quarta-feira, 7 de agosto de 2013

Inflação "sob controle"


O IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) informou nesta quarta-feira que o IPCA de julho registrou variação positiva de 0,03%. Essa é a menor taxa de inflação mensal registrada desde julho de 2010. O governo considerou o resultado positivo, mas na verdade o número ficou acima das expectativas do mercado (esperava-se uma pequena deflação no mês passado, por conta da revogação do aumento das tarifas do transporte público em várias capitais brasileiras) e está longe de mostrar que a inflação deixou de ser um problema no Brasil.

Mas a presidente Dilma Rousseff e o ministro Guido Mantega mostraram à imprensa que ensaiaram bem o novo jingle do governo contra a inflação. Juntos formariam uma bela dupla sertaneja. Na primeira voz, feita pela presidente Dilma (é claro), observa-se um tom elevado de ataque aos críticos do governo. Na segunda voz, feita pelo ministro Mantega, num tom bem mais baixo, observa-se apenas a repetição do refrão: “a inflação sempre esteve sob controle”.

Enquanto a Dilma criticava o estardalhaço feito pela mídia, analistas, oposição e cidadãos brasileiros (ou resumindo, qualquer um que não seja integrante do clube dos companheiros do PT) com relação à disparada da inflação, Mantega esperava receber um cutucão da presidente pra saber o momento exato de cantar o refrão.

O cutucão apareceu na manhã desta quarta-feira após o anúncio do IBGE. O governo aproveitou a oportunidade que não teve nos últimos anos para comemorar o nível baixo de uma inflação de curto prazo, influenciada pela sazonalidade do período.

O governo Dilma entregou uma inflação de 6,50% em 2011 e 5,83% em 2012. A inflação de 2013 já acumula alta de 3,17% e vai se aproximar dos níveis de 2012. Mas o ministro da Fazenda considera que o IPCA de 0,03% do mês passado reflete o patamar normal da inflação no Brasil. Subentende-se que, na avaliação do nobre ministro (representando, também, o ponto de vista da presidente), os níveis elevados de inflação dos últimos 29 meses refletem uma situação “anormal”, provocada por efeitos sazonais.

O que ocorre, na verdade, é exatamente o oposto do que o governo diz. A inflação baixa de julho está longe de refletir a realidade da economia brasileira. Estudos do próprio Banco Central revelam que a inflação voltará a subir nos próximos meses. A meta de 4,5%, definida pelo Conselho Monetário Nacional, sequer aparece nas projeções de inflação para os próximos dois anos.

O governo cantou, festejou e soltou foguetes para o IPCA de julho. Mas a comemoração parece mais um grito de desabafo (ou seria desespero?) no meio da escuridão. A inflação estaria sob controle caso estivesse oscilando ao redor do centro da meta no acumulado dos últimos 12 meses, o que não é o caso.

Para piorar, a inflação brasileira está descolada da média mundial. O acumulado do IPCA de 2013 já superou o dobro da projeção de inflação para os países desenvolvidos este ano. Teremos sérios problemas se mantermos este nível de inflação alta, pois o reaquecimento da economia global provocará aumento das pressões inflacionárias no mundo inteiro. Se entrarmos neste ciclo com uma inflação longe do centro da meta, provocada exclusivamente por fatores internos, seremos obrigados a tomar um remédio muito mais amargo em 2015.

No mercado de capitais o índice Bovespa fechou o pregão de lado nesta quarta-feira, deixando um doji de indecisão acima da fraca linha de suporte na região dos 47.1k. A sinalização sugere que o índice poderá retornar aos 48k, fazendo um movimento de pullback. Deve-se ressaltar que a referida sinalização é de baixa confiabilidade, pois o mercado sustentou-se pela alta nas ações da Vale, cujo resultado do segundo trimestre será divulgado hoje após o pregão.


Nos Estados Unidos o índice Dow Jones caiu pelo terceiro pregão consecutivo, mantendo o movimento de correção de curtíssimo prazo. A linha de suporte na região dos 15.3k foi testada e respeitada.


21 comentários:

  1. Cara FI qual seria este "remédio muito mais amargo em 2015" que teremos que tomar?? Seria Selic mais alta, por volta de 13%??

    Denttao

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    1. Denttao,

      Sim, basicamente taxa Selic em dois dígitos. Penalizaria ainda mais o crescimento apático da economia brasileira, que por sua vez poderá acelerar os problemas atuais no lado fiscal e cambial.

      Abcs, bons investimentos

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  2. Entendo que o "remédio muito mais amargo", pode ser ministrado de várias formas ao paciente:

    a) Aumento forte da taxa de juros
    b) Consumo estatal estancado
    c) Aumento dos compulsórios, forçando enxaguamento de crédito na praça
    d) Dólar indo para as alturas (ainda mais)
    e) Aumento de carga tributária para equilíbrio de contas públicas

    O Medicamento se apresenta com várias embalagens, nenhuma do agrado do paciente...

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    1. PB,

      Exatamente. A fórmula principal deste remédio é composta pela taxa de juros, mas os demais componentes também são preocupantes. Tenho muito receio quanto às opções "d)" e "e)" que você destacou muito bem. Poderia chutar que em 2015 o dólar estará rondando a casa dos R$ 3,00 e deveremos ter aumentos/criações de novos de impostos nos próximos anos.

      Abcs, bons negócios

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    2. Parabéns pelo tom leve, porém abrangente, de seus textos.

      Bons Investimentos,

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    3. Obrigado amigo, eu é que agradeço pela sua contribuição nos comentários do nosso blog.

      Abcs,

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  3. FI, boa análise!
    Fico intrigado com a interrelação dos itens "a" e "d".
    Enfim, tecnicamente a selic ainda maior serve para diminuir a inflação e também para diminuir o aumento do dólar, que já está bem alto, o que também coibiria novos aumentos extras da inflação.
    Fico muito curioso em saber dos motivos pelos quais o BC não entra no mercado à vista, e fica só no mercado futuro.
    Já verificamos que não é o suficiente e que para que haja uma paralização ou diminuição do aumento do dólar a SELIC deveria estar precificada na faixa dos 11-12%, isso para o momento atual.
    É claro, entendo que o governo está postergando esse aumento visando as eleições, mas, enfim, a curiosidade é em saber até quando eles vão deixar o dólar subir.
    Eu simplesmente não visualizo dólar acima da faixa atual sem ficar muito perigoso para a inflação, o que faria com que a selic fosse aumentada para bem mais do que o necessário.
    Faço toda essa descrição para saber o seguinte:
    - Qual o melhor momento e tipo de investimento: LFTs ou fundos cambiais?
    - Até quando o governo deixa o dólar escapar, e até quando vão ficar de brincadeirinha em usar só o mercado futuro ou não subir a selic devidamente?

    Abraço

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    1. Obrigado Justiceiro,

      Com relação ao momento e tipo de investimento tivemos uma boa oportunidade no mês de junho para compra de LTN 2016. Os títulos chegaram a pagar 11,78% ao ano. É importante ressaltar que as oportunidades em títulos públicos estão restritas ao curto prazo, conformem expliquei na análise de panorama: http://www.financasinteligentes.com/p/muito-prazer-sr-mercado.html

      No momento atual não temos oportunidade de novas compras em títulos do Tesouro visando o ganho de taxa acima da média do mercado. Ou seja, a LFT acaba sendo o único título viável para compra no momento, já que funciona como um CDB pós-fixado de liquidez diária (isso significa que o investidor será beneficiado com o aumento futuro da taxa Selic). Mas é recomendável deixar parte do capital livre para fisgar a LTN 2016 quando (e se) a taxa voltar a disparar, talvez no final do quarto trimestre de 2013 ou no início de 2014 quando o FED começar a reduzir o volume do programa de estímulo monetário.

      Fundos cambiais são interessantes para posicionamento de médio/longo prazo (até 2015/2016), mas é preciso atentar para o timming de entrada que pode ocorrer próximo da região dos R$ 2,15 a R$ 2,20. Pode-se projetar um retorno do investimento acumulado em fundos cambiais ligeiramente superior ao rendimento proporcionado pelos títulos públicos no mês de junho (durante o auge do ciclo de aperto monetário, quando as taxas dispararam para quase 12% ao ano).

      Quanto ao dólar o governo tem feito o possível para fazer o impossível rs... Não há como impedir a desvalorização do real frente ao dólar. Se tivéssemos feito a lição de casa nos últimos anos, este movimento atual poderia estar menos agressivo. Suspeito que o governo esteja preparando uma "surpresinha intervencionista" no mercado à vista, provavelmente protagonizada pela implementação de IOFs, que por sinal se tornou uma marca desastrosa do ministro Mantega.

      Abcs, bons investimentos

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  4. Olá FI.
    Saiu o resultado da Vale, com prejuízo de 84% em relação ao mesmo período. Mas será que o mercado não esperava essa queda ou até queda maior? As ações da Vale já estão em linha com o valor do seu patrimônio líquido e não consigo acreditar em mais penalização.
    Abraço.

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    1. Zé Piu,

      Sinceramente eu gostei do resultado. O impacto por conta da desvalorização do real já era esperado. O importante, na minha humilde avaliação, é que a Vale conseguiu elevar sua geração de caixa e reduzir os custos. O papel poderá ser penalizado amanhã ou nos próximos dias porque os analistas esperavam um resultado melhor. Movimento provocado pelo sentimento de frustração.

      Abcs, bons investimentos

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  5. ENTENDA A FARSA DO CÁLCULO DA INFLAÇÃO.
    O IBGE alterou em 2012 a forma de cálculo do IPCA, índice usado oficialmente para medir a inflação no Brasil.
    Até dezembro de 2011, o indicador tinha 384 itens que resumiam o consumo médio do brasileiro. Desde janeiro de 2012, porém, passou a ter 365 itens.
    No lugar dos que saíram, entraram novidades como o salmão e o celular com internet, produtos que a maioria da população não compram com frequência.
    “A atualização do IPCA é um procedimento de praxe”, afirmou a coordenadora de índices de preços do IBGE, Eulina Nunes dos Santos, em 2012, quando a mudança foi anunciada.
    Pois é, disseram que é um procedimento de praxe, tanto que desde 1979 (33 anos), a forma de calcular o índice só mudou cinco vezes, isto porque, aconteceram diversos planos econômicos, uma nova constituição etc.
    Pois bem, o governo do PT achou melhor mudar o cálculo da inflação, justamente quando a inflação voltou com força no Brasil, por que será?
    Quando foi anunciada no início de 2012, a nova estrutura do IPCA provocou uma onda de revisões das estimativas para a inflação naquele ano. Por coincidência, todas para baixo !
    Isso porque a nova fórmula de cálculo dá importância a itens que estão com preços em queda, como automóveis e eletrodomésticos, e reduz o peso de itens que estavam em aceleração, como os serviços domésticos e alimentação.
    Por exemplo, produtos que a maioria da população procuram economizar em momentos de recessão tiveram aumento de peso, como aparelhos eletrônicos (de 1,38% para 2,77%), veículos (de 7,37% para 12%) e etanol (de 0,42% para 0,84%), enquanto educação (de 7,27% para 4,21%), empregado doméstico( de 3,67% para 3,03%) e alimentos (de 23,32% para 22,09%) perderam importância, apesar de que, a inflação aumentou mais justamente nestes três itens nos últimos anos.
    O mais bizarro é que em 2001, o governo FHC já tinha efetuado mudanças nos cálculos, com a incorporação de comunicação e educação, enquanto vestuário por exemplo, perdia importância, caindo à metade em relação à 1991, resultado do barateamento de roupas e calçados, medida oposta à adotada pelo governo do PT, isto é, no governo FHC produtos que ficaram mais baratos perdiam peso no cálculo, enquanto no governo atual, produtos de grande consumo e importância perdem importância.
    PRA MELHORAR A MAQUIAGEM, O PT TAMBÉM ALTEROU A FATIA DAS REGIÕES NO CÁLCULO DO PESO DA INFLAÇÃO.
    Por exemplo, São Paulo tinha até dezembro de 2012, 33,1% de peso no total do IPCA, devido ao grande consumo. A partir de 2012, participa com 31%. Há 15 anos, tinha fatia de 36%, apesar da população do Nordeste ter crescido apenas 1,07%, indo de 47,7 milhão (2000) para 53,1milhão (2010); enquanto a do Sudeste aumentou 1,05%, de 72,3 milhão (2000) foi para 80,4 milhões em 2010 (uma mudança de apenas 1,5157(2000) para 1,5141(2010), isto é, 0,1% de aumento populacional em relação ao Sudeste).
    Ou seja, as populações do Norte e Nordeste, onde o consumo de automóveis, internet e equipamentos eletrônicos tem consumo menor, receberam maior peso no cálculo da inflação.
    Fonte:

    http://www1.folha.uol.com.br/poder/1046646-entenda-o-que-muda-no-calculo-da-inflacao.shtml
    http://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/908750-regioes-norte-e-centro-oeste-tem-maior-aumento-populacional.shtml

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    1. Muito bem observado. O pior é que mesmo fazendo de tudo para maquiar e administrar o IPCA (desonerações, cortes de tarifas, preço da gasolina, etc) "a inflação de mentirinha" ainda continua alta. Imagine então onde deve estar a inflação real.

      Abcs, bons investimentos

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  6. FI,

    A inflação foi de 0,03% e não 0,3%.

    É isso ai, mas ver para onde o mercado vai!

    Julio

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    1. Opa!

      Vou corrigir. Desatenção minha. Obrigado Julio!

      Abcs, bons negócios

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  7. Olá pessoal, este governo não tem nenhuma credibilidade no que fala, maquiam tudo para os "menos esclarecidos" continuarem votando por bolsas diversas, minha inflação nestes 3 anos foi de mais de 100%, aluguem disparou, vestuário, água, lúz..o Pt com seu compra compra de votos acabou com o plano real!
    Ivan

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    1. Ivan,

      A minha inflação pessoal também está acima do IPCA. O Banco Central "me deve duas cartas de desculpas" e este ano provavelmente deveria estar recebendo a terceira consecutiva.

      Abcs, bons trades

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  8. FI, seria uma boa já ir pensando em renda fixa como uma lci por exemplo?

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    1. Gosto de LCIs para posicionamentos curtos em renda fixa. Existem LCIs pós-fixadas e LCIs pré-fixadas. As LCIs pós-fixadas são o melhor produto de renda fixa de curto prazo. Tesouro Direto é melhor para o médio prazo (até 2015/2016).

      Abcs, bons investimentos

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  9. Desculpa FI só mais uma perguntinha via de regra LCI (86%CDI) é melhor que um CDB (94%cdi) , prazo 1 ano, seria melhor uma LCI?

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  10. O que vocës acham de LCIs de bancos médios como SOFISA? (abaixo do limite do FGC é claro).

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