quarta-feira, 14 de agosto de 2013

Caldeirão dos juros voltou a ferver


Dólar a R$ 2,32. Possibilidade de aumento da gasolina. Discurso do diretor de Política Econômica do Banco Central, Carlos Hamilton. Estes são os três novos ingredientes adicionados ao caldeirão dos juros nesta semana. São elementos mais do que suficientes para provocar uma nova fervura na substância.

O bom momento para fazer negócios na bolsa e valores escondeu, de certa forma, o aumento da tensão no mercado de juros futuros. A adição destes três novos ingredientes está fazendo com que o mercado compre a ideia (a princípio precipitada) de que a taxa Selic volte ao patamar de dois dígitos ainda este ano e não em 2015 (seguindo o aumento dos juros no mercado externo).

O tom dos discursos e entrevistas dos diretores do Banco Central é o mais duro desde o início do governo Dilma. As declarações do Carlos Hamilton se tornaram um marco. O diretor de Política Econômica do Banco Central silenciou (na verdade foi um belo “cala a boca e fiquem quietos vocês dois”) a dupla sertaneja que estava festejando a inflação do mês de julho. Depois desse dia a presidente Dilma Rousseff e o ministro Guido Mantega simplesmente sumiram e não voltaram a falar mais sobre inflação.

Em episódios anteriores o presidente do Banco Central, Alexandre Tombini, desbancou sem muita cerimônia as declarações infundadas do ministro da Fazenda. Guido Mantega costumava dizer, alguns meses atrás, que o movimento do câmbio não causaria impacto na inflação. Tombini não só desmentiu as declarações do ministro da Fazenda, como demonstrou em números que a desvalorização do real causa impacto significativo na inflação. Segundo os cálculos do próprio Banco Central, uma desvalorização de 20% do real frente ao dólar é capaz de provocar aumento extra de um ponto percentual no IPCA.

Esses eventos recentes mostram que o Banco Central está batendo de frente com o governo sempre quando o Planalto tenta se meter na condução da política monetária. Isso não acontecia no passado. A nova postura da autoridade monetária revela um Banco Central muito mais autônomo e desvinculado do governo. Curiosamente esta nova postura ganhou força após líderes petistas convidarem Henrique Meirelles para “tomar um café”.

Com um Banco Central muito mais firme no combate à inflação, o movimento contínuo de desvalorização do real frente ao dólar apenas reforça o sentimento do mercado de que a autoridade monetária não vai medir esforços (subir a taxa básica de juros, dentro do necessário) para anular o efeito do câmbio sobre os preços. Portanto, quanto mais o dólar subir, maior será a precificação do mercado com relação ao futuro da taxa Selic.

A possibilidade de aumento na gasolina, embora remota, colabora para impulsionar as expectativas de que o ciclo de aperto monetário pode ser prologando, o que em outras palavras significa que, a projeção de 9,50% (ou 9,25% do mercado, até na semana passada) para o encerramento da taxa básica de juros em 2013 está subindo para 10% ao ano.

O bônus da NTNB 2050 voltou a superar a marca dos 5,50%, aproximando-se do nível recorde atingido este ano (em torno de 5,90%), ocorrido no auge do clima de tensão nos mercados.


O bônus da LTN 2016 voltou a ser negociado acima da casa dos 11,00% ao ano, aproximando-se, também, do nível recorde registrado este ano.


O grande destaque deste novo ciclo de alta dos juros futuros é a relativa calmaria do mercado de capitais. Não há aumento no clima de tensão. A volatilidade é menor. O movimento está acontecendo sem chamar atenção do mercado. Há cerca de dois meses atrás, quando estes títulos oscilavam no mesmo patamar de bônus atual, o desespero tomava conta do mercado. Isso mostra que os investidores/operadores estão se adaptando ao novo patamar de juros. A taxa Selic em dois dígitos está deixando de ser uma novidade e se tornando, cada vez mais, uma realidade.

A minha projeção revisada no dia 27 de junho para o fechamento da taxa Selic em 2013 será mantida em 9,50% pelos seguintes motivos: (i) O Banco Central ainda não atuou no mercado a vista para conter o movimento de desvalorização do real. A autoridade monetária tem se contentado com as operações de swaps cambiais, que atingem o mercado futuro e são menos eficazes. Quando o Banco Central começar a atuar no mercado a vista, a pressão sobre o dólar tende a gerar maior impacto, refletindo numa menor desvalorização do real. (ii) é improvável que o governo autorize um novo aumento nos preços da gasolina por conta da percepção da população de que a inflação está alta. (iii) é necessário aguardar o conteúdo da próxima ata do Copom para identificar esta possibilidade (taxa Selic fechar este ano em 10%).

A precificação dos juros no mercado é um pouco precipitada, mas fundamentada. A possibilidade é concreta. Muito provavelmente a taxa Selic vai atingir os dois dígitos. Se não for em 2013, será em 2015.

No mercado de capitais o índice Bovespa segue mostrando força compradora significativa, descolando-se de Wall Street, além da sinalização de venda emitida na segunda-feira. O Ibovespa só fechou o dia com uma alta de 0,58% pois nos minutos finais houve um movimento relevante de realização de lucros (influenciado pelo vencimento do índice futuro), cenário que poderá se estender para o próximo pregão.


No curtíssimo prazo houve sinalização de topo duplo na região dos 51.4k, configurando na segunda sinalização de venda em três dias de pregão. Caso o topo duplo seja confirmado, com um candle de baixa amanhã, o índice Bovespa poderá retornar ao patamar de suporte em 49.7k (fragilizado pelo rompimento de pivot de baixa) e, nos próximos pregões, voltar a testar a LTA de curto prazo iniciada na região dos 44.1k.

Nos Estados Unidos o índice Dow Jones fechou o pregão em baixa, colado na mínima dos últimos dias. A região de suporte dos 15.3k segue ameaçada com esta nova sinalização composta por um candle de baixa, destoando-se dos candles de indecisão dos últimos pregões.


16 comentários:

  1. Passando por aqui depois de muito tempo sem postar... eu tava com uma grana sobrando e querendo comprar alll3, mas ai pensei depois dos ultimos dias esticados na aalta, que deveria esperar passar o vencimento das opçoes... quando olho hj na hora do almoço, ela subindo 9%. Dureza neh !?

    Anonimo da alll

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Opa, tudo bom Anônimo da all?

      Ah quanto tempo heim? Normal, essas coisas acontecem rs.. Não dá pra pegar todos os bondes. O importante é manter-se disciplinado e seguir a estratégia operacional.

      Abcs, bons trades

      Excluir
  2. FI,

    Acredito ser extremamente difícil acertar o que se passa realmente dentro do governo e do banco central nesse governo esquizofrênico do PT.

    Há tempo a selic deveria ser alta, se não me engano o Tombini no início do mandato chegou a falar grosso e depois recuou com a Dilma e o Mantega pressionando. Tenho grande suspeitas contra esse "coral" durão que tem surgido, pode ser algo para matar as expectativas de inflação.

    O bom senso da história da Dilma tem provado que as decisões políticas de uma forma geral tem prevalecido sobre as técnicas, pelo menos neste primeiro mandato. Fico apostando que a Selic não vai a 10% a.a., bem como você, até mesmo porque não há sentido em subir para 10% uma vez que o patamar deveria ser de no mínimo 12% hoje em dia para combater a inflação. O pior ficaria para depois...

    Será que esse movimento todo com os títulos não estaria acontecendo devido a alguma especulação no mercado? Lembro que em 2008 houve um movimento parecido, com perdas de mais de 20% nas NTN-Bs, e no final do ano os títulos voltaram a recuperar grande parte das perdas.

    Fico com a sensação que tem muita especulação aí, e no final das contas é tudo fogo de palha. Está ficando muito complicado conviver com essa baderna do PT.

    Miguel

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. FI,

      Acrescentando, a NTN-B P 2035

      http://dotstock.com.br/renda_fixa/historico.php?t=NTN-B&d=2035-05-15

      Será que o yield cai para algum patarmar abaixo de 5% até final do ano?

      Miguel

      Excluir
    2. Miguel,

      Sim, a diferença é que desta vez o "coral" do Banco Central está refletindo nas atitudes. Não é só um jogo de palavras. A taxa Selic está subindo além do que era esperado pelo mercado no início deste ano. Parece até que houve uma deterioração nos bastidores da relação entre os diretores do Banco Central e o governo federal. Certamente há especulação, tanto pra cima, quanto pra baixo. Isso é normal. Cria-se um exagero (oportunidade de negócio) que vai ser corrigido posteriormente pelo mercado com o passar do tempo.

      No cenário atual, sim. Há possibilidade de retornar ao patamar de 5%. Mas a medida que as expectativas vão sendo confirmadas, a possibilidade vai diminuindo. Quanto maior a taxa Selic, maior o prêmio a ser oferecido pelo Tesouro. Supondo que a taxa Selic pare de subir aos 9,50%, o bônus da NTNB em 5,00% seria viável apenas se as projeções de inflação futura continuem superando significativamente o centro da meta (5% + 6% de IPCA, por exemplo, = 11%. Spread de 1,5 p.p. acima da taxa Selic). O bônus da NTNB em 5,00% seria inviável caso as projeções de inflação futura estejam ancoradas próxima ao centro da meta (5% + 5% de IPCA, por exemplo, = 10%. Spread de apenas 0,5 p.p. acima da taxa Selic, praticamente sem prêmio de risco). Ou seja, quanto maior a taxa de juros atual e menor a expectativa de inflação futura, maior deverá ser o bônus da NTNB para que o título continue atrativo e apresente um prêmio de risco para que o investidor não se posicione em produtos pós-fixados. A tendência é entrarmos gradativamente, nos próximos meses/anos, no cenário da segunda opção.

      Abcs, bons negócios

      Excluir
    3. Agradeço FI, vamos ver o que vai acontecer nos próximos capítulos. Abs

      Excluir
  3. Olá Fi, observe que dolarizado o índice não montou pivot de alta, ontem forte volume respeitando o topo em formação, posso estar enganado mais vem chumbo em muito breve!
    Ainda estou fora da bolsa, estou seguindo seu conselho de ir girando, enquanto isso fico acompanhando o desenrolar dos fatos e analisando minhas preferidas.
    Estou convicto que teremos forte correção no Ibov tal qual em 2008, tanto os gráficos como a frágil situação economica convergem pra isso, uma hora a casa cai e vem à tona a realidade;
    Ivan

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Eu também continuo girando, mas agora um pouco menos. Aumentei meu position no índice e vou tentar mantê-lo nos próximos meses, fazendo PM agora pra cima, caso a tendência de alta continue prevalecendo.

      Abcs, bons trades

      Excluir
  4. Fim de resultados empresariais,tomada de lucros.
    Agora so era preciso saber quais as empresas com bons fundamentos para agarrar as quedas...!

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Sinceramente não achei nada muito excepcional aqui. Talvez um destaque para os bancos médios que estão relativamente baratos, mas o mercado continua difícil pra fazer escolha de ações. Continuo dando preferência para me posicionar no índice. Até o Stuhlberger disse em sua última entrevista que nunca viu um mercado tão difícil para fazer stock picking. Não tem liquidez. Giro da bolsa é basicamente fluxo de institucional e estrangeiro.

      Abcs, bons negócios

      Excluir
  5. Caro FI, eu estou apostando em um aumento da gasolina ainda este ano pois é mais fácil aumentar a gasolina este ano (mesmo com a preção da população) do que aumentar ano que vem (ano de eleição) e a petrobras não pode ser prejudicada por mais 1 ano sem o aumento dos combustíveis. Então, penso eu, é mais fácil e coerente chegar nas eleições com todos os ajustes feitos no ano anterior do que não fazer e chegar nas eleições com um cenário econômico deteriorado.

    Denttao

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Denttao,

      O seu ponto de vista está correto. Eu ainda estou um pouco cético quanto ao aumento dos combustíveis este ano. Vai pressionar o IPCA de 2013. O Banco Central vai sair queimado, pois está prometendo uma inflação mais baixa em 2013 (comparando com 2012). O goerno também sairá queimado, pois o povo vai perceber que os seus representantes políticos estavam mentindo mais uma vez. O pessimismo dos empresários/investidores vai aumentar ainda mais. A verdade é que o governo está numa sinuca de bico. Onde e quando ele se mexer vai sair perdendo. As inúmeras intervenções do passado estão exigindo novas intervenções no presente e o cenário acaba se deteriorando cada vez mais. O governo já mostrou em outras ocasiões no passado que não se importa tanto com a Petrobras, "se a empresa não quebrar está de bom tamanho". Mas o aumento dos combustíveis é crucial para manter o negócio de pé. Não duvido que estejam pensando em fazer alguma maracutaia com o Tesouro para cobrir mais este buraco.

      Abcs, bons investimentos

      Excluir
  6. FI, o que você achou dos resultados das construtoras divulgados nesta semana? O mercado já precificou a bolha imobiliária ou ainda há espaço para mais quedas?

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Opa, tudo bom amigo?

      Não acho que o mercado esteja precificando a suposta bolha imobiliária, mas sim uma deterioração no setor por conta do aumento da taxa básica de juros. Vamos começar a ver esse impacto nos balanços a partir do primeiro trimestre de 2014.

      Abcs, bons negócios

      Excluir
  7. Só tô vendo preju de empresas hein. Suzano, Gol, MPX..

    O Tombini resolveu virar macho então finalmente.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Os resultados não foram animadores. Também não era pra menos, o crescimento da economia neste primeiro semestre deve ter sido medíocre.

      Abcs, bons investimentos

      Excluir