segunda-feira, 19 de agosto de 2013

Um presente acidental


Parecia uma reprise da última sexta-feira. Câmbio disparando novamente. Juros futuros colados nas máximas. Governo perdido dentro do seu próprio conto de fadas. O castigo do mercado é merecido àqueles governantes que tanto atacaram o capital nos últimos anos, mas, infelizmente, todos nós saímos prejudicados.

Além de lutar para sobreviver dentro de um cenário de inflação elevada e crescimento baixo, a economia brasileira terá de conviver, a partir de agora, com os novos obstáculos secundários provocados pelos juros mais altos, falta de confiança, desemprego mais alto e escassez dos investimentos.

Os obstáculos secundários são consequências da desastrosa política econômica do governo federal e poderiam ser muito bem evitados. Hoje, o nível de confiança na economia voltou aos patamares registrados em 2009, quando o País foi duramente abatido pela crise internacional. Os empresários deixaram de investir e os consumidores estão gastando menos, prejudicando ainda mais o crescimento econômico.

A taxa de desemprego está subindo desde o final do ano passado (de 4,6% em dezembro de 2012 para 6% em junho deste ano, segundo o IBGE), ainda sem refletir os efeitos causados pelo ciclo de aperto monetário do Banco Central, simplesmente por esgotamento do modelo econômico.

O governo errou tanto que acabou beneficiando o seu principal “inimigo”: o capital. Os ataques/intervenções dos últimos anos acabaram criando condições ainda mais favoráveis para que o capital continue “parado” dentro do mercado financeiro, longe da economia real.

A distorção criada pela queda forçada da taxa básica de juros exige, agora, um trabalho redobrado do Banco Central para colocar a casa em ordem (ou em outras palavras, buscar o seu objetivo de convergir à inflação para a meta de 4,5%). A queda agressiva da taxa Selic provocou a sua própria retomada (alta) futura, abrindo uma boa oportunidade de ganho ao capital que ficou “parado” no sistema financeiro.

Com os juros pré-fixados beirando os 12% (novamente), o empresário dificilmente deixará a segurança do mercado de renda fixa para arriscar o seu capital na economia. Isso significa que o Brasil continuará ocupando o posto dos países que menos investem no mundo inteiro. E pior, após um esforço (fracassado) do governo para que isso não acontecesse. Até mesmo países da América Latina como Honduras, Nicarágua, Haiti, Jamaica, Guiana, Costa Rica, ou mesmo os companheiros da escola bolivariana (Bolívia, Argentina e Venezuela), entre tantos outros, investem mais do que os ridículos 18,4% do PIB (Produto Interno Bruto) que o Brasil investe.

A ação conjunta do Banco Central com o Tesouro Nacional não foi suficiente para suavizar/interromper a surra que o governo está levando de seus próprios atos do passado. O dólar fechou cotado aos R$ 2,41, mesmo com três leilões (mais uma vez frustrados) de swap cambial da autoridade monetária. A LTN 2016 disparou para 11,65% e o bônus da NTNB 2019 subiu para 5,63%. No geral, os yields subiram forte mesmo após um leilão extraordinário do Tesouro Nacional realizado nesta segunda-feira na tentativa (também frustrada) de conter a disparada das taxas de juros.


Na bolsa de valores, os ativos beneficiados pela alta do dólar continuam apresentando bom desempenho, apesar dos respectivos elevados níveis de sobrecompra. O índice Bovespa conseguiu se aproximar da zona de resistência dos 52.5k e perdeu força logo em seguida, fechando o pregão com um doji de indecisão, configurando uma nova sinalização de topo de curtíssimo prazo.


Nos Estados Unidos o índice Dow Jones fechou em baixa pelo quarto pregão consecutivo, trabalhando numa zona isenta de linhas de suportes. O mercado parece apreensivo para divulgação da ata do FED (Federal Reserve - Banco Central norte-americano), na próxima quarta-feira. Apesar do clima de apreensão, não houve indicações no comunicado do Fomc (Comitê de Política Monetária do FED) de que os estímulos monetários serão reduzidos no mês de setembro.


10 comentários:

  1. http://www.marketwatch.com/story/the-mother-of-all-divergences-2013-08-19?dist=tbeforebell

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  2. FI,

    Concordo com você. Repare também que essa briga no tesouro pode ser mais nervosismo pontual do mercado do que qualquer outra coisa.

    Hoje mesmo o próprio Tombini declarou que as taxas já estariam pagando um ágio demasiado sobre o padrão. ( http://economia.estadao.com.br/noticias/economia-geral,tombini-politica-monetaria-mitiga-riscos-de-inflacao,162309,0.htm )

    Para mim, isso é sinal que a alta dos juros não terá todo esse crescimento refletido atualmente nos yields dos títulos. Embora exista o nervosismo da diminuição do QE e desacreditamento da economia brasileira, acredito em uma interrupção da alta da selic brevemente. Não chegaremos a patamares bem mais altos agora. Provavelmente o yield deve cair até o final do ano (acredito...).

    Como sempre, o pior (ajuste mais forte) ficará para 2015. Repare que o Stuhlberger, naquela última entrevista, afirmou que o "modelo brasileiro" baseado na areia movediça ainda deve ter uma sobrevida de uns 3 anos até ir a ruína totalmente. Questão de tempo, mas talvez não agora.

    Vamos ver o que acontece.

    Abs,

    Miguel

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    1. Assino em baixo no comunicado do Tombini. Aliás, é função dele, também, tentar acalmar os ânimos dos investidores, especuladores e arbitradores. O mercado está oferecendo hoje juros de quase 12% ao ano. Certamente é um prêmio excessivo, levando em consideração que o ciclo de aperto monetário deverá ser interrompido aos 9,50% (minha projeção para o fechamento da Selic este ano). A questão principal é que o excesso de hoje (12%), será o normal do amanhã. E aquele empresário que estava pensando em investir na economia (já desanimado pelas péssimas condições de negócio, inflação alta e crescimento baixo) dificilmente vai abrir mão desses 12% que o governo paga praticamente com isenção de risco.

      Abcs, bons investimentos

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  3. FI, com esta alta dólar, preços dos combustíveis (estudo para ter uma alta), futuras eleições ano que vem , inadimplência alta vc acredita que o governo vai conseguir manter a Selic na casa de um digito por muito mais tempo?

    guto

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    1. Contando com todos estes fatores, não. Mas o dólar pode dar uma trégua até o final do ano, ou mesmo o reajuste nos combustíveis pode ser compensado com alguma desoneração de imposto. Mas se o governo conseguir manter a Selic aos 9,50% até 2015 será o último "empurrão com a barriga". Vamos chegar lá com uma inflação relativamente acima da meta (talvez não tão alta quanto em 2011, 2012 e 2013). Eu acho que consegue, mas a alta dos juros a partir de 2015 é praticamente inevitável. Por isso recomendei na análise de panorama abertura de posições em renda fixa apenas em títulos de curto (LTN 2016 e LFT 2017). Nos próximos dois/três anos a taxa Selic poderá alcançar os 12% ou até mais, a depender da velocidade de retomada da inflação global.

      Abcs, bons negócios

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  4. Miguel: "Hoje mesmo o próprio Tombini declarou que as taxas já estariam pagando um ágio demasiado sobre o padrão. ( http://economia.estadao.com.br/noticias/economia-geral,tombini-politica-monetaria-mitiga-riscos-de-inflacao,162309,0.htm )" Cara não seria uma forma de chamar a atenção para as taxas pagas pelo governo esta declaração do Tombini afim de se ter um maior posicionamento dos investidores neste investimento?


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    1. Na minha opinião, não. Este tipo de estratégia para "chamar atenção" estaria destinada ao pequeno investidor pessoa física, que não acompanha de perto o mercado e movimentam pouco financeiramente (comparando com os players de renda fixa). Quem faz os juros mexer no mercado futuro são as instituições financeiras, players e estrangeiros.

      Abcs, bons negócios

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  5. Mas se os titulos estão pagando quase 12% agora, se a Selic continuar subindo, a tendência é que essas taxas subam mais ainda, correto?

    Seria uma boa hora de comprar LTN?

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    1. Não necessariamente. O mercado as vezes exagera. E normalmente esses exageros acontecem no auge do ciclo de aperto monetário, em meio ao clima de pessimismo, quando as dúvidas prevalecem sobre o futuro da taxa Selic (ao final do ciclo de aperto monetário). Hoje o mercado tem mais ou menos uma noção de onde vai parar a taxa Selic. Estão precificando 10%. Muito provavelmente este excesso de hoje será corrigido já no final do ciclo de aperto monetário, quando o Banco Central ainda estiver subindo a taxa Selic, porém nos últimos ajustes.

      Sim, estamos num bom momento para compra de renda fixa. Mas apenas para os títulos de curto prazo (LTN 2016 e LFT 2017). Expliquei melhor sobre isso na última análise de panorama, está meio desatualizada, mas ainda vale: http://www.financasinteligentes.com/p/panorama-de-mercado.html

      Abcs, bons negócios

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  6. FI, voce teria tempo para explicar (tecnicamente talvez) uma queda tão grande da COPASA (CSMG3)? A empresa tem bons fundamentos, bons resultados, mas tem caído muito e está com indicadores muito bons para compra. Se algum dos leitores do blog quiser se expressar também sobre a empresa...Obrigado.

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