quinta-feira, 17 de outubro de 2013

Copom derruba simbolismo dos juros de dois dígitos


A ata da última reunião do Copom (Comitê de Política Monetária do Banco Central) divulgada nesta quinta-feira acabou com últimas dúvidas que ainda restavam no mercado quanto ao futuro da taxa Selic. A manutenção da postura hawkish (intolerante com a inflação e favorável aos juros mais altos), em linha com o último Relatório de Inflação, mostra que não há pressão do Planalto no sentido de se evitar o retorno de uma taxa básica de juros de dois dígitos na economia.

O documento revelou que o Banco Central vai continuar mantendo o ritmo de alta da taxa Selic. Isso significa que na próxima reunião do Copom, a ser realizada nos dias 26 e 27 de novembro, a taxa básica de juros atingirá o patamar de dois dígitos, aos 10% ao ano.

O conteúdo é praticamente o mesmo observado na ata da reunião do mês de agosto. O Banco Central continua expressando preocupação com as expectativas de inflação, destacando certa resistência à correção na trajetória dos preços. Segundo os diretores do Copom, a demanda doméstica deve permanecer robusta, sustentada pelo crescimento da renda e aumento moderado do crédito. A manutenção do quadro de aquecimento da demanda, juntamente com o cenário de retomada dos investimentos, contribui para que o ritmo de atividade econômica seja mais intenso neste ano e em 2014. Consequentemente criam-se condições para sustentação do nível de pressão sobre os preços.

A decisão de política monetária foi baseada no seguinte cenário de referência: manutenção da taxa de câmbio em R$2,20 e da taxa Selic em 9% ao ano em todo o horizonte relevante. Nesse cenário, a projeção para a inflação de 2013 diminuiu em relação ao valor considerado na última reunião. Para 2014 a projeção de inflação também recuou. Porém, em ambos os casos, permanece acima da meta de 4,5%.

Aliás, as projeções do Banco Central apontam para inflação acima da meta até o terceiro trimestre de 2015, levando em consideração a manutenção do cenário de referência descrito no parágrafo anterior.

Cabe ressaltar que as atas do Copom não divulgam as novas projeções de inflação. O Banco Central informa apenas se estes números aumentaram ou diminuíram em relação à última reunião de Comitê e se estas novas estimativas estão acima ou abaixo da meta a ser perseguida (4,5%). As projeções de inflação informadas no último Relatório de Inflação são de 5,8% para este ano e 5,7% para 2014.

Outro aspecto importante merece ser destacado. Apesar da redução da taxa de câmbio no cenário de referência, seguindo a oscilação de curto prazo do dólar, o Banco Central não alterou sua avaliação de mercado, reconhecendo a mudança significativa atualmente em curso no quadro global, o que reforça a percepção de valorização gradual da moeda em prazos mais longos.

O Copom avalia que a depreciação e a volatilidade da taxa de câmbio verificadas nos últimos trimestres ensejam uma natural e esperada correção de preços relativos. Para o Comitê, esses movimentos nos mercados domésticos de divisas, em certa medida, refletem perspectivas de transição dos mercados financeiros internacionais na direção da normalidade, entre outras dimensões, em termos de liquidez e de taxas de juros. Importa destacar ainda que, para o Comitê, a citada depreciação cambial constitui fonte de pressão inflacionária em prazos mais curtos. No entanto, os efeitos secundários dela decorrentes, e que tenderiam a se materializar em prazos mais longos, podem e devem ser limitados pela adequada condução da política monetária.”

Finalizando com a necessidade de moderar a expansão do crédito e “combater” a estreita margem de ociosidade no mercado de trabalho, o Copom esboçou suas justificativas para dar “continuidade ao ritmo de ajuste das condições monetárias ora em curso”.

Talvez, o ponto mais interessante a ser observado nesta ata do Copom não é a manutenção do ritmo de aperto monetário para a próxima reunião de Comitê, mas sim a sinalização de que este ciclo continuará no próximo ano, entretanto num ritmo menor (ajustes de 0,25 p.p.). Além de não ser possível observar a presença do limitador político nas decisões dos diretores do Copom, pode-se notar que o Banco Central ainda não está preocupado em arrumar o terreno para o fim do ciclo de aperto monetário.

A perspectiva de um ritmo menor na elevação da taxa Selic em 2014 está baseada nestas duas indicações da ata: (i) “Para o Comitê, criam-se condições para que, no horizonte relevante para a política monetária, o balanço do setor público se desloque para a zona de neutralidade.” (ii) “O Copom pondera que a elevada variação dos índices de preços ao consumidor nos últimos doze meses contribui para que a inflação ainda mostre resistência. Nesse contexto, inserem-se também os mecanismos formais e informais de indexação e a percepção dos agentes econômicos sobre a dinâmica da inflação.”

A primeira indicação (i) não é nova, apareceu pela primeira vez na ata da reunião do mês de agosto. A segunda indicação (ii) é nova e apareceu pela primeira vez na ata divulgada nesta quinta-feira. Até a reunião do mês de agosto, o Banco Central considerava que existia uma piora na percepção dos agentes econômicos sobre a dinâmica da inflação. Já na reunião do mês de outubro, o Banco Central passou a entender que esta piora na percepção dos agentes não existe mais.

A eliminação de uma simples palavra do comunicado (“piora”) alterou o sentido da frase. Isso significa que o Banco Central está conseguindo retomar a confiança dos agentes econômicos através de um ciclo de aperto monetário mais intenso do que se esperava, minimizando, desta forma, os riscos de indexação nos preços.

Estas duas variáveis (independente se a primeira é controversa ou não, pois estamos partindo do ponto de vista da avaliação do Banco Central) oferecem condições para redução do ritmo de aperto monetário no início do próximo ano.

A sinalização de continuação do ciclo de aperto monetário não tem provocado oscilações relevantes no mercado de juros futuros. Os preços dos títulos públicos brasileiros estão se movimentando dentro de um ponto de equilíbrio de curto prazo, já que a pressão dos Yields norte-americanos diminuiu significativamente nas últimas semanas. Após a máxima registrada aos 2,98% no início do mês de setembro deste ano, a taxa de juros do título de 10 anos dos Estados Unidos voltou a ceder mesmo com o recente impasse na política do país e atingiu os 2,61% nesta quinta-feira, menor cotação dos últimos dois meses.

Nas bolsas de valores o índice Dow Jones fechou o pregão de lado, mostrando reação após se aproximar da linha central de bollinger do gráfico diário. Mercado segue dentro da pernada de alta iniciada na região dos 14.7k, sem novidades.


No Brasil o índice Bovespa fechou o pregão em baixa de 1,10% pressionado pela queda das ações da OGX, Petrobras e do setor siderúrgico. Com o tombo desta quinta-feira, a linha de resistência na região dos 56k foi mantida, formando uma região de topo duplo. A sinalização não invalida a tendência de alta de curto e médio prazo. A formação de um novo fundo ascendente acima da região dos 52k garantirá melhores condições de rompimento à referida linha de resistência.


7 comentários:

  1. Obrigado pelo post, FI! Cara tenho uma LCI acho que devo "comemorar" este post, ou não? Outra Pergunta em outros posts seus, li q vc considera q a Selic deverá aumentar.Em meados de 2015. Então queria te fazer outra pergunta, devo mudar de investimento renda fixa Tipo CDB, tesouro, ou devo continuar com a LCI. obs: Pretendo carregar o valor investido até 2017

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    1. Exato. "Comemorar" entre aspas mesmo, pois este aumento da taxa básica de juros é um remédio amargo que não deveríamos estar tomando neste momento, provocado pelo excesso de intervencionismo do Estado no passado recente que gerou inúmeras distorções na economia, infladas, ainda, pela estratégia equivocada da política econômica. Estamos pagando o preço da baixa capacidade de gestão dos nossos representantes políticos.

      Se a sua LCI é pós-fixada, pode ser interessante manter a aplicação. Mas é necessário saber qual a remuneração da sua LCI em relação ao CDI para compararmos com a remuneração das LFTs (Tesouro). Pré-fixado não está no momento para abertura de novas posições. Os Yields cederam.

      Sim, isso pode acontecer em 2015/2016. Com a retomada da inflação global o Brasil fatalmente precisará subir a sua taxa básica de juros, acompanhando o movimento dos demais banqueiros centrais (principalmente o FED, que pretende subir a Federal Funds Rate a partir de meados de 2015). Ainda temos bastante chão pra percorrer e até lá e novidades poderão surgir no meio do caminho.

      Abcs, bons negócios

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  2. FI,

    "A sinalização de continuação do ciclo de aperto monetário não tem provocado oscilações relevantes no mercado de juros futuros. Os preços dos títulos públicos brasileiros estão se movimentando dentro de um ponto de equilíbrio de curto prazo, já que a pressão dos Yields norte-americanos diminuiu significativamente nas últimas semanas. "

    Pode-se depreender, também, que atualmente os Yields dos títulos brasileiros já pagam o correspondente a uma taxa de juros maior (algo do tipo 11,5%) e com isso não haveriam mais espaço para valorização ?

    Com base na Ata publicada, fiquei com a sensação que o Bacen (embora sinalize que irá continuar a alta) abrandou o tom. Pode ser meio caminho andado, mas será que essa alta (2-3 pontos) mais algumas poucas de 0,25 em 2014, seria suficiente para trazer a inflação ao centro da meta de 4,5% ?
    Embora não tenha dados aqui, entendo que para isso haveria de ser uma alta maior, mas que não vai ser o caso. Logo, a inflação rondaria a casa dos 5% ...

    Bom post,

    Miguel

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    1. Miguel,

      As taxas futuras já precificaram boa parte do ciclo de aperto monetário atual. Caso o ciclo seja interrompido com a taxa Selic aos 10,5% ao ano, por exemplo, os títulos pré-fixados (focar em LTN 2016, já que a LTN 2017 vai pegar o período de alta da Federal Funds Rate) estariam pagando no preço de hoje, um pequeno bônus de 0,5 p.p. sobre a taxa Selic. Este seria o ponto de equilíbrio a ser trabalhado pelo mercado (manutenção de um bônus de 0,5 a 1 p.p. do pré-fixado acima da taxa Selic). O bônus ficaria em linha ou abaixo da taxa Selic apenas se houver uma indicação de implementação de um ciclo de afrouxamento monetário, o que parece distante no momento. Mas ainda assim os Yields brasileiros continuarão vulneráveis e podem voltar apresentar volatilidade caso os Treasuries voltem a ficar mais caros quando o FED começar, de fato, a cortar os estímulos monetários. Hoje o preço do título de 10 anos do governo norte-americano já está precificando este quadro de redução dos estímulos monetários, mas ainda assim os títulos estão sujeitos a uma nova onda de choques em caso de surgimento de "fatores surpresas" (cortes mais rápidos e volumosos, por exemplo) ou no errado entendimento do mercado na comunicação do FED (erraram em setembro e podem errar de novo).

      Acho que passado o stress do mercado doméstico com as taxas de juros futuras e taxa de câmbio, os diretores do Copom entenderam a gravidade do cenário que está por vir em 2015/2016 (quando o FED começar a subir os juros) e trataram logo de trabalhar para arrumar a casa e não esconder a sujeira debaixo do tapete, a fim de evitar um choque maior daqui há 2/3 anos. Para isso, será primordial chegarmos em 2015 com as projeções de inflação ancoradas no centro da meta e ao mesmo tempo manter a atratividade dos títulos públicos brasileiros. O governo também precisa fazer sua parte com relação à política fiscal. Não consegui enxergar um Banco Central abrandando o tom, o documento é quase uma cópia da ata anterior. Ainda muito hawkish. Estão realmente preocupados com o que poderá acontecer nos próximos anos. Acho que se a taxa Selic chegar perto dos 11% ao ano, e se o BC implementar novas medidas macroprudenciais, a inflação tende a recuar para o centro da meta no início de 2015.

      Obrigado!

      Abcs, bons investimentos

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  3. FI, eu não tenho formação na área de economia, mas é incrível como você consegue escrever de forma objetiva, clara e didática sobre o assunto de forma que eu possa compreender esse mundo. Obrigado!

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    1. Que nada. Talvez seja por isso que você conseguiu entender, pois não sou economista rsrss...

      Abcs, bons negócios!

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