junho de 2013

O perigo do gigante adormecido


Um movimento raro, porém de extrema relevância, tem ganhado força no mercado financeiro. Tudo começou há cerca de um mês atrás com a queda acentuada do Nikkei (principal índice da bolsa de Tóquio no Japão). Os investidores interpretaram as primeiras quedas do índice como um movimento normal de realização de lucros, já que o índice havia cravado quase 100% de alta desde o último fundo registrado no ano passado, influenciado pelo programa agressivo de estímulo monetário do BoJ (Banco Central do Japão) que inclui a compra de ativos em bolsa.

No entanto, o que está acontecendo no Japão é muito mais do que uma simples realização de lucros do mercado local. A tensão no mercado japonês aumentou significativamente com a forte disparada dos títulos da dívida pública. Os Yields dos títulos japoneses superaram a máxima em 10 anos, obrigando o BoJ entrar no mercado da dívida soberana para tentar conter o pânico de alta.

O mercado japonês foi o primeiro a emitir os sinais de tremor, mas o epicentro está do outro lado do mundo. O aumento das expectativas do mercado com relação à redução, ainda este ano, dos programas de estímulo monetário do FED (Federal Reserve – banco central norte-americano) provocou o início de um importante movimento de realocação de posições por parte dos players globais.

A retomada gradual e sustentada de crescimento da economia norte-americana, que em tese oferecerá condições para redução dos programas de estímulo do FED, será o novo, e principal driver do mercado financeiro mundial. Isso porque o fortalecimento da economia dos Estados Unidos, num momento de baixo crescimento da economia global, provocará, inevitavelmente, uma alta do dólar perante todas as moedas.

O dólar é parâmetro no mercado financeiro mundial. A movimentação da moeda norte-americana afeta praticamente tudo o que possa ser negociado no mercado. O problema é que ao analisarmos o gráfico mensal do dólar americano (indexado por uma cesta de moedas) podemos observar o verdadeiro perigo de um gigante adormecido:

Dólar americano

A última pernada de alta de longo prazo do dólar começou no início da década de 1990. O movimento de alta só foi parar em 2002. Posteriormente a moeda voltou a ceder, gerando impacto significativo para os mercados e economias do mundo inteiro.

A forte desvalorização do dólar no início da década passada (iniciada em 2002) foi a base de sustentação de valorização dos ativos em países emergentes, principalmente no Brasil (mercado de alta exposição em commodities), conforme podemos observar no gráfico mensal do índice Bovespa logo abaixo:


Nos últimos anos o dólar tem apresentado um comportamento de congestão, finalizando a tendência de queda observada na década passada. Todavia, os motivos citados no quarto parágrafo deste artigo demonstram porque a volatilidade iniciada no Japão se espalhou rapidamente para as demais praças financeiras mundiais.

A expectativa de retomada da tendência de alta da moeda norte-americana (para o médio e longo prazo) provocou o início de uma importante fase de realocações de posições por parte dos principais players de mercado. Por este motivo os yields (bônus ou taxa) dos títulos da dívida pública dispararam não somente no Japão, mas no mundo inteiro.

Os países emergentes são os mais afetados, pois além do risco embutido (maior) em seus respectivos títulos e ativos, o movimento regional do câmbio (desvalorização da moeda local) desfavorece a manutenção de posições estrangeiras nestas praças financeiras. São dois fatores relevantes que podem provocar uma fuga de capitais, o que no caso do Brasil soma-se ainda ao terceiro fator da gestão do governo federal.

A baixa confiança e credibilidade dos investidores refletem mais intensamente no mercado de renda fixa. Os yields estão em pânico de alta no Brasil. A imagem registrada abaixo mostra as taxas negociadas no momento de abertura dos negócios envolvendo os títulos da dívida pública brasileira.

Títulos do Tesouro Direto
  
A LTN 2016 (título pré-fixado de curto prazo) foi vendida com uma taxa de 10,47% ao ano. A NTNB Principal 2019 (título indexado pela inflação, o mais curto oferecido pelo governo) foi vendida com uma taxa de 5,13% ao ano + IPCA.

Como todos nós sabemos, os yields sobem quando os preços dos títulos se desvalorizam no mercado e vice-versa. Os yields dispararam porque houve, novamente, um grande movimento de liquidação de posições (por parte dos estrangeiros, principalmente) em títulos da dívida pública brasileira na segunda-feira desta semana.

A fuga de capitais ocorre também, embora em menor intensidade, na bolsa de valores. O gráfico abaixo mostra saída de fluxo de capital estrangeiro da Bovespa.

Gráfico do fluxo de investidores na Bovespa

O movimento é recente, começou no mês passado e já fez um estrago no mercado de ações. Mas ao esticarmos o mesmo gráfico podemos verificar que esta saída recente dos investidores estrangeiros é insignificante quando comparada ao montante introduzido em nosso mercado desde 2008.

Fluxo

Como o mercado de capitais brasileiro sofre de liquidez interna, uma fuga de capitais consistente e acentuada por parte dos investidores estrangeiros, influenciada pela peça-chave do dólar, provocará uma deterioração significativa do cenário para renda variável brasileira.

O índice Bovespa fechou o pregão desta terça-feira em queda de 3,01%. Apesar do elevado nível de sobrevenda, o índice não consegue esboçar reação de repique temporário, ao mesmo tempo em que a tendência de baixa de curto e médio prazo ganha força. A região de suporte psicológico nos 50k não esboçou qualquer reação da força compradora.


Nos Estados Unidos o índice Dow Jones fechou o pregão em baixa de 0,76%, confirmando o sinal emitido na análise de ontem. Um topo descendente foi marcado sobre a linha central de bollinger, corroborando para manter a tendência de baixa de curto prazo.


25 comentários:

  1. Nossa é hilário o gráfico da RV de pessoas físicas.

    Os yields dos títulos aumentaram porque o investidor estrangeiro está saindo?

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    1. Sim, este movimento se acentuou após o anúncio do IOF. Mantega tirou o pedágio acreditando que poderia atrair mais fluxo de capital para a renda fixa brasileira (ou seja, demanda para os títulos da dívida pública). Mas aconteceu exatamente o contrário (pra variar...): uma fuga de capital da renda fixa. Como agora o trânsito ficou livre (tarifas) os estrangeiros poderão voltar para o Brasil quando o momento, futuramente, estiver mais favorável.

      Abcs, bons investimentos

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  2. Mas que lixo de mês... tem que ter muito sangue frio, já perdi mais de 3% e ainda é dia 11 :(. Agora a crise se volta pros emergentes com a diferença de que agora ninguém mais acredita no Brasil, que beleza.

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    1. É a coisa está feia. Mas por outro lado isso é bom, pois abre uma oportunidade para entrada (ou reforço/aumentar) de posições em renda variável. Com o dólar sendo a peça-chave fica ainda mais fácil. Para o investidor estrangeiro não compensará manter posições no mercado com a valorização do dólar. Mas depois que este movimento se encerrar, é praticamente certo que o fluxo estrangeiro voltará para o Brasil, pois com o dólar muito valorizado os nossos ativos ficarão ainda mais atraentes.

      Abcs, bons investimentos

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  3. O BC deveria deixar o dólar subir de uma vez; assim essa agonia acaba mais rápido.

    Dólar alto torna o Brasil mais barato e mais atrativo para os gringos. É questão de riscoxretorno.

    Como nossa economia está patinando e com perspectiva de piora, para se posicionar no Brasil, diante desse cenário, só com muito desconto.

    Abs

    Henrique

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    1. Só espero que o BC avise antes para eu estocar alimento suficiente rsrs...

      Mais um problema criado pela intervenção excessiva do governo na economia. A tolerância do BC com a inflação nos últimos anos (colaborando para estratégia da política econômica do governo federal) criou uma distorção na dinâmica dos preços, permitindo a dissipação da inflação (anteriormente centralizada em alguns setores, se espalhou rapidamente por toda economia). Foi uma loucura cortar juros de forma agressiva com a aceleração dos índices de preço. Poderíamos estar hoje numa situação muito mais confortável de inflação caso a política de afrouxamento monetário não fosse tão agressiva (por fins políticos). Hoje com a inflação pressionada, qualquer efeito de valorização no câmbio causa impacto imediato nos preços (provocando inflação). O BC não vai conseguir evitar a valorização do dólar, mas vai precisar utilizar suas reservas para administrar a pressão dos preços, ou seja, retardar o movimento de valorização do câmbio.

      Abcs, bons investimentos

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  4. FI,

    você vê uma recuperação dos valores dos preços unitários dos títulos de renda fixa? Achei que hoje foi muito anormal, será que isso vai melhorar até dezembro ou vai ficar esticado pra baixo?

    Abs.

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    1. Durante o auge do ciclo de aperto monetário não. É comum ocorrer estes exageros nestes momentos, que por sinal apresentam as melhores oportunidades para abertura de posições. Eu acho que esta pressão vai continuar nas próximas semanas e perderá força após a próxima reunião do Copom. Ou seja, a partir deste momento o mercado poderá corrigir gradualmente os exageros construídos durante a fase mais crítica do aperto monetário (este auge que estamos vivenciando), encerrando, desta forma, a janela de oportunidades para abertura de posições em títulos do tesouro.

      Mas os preços dificilmente voltarão àqueles observados no ano passado, ou no início deste ano. A Selic estará sob um novo piso e o mercado com uma nova expectativa de juros futuros.

      Abcs, bons negócios

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  5. É impressionante como as Bolsa de Valores consegue "prever" (antecipar) certos fatos. Aquela ditado que diz que a bolsa é uma especie de termômetro da econômica se mostrou verdadeira.
    Parabéns FI!
    Julio

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  6. FI,

    Efeito manada , movimentação dos grandes players do mercado.Vamos ver as cenas para os próximos capítulos , o que você indica para o mercado ( títulos , renda fixa ( cdb e poupança ) , ações ( tiros curtos ) ou opções ( loucura total )

    ASS: AT

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    1. Opa, tudo bom?

      Ainda não observei indícios de efeito manada na bolsa, apenas uma leve fuga de investidor estrangeiro, mesmo porque o fluxo de investidor pessoa física está muito baixo.

      As recomendações são mais ou menos aquelas que eu deixei na análise de panorama (segue o link: http://www.financasinteligentes.com/p/panorama-de-mercado.html)

      Para giro de renda fixa de curto prazo:
      - LCI pós fixada
      Para posicionamento em renda fixa:
      - LFT 2017 (título pós-fixado atualizado diariamente pela taxa Selic, onde você pode fazer a liquidação antecipada sem correr o risco de sair no prejuízo)
      - LTN 2016 (título pré-fixado pela taxa oferecida no ato da compra. Precisa carregar o título até o vencimento para garantir o recebimento da taxa acordada no ato da compra)
      * Importante utilizar a estratégia de compras parciais e crescentes durante o auge do ciclo de aperto monetário. Alocação atual compatível para 70% de volume de compra em LTN e 30% em LFT.

      Para giro de renda variável de curto prazo:
      - Trades em ativos-alvos previamente estudados (conforme estratégia descrita no meu livro)
      Para posicionamento em renda variável:
      - Compra de ETF que faz a réplica do Ibovespa (BOVA11), IBRX50 (PIBB11) e IDIV (DIVO11 - índice de dividendos).
      - Ou, uma segunda opção seria investir em fundos de gestão ativa em ações (fora dos bancos).
      * Importante utilizar a estratégia de compras parciais e crescentes durante a tendência de queda de curto e médio prazo do Ibovespa. Observar as medições do índice de volatilidade (conforme demonstrado no livro) e separar a maior parte do capital para os momentos de crash do mercado.

      Qualquer dúvida estou à disposição. Tanto no blog, quanto no e-mail (financasinteligentes@gmail.com)

      Abcs, bons investimentos

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    2. Bom dia FI, ontem postei o seguinte comentário:

      "Boa noite FI.

      Outro dia consegui comprar LTN-2016 a 9,99% e hoje peguei esta taxa de 10,47%. Hoje fiquei na dúvida, quase não fiz negócio. Mas quando olhei o gráfico do DI1F16 e vi que estava formando uma estrela cadente em topo, não resisti. E se voltar a subir mais eu compro. Desde março deste ano, toda vez que a taxa da LTN-2016 bate em 125% da SELIC vigente eu compro um pouco. E hoje deu para pegar em 130% da SELIC.

      Eu gostaria de entender porquê, na sua opinião, acima de 5,00% a NTNB2019 volta a ser negociável. Na minha opinião deveria ser mais perto de 5,50%, para garantir, caso consigam fazer a inflação descer para perto de 5,00%.

      LFB.

      P.S.: sem comentar nos últimos tempos, mas acompanhando o blog diariamente."

      A isto, gostaria apenas de acrescentar uma questão: este índice de volatilidade seria o ATR?

      Obrigado.

      LFB.

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    3. FI,

      Estou posicionado em CDB e poupança 60 % do capital o resto em ações variadas . Muito obrigado pelas informações

      Ass: AT

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    4. Bom dia LFB,

      Me desculpe, esqueci de ver os comentários do último post. Obrigado por me lembrar!

      Estamos operando igual então, pois também peguei LTN 2016 em 9,99% e comprei dobrado em 10,47%. Você tem razão com relação a NTNB2019. O ideal mesmo é pegar com bônus de 6% ao ano pra cima. Mas eu não sei se conseguiremos chegar perto dos 6% este ano mesmo nesta fase mais crítica de aperto monetário (auge do ciclo). Sendo assim, ao entrarmos na fase de correção dos excessos na taxa, este bônus voltará a cair e se estabilizar. Poderá ficar neste patamar por um bom tempo até o próximo ciclo de aperto monetário do BC, já seguindo a política dos demais banqueiros centrais mundiais. Nesta época sim, a taxa da NTNB2019 poderá alcançar, e até mesmo superar, os 6% ano ano. Portanto, para o investidor que gosta de se posicionar em NTNB, os 5% ao ano já começa a ser uma taxa negociável, para carregar até o vencimento, já que dificilmente ele conseguirá taxa no patamar ideal (acima de 6%) até 2015.

      Com relação a volatilidade utilizo o VIX, apenas para índices.

      Abcs, bons negócios

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    5. As ordens AT !

      Sua proporção está boa. O que poderá te complicar é este "ações variadas". Está muito difícil para fazer seleção de ações.

      Abcs,

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  7. Se as taxas dos títulos públicos subirem mais um pouco, vou ensaiar uma entrada.

    Abraços

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    1. Sim, o momento está propício para abertura de posições em títulos do tesouro. Mas lembrando que as oportunidades estão abertas somente para os títulos de curto prazo, já que o cenário deve mudar significativamente a partir de 2015: http://www.financasinteligentes.com/p/panorama-de-mercado.html

      Abcs, bons negócios

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  8. Olá Estou com Vale5 a um preço médio de 35,13. A pricípio, esse dinheiro investido não vou precisar tão logo, tipo 2 anos, mas estou preocupado que essa baixa continue e ela vá parar em 15,00 por exemplo. O que vcs acham? Devo realizar ese prejú ou fico firme. Não imaginei que ela ia cair tanto.

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    1. Olá amigo.

      Esta é a sua única posição em renda variável? Ou em outras palavras, você entrou na bolsa só para comprar vale? Caso positivo, esta estratégia não é recomendável. O papel dificilmente vai voltar para a casa dos R$ 15,00, a não ser que ocorra um eventual crash de mercado, mas neste preço não se vende. No mais, a tendência da Vale para curto e médio prazo é de baixa, sem sinal de reversão.

      Qualquer dúvida entre em contato comigo novamente ou caso você não queria se expor me envie um e-mail: financasinteligentes@gmail.com

      Abcs, bons investimentos

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  9. Más para se posicionar em Títulos não tem os custos e imposto de renda??
    Fi conseguiu instalar o programa??
    Ivan

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    1. Exatamente. Não há como fugir do imposto e nem dos custos operacionais. Mas é a melhor opção em se tratando de renda fixa.

      Pior que eu não instalei ainda, fiquei com preguiça de fazer cadastro rss..

      Abcs, bons trades

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  10. Curti bastante esse post! Super claro e direto.

    muito bom!

    abs
    Raphael Figueredo

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  11. Hoje criei uma carteira "Micos", a primeira é a Ogxp3, sugestões??

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  12. Meus caros,

    Parece que nesta semana o "ibovespa dolarizado" rompeu o canal de alta, aos 20k, que vinha desde 2002. Caso a queda continue, o mesmo "ibovespa dolarizado" tem um fraco suporte nos 15k, que levaria o "ibovespa nominal" entre 36k e 39k, dependente da cotação do Dolar. Assim, creio que estamos ainda em queda, ratificado pelo tumultuado momento político e também pelas dificuldades no campo econômico.

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