quinta-feira, 27 de junho de 2013

Resolvida a charada dos juros


O Relatório Trimestral de Inflação, divulgado hoje pelo Banco Central, mostrou que as perspectivas de inflação da autoridade monetária pioraram ainda mais, ao mesmo tempo em que se observou um agravamento da deterioração dos fundamentos econômicos.

O Banco Central revisou para baixo sua projeção de crescimento da economia brasileira em 2013, de 3,10% para 2,70%. Com relação à inflação, a estimativa subiu de 5,70% para 6,0% no fechamento de 2013. Para o ano que vem a projeção de inflação também subiu de 5,30% para 5,40%.

As projeções de inflação do Banco Central levam em consideração o cenário de referência (taxa Selic em 8,0% e câmbio aos R$ 2,10). Isto significa que o Banco Central não vai conseguir cumprir com o seu objetivo (carregar a inflação para o centro da meta, atualmente em 4,50%), caso as condições monetárias atuais sejam mantidas. Como as projeções de inflação para 2013 e 2014 estão longe do centro da meta, a autoridade monetária precisará atuar novamente no mercado elevando a taxa básica de juros.


A tabela acima, retirada do relatório do Banco Central, mostra que a inflação acumulada dos últimos 12 meses vai estourar o teto da meta (6,50%) no segundo trimestre deste ano, atingindo os 6,80% e, posteriormente, deverá ceder lentamente. Os diretores do Banco Central trabalham com uma probabilidade de 29% para que a inflação ultrapasse o teto da meta no fechamento de 2013 e 25% no término de 2014. São projeções relativamente elevadas e nada confortáveis.

Além das preocupações com relação à resistência da inflação, o documento destaca uma maior dispersão no processo de aumento dos preços. O índice de difusão do IPCA atingiu 63,01% em maio. Apesar da queda dos últimos meses, o número é considerado elevado e revela piora na perspectiva dos agentes econômicos sobre a inflação (generalizada entre os setores), dando origem ao perigoso processo de indexação.

O Banco Central voltou a destacar os efeitos do mercado de trabalho aquecido sobre a inflação. Os aumentos de salários, incompatíveis com o crescimento da produtividade, provocam redução do nível de  competitividade das empresas e causam inflação. Desta forma, a autoridade monetária considera que uma moderação salarial (causada pelo desaquecimento do mercado de trabalho, via aperto monetário) “constituirá elemento-chave para obtenção de um ambiente macroeconômico com estabilidade de preços”.

O diretor de política monetária do Banco Central, Carlos Hamilton Araújo, soltou algumas informações importantes durante a divulgação do Relatório de Inflação. A começar pela perspectiva de inflação global, que deverá ser maior em 2013 (2,5%), 2014 (2,8%) e 2015 (2,7%). O segundo ponto é ainda mais interessante. Araújo acredita que a inflação brasileira neste ano será menor do que a registrada no ano passado (5,84%) e que a inflação de 2014 será menor do que a de 2013. O presidente do Banco Central, Alexandre Tombini, disse algo semelhante em outras ocasiões.

A expectativa otimista de dois importantes diretores do Banco Central, divergente da própria estimativa do Relatório de Inflação, num momento crucial de aceleração das pressões inflacionárias, só pode representar numa política de aperto monetário mais firme do que se esperava.

A estimativa do Relatório de Inflação leva em consideração o cenário de referência (taxa Selic em 8% e câmbio estabilizado em R$ 2,10). Para que Tombini e Araújo possam esperar que a inflação de 2013 seja menor do que a registrada em 2012 (5,84%), num cenário de valorização do dólar (contribui negativamente para a inflação), o aperto monetário precisará ser, inevitavelmente, mais forte do que se esperava anteriormente.

O timming dos efeitos gerados pelas decisões de política monetária matou o resto da charada. Os ajustes na taxa básica de juros costumam refletir na economia após nove meses, em medida, da data de implementação. Mas, então, como os diretores do Banco Central podem contar com uma redução da inflação de curto prazo (até o final deste ano)? A resposta é simples, o Banco Central quer anular o risco de indexação dos agentes econômicos.

Ao subir os juros de forma mais agressiva (ou prolongada) do que se esperava, o Banco Central estará mostrando ao mercado o seu comprometimento com a política de metas de inflação e assim, evitará que os agentes econômicos subam os preços baseados, unicamente, pela inflação elevada do passado. Esta estratégia é compatível com a desaceleração da inflação de curto prazo. Por este motivo estou elevando minha projeção para a taxa Selic este ano de 8,75% para 9,50%.

No mercado de capitais, os principais índices mundiais continuam mantendo a tendência de alta de curtíssimo prazo. O índice Bovespa conseguiu romper a LTB formada a partir do topo em 57k, fato que permite a manutenção do movimento de repique.

Nos Estados Unidos o índice Dow Jones subiu 0,77% e fechou colado na linha central de bollinger onde, neste momento, atua como zona resistência. Caso esta linha de resistência seja superada amanhã, o índice terá condições de retestar a LTB dos 15.5k.


25 comentários:

  1. Muito boa sua análise! E vai chegando ao fim a teimosia do governo de empurrar um juro baixo num cenário onde tudo indicava que isso não daria certo... o Tesouro volta a ser bastante atrativo e os FIIs vão amargar mais quedas pelo jeito.
    Quanto ao repique do Bovespa, que bom que o PIB dos EUA veio menor que o esperado pelo jeito rsrs, depois dessa notícia tudo melhorou. Coisa de louco esse sr. Mercado. Abraços!

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    1. Obrigado amigo!

      Mais uma intervenção do governo que não deu certo. O problema é que neste caso pagamos caro por um sacrifício (alta da inflação) que ficou em vão. Os juros estão subindo novamente pra acertar o descuido (ou exagero de cortes na taxa Selic) do passado.

      Abcs, bons investimentos

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  2. FI,

    Isso significa que o auge da "rentabilidade negativa" / maior taxa nos títulos do tesouro pode ser estendido ? Ou já estariamos mais ou menos hoje com tudo precificado nos títulos. Se é que dá para estimar...

    Bom post.

    Abs,

    Miguel

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    1. Obrigado Miguel,

      Se levarmos em consideração que o mercado vai precificar este juros em 9,50% no fechamento de 2013, as taxas pré-fixadas não terão motivos para se aproximar novamente dos 12,00% no curto prazo. Mas ainda estamos dentro da fase crítica do ciclo de aperto monetário, basta um resultado de IPCA acima das estimativas, ou mesmo uma surpresa na próxima reunião do Copom (aumento de 0,75 p.p.), para que as taxas voltem a saltar novamente. A outra possibilidade está relacionada ao movimento dos Yields nos títulos do exterior. Se os treasuries (títulos públicos dos Estados Unidos) voltarem a cair (as taxas lá também estão corrigindo o excesso das últimas semanas), este movimento será refletido aqui dentro com uma desvalorização dos títulos do tesouro.

      Abcs, bons negócios

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  3. Creio que o BC está falando mais sério agora devido a autorizativo "petralhístico", devido às pressões alavancadas pelo movimento popular.

    Nesses termos, penso que os petralhas autorizaram o BC a aumentar progressivamente os juros, prolongando o tempo do aperto monetário, mas de forma progressiva (menos forte) e mais prolongada, para evitar um choro mais forte do povão.
    Nessa linha de raciocínio, sim, 9,5% é um número compreensível.

    Entretanto discordo do discriminado das tabelas para 2014 e 2015 do BC, tendo em vista estarem "subestimando" os efeitos da eliminação provável dos QEs do FED em 2014 e aumento de juros para 2015.

    Coloquei subestimando entre aspas pois creio que o BC sabe sim dos poderosos efeitos que o FED irá colocar ao mercado de juros futuros, mas evitam tocar no assunto para evitar o desespero daqueles que adoram gastar via crédito.

    Enfim, juros progressivos até 9,5%, com alguma parada (mas sem cair) em 2014 e aumentando bem mais do que 9,5% no segundo semestre de 2014 e disparando em 2015.

    Ou seja, as projeções atuais do mercado são de curto prazo, para até meados de 2014.

    Desta forma, vislumbro tendência de juros ainda maiores a médio e longo prazos, como também parece ser o entendimento do colega FI.

    Forte abraço!!

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    1. Olá Justiceiro,

      Sim, está em linha com a minha análise de Panorama. Para o médio e longo prazo a curva de juros é altista. Por este motivo recomendo aos investidores aproveitarem as oportunidades de renda fixa somente nos títulos de curto prazo, já que a partir da metade de 2015 os juros começarão a subir nos Estados Unidos. A inflação brasileira projetada para 2013 é quase o triplo da média mundial. Como a tendência, no mundo inteiro, é de aumento das pressões inflacionárias nos próximos anos (em linha com o processo de retomada do crescimento econômico), os índices de preço serão inevitavelmente pressionados aqui no Brasil. A pegadinha desta tabelinha do Banco Central é o tal do "cenário de referência". Os diretores fizeram uma breve citação no documento, mas não incluíram o fator FED no cálculo das projeções.

      Abcs, bons negócios

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    2. Qual seria o patamar para o dólar que faça atrair os investidores internacionais para a bovespa? Seria 2,20 como chegamos? Ou algo bem maior do que isso - que ocorreria somente nos proximos anos?

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    3. Olá,

      Não há um patamar fixo. A questão principal é o dólar parar de subir e reverter a tendência principal de alta para tendência de baixa. Se o estrangeiro entrar no mercado com o dólar a R$ 2,50 e o real continuar se desvalorizando (chegando a R$ 2,80, por exemplo), vai ser difícil conseguir ter lucro na operação mesmo com uma valorização hipotética do ativo.

      Acho que o dólar está longe de inverter esta tendência de alta. Ao que ao que tudo indica deverá permanecer por mais alguns meses/anos. Porém, durante este ciclo a moeda vai oscilar (fazendo topos e fundos intermediários), gerando oportunidades de curto/médio prazo.

      Abcs, bons investimentos

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  4. FI,

    Aposta numa alta de 0,5% ou 0,75% na próxima reunião?

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    1. Acho que 0,75 p.p. vai assustar o mercado. Aposto em três altas de 0,50 p.p.

      Abcs, bons investimentos

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  5. Acha melhor esperar para fazer os aportes de Julho depois da reunião do compom?
    Abraço!

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    1. Luigi,

      Eu acho melhor fazer os aportes quando as taxas disparam. Isso normalmente acontece na fase mais crítica do ciclo de aperto monetário (onde nós estamos no momento). Quando o mercado está em pânico é bom acompanhar as taxas pelo menos três vezes por dia (uma de manhã, outra no início da tarde e por último no final do pregão). Se a taxa disparar antes do Copom, manda bala. Compra sem medo. Se continuar subindo você compra de novo e com a mão dobrada. E se disparar rapidamente para um patamar irracional você pode encher a lata. Exemplo recente: do dia 10/06/2013 ao dia 20/06/2013 a LTN 2016 saiu dos 10,07% para os 11,73%. Quase 2 pontos percentuais de alta nos juros em apenas 10 dias corridos. Este foi um período de pânico no mercado. Antes do Banco Central interromper oficialmente o ciclo de aperto monetário, muito possivelmente as taxas já estarão em processo de correção dos excessos.

      Abcs, bons negócios

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    2. estou começando agora no tesouro e aportando devagar consegui comprar umas LTN com essa alta desses dias ai achei interessante para um pré e as NTN-Principal quais seriam as taxas pra considerar alta pra comprar visando o longo prazo?
      conheci a pouco o seu site mas estou gostando bastante parabéns pelo ótimo trabalho. abs.

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    3. Daniel,

      Não recomendo comprar nenhum título neste momento visando longo prazo, pois haverá uma mudança significativa a partir de 2015 no mercado de renda fixa com a retomada do ciclo de aperto monetário pelos principais banqueiros centrais mundiais, o que vai, certamente, refletir aqui no Brasil, talvez até com mais força, já que somos um país de economia emergente que gera, naturalmente, mais inflação (tendência da inflação global é de alta para os próximos anos). As oportunidades que apareceram no Tesouro referem-se aos títulos de curto prazo, com vencimento próximo da mudança do cenário global para a taxa de juros. Depois dê uma olhada na análise de panorama para renda fixa, lá eu explico melhor sobre isso: http://www.financasinteligentes.com/p/panorama-de-mercado.html

      Qualquer dúvida volte a questionar,

      Abcs, bons investimentos

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  6. Ola FI
    Eu sou um fiel seguidor do seu blog e de perguntas dificeis.Por isso lhe peço sua paciencia.
    Entao na sua analise tecnica LTB rompida é considerado um forte sinal de mudança de tendencia... e olhando a que o IBOV caiu mto em poucos dias vamos ter ai um bom repique.
    Se lhe for facil ver esse pormenor poderia falar quando os investidores estrangeiros começarem a entrar.

    batistuta

    Abraço.Bom fim de semana.

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    1. Opa, tudo bom Batistuta?

      Estou aqui é pra isso mesmo. Manda bala!

      Na verdade o repique do Ibov começou em 45.4k e culminou no rompimento da LTB dos 57k. Normalmente o rompimento de linhas de tendência revelam inversão do movimento, como este que ocorreu de curtíssimo prazo. Mas a tendência de baixa do Ibov de curto, médio e longo prazo não foram alteradas. Para alterar uma tendência de baixa de curto prazo é necessário observarmos formação de um pivot de alta, o que ainda não ocorreu. Outro ponto importante é avaliar as circunstâncias de um rompimento. LTBs muito inclinadas (ângulo menor), tendem a ser rompidas mais facilmente e mostrar sinais falsos. Esta LTB dos 57k é uma linha forte de baixa. Observe que entre os 57k e o fundo em 45.4k, o índice só conseguiu fechar 4 pregões em alta. Ontem nós rompemos a LTB e hoje voltamos a cair novamente na abertura do pregão, o que pode ser um sinal de falso rompimento. O repique de curtíssimo prazo será invalidado caso o índice continue caindo mostrando força nos candles do gráfico horário abaixo dos 47k. Isso tratando-se do índice Bovespa. Em se tratando de ativos cada caso é um caso. Existem papéis que rompem LTBs mais facilmente e mostram sinais falsos. Outros menos. Por isso é importante fazer o estudo técnico do movimento histórico do ativo antes de montar uma operação.

      Acho que os estrangeiros voltam a entrar no Brasil quando o dólar inverter a tendência de alta de médio/longo prazo, ou mesmo quando a moeda montar topos de curto prazo, gerando oportunidades de entradas mais curtas.

      Abcs, bons negócios

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    2. Valeu amigo vamos ficar atento.

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  7. Olá, ao meu ver estas altas é apenas ajustes em posições vendidas, observem que as Vale3-5 e Petr3-4 pouco se mexeram, as queridinhas dos estrangeiros.
    Fi, aquele soft que te passei plota qualquer ativo da base do Yahoo.
    Ivan

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    1. A Vale está dando uma lambada na AT de curtíssimo prazo. Perdeu suporte na abertura, bateu 26,44 mas já inverteu tudo e voltou pros 26,85. Na verdade os players rasparam os stops que estavam abaixo da mínima. Isso costuma acontecer frequentemente. Já a Petro está mais micada por conta do balanço deste 2 TRI/2013 que deverá ser horroroso (câmbio). Uai, então o programa é bom mesmo.

      Abcs, bons trades

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  8. FI, bom dia.
    Qual site vc consegue acompanhar diariamente as taxas das letras do TD?
    Li que vc escreveu que é possível acompanhar até por períodos (manhã, tarde...)
    Obrigado!

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    1. Boa tarde,

      Você pode acompanhar diretamente pelo Home Broker da sua corretora/banco ou então no site do Tesouro, neste link: http://www3.tesouro.gov.br/tesouro_direto/consulta_titulos_novosite/consultatitulos.asp

      Abcs, bons investimentos

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  9. FI, pelo que tenho lido por aqui, os anos de 2013-2017 serão ruins para o Brasil, com aumento de inflação, do dolar, e dos juros. Qual é uma boa estrategia para esses 3-4 anos: Juros? ativos em dolar? Acho que empresas exportadoras terão os lucros em reais aumentados, e o valor da ação tende a cair para refletir a desvalorização do dolar, consequentemente aumentando o dividend yeld em reais. Seria uma boa estrategia compras parciais deste tipo de empresa? Resumindo, como se posicionar e para onde correr nestes 3 anos?

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    1. Galo da Comarca,

      Se o Banco Central confirmar as minhas expectativas e subir os juros até 9,50% ao ano, muito provavelmente a inflação de 2014 ficará abaixo dos 5,5%, caso os juros permaneçam inalterados até o final do primeiro semestre de 2014. Este já seria um sinal de melhora. É difícil fixar uma estratégia ou um objetivo por um período tão longo, tudo vai depender do Sr. Mercado. Nós só aproveitamos as oportunidades. Quem decide quando elas irão aparecer é o próprio mercado. Por exemplo, na última semana os títulos públicos de curto prazo deram uma boa oportunidade de posicionamento (vide LTN 2016). Montar posição em dólar também não deixa de ser interessante (fundos cambiais são uma opção) quando a moeda apresentar correções mais agudas de curto prazo. Por último, utilizar a bolsa para especular no curto prazo e montar posições parciais e crescentes de médio/longo prazo nas quedas mais expressivas do índice pode ser interessante. O cenário é desfavorável para tentarmos identificar o setor ou mesmo a empresa que será beneficiada nos próximos 3 anos, as condições macro são ruins. Por isso estou dando preferência às compras parciais de ETFs/fundos de ações. No setor de commodities a única coisa que me atrai (preço x perspectivas) é a Vale.

      Abcs, bons negócios

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