segunda-feira, 8 de julho de 2013

Sofre mais quem fez de menos


A valorização do dólar é um fenômeno global. Desde que o presidente do FED (Federal Reserve – banco central dos Estados Unidos), Ben Bernanke, indicou, pela primeira vez no dia 22 de maio, a possibilidade de redução gradual dos programas de estímulos monetários do Banco Central, as moedas no mundo inteiro começaram a se desvalorizar frente ao dólar.

Apesar desta homogeneidade, pode-se observar que algumas economias estão sofrendo mais com a desvalorização de suas respectivas moedas, outras nem tanto. Um estudo realizado pela Austin Rating comparou o comportamento de 146 moedas desde a primeira fala de Bernanke (no dia 22 de maio). Com uma queda de 9,8% frente ao dólar, o real ocupa a primeira posição do ranking como a moeda que mais se desvalorizou frente ao dólar no mundo inteiro.  A rúpia da Índia perdeu 7,7%, o rublo da Rússia caiu 5,8% e o rande da África do Sul cedeu 4,8%. O iuan da China foi a única moeda que andou na direção oposta e se valorizou frente ao dólar, com uma leve alta de 0,1%.

Não é uma surpresa observarmos o Brasil ocupando o topo da lista dos países mais atingidos pelo comportamento do câmbio internacional. O Brasil é, também, o País que mais sofreu com o movimento de alta das taxas de juros dos títulos da dívida soberana. Para completar, a bolsa brasileira é a que mais sofreu com o movimento de fuga de capital dos investidores estrangeiros.

Curiosamente, o País que mais se defendeu contra a entrada de capital especulativo nos últimos anos é o que está sofrendo maior impacto no mercado provocado pela fuga de capitais. O movimento global de realocação de capitais, estimulado pela alta do dólar, atinge em cheio os mercados emergentes. Mas no Brasil este movimento ocorre em maior intensidade por conta dos inúmeros problemas estruturais levantados incessantemente neste blog nos últimos meses/anos.

O problema é que própria desvalorização do real acaba contribuindo para deterioração ainda maior de alguns aspectos fundamentais avaliados pelos investidores, tais como: inflação, taxa de juros e crescimento. A forte valorização do dólar frente ao real provoca aumento das pressões inflacionárias no mercado interno, seja pelo encarecimento do produto importado ou pela alta dos custos de produção às empresas nacionais que utilizam materiais/insumos do exterior.

A inflação acumulada dos últimos 12 meses (atualmente em 6,70%), combatida atualmente pelo Banco Central, ainda não refletiu o cenário recente de valorização do dólar. Isso significa que a autoridade monetária deverá incluir em seu cálculo de aperto monetário (alta dos juros) uma dose extra necessária com objetivo de eliminar, exclusivamente, as pressões inflacionárias provocadas pela desvalorização do real. A expectativa de um juro futuro maior reduzirá, consequentemente, as perspectivas nada animadoras para o crescimento econômico brasileiro. 

São três variáveis importantes (juros, câmbio e crescimento) se movendo na direção oposta daquela condição favorável à valorização dos ativos em bolsa.

No mercado de capitais o índice Bovespa fechou o pregão desta segunda-feira em leve baixa de 0,30%, apresentando baixo volume financeiro devido ao feriado da Revolução Constitucionalista que fechará a Bovespa amanhã. Houve teste sobre a LTB dos 57k, novamente rechaçado pela força vendedora. Apesar da sobrevenda, o mercado ainda não conseguiu emplacar um movimento de repique.
  

Nos Estados Unidos o índice Dow Jones rompeu a LTB dos 15.5k após o acionamento do pivot de alta na última sexta-feira. Este movimento confirma inversão da tendência de baixa de curto prazo. Índice tem espaço para testar a máxima histórica nos próximos dias/semanas.


Bom feriado a todos e até quarta-feira!

7 comentários:

  1. Somos um mercado volátil, seja na moeda, na taxa de juros, na bolsa, na inflação e até no crescimento econômico!

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    1. Pois é. E o governo conseguiu a façanha de decepcionar os investidores em todos estes pontos.

      Abcs, bons negócios

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  2. FI,

    Só espero que o "auge" do mercado forçando os juros para cima já tenha sido atingido e a cotação das NTN-Bs melhore um pouco nos próximos meses.

    Bom post,

    Miguel

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    1. FI,

      existe alguma forma de saber se o mercado já precificou a alta da selic?

      Digo isso porque no último boletim FOCUS já tem previsão da Selic a 9,5%. Mas ao mesmo tempo vejo previsões diárias do mercado das mais variadas.

      Abs!

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    2. Olá pessoal,

      O boletim Focus é apenas uma pesquisa que o BC realiza toda a semana para mostrar ao mercado a mediana das projeções dos principais economistas do País. O resultado da pesquisa está longe de ser uma decisão unânime. Dentre este grupo você vai encontrar projeções das mais diversas possíveis.

      O mercado dificilmente vai precificar corretamente o futuro das taxas de juros. Na verdade é bastante comum observarmos precificações otimistas ou pessimistas, tudo vai depender do momento em que elas foram realizadas. Quando há sinalização de melhora nos indicadores econômicos, as projeções são mais otimistas e os juros futuros começam a cair. O inverso vale para as projeções mais pessimistas.

      Outro ponto importante a se observar é que o movimento no mercado de juros nem sempre refletirá o futuro da taxa Selic. Isto significa que a precificação, neste caso, é incorreta ou inválida. Por exemplo, no mês passado a LTN 2016 atingiu 11,73%. É bastante provável que a taxa básica de juros não consiga chegar neste patamar em 2016 (ou 31/12/2015 - data de vencimento deste título), mas mesmo assim o mercado ofereceu um título com esta taxa.

      Para o investidor, o mais importante não é descobrir (exatamente) o futuro da taxa básica de juros (mesmo porque isso é impossível, ninguém sabe o que poderá acontecer no futuro), mas sim aproveitar as oportunidades, principalmente quando as distorções são exageradas.

      Abcs a todos e bons investimentos

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  3. E eu ainda me espasmo com o ministro do comércio exterior, Pimentel, que comemora valorização do dólar como se fosse boa pra indústria. É boa sim, pros empresários atuais que não precisaram se preocupar em inovar e com menor competição externa, ganhando mais dinheiro sem aumentar produção.
    Ele se esquece no entanto que desvalorização do dólar também afasta investimentos externos, afasta investimentos baseados em importação, aumenta inflação, aumenta os custos dos investimentos internos, atrapalha muito os custos dos serviços, etc.

    FI qual a tua opinião com relação a entrada de capital especulativo? Na minha opinião ela é boa porque ela também se relaciona com os investimentos diretos que a maioria das pessoas ignora: cada dólar comprado no mercado acionário também sai como capital pra investimento pra quem vende, e se for comprado em títulos o dinheiro sai pro governo que pode gastar em investimentos internos. E ainda valoriza o real, que na minha opinião é algo bom no longo prazo.

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    1. Sua avaliação está correta. Na verdade este raciocínio com relação ao capital especulativo é fruto da visão limitada do ministro Mantega. Mesmo adotando inúmeras barreiras nos últimos anos para desviar o capital especulativo daqui (e conseguimos) estamos, atualmente, sofrendo com uma fuga de capitais. Os investidores pulam fora quando o ambiente não é bom, quando não sentem confiança no governo ou quando o economia perde os seus fundamentos. É o que está acontecendo com o Brasil.

      Abcs, bons negócios

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