sexta-feira, 12 de julho de 2013

Estagflação à brasileira


As decepções com o desempenho da economia brasileira não param de aumentar. O IBC-Br (Índice de Atividade Econômica do Banco Central, considerado uma prévia do PIB), divulgado hoje, mostrou que a atividade econômica do País teve forte queda de 1,4% no mês de maio deste ano. Esta já é a segunda retração registrada somente neste ano (em fevereiro o IBC-Br caiu 0,41%) e a maior retração mensal desde dezembro de 2008, quando, naquela época (auge da crise financeira mundial), o IBC-Br despencou 4,31%.

O mercado esperava uma queda de 0,90% no IBC-Br de maio, por conta da rotineira desaceleração da atividade industrial. O número decepcionou, mas não chega ao ponto de ser uma surpresa, de fato, pois já estamos acostumamos com a sequência de desapontamentos que nos perseguem desde 2011. Os números revelam, sim, a gravidade do cenário. A situação está cada vez mais delicada.

Estamos passando por um cenário de estagflação ainda não admitido pelo governo federal por conta do baixo nível de desemprego. A taxa de desemprego é o que (ainda) diferencia a estagflação brasileira atual da estagflação clássica que atingiu o mundo na década de 1970. São inúmeras as semelhanças: redução dos investimentos, depreciação da moeda, oferta incapacitada de crescer e/ou atender a demanda, inflação elevada e baixo crescimento.

A origem destes hematomas é amplamente conhecida, são frutos dos sucessivos erros de gestão da política econômica do governo federal. O artigo do dia 29 de maio, “Escorregamosna manteiga e caímos na estagflação”, resume bem a nossa situação atual. O conteúdo da análise de hoje poderia ser muito bem uma cópia do que escrevi neste dia e, portanto, vou destacar alguns trechos desta análise que considero importantes para reflexão:

[...] “A economia não mostrou sinal de reação mesmo com todos os “programas de incentivo” ao crescimento implementados pelo governo desde o fim de 2011. O excesso de intervenções e as inúmeras medidas de baixa eficácia do ministro Mantega estão agora contribuindo para a própria deterioração da economia.

O governo demorou para perceber os sinais de esgotamento na sua política econômica ultrapassada (crescimento puxado pelo consumo das famílias). A leniência com a inflação, num cenário de demanda altamente pressionada, trilhou o nosso caminho rumo ao perigoso cenário de estagflação.

Hoje a inflação está tão alta que o país não consegue mais crescer. A falta de crescimento inibe os investimentos, barrando, desta forma, a expansão da oferta. Esta última, por sua vez, não consegue atender o excesso de demanda, gerando desequilíbrio de preços. Resultado: o país caiu, com o aval do Ministério da Fazenda, numa perigosa espiral de inflação elevada e baixo crescimento.”

[...] “O Brasil investe cerca de 18% do PIB na economia, uma das piores taxas do mundo. Os erros da política econômica são também os grandes responsáveis pelo baixo investimento na economia. O incentivo desenfreado ao consumo das famílias provocou queda na taxa de poupança interna para 14,8%. Ou seja, as pessoas gastam mais e economizam menos, no mesmo ritmo do governo.

Neste cenário torna-se praticamente impossível observarmos aumento substancial da taxa de investimento na economia se a taxa de poupança interna permanecer baixa.

O problema é que agora o país depende, mais do que nunca, do aumento na FBCF (investimentos). Este é o caminho mais curto e sustentado para sairmos do perigoso cenário de estagflação. Mas para destravar os investimentos, pelo menos do setor privado, o governo precisa fazer o que não fez nos últimos anos/décadas: as reformas estruturais.

O ambiente de negócio no Brasil é tão desfavorável que a indústria não consegue competir no mercado com o câmbio a 2,00 reais. Permitir a desvalorização do real não vai resolver o problema da indústria, apenas reduzirá a velocidade do processo de desindustrialização do país.

Tal como a economia, o Banco Central também está numa situação extremamente delicada, se segurando como pode para não escorregar na manteiga. O real desvalorizado pressiona a inflação, mas se o câmbio ficar abaixo de R$ 2,00 as fábricas (ou o que restou delas) fecham as portas.

Os juros baixos mantêm o mercado de trabalho aquecido, mas também alimentam as pressões inflacionárias. Porém, se os juros subirem demais, a taxa de desemprego poderá aumentar acima do limite de capacidade de sustentação do sistema financeiro, já que este aumento provocará uma disparada da inadimplência no pior momento (endividamento elevado das famílias provocado justamente pela política de incentivo ao consumo do governo). Este cenário forçará os bancos a se protegerem reduzindo as operações de crédito (tirando o dinheiro de circulação da economia) e consequentemente prejudicando o crescimento econômico.

Por um lado o Banco Central não pode deixar de subir os juros, pois a inflação elevada é o principal entrave ao crescimento da economia e causa uma deterioração ainda maior do cenário interno, inibindo os investimentos. Por outro lado o Banco Central não pode combater a inflação com a dose necessária, pois a política econômica não consegue fazer o país crescer.”

A nova decepção com o IBC-Br renovou a percepção de deterioração da economia por parte dos investidores. Estes, por sua vez, estão cada vez mais receosos com a temporada de balanços corporativos deste segundo trimestre de 2013.

O índice Bovespa caiu 2,34% nesta sexta-feira, devolvendo praticamente todos os ganhos do pregão anterior. A bolsa brasileira fechou a semana praticamente de lado, mostrando um candle de indecisão. O fundo (temporário) em 44.1k não está descartado, porém o pavio longo superior do candle semanal revela a fraqueza do mercado brasileiro para manter um repique consistente mesmo quando este momento é favorável (sobrevenda elevada e retomada dos principais índices mundiais).


A bolsa do México fechou a semana em leve alta, mantendo o movimento de repique iniciado há duas semanas. O índice reagiu forte após o teste sobre a média móvel simples de 200 períodos semanal, registrando uma das maiores altas semanais dos últimos 10 anos.

Gráfico da bolsa do México

Na China a bolsa de Xangai fechou a semana em alta, mantendo o movimento de recuperação após falso rompimento da linha de suporte em 1.9k.


Na Índia a bolsa de Bombay subiu forte nesta semana, mostrando, também, um bom movimento de recuperação. As perdas de 2013 estão quase zeradas. O índice caminha para testar a importante linha de resistência em 20.5k, a última barreira abaixo do topo histórico.
  
  
Nos Estados Unidos o índice Dow Jones fechou mais uma semana em alta e conseguiu se aproximar da máxima histórica, com boas possibilidades de rompimento nos próximos pregões.


O índice DAX, na Alemanha, subiu forte nesta semana e conseguiu superar a linha central de bollinger. Voltou a ficar bem armado para retestar a máxima histórica em 8.5k.


Na Inglaterra a bolsa de Londres realizou movimento semelhante ao superar a linha central de bollinger. O candle de força relevante sinaliza que o mercado poderá retornar à casa dos 6.8k (topo histórico do índice FTSE).


Pode-se observar que, mais uma vez, por questões internas, a bolsa brasileira perdeu uma semana marcada por rallys em diversas praças financeiras mundiais.

Desejo a todos vocês um ótimo final de semana!

21 comentários:

  1. FI,

    Boa análise do problema atual que o Brasil tem.

    Será que o bacen pode surpreender e interromper a alta da selic antes que atinja 9,5% ?

    Pode ser que o banco central interprete que uma freada no mercado de empregos em ano eleitoral não seja uma boa escolha. O maior aperto seria deixado para 2015.

    Abs,

    Miguel

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    1. Olá Miguel,

      Sim, pode. O Banco Central já havia reduzido sua projeção para o crescimento econômico este ano no último Relatório de Inflação, demonstrando preocupações indiretas com o modelo econômico. Com estes novos indicadores, juntamente com a tendência de deterioração ainda maior da economia brasileira, as projeções do BC poderão ser refeitas novamente com novas revisões para baixo. Quando, e se, estas novas projeções apontarem para um aumento significativo (superior à 50%, talvez) do risco de recessão na passagem de 2013 para 2014 (o que vai causar um impacto ainda maior na taxa de desemprego, elevando os níveis de inadimplência), o Banco Central poderá aliviar a mão na subida dos juros. Ou seja, ao invés de subir 0,50 p.p., o ritmo de alta passa a ser de 0,25 p.p., acompanhando o ritmo da atividade econômica.

      Eu ainda vou manter minha projeção de 9,50% no final de 2013. Vamos ter que aguardar as novas declarações do Carlos Hamilton ou Alexandre Tombini, pois eles precisarão indicar uma mudança de postura do Banco Central, bem diferente do que haviam afirmado algumas semanas/meses atrás. Basicamente algo que demonstre um abandono ao objetivo de alcançar o centro da meta em 2014 (4,5%), dando mais ênfase à atividade econômica, a fim de evitar que a economia brasileira afunde numa recessão em ano eleitoral. O problema é que isso não vai funcionar (mais uma vez), pois o Banco Central sozinho não faz milagre. Não são os juros que estão impedindo o País de crescer. Se o BC retroceder na política monetária será um sinalização de que o Planalto continua mandando e desmandando lá dentro e a conta só vai engordar para 2015.

      Abcs, bom sábado!

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    2. Entendido FI.

      Vamos ver se já sairá alguma pista na ata do copom que vai ser anunciada na próxima quinta-feira. Abs, Miguel.

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    3. Opa,

      Acho que a ata não apresentará surpresas, a pista (se houver realmente mudança de postura) poderá estar nos discursos/entrevistas dos diretores do BC.

      Abcs, boa semana!

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  2. Nosso mercado está sinalizando/antecipando a péssima conjuntura econômica que vivenciamos. As medidas adotadas são frágeis e pontuais diferente das intervenções governamentais nas empresas que são dramáticas e profundas gerando prejuízos não apenas nas empresas como a toda economia.

    As cotações de nossas principais ações estão ridiculamente baixas e mesmo assim não encontram um fundo. Como disse um famoso comentarista as cotações encontram-se no fundo do poço e hoje o fundo do poço caiu.

    Talvez já estejamos antecipando as dificuldades futuras. Estagflação? Recessão? Mas na frente veremos.


    A dúvida é em que momento as medidas necessárias serão adotadas ou até quando a economia resistirá ao atual modelo.

    Anonimo investidor

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    1. Olá Anônimo Investidor,

      Ok, só discordo quanto ao preço rsrs. Algumas ações estão sim ridiculamente baixas, mas são minoria no índice. Boa parte das empresas boas e/ou bem fundamentadas ainda estão salgadas para comprar na minha humilde avaliação.

      Eu acho que 2015 será o ano para começar lavar a roupa suja. Independente de quem estiver no poder.

      Abcs, boa semana!

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  3. Na minha opinião o principal problema foi deixar o dolar baixo por tanto tempo. Enquanto isso a China controlou o cambio sem ligar pra críticas. Concordo com vc que as reformas necessárias não foram feitas e isso prejudicou também. Mas discordo totalmente quando diz que a inflação está alta. Olhando o histórico da inflação vemos que não está muito acima do que estava anos atrás. Além disso é preciso dizer que todo o mundo passa por um momento difícil. Até a China está crescendo muito menos que crescia! No Brasil não seria diferente. Eu sou totalmente contra aumentar os juros. O governo faz isso apenas pra satisfazer os rentistas que estão pressionando. Com o PIB baixo e a inflação apenas um pouco acima dos anos anteriores não faz sentido aumentar os juros.

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    1. Qual a razão pra não aumentar os juros fora seu esquerdismo boboca de "agradar rentistas" (e pq só agora agradá-los depois de baixar pra níveis nunca antes vistos?")

      Lamentável que o FI faça análises legais e você venha aqui vomitar esquerdismo.

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    2. Petistas detected!

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    3. Na verdade os juros foram abaixados de maneira muito brusca, quando comparados com a realidade do nosso mercado de juros. O governo devia ter sido menos agressivo e ter esperado as condições de mercado se acomodarem, baixando os juros aos poucos. O Governo não avaliou direito a situação e queria um crescimento a qq custo, mas a demanda não acompanhou a oferta e ficamos na estagflação!
      Julio

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    4. luizshigunov,

      É por isso mesmo que o Conselho Monetário Nacional definiu a meta de inflação em 4,5%. Para mim, 6,70% pode ser um número alto, para você não. Para evitar esta discordância, o regulador do sistema financeiro estabelece uma meta a ser perseguida pelo Banco Central. Ou seja, em 4,5% a inflação está sob controle (nem alta, nem baixa). Abaixo deste patamar a inflação é considerada baixa pelo sistema, acima deste patamar é considerada elevada.

      Com relação ao crescimento, sim, os países no mundo inteiro estão experimentando uma desaceleração. Acontece que o PIB brasileiro é significativamente inferior a média do PIB mundial, além de ser o pior PIB dos países emergentes. Também não gosto de alta dos juros, trava economia. Mas este é o único remédio disponível no momento (já que o governo não faz a sua parte nas reformas, fiscal, etc). Pior do que ver uma Selic alta é ver uma economia completamente desequilibrada.

      Abcs a todos e boa semana!

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  4. OLá Fi, o que acordou de vez a inflação foi o aumento dos combustíveis isso sem falar a rédia solta do crédito e esse populismo maidito!!
    Já faz tempo que venho em meus comentários falando sobre isso e realizando trades de curto prazo.
    O que será daqui pra frente?? Ao meu ver teremos isso mesmo que v;c menciona "estagflação" e será longa, o buraco que o Pt nos meteu não tem como sair nem tão cedo, estamos apenas nos primeiros capítulos.
    Ivan

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    1. Ivan,

      Não estou muito otimista. O governo ainda não se mostrou capaz de reverter este cenário e suas últimas atitudes aceleraram o processo de deterioração da economia.

      Abcs, boa semana!

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  5. O importante mesmo agora é conhecer as tendencias sazonais de mercado e usar isso a nosso favor com entradas longas de curto prazo.Eu acho que estamos nos aproximando de uma época que todos os indices e acçoes vão subir ate final do ano.Se reparar-mos so mesmo em 2008 é que isso nao aconteceu Ex:S&P500

    Quem concorda com esta teoria?

    batistuta

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    1. Depende do governo o que ele vai fazer.

      Se não vai ficar caindo ou estagnado e não fura 60k nem a pau.

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    2. Pois o governo se calhar tem de injetar dinheiro na economia,se nao vai ser preciso chamar o Rambo para mandar o Ibov pra cima.Mas nunca se sabe se os chinoca arranjam la um contentor de dinheiro para a economia deles e ai vamos todos pular e dançar...

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    3. Eu acho que até o final deste ano teremos um bom repique técnico de curto prazo. Oportunidade para trades ou swing trades. Mas a tendência de baixa do Ibovespa de médio e longo prazo permanecerá inalterada para os próximos meses/anos.

      Abcs a todos e boa semana!

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  6. Iria ate mais longe Fevereiro/ março,mas isso depende do pendente QE,que era otimo ter ficado esclarecida essa duvida de uma vez.

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    1. Tem tudo pra ser a nova novela do mercado. Acho que o FED vai definir a data correta somente na véspera do corte (uma ou duas reuniões do Fomc de antecedência).

      Abcs, boa semana!

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  7. Olá FI,

    Excelente análise como sempre, bem que o Manteiga poderia passar por aqui e aprender um pouco...
    Realmente os dados do Brasil estão bem desanimadores, fica difícil falar de Bolsa para os brasileiros em um cenário ridículo como este, não dá para saber o fundo do poço. Eu que sigo a análise fundamentalista sigo com compras frequentes, mas não posso deixar de dar umas espiadas nos gráficos e são apavorantes.

    Abraços!

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    1. Olá General,

      Exato. Os gráficos, principalmente de longo prazo, mostram agravamento na tendência de baixa.

      Abcs, boa semana!

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