quinta-feira, 5 de setembro de 2013

O Banco Central e a confiança num velho traidor


É praticamente certo que a taxa Selic atingirá os 9,50% ao ano na próxima reunião do Copom (Comitê de Política Monetária do Banco Central) a ser realizada nos dias 8 e 9 de outubro. A ata do Copom divulgada hoje sinaliza de maneira clara e objetiva que o Banco Central voltará a subir a taxa básica de juros em 0,5 pontos percentuais em outubro.

Os membros do Comitê destacaram no documento que “a elevada variação dos índices de preços ao consumidor nos últimos doze meses contribui para que a inflação mostre resistência”. Isso significa que: (i) a leve inflação registrada do mês de julho foi, realmente, um ponto fora da curva; (ii) os diretores do Banco Central continuam enxergando dificuldades mais a frente para uma correção sustentada dos preços; (iii) os mecanismos de indexação e a piora na percepção dos agentes econômicos sobre a dinâmica da inflação continuam contribuindo para manutenção dos preços elevados, constituindo um obstáculo importante ainda a ser vencido pelo Banco Central através da política monetária. Nesse contexto, os membros do Comitê entenderam “ser apropriada a continuidade do ritmo de ajuste das condições monetárias ora em curso.”

Além disso, dois pontos importantes ressaltados na ata corroboram para manutenção do ritmo de aperto monetário na próxima reunião do Copom. São eles: (i) possibilidade de concessão de aumentos de salários incompatíveis com o crescimento da produtividade, formando uma nova fonte de pressão inflacionária; (ii) efeitos secundários de pressão inflacionária decorrentes da depreciação cambial que devem ser limitados pela adequada condução da política monetária.

As projeções de inflação calculadas pela autoridade monetária, dentro do cenário de referência, também continuam apontando para um IPCA fora do centro da meta este ano, no próximo e também em 2015. O cenário de referência levou em conta as hipóteses de manutenção da taxa de câmbio em R$2,40 e da taxa Selic em 8,50% em todo o horizonte relevante. Ou seja, caso o câmbio “congelasse” em R$ 2,40 e a taxa Selic fosse mantida em 8,50%, o Banco Central não conseguiria cumprir seu objetivo de carregar a inflação para o centro da meta em 2013, 2014 e 2015. Esta incapacidade apontada no estudo fundamentou o respaldo técnico para decisão de subir os juros.

Ao contrário da clareza apontada para a próxima reunião do Copom no mês de outubro, a perspectiva para o fechamento da taxa Selic em 2013 ainda é obscura. O Banco Central sinalizou que está pensando em puxar o freio de mão do ciclo de aperto monetário na reunião do dia 26 e 27 de novembro. A justificativa para esta hipótese está respaldada num “velho conhecido traidor” do Banco Central no passado recente: a política fiscal do governo federal.

O Banco Central passou a considerar que há condições para que a política fiscal do governo federal se desloque para uma zona de neutralidade, deixando de ser expansionista. Com o governo gastando menos, a autoridade monetária teria condições de aliviar a política de aperto monetário, já que a economia feita pelo governo colabora para reduzir as pressões inflacionárias.

Mas foi exatamente isso que ocasionou a disparada da inflação em 2011 e 2012. O Banco Central apostou que o governo iria cumprir com a sua parte e reduzir os gastos públicos, mas aconteceu justamente o contrário, os gastos aumentaram ainda mais.

A avaliação do Banco Central quanto à política fiscal do governo federal está completamente equivocada. Os parâmetros orçamentários para 2014, divulgados no dia 29 de agosto, mostraram que o governo poderá (deverá) fazer novos abatimentos no superávit primário do próximo ano, reduzindo a meta de 3,2% do PIB para apenas 2,1% do PIB, tornando a política fiscal ainda mais expansionista.

Deve-se ressaltar que o governo programou para divulgar os parâmetros orçamentários de 2014 “curiosamente” um dia após a decisão do Copom, com a ata já confeccionada e arquivada. Na época havia expectativa no mercado de uma nova postura fiscal a ser adotada pelo governo federal, menos expansionista.

Notoriamente o governo não só frustrou o mercado, como também os formuladores da política monetária. Mas é difícil tentar entender porque o Banco Central mudou sua avaliação da política fiscal antecipadamente. Será que os diretores do Comitê receberam informações internas do Planalto que levaram a crer nesta possibilidade, mas que mostraram ser equivocadas? Não seria ingênuo demais confiar nas mesmas pessoas que te deram uma bela rasteira há pouco tempo atrás?

Independente do que pode ter acontecido nos bastidores, o fato é que o Banco Central errou em sua avaliação e precisa retifica-la na próxima ata. Esta postura deve ser observada, também, nas entrevistas dos diretores do Banco Central nas próximas semanas. A interrupção do ciclo de aperto monetário precisa estar ancorada em dados reais. A inobservância desta retificação nos fará crer que o Banco Central voltou a confiar no velho e perigoso traidor do passado.

No mercado de capitais o índice Bovespa subiu 1,23% nesta quinta-feira, confirmando o fim do movimento corretivo de curto prazo. O mercado parou colado na principal linha de resistência de curto e médio prazo (52.4k), que é por onde passa, também, a LTB dos 63.4k. O índice está bem armado para superar esta região nos próximos pregões, aumentando a força da tendência de alta de curto prazo.

  
Nos Estados Unidos o índice Dow Jones fechou o pregão de lado, mostrando um candle de indecisão. Os operadores adotaram um tom de cautela no pregão, aguardando o importante relatório de emprego que será divulgado amanhã.


9 comentários:

  1. A Dilma e o Manteiga parecem a orquestra do titanic o barco esta AFUNDANDO e eles estão lá tocando como se nada tivesse acontecendo.

    Z

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    1. Essa dupla parece que vive numa outra dimensão rs.. Totalmente fora da realidade.

      Abcs, bons negócios

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  2. FI,

    A justificativa de que a inflação vai diminuir em razão da diminuição dos gastos do governo é ridícula. É sinal do que nos aguarda no futuro com a Dilma e sua patotada. Uma hora teremos que pagar a conta por meio do aumento radical na taxa de juros. Acredito que isso só vai acontecer bem depois das eleições.

    Na próxima Ata do copom a coisa já deve vir bem mais branda.

    Aposto que no final do ano a selic fecha em 9,75%. Teremos espaço pra correção nos yields (significativas)?

    Abraços.

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    1. Sim, é uma falha grave. Aconteceu justamente num momento em que o Banco Central estava recuperando credibilidade do mercado. Espero sinceramente que o Banco Central faça alguma retificação ou explique melhor isso ao mercado, caso contrário teremos um novo retrocesso. Estava quase subindo a minha projeção para o fechamento da taxa Selic de 9,50% para 10%, mas depois do que vi na ata resolvi manter.

      Provavelmente os Yields sofrerão uma correção no final deste ano, só não acho que será tão significativa. Os pré-fixados deverão permanecer na casa dos dois dígitos, apresentando um pequeno prêmio em relação às LFTs/CDI.

      Abcs, bons negócios

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    2. Agradeço FI. Vamos ver, se melhorar algo nas NTN-Bs (o PU) já vale.

      Na verdade, ao que parece o Bacen nunca foi inteiramente independente. Talvez a alta que tenha acontecido agora foi só um meio termo para "estancar" um pouco a inflação. Ao que tudo indica, permanece a tolerância com a inflação alta.

      Abs,

      Miguel

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    3. Os Yields já reduziram bem hoje. Vamos esperar as declarações dos diretores do Copom, realmente este apontamento na ata não é um bom sinal. Não podemos chegar em 2015 com uma inflação acima do centro da meta.

      Abcs, bons negócios

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    4. Miguel,

      O governo já disse que a sua meta de inflação é 5,84%. Não podemos esperar inflação baixa enquanto esse desgoverno maquia as contas, dizendo que deve menos do que realmente deve. Só se engana quem quer...

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  3. FI, No meu entendimento, o IBOV esta nos dizendo com toda clareza que no longo prazo ele pretende descer mas não vai ser nada repentino. Será na maciota oscilando dentro do grande canal de baixa, e que devermos aproveitar as várias oportunidades de ganho que este canal vai oferecer como já ofereceu antes. Qual a sua opinião?
    Grande abraço,
    Beethoven

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