quarta-feira, 3 de julho de 2013

O campo minado está mais perigoso


O clima nos mercados financeiros mundiais está pesado. Os temores relacionados à retirada gradual dos programas de estímulos monetários do FED (Federal Reserve – Banco Central dos Estados Unidos) causou uma correria entre os investidores para venda de ativos nos mercados (principalmente emergentes), gerando impacto significativo nas bolsas, moedas e títulos da dívida pública.

Não bastasse o aumento de tensão provocado pela sinalização do FED, o Banco Popular da China (considerado o Banco Central do País) escolheu exatamente este momento de instabilidade dos mercados para contrair a liquidez no mercado interbancário, visando reduzir o risco do crescimento descontrolado das operações de crédito no sistema financeiro chinês.

O endividamento doméstico na China cresceu tão rápido (desde 2009) que já está se aproximando das bolhas de crédito que geraram recessões nos Estados Unidos, Europa, Japão e Coreia.

O Banco Central tentou forçar os bancos chineses a parar de emprestar dinheiro para as firmas fiduciárias, casas de penhora, empresas de leasing e outras instituições que formam o chamado sistema de crédito paralelo da China. Estas instituições liberam crédito de alto risco em projetos imobiliários e de infraestrutura, o que consequentemente poderá provocar, com uma possível onda de inadimplência futura, o estouro de uma bolha de crédito com rápida contaminação para o sistema financeiro por intermédio dos bancos credores.

O processo de desaquecimento da economia chinesa é um ponto fundamental para evitar o estouro desordenado da bolha de crédito no País. Por este motivo os receios dos investidores aumentam a medida que os indicadores macroeconômicos revelam um ritmo maior de contração da atividade manufatureira (como foi o caso do Índice de Gerentes de Compras).

No caso do Brasil, o clima de tensão é ainda maior provocado pela onda de manifestações, deterioração dos fundamentos econômicos, disparada da inflação, baixo crescimento, descontrole fiscal e baixa credibilidade do governo federal.

Mas um novo, e talvez inesperado, artefato explosivo chegou ao campo minado do mercado financeiro. O estouro de uma crise política em Portugal e a derrubada do governo egípcio pelas Forças Armadas do País aumentaram os fatores de riscos prejudiciais à estabilidade do mercado.

A credibilidade financeira conquistada por Portugal, fruto de um longo período de esforço e sacrifício do passado, caiu de uma só vez com a renúncia do ministro de Relações Exteriores, Paulo Portas, após o pedido de demissão apresentado pelo ministro das Finanças, Vitor Gaspar.

A imprensa portuguesa informou que a ministra da Agricultura, Assunção Cristas, e o ministro da Solidariedade e da Segurança Social, Pedro Mota Soares, também irão apresentar suas respectivas demissões ao governo, o que jogaria o País à beira de um colapso político.

A reação do mercado foi imediata. Os yields portugueses disparam no mercado da dívida soberana e as bolsas europeias cederam.

Gaspar destacou na carta de renúncia que sua incapacidade para alcançar seus objetivos orçamentários minou sua credibilidade. Segundo o ministro, houve uma "erosão significativa do apoio da opinião pública".

O programa rigoroso de austeridade fiscal, implementado por Gaspar, atendeu às reivindicações da troika para que o País pudesse receber o pacote de ajuda da UE (União Europeia) e FMI (Fundo Monetário Internacional).

A popularidade do governo despencou por conta da recessão econômica e disparada da taxa de desemprego, ambas provocadas pelo programa de austeridade fiscal. A renúncia dos ministros portugueses é um sinal de insustentabilidade dos rigorosos programas de austeridades fiscais e pode desencadear crises semelhantes nos demais países periféricos da zona do euro.

No Egito, as Forças Armadas derrubaram o presidente islâmico Mohamed Mursi. O general Abdel Fattah al Sisi anunciou a suspensão da Constituição de matiz islâmico, aprovada em referendo no ano passado. O presidente da Corte Constitucional Suprema será o presidente interino, assistido por um conselho provisório e por um governo tecnocrata, até que novas eleições presidenciais e parlamentares sejam realizadas.

A instabilidade da nação árabe mais populosa do mundo, grande influência das revoltas sociais na região, contribui para manutenção do clima de tensão nos mercados e causa reflexos imediatos na volatilidade do preço do barril de petróleo.

A bolsa de valores de Nova York funcionou em horário reduzido nesta quarta-feira devido ao feriado do Dia da Independência. Wall Street ficará fechada na quinta-feira e só reabrirá na próxima sexta-feira, mantendo as expectativas de um pregão irrelevante, tal como ocorreu hoje, devido ao baixo volume financeiro.


No Brasil o índice Bovespa fechou o pregão em leve baixa, deixando uma estrela colada na região dos 45.4k. O candle sinaliza alívio do mercado após a forte onda vendedora que atingiu o pregão de terça-feira. Este movimento pode ser estendido para os próximos dois dias, já que Wall Street deverá funcionar normalmente (com a retomada do volume financeiro) somente na próxima segunda-feira.


10 comentários:

  1. FI,

    Bom post. Acredita que os títulos públicos brasileiros ainda possam ser mais penalizados com essa fuga de capitais, ou isso ocorreria mais na bovespa daqui para frente?

    Abs.

    Miguel

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    1. Miguel,

      Sim, apesar do alívio nos yields o clima de tensão ainda está alto no mercado. As próximas reuniões do FED tendem a gerar mais volatilidade ao mercado até o dia em que a autoridade monetária acabar com o suspense e começar a reduzir de fato o volume do programa de estímulos monetário. Além disso o limite de endividamento dos Estados Unidos será alcançado em setembro deste ano e até o presente momentos os partidos políticos sequer tocaram no assunto. Pelo visto teremos mais uma novela política pela frente.

      Abcs, bons negócios

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    2. Quem tem NTNB já é o momento de se desfazer de tudo ? Ou espera um pouco mais pro mercado se acalmar (sem que já falamos antes, mas todo dia parece que a situação piora).

      Abs.

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    3. Ainda estamos na fase crítica do ciclo de aperto monetário, mas pode ser interessante fazer liquidações parciais nos momentos de queda da taxa. É improvável que as NTNBs longas voltem ao patamar próximo de 4%. A curva de juros no longo prazo é altista e sem sinal de reversão para os próximos 3 ou 4 anos pelo menos.

      Abcs, bons investimentos

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  2. FI, Quero comprar seu livro e desejo saber o seguinte: Como é este formato ePub? Em que diferencia do PDF que é o que conheço. Gostaria também de saber ser já foi lançado em papel. Quero também registrar que a julgar pela qualidade de suas análises no blog, não precisaria nem de recomendação sobre o livro pois sei bem o que irei encontrar. Parabéns.
    Forte abraço

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    1. Opa, tudo bom?

      ePub é um formato padrão para eBooks. É bem melhor do que ler em PDF, proporciona uma leitura bem mais agradável. Para ler um arquivo ePub em seu computador, basta instalar o Adobe Digital Edition (gratuito): http://www.adobe.com/br/products/digital-editions/download.html

      Infelizmente não há como lançar em papel, pois o leitor precisa ter a opção de ampliar os gráficos e clicar nos links sugeridos. Obrigado amigo!

      Abcs, bons investimentos

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  3. Fi vc sugere que quando o volume voltar na segunda o ibov pode corrigir para cima?

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    1. OBond,

      Não necessariamente pra cima. O retorno do volume na segunda-feira deve apontar em qual direção os operadores/players de mercado irão abrir as posições de curtíssimo prazo na matriz (Wall Street), indicando uma direção para os trades que serão abertos aqui. Hoje o Ibovespa segue mantendo o movimento natural de alívio. Na verdade a intensidade desta alta de hoje até surpreendeu, o Mario Draghi deu uma força para os mercados subirem. Mas é um pregão de baixo volume financeiro e pouco giro de posições.

      Abcs, bons negócios

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    2. Sim, FI, estava vendo CNN e vi que o Draghi disse que os juros vão permanecer no mesmo patamar, ou até em patamar menor, por um bom tempo.

      Poderia fazer um post mais elaborado de por qual razão isso vai gerar pressão inflacionária, mesmo na região do EURO onde a atividade econômica está muito fraca. Creio que um post sobre o efeito de taxa de juros por elevado período de tempo e sua influência na inflação seria muito interessante, até para, no meu caso, pensar mais a respeito sobre a futura janela em renda fixa que pode abrir no Brasil em 2015 (e eu possuo muito interesse nisso, pois estou perto da IF e qualquer colocação com taxa de juros reais líquidas de 4 por cento em investimentos com risco baixo serão de extrema valia).

      obs: Comprei o seu livro, e estou achando bacana. Alguns insights interessantes que eu nunca tinha visto em outros livros que li. A parte sobre o VIX eu achei muito interessante mesmo, e faz todo o sentido.

      Soulsurfer

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    3. Legal Soulsufer,

      Posso futuramente fazer um post sobre isso. Na zona do euro a inflação é muito pequena, está abaixo, inclusive, da meta do BCE. Este é um dos principais motivos que deixaram o Draghi animado para dizer que a taxa de juros permanecerá na mínima histórica por um período prolongado. A inflação baixa, e sem sinal de retomada, permite que o Banco Central possa manter uma política agressiva de afrouxamento monetário.

      Com relação à manutenção dos juros baixos por um período muito longo, este é ainda um terreno novo para os Bancos Centrais. Sabe-se que as pressões inflacionárias surgirão juntamente com o processo mais vertical de retomada do crescimento, é o que manda a cartilha dos BCs. A questão principal é: não esperar a economia crescer de forma mais sustentada para só assim começar a retirar os estímulos e subir os juros. Seria como empurrar demais uma criança que está começando a aprender andar sozinha de bicicleta. Ela pode cair e se machucar (o que na economia significa que o impulso demais na hora errada gera inflação. Chega num certo ponto que o crescimento consegue se sustentar sem os estímulos do BC, neste caso, uma oferta maior de crédito pode desregular o equilíbrio econômico e gerar inflação - estimular demais a demanda.)

      Obrigado!

      Qualquer dúvida volte a perguntar.

      Abcs, bons investimentos

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