domingo, 2 de junho de 2013

Panorama de mercado


Prezados (as),

Segue abaixo atualização da análise de panorama para os mercados de renda fixa e renda variável.


Mercado de renda fixa
(atualizado dia 02/06/2013)

O Copom (Comitê de Política Monetária do Banco Central) decidiu na última quinta-feira (dia 29/05/2013), por unanimidade, acelerar o processo de aperto monetário. Muito embora o objetivo da autoridade monetária esteja vinculado à tentativa de retomada da confiança no mercado, a postura também revela a complexidade do cenário econômico brasileiro conforme demonstramos nos artigos “Escorregamos na manteiga e caímos na estagflação” e “À beira do pânico”.

A mudança na política monetária provocou uma reação interessante no mercado de renda-fixa, confirmando as nossas expectativas expressas na última atualização do Panorama de Mercado em 29/03/2013.

A política de aperto monetário do Banco Central entrou na fase mais crítica, onde as decisões do Copom são mais firmes, ou seja, os juros sobem com a mão pesada (em relação ao ritmo anterior), surpreendendo, de certa forma, a expectativa geral do mercado. Normalmente estes momentos coincidem com as perspectivas de inflação mais elevada e provocam, inevitavelmente, aumento do clima de pessimismo no mercado, gerando impacto direto nos títulos de renda fixa.

A particularidade deste momento é que as perspectivas inflacionárias nada favoráveis coincidiram com a deterioração do cenário econômico. Portanto, o pessimismo do mercado, naturalmente elevado pela fase mais crítica do processo de aperto monetário, é impulsionado, também, pela deterioração dos indicadores macroeconômicos. A coincidência de timming entre estes dois fatores provoca, consequentemente, um impacto maior nos títulos de renda fixa, abrindo oportunidades de negócio. Os gráficos abaixo revelam a disparada dos bônus nos títulos pré-fixados (LTN 2016) e atrelados à inflação (NTNB 2020).

LTN 2016:

LTN - Tesouro Direto

NTNB 2020:


NTNB - Tesouro Direto

Vale ressaltar que a fase mais crítica do processo de aperto monetário mostra que estamos no auge deste ciclo. Em outras palavras, passamos da fase inicial, atingimos a fase de maturação e daqui alguns meses entraremos na fase final deste ciclo, onde o clima de pessimismo no mercado será reduzido significativamente, encerrando, também, a fase das melhores oportunidades de negócio em títulos de renda fixa. Este é o período onde o mercado costuma corrigir os excessos das taxas.

Em virtude da mudança projetada, a partir de 2015, para as principais taxas de juros mundiais, recomenda-se evitar posições em títulos de médio e longo prazo (mantendo a postura do último relatório). Hoje os principais banqueiros centrais mundiais trabalham com a política de afrouxamento monetário agressiva, onde as taxas de juros estão próximas de zero.

Mas a retomada do crescimento econômico mundial, projetada para os próximos anos, impedirá a manutenção das atuais políticas monetárias, caso contrário os Bancos Centrais criarão uma crise inflacionária sem precedentes a nível mundial. Por este motivo espera-se que a partir de 2015 as taxas de juros voltem a subir, acompanhando o ritmo de crescimento da inflação global (provocada pela retomada no crescimento).

Mesmo com a Selic aos 8,00%, a inflação projetada brasileira para este ano é quase o triplo da média mundial. Portanto, a partir de 2015, com a retomada da inflação global, o Banco Central do Brasil precisará entrar num novo ciclo de aperto monetário (mais agressivo do que o atual). As taxas de juros atuais ficarão defasadas nos próximos três anos. Desta forma, as oportunidades de negócio disponíveis hoje estão limitadas aos títulos de curto prazo.

As melhores opções continuam sendo a LTN 2016 (atualmente paga um juro pré-fixado de 9,57% ao ano) e LFT 2017 (título pós-fixado, atualizado diariamente). Não há título de curto prazo atrelado à inflação disponível para compra, portanto esta opção continua descartada. O bônus da NTNB 2019 (a mais curta) atingiu 4,48% ao ano. Apesar de ser uma taxa boa para os padrões atuais, ficará defasada a partir de 2015. Caso o bônus deste referido título aproxime ou ultrapasse os 5,00% ao ano, a defasagem (a partir de 2015 até o vencimento em 2019), poderá ser compensada, abrindo uma janela para compra. Deve-se ressaltar que a proteção contra inflação (via NTNBs de bônus baixo) torna-se desnecessária quando o Banco Central se compromete, por meio de suas ações, combater de maneira mais firme a pressão dos preços. Mesmo porque esta é a sua função.

Ao comprar LFT 2017 e LTN 2016 o investidor aproveitará o ciclo de alta dos juros por meio de um título pós-fixado (LFT 2017) e se beneficiará com os excessos do mercado (provocado pelo clima de pessimismo) por meio de um título pré-fixado (LTN 2016). O timming de compra do título pré-fixado é o que garantirá a boa rentabilidade da carteira de renda fixa, superando a média do mercado.

As condições atuais já permitem uma alocação maior para compra de pré-fixado (60% em LTN 2016 e 40% em LFT 2017). Caso o bônus da LTN 2016 se aproxime dos 10,00% ao ano, recomenda-se aumentar alocação para 70% ou mais.


Mercado de renda variável
(atualizado dia 02/06/2013)

O cenário para a bolsa brasileira não se alterou deste a última análise do Panorama de Mercado, mantendo-se entre as piores praças do mundo para renda variável em 2013. O desempenho do nosso mercado segue abaixo da média dos mercados emergentes há quase três anos e não esboçou reação, conforme podemos verificar no gráfico abaixo:

Spread

O nosso desempenho também é sensivelmente negativo quando comparado com um dos principais índices mundiais, o Dow Jones:

Spread Ibov x Dji

Os motivos deste descolamento, exaustivamente debatidos neste blog, são de amplo conhecimento dos investidores nacionais e estrangeiros. Mas a aproximação do índice Bovespa na faixa dos 50.000 pontos mostra certo exagero de pessimismo com o nosso mercado. O problema é que os balanços do primeiro trimestre de 2013, juntamente com o desempenho da economia neste período, deixaram a desejar, colaborando para manutenção do nosso preço descontado em relação às demais praças financeiras mundiais (incluindo os nossos pares emergentes).

Este fator seguirá pressionando o índice no curto prazo, havendo possibilidade de agravamento na correção técnica. Ao analisar o gráfico mensal do índice Bovespa, pode-se observar a ausência de linhas relevantes de suporte abaixo do patamar de 52.5k.

Gráfico Ibovespa

Diferentemente dos 60k, o patamar psicológico dos 50k é de pouca expressividade, em decorrência do baixo número de negócios nesta região. O mesmo ocorre com a linha de suporte em 48k, a diferença é que neste caso o timming do movimento corretivo poderá coincidir com a passagem da LTA de 2002, formando uma zona de suporte dupla, e, portanto, mais forte.

Por este motivo a tendência de queda de curto e médio prazo poderá se agravar com a perda do suporte em 52.5k, caracterizando um movimento puramente técnico, sem o respaldo dos fundamentos das empresas, que apesar de deteriorados, não cederam na mesma velocidade observada na queda dos preços.

Este descompasso entre fundamento e preço representará uma boa oportunidade de compra para médio e longo prazo. Neste caso é recomendável ao investidor adotar uma estratégia de compras parciais dentro da tendência de baixa, reservando boa parte do capital para (possíveis) compras abaixo dos 50k.

Em virtude do grau de interferência do governo sobre a economia, esgotamento de crescimento e valuation em determinados nichos sobrevalorizados (como o varejo, por exemplo), disparada no câmbio (prejudicando empresas com dívida no exterior) e sensibilidade ao movimento do mercado de commodities (atualmente em fase de correção), a escolha dos ativos com maior potencial de ganho sobre a retomada futura do mercado brasileiro poderá ser dificultada. A solução para este complicador está no remanejamento dos recursos em renda variável para ETFs que fazem a réplica do índice Bovespa ou fundos de gestão ativa em ações.

Vale ressaltar que o potencial futuro de retomada do índice é limitado. Acima dos 60.000 pontos, nas condições de fundamentos atuais, a bolsa começa a ficar cara e desinteressante para compra. Pode-se esperar a ocorrência do movimento de retomada dos preços no auge do terceiro trimestre ou durante o quarto trimestre deste ano. O mercado dificilmente ultrapassa seis meses consecutivos de queda. Em maio, o índice Bovespa completou o quinto mês consecutivo no vermelho. O provável agravamento da correção técnica pode ser a fase derradeira do movimento corretivo de curto e médio prazo.

Sucesso a todos e bons negócios!

16 comentários:

  1. Tenho usado seu site, como forma de estudos, e tenho aprendido muitas coisas bacanas, confesso que sou leigo no assunto porém, a abrangência na qual você escreve aqui é algo muito bom, obrigado por expor seus conhecimentos amigo.

    http://comoguardardinheiro.blogspot.com.br/

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    1. Legal amigo! Fico feliz em saber que o blog está lhe ajudando. Conte conosco sempre que precisar!

      Obrigado!

      Abcs, boa semana!

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  2. digamos que o mercado derreta de verdade, valerá a pena se posicionar em empresas com bons fundamentos vide o que aconteceu em 2008/2009, estou estudando essa possibilidade.
    Ivsn C.

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    1. Caso vier acontecer, com toda certeza. Será um posicionamento tranquilo, de risco extremamente baixo. Não dá pra recusar uma oportunidade rara dessas.

      Abcs, boa semana!

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  3. MUITO BOM!

    PODERIA NOS BRINDAR MAIS COM ARTIGOS SOBRE O TESOURO DIRETO E A CURVAS DE JUROS

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    1. Obrigado! Sim, é uma boa ideia. Eventualmente posso fazer novos artigos sobre as oportunidades no mercado de renda fixa. Adotarei esta postura em todas as análises de panorama de mercado. É um pouco monótono acompanhar oscilação dos títulos (comparando com a volatilidade na bolsa), mas é um mercado que também apresenta boas oportunidades de ganho, principalmente quando a operação é realizada no momento certo.

      Abcs, boa semana!

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  4. Parabéns FI pela análise.

    Concordo em genero, número e grau com as suas impressões acerca do mercado como um todo.

    Demonstrou perspicácia e serenidade na análise. Com certeza tens um olhar diferenciado do mercado.

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    1. Obrigado meu caro!

      Que nada, eu ainda tenho 0,50 grau de miopia e não uso óculos rsrss.. É o mínimo que eu posso fazer por todos vocês, passar um pouco do que eu aprendi nestes últimos anos acompanhando e estudando o mercado.

      Abcs, tenha uma ótima semana!

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  5. Magnífico post.
    Sobre os títulos do Tesouro Direto, creio que poderemos ter uma correção dos juros mais vigorosa lá por 2014, o que faria com que a LFT fosse a letra mais indicada.
    Obviamente que é apenas minha opinião e seu entendimento também é bem aceitável que aconteça.
    De qualquer forma, realmente as LFTs e LTNs são as melhores letras no cenário atual.
    FI, será que talvez não seja a hora de verificarmos a possibilidade de investirmos em fundos atrelado ao dólar?
    Digo isso pois acho que o dólar poderá "disparar" quando as reservas do governo bananense estiverem a mingua...
    Att,
    Justiceiro

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    1. Obrigado Justiceiro!

      Sim, o mercado costuma corrigir o excesso após o ciclo de aperto monetário. 2014 poderá ser um ano bem monótono de pouco ou quase nenhuma oportunidade de negócio no mercado de renda fixa brasileiro. Além disso, o Banco Central dificilmente vai mexer na taxa de juros em 2014 (ano de eleições).

      Num cenário de câmbio flutuante, sim. É de se esperar manutenção do movimento de valorização do dólar. Mas aqui no Brasil fica difícil especular em dólar. Eu não faço isso, pois o governo interfere demais na taxa de câmbio. Minha projeção para o fechamento do câmbio este ano está em R$ 2,15 com o Banco Central torrando suas reservas para segurar o dólar neste patamar. São 370 bilhões de dólares, tem bastante cartucho pra utilizar.

      Abcs, bom início de semana!

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  6. FI,

    Apesar de sua excelente análise, acho desvantajosa a relação riscoXretorno de qualquer posição em NTN-B e LTN neste momento, pois, em última análise, é grande a probabilidade de que os juros continuem subindo pelos motivos por vc aventados.

    O dólar fez um movimento técnico importante ao romper os 2.15 e tem caminho livre para os 2.4/2.5, mas ainda é cedo para apostar neste movimento.

    Em relação à bolsa, caso não haja um crash nos EUA, vale a pena ficar de olho nesta perna de baixa, pois, em função da enorme queda na correlação IBOV/DJI, da alta do dólar, da provável precificação da piora dos fundamentos da nossa economia e da saída do investidor PF (que, no final,é quem paga a conta da festa), talvez estejamos perto do fim do ciclo de correção de longo prazo.

    abs

    Henrique

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    1. Olá Henrique, obrigado!

      Exato. Como expliquei na análise, é recomendável apenas abrir posições em LTN 2016 e LFT 2017. Títulos de longo prazo estão descartados justamente por estes motivos. A LFT permite liquidação antecipada, pois este título nunca se desvaloriza, é atualizado diariamente pela taxa Selic. A LTN, a ser liquidada em 01/01/2016, é uma boa opção para aproveitar a oscilação dos juros e bater a taxa pós-fixada nos próximos dois anos, pelo menos. A taxa Selic dificilmente se aproximará dos 9,50% já no início de 2015 (pós eleição presidencial), portanto este título continuará batendo a taxa pós fixada. Pode perder competitividade somente quando estiver próximo do vencimento. A liquidação da LTN 2016 ocorrerá próxima ao timming de mudança da política monetária dos principais bancos centrais mundiais (aperto monetário). Neste momento o investidor estará líquido para aproveitar as novas oportunidades de taxas no mercado.

      Concordo, parece que esta congestão de longo prazo já passou da fase de maturação. Podemos estar na fase final. O problema é que não temos driver neste momento para superarmos o TH (saindo da zona de congestão) e precisaríamos fazer isso antes da desalavancagem do sistema financeiro mundial (retomada da inflação global e alta nos juros).

      Abcs, boa semana!

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  7. Podemos ter um cenário de inflação baixa e juros altos? Sob quais circunstâncias? A lógica do regime de metas da inflação faz pensar que este é um cenário bastante improvável. Pergunto isto, pois sou entusiasta das NTNBs de longo prazo e o fato delas serem compostas por juros fixos + inflação dá uma sensação de equilíbrio muito boa, para quem leva os títulos até o vencimento.

    Abraços, Renato C

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    1. Olá Renato C, tudo bom?

      Podemos sim, claro. Em 2006, por exemplo, a inflação fechou o ano aos 3,14% (abaixo, inclusive, do centro da meta), enquanto a taxa Selic havia fechado o ano aos 13,25%. Em 2007 a inflação fechou mais próxima do centro da meta, aos 4,45%, e a taxa Selic fechou aos 11,25%. Não há uma circunstância fixa, o cenário econômico muda constantemente, exigindo mudanças também na postura da autoridade monetária. O mais importante em qualquer título do tesouro (com exceção das LFTs, que funcionam como um CDB pós-fixado de liquidez diária) é avaliar avaliar o bônus (ou a taxa fixa). No caso da NTNB, os bônus destes títulos de longo prazo aumentarão significativamente a partir de 2015, com a retomada mais firme da política de aperto monetário no mundo inteiro. Ganhar 5% bruto acima da inflação (é o que está pagando a NTNB 2035 ou NTNB 2050) pode ser bom negócio hoje, mas não será amanhã. O próximo ciclo de aperto monetário mais rígido do Copom jogará este bônus para 6% ou 7% sem muita cerimônia (isso ocorreu recentemente entre 2010 e 2011, não me lembro o timming correto). Um acréscimo de 2% ao ano no bônus de um título de longo prazo faz muita diferença, principalmente para quem vai carregar até o vencimento.

      Abcs, bons investimentos

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