sexta-feira, 30 de agosto de 2013

Análise e projeções de mercado


Até ontem, dia 29/08/2013, o bom desempenho recente do índice Bovespa parecia ser uma incógnita. Boa parte dos economistas, analistas, investidores e operadores, alheios ao amparo da ferramenta técnica, não conseguiam entender ou explicar como o mercado de ações brasileiro conseguiu subir 19% entre a mínima registrada no dia 05/07/2013 e a máxima atingida no dia 26/08/2013.

Estas dúvidas foram sanadas nesta sexta-feira, dia 30/08/2013, após o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) divulgar o PIB (Produto Interno Bruto) do segundo trimestre de 2013. A economia brasileira cresceu 1,5% no segundo trimestre deste ano. O resultado é quase o dobro do crescimento vergonhoso de 0,6% registrado no primeiro trimestre de 2013.

O grande destaque ficou, novamente, por conta da agropecuária que cresceu 3,9%, seguida pela indústria que registrou um crescimento de 2,0%. A safra recorde brasileira no ano, impulsionada pela soja, e a retomada da indústria de transformação, foram os grandes fatores responsáveis pela surpresa positiva do PIB brasileiro.

Os investimentos, medidos pela FBCF (Formação Bruta de Capital Fixo), subiram 3,6% no segundo trimestre contra os três primeiros meses do ano, puxados pela produção interna de bens de capital (caminhões, ônibus, máquinas e equipamentos). Com o reflexo da FBCF, a taxa de investimento da economia brasileira subiu para 18,6%, o que ainda é considerado um número muito baixo, apesar da sinalização de melhora no indicador.

Em suma, o mercado conheceu hoje os fundamentos econômicos responsáveis pelo bom desempenho do índice Bovespa nos últimos dois meses. A melhora do cenário doméstico é inegável. O número do IBGE traduziu, com o devido atraso, a novidade que os gráficos estavam apontando no início do mês de julho.

Mas deve-se ressaltar que a boa recuperação econômica observada no segundo trimestre deste ano não se repetirá nos próximos trimestres. Mais uma vez a retomada da economia vai esbarrar na infraestrutura deficitária brasileira, no trâmite complicado e demorado dos processos burocráticos, na elevada carga tributária, na ausência de mão de obra qualificada e na baixa confiança dos empresários, consumidores e investidores. Este último provocado pela condução da política econômica do governo federal.

O PIB do segundo trimestre vai ajudar recompor a fragilizada capacidade de resistência da economia brasileira diante dos novos obstáculos que surgirão pela frente. A torneira do crédito farto e barato começará a ser fechada no final deste ano quando o FED (Federal Reserve – Banco Central dos Estados Unidos) reduzir o volume do seu programa de estímulo monetário.

Os países emergentes serão os mais afetados pela redução da liquidez no mercado financeiro, já que suas economias são mais dependentes do financiamento estrangeiro. No geral, os Bancos Centrais de países emergentes estão subindo suas respectivas taxas básicas de juros, visando impedir uma fuga em massa de capitais, garantindo assim o financiamento para rolagem da dívida pública e privada, além de combater, em alguns casos, as pressões inflacionárias internas.

Felizmente o Banco Central do Brasil percebeu, com certa antecedência, o grau de periculosidade deste novo cenário (ainda incerto) ao iniciar, no dia 17/04/2013, o ciclo de aperto monetário. Desde então a taxa básica de juros brasileira tem subido num ritmo gradual, poupando volatilidade no mercado de capitais. De fato, as pressões inflacionárias elevadas do cenário doméstico contribuíram para que o Banco Central pudesse subir os juros sem causar polêmica no mercado.

O Banco Central da Índia não contou com a mesma “sorte”. A inflação relativamente comportada na época inibiu uma atuação preventiva do Banco Central ao cenário de menor liquidez no sistema financeiro mundial, fato que tornou o mercado indiano mais sensível à fuga de capitais.

Em caso de uma debandada de dólares do País, o Banco Central indiano não terá outra opção a não ser convocar reuniões extraordinárias para subir, de maneira forte e agressiva, a taxa básica de juros, numa tentativa, já desesperada, de recompor a perda de atratividade da dívida soberana do governo. Este movimento fatalmente desencadearia uma crise no mercado de capitais doméstico.

Portanto, devem-se creditar os devidos méritos ao Banco Central do Brasil, pela atuação correta dos últimos meses, contribuindo impecavelmente com a sua parte para a redução da vulnerabilidade do nosso mercado.

Por outro lado o governo federal não tem feito o seu dever de casa, anulado, em partes, os esforços do Banco Central. O nível elevado de intervenção estatal sobre a economia reduz a atratividade do mercado brasileiro. A política fiscal expansionista e os malabarismos contábeis no superávit primário desagradam os investidores e podem estimular a fuga de capitais.

Essa é a foto do cenário macro brasileiro, composto por uma mistura de responsabilidade do Banco Central e irresponsabilidade do governo federal. O mercado, portanto, sofre influência de dois drivers importantes que impulsionam os preços em direções opostas, travando um movimento consistente e direcional de médio e longo prazo.

Aos 50.000 pontos o índice Bovespa ainda apresenta potencial de valorização, embora as questões de gerenciamento do governo federal continuem atuando como principal limitador. Só foi possível observar o número positivo do PIB deste segundo trimestre nas empresas exportadoras ou companhias que se beneficiam com o cenário de valorização do dólar.

Por este motivo a recuperação da bolsa brasileira é bastante restrita às empresas que se encaixam neste quadro. No gráfico abaixo podemos observar a diferença de desempenho do índice Bovespa (linha verde) contra o índice Small Caps (linha preta).


O desempenho do Ibovespa é significativamente superior ao desempenho do índice Small Caps nos últimos meses, pois a carteira teórica do índice Bovespa possui concentração relevante de empresas que se encaixam no quadro acima descrito.

Basicamente estamos observando o início de uma fase de troca de posições entre a bolsa que subiu demais no passado e a bolsa que caiu demais no passado. A bolsa que subiu demais está cara e tende a continuar apresentando um desempenho inferior ao índice Bovespa. A bolsa que caiu demais está barata, é beneficiada pela mudança de cenário (valorização do dólar) e tende a continuar puxando o desempenho do índice Bovespa nos próximos meses.

O gráfico mensal do Ibovespa mostra uma importante formação de fundo sobre a LTA de 2002, juntamente com a linha de suporte dos 47.8k. A reação do mercado foi muito rápida nestes últimos dois meses, fato que contribuiu para um movimento mais agudo na realização dos lucros após o teste sobre a linha de resistência na região dos 52.4k.
  

A manutenção dos preços acima de uma forte região de apoio formada pela LTA de 2002 e suporte dos 47.8k servirá de base para continuação da tendência de alta de curto prazo, podendo ser estendida para o médio prazo. A expectativa de um crescimento maior em 2014, puxado pelo reaquecimento da economia mundial, além do quadro favorável às empresas de peso relevante do índice Bovespa poderão se sobressair ao cenário negativo constituído pela redução da liquidez global. A observância destes fatores positivos favoráveis à valorização dos ativos impedirá uma fuga em massa de investidores estrangeiros da bolsa de valores, tal como aconteceu em 2008.

As oportunidades também continuam visíveis no mercado de renda fixa. O retorno dos Yields aos patamares mais elevados do ano voltou apresentar boas oportunidades para aberturas de posições.


Em virtude da mudança projetada, a partir de 2015, para as principais taxas de juros mundiais, recomenda-se evitar posições em títulos de médio e longo prazo. Hoje os principais banqueiros centrais mundiais trabalham com a política de afrouxamento monetário agressiva, onde as taxas de juros estão próximas de zero. Mas a retomada do crescimento econômico mundial, projetada para os próximos anos, impedirá a manutenção das atuais políticas monetárias, caso contrário os Bancos Centrais criarão uma crise inflacionária sem precedentes a nível mundial. Por este motivo espera-se que a partir de 2015/2016 as taxas de juros voltem a subir, acompanhando o ritmo de crescimento da inflação global (provocada pela retomada no crescimento).

Como os países emergentes costumam gerar mais inflação, pela natureza da própria economia em fase de desenvolvimento, o Banco Central do Brasil precisará entrar num novo ciclo de aperto monetário a partir de 2015/2016, acompanhando o movimento dos demais banqueiros centrais. Desta forma, as oportunidades de negócio disponíveis hoje estão limitadas aos títulos de curto prazo.

As melhores opções continuam sendo a LTN 2016 (atualmente paga um juro pré-fixado de 11,49% ao ano) e LFT 2017 (título pós-fixado, atualizado diariamente). Não há título de curto prazo atrelado à inflação disponível para compra, portanto esta opção continua descartada.

Ao comprar LFT 2017 e LTN 2016, o investidor aproveitará o ciclo de alta dos juros por meio de um título pós-fixado (LFT 2017) e se beneficiará com os excessos do mercado por meio de um título pré-fixado (LTN 2016). O timming de compra do título pré-fixado é o que garantirá a boa rentabilidade da carteira de renda fixa, superando a média do mercado.

O cenário atual permite uma alocação bastante concentrada em pré-fixado de curto prazo. Dificilmente os Yields permanecerão elevados por um longo período de tempo. As novas projeções de inflação começarão a incorporar os ajustes provocados pelo aperto monetário do Banco Central, fato que reduzirá a expectativa futura sobre os preços, acalmando o mercado e abrindo possibilidade para redução do juro futuro de curto prazo.

18 comentários:

  1. "...As novas projeções de inflação começarão a incorporar os ajustes provocados pelo aperto monetário do Banco Central, fato que reduzirá a expectativa futura sobre os preços, acalmando o mercado e abrindo possibilidade para redução do juro futuro de curto prazo."

    Tomara, rs. Vamos ver quando isso vai ocorrer.

    Bom post,

    Miguel

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    1. Obrigado Miguel!

      Creio que provavelmente no final deste ano ou no início do ano que vem.

      Abcs, bom final de semana!

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  2. BELA ANÁLISE NOVAMENTE, SÓ TENHO UMA CERTA DÚVIDA\CRITICA AO MODELO ADOTADO PELO GOVERNO DE ALTA NOS JUROS COMO SENDO A SOLUÇÃO PARA CONTER A FUGA DE CAPITAIS E A SAÚDE DO MERCADO, SE POR UM LADO ISSO BENEFICIA SIM UM SETOR DA ECONOMIA BANCOS ETC, POR OUTRO PODE SER RUIM PARA A ECONOMIA NO GERAL, E INICIAR UMA RECESSÃO JÁ QUE O BRASILEIRO NÃO TEM EDUCAÇÃO (FINANCEIRA) SUFICIENTE PARA SE COMPORTAR NESSE NOVO CENARIO QUE VEM POR AE, AS MANIFESTAÇÕES POPULARES JÁ MOSTRAM ESSA INSATISFAÇÃO...

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    1. Obrigado!

      Certamente vai prejudicar o crescimento. Mas infelizmente não temos outras opções, já que o governo limitou bastante a nossa margem de manobra. O lado positivo é que parte do crescimento será sacrificado no momento de reaquecimento da economia global, amortecendo, de certa forma, o impacto dos juros na economia. O comércio exterior vai aliviar um pouco o efeito contracionista dos juros.

      Abcs, bom final de semana!

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    2. "SE POR UM LADO ISSO BENEFICIA SIM UM SETOR DA ECONOMIA BANCOS ETC, POR OUTRO PODE SER RUIM PARA A ECONOMIA NO GERAL, E INICIAR UMA RECESSÃO JÁ QUE O BRASILEIRO NÃO TEM EDUCAÇÃO (FINANCEIRA) SUFICIENTE PARA SE COMPORTAR NESSE NOVO CENARIO QUE VEM POR AE, AS MANIFESTAÇÕES POPULARES JÁ MOSTRAM ESSA INSATISFAÇÃO..." acho o contrario o brasieiro não estava acustumado com o juros baixo e cerdito farto o que ocasionou alto índice de inadiplencia e sim estão acostumados neste novo cenário a maior parte do tempo o brasileiro pagou juros altos devido também a esta falta de educação financeira.

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    3. AMIGO ESTÁ USANDO O SEU PROPRIO ARGUMENTO CONTRA SÍ MESMO POIS SE ACHA QUE COM O JUROS BAIXO A INADIMPLENCIA FOI GRANDE ( o que não foi) ESPERE ATE VER A INADIPLENCIA DA BOLHA IMOBILIARIA...

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  3. Prezado FI,

    Sempre um prazer ler seus textos; Mas sua explicação para a subida do IBOV parece otimista.

    Afinal, em dólar, o índice vem simplesmente formando uma bandeira baixista que se caracteriza por um movimento lateral, levemente altista. A se concretizar, em algum momento ocorre um rompimento para baixo, provavelmente com ímpeto semelhante ao que trouxe o índice até este patamar.

    Bom final de semana,

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    1. Opa, tudo bom PB?

      Sim, existe esta possibilidade que não pode ser descartada. Particularmente não gosto de trabalhar com figuras na análise técnica. Nos meus estudos elas apresentaram baixa eficácia e conseguem induzir o operador a tentar adivinhar o futuro dos mercados (o que é errado na minha humilde opinião, análise técnica não é ferramenta de previsão do futuro). Além disso, são tantas figuras existentes que dentro do mesmo gráfico é possível enxergar uma figura bull e outra bear, prejudicando a imparcialidade da análise. Mas nada impede que eu possa estar errado também. Se mercado invalidar o cenário descrito na minha análise voltarei a realocar minha posição.

      Abcs, bom final de semana pra você também!

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    2. Primeira vez por aqui, quero sempre retornar. Agradeço sua análise, que é muito interessante.
      Uai!

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  4. FI,
    O que você acha das ações do BB neste cenário atual? Meu PM atualmente está muito bom, devido aos dividendos, LC e algumas compras recentes, mas minha posição tá ficando alta. Mesmo assim pretendo continuar com as minhas compras em BBAS3 e também LTN2016, aproveitando este ciclo de aperto monetário.
    Também aproveitei o recente repique da VALE5 para vender um pouco e pegar um "punhadinho" de ETER3. Gosto da empresa, apesar do amianto, e não resisti à promoção, mesmo com os riscos envolvidos.
    Abraço e parabéns pelas ótimas análises de sempre.
    Investidor Paciente

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    1. BB no preço atual ainda está relativamente descontada. Continua sendo uma boa opção entre os bancos. ETER3 abaixo de R$ 8,00 acho que vale o risco pra começar a montar uma posição de longo prazo.

      Obrigado!

      Abcs, boma semana

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  5. FI, do lado político note a comemoração dos petistas como se tudo está maravilhoso de novo sendo que não percebem que isso nada mais é que atuação do banco central e a agropecuária como sempre alheia ao país fazendo bom trabalho.

    O 3ºT e 4ºT percebi que você está pessimista. No que se baseia isto?

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    1. Exatamente. Com relação ao 3 TRI acho que vamos ter contração pequena por conta dos números ruins já divulgados de julho e agosto. Além disso a confiança do empresário está muito baixa, isso vai penalizar o desempenho do 3 e 4 trimestre.

      Abcs, boa semana

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  6. FI, Comprei seu livro e como esperava contem ótimas informações. Parabéns. Na oportunidade gostaria de saber se você conhece onde posso encontrar as cotações mensais da volatilidade do Ibovespa para um período de pelo menos 6 anos. Gostaria de possuir os valores para poder inseri-los no software de AT que utilizo e assim poder monitorar melhor este indicador. O VIX eu já possuo no meu software, mas como foi idealizado para o SP500 atende apenas parcialmente no caso do Ibovespa. Por este motivo estou interessado nesta informação.
    Obrigado e um forte abraço

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    1. Obrigado!

      Neste caso você vai ter que inserir a pontuação de fechamento do índice Bovespa dentro da fórmula do VIX. Você encontra essas informações neste link: http://www.bmfbovespa.com.br/indices/ResumoEvolucaoDiaria.aspx?Indice=IBOVESPA&idioma=pt-br

      A Bovespa faz este cálculo e disponibiliza um gráfico de volatilidade mensal. O problema é que a própria Bovespa demora pra atualizar o gráfico e você quase não vê o movimento de oscilação da linha no curto prazo. Na verdade o gráfico disponibilizado pela Bovespa deixa um pouco a desejar, mas serve de efeito comparativo para você verificar se o software está fazendo o cálculo da forma correta (comparando o nível de volatilidade do seu gráfico com o nível de volatilidade do gráfico da Bovespa nos momentos de pico).

      http://www.bmfbovespa.com.br/indices/VolatilidadeMensal.aspx?Indice=IBOVESPA&idioma=pt-br


      Abcs, bom início de semana

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