quinta-feira, 31 de outubro de 2013

Irresponsabilidade fiscal


O número de dois dígitos bilionários assustou. O Tesouro Nacional divulgou nesta quinta-feira que o resultado primário do Governo Central no mês de setembro foi deficitário em 10,5 bilhões de reais. Este é o pior resultado desde dezembro de 2008.

O cálculo do Banco Central aponta que o setor público registrou déficit primário de 9,05 bilhões de reais no mês de setembro. Este é o pior resultado para o mês na série histórica do Banco Central. A divergência com os números do Tesouro é praticamente irrelevante, costumam ocorrer devido à defasagem nos dados utilizados, já que as duas instituições utilizam metodologias diferentes.

O fato é que o governo conseguiu surpreender negativamente o mercado, mais uma vez. Alguns economistas esperavam um pequeno superávit primário no mês de setembro, outros projetavam déficits modestos. Mas acabou aparecendo um rojão, abrindo um buraco difícil de tapar.

O rombo bilionário nas contas públicas reflete total irresponsabilidade da política fiscal do governo, já bastante deteriorada pelos eventos do passado recente. Desonerações altamente injustificadas às empresas e setores com elevadas margens de lucro, crédito subsidiado para compra de móveis e eletrodomésticos, além do próprio modelo de Previdência brasileiro, estão deixando o caixa do governo numa situação complicada.

A meta de superávit primário (saldo positivo entre as receitas e despesas. É a economia feita para o pagamento dos juros/dívida pública) deste ano já foi reduzida de 3,1% para 2,3% do PIB (Produto Interno Bruto). Além de cortar a meta, o governo alterou o estatuto do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) para incluir mudanças na forma de distribuição de dividendos. O BNDES poderá realizar o pagamento de dividendos ao governo mesmo antes de constituir reservas de lucro para futuro aumento de capital. O objetivo é de claramente realizar mais uma manobra contábil para tentar atingir o superávit primário.

Mesmo com as manobras contábeis e cortes na meta de superávit primário, o governo ainda não conseguirá cumprir com o seu objetivo. No acumulado deste ano, o superávit primário somou apenas 44,965 bilhões de reais. Para chegar à meta ajustada será necessária economia de cerca de 65 bilhões de reais nos próximos três meses.

É mais um duro golpe de confiança a quem precisa retomar a credibilidade do mercado. Investidores, empresários, analistas e agências de rating já se mostraram insatisfeitos com política fiscal expansionista do governo brasileiro. O Estado deveria estar concentrando esforços para reduzir este perigoso clima de insatisfação generalizada, mas está colaborando para acontecer justamente o contrário.

O rating brasileiro está sob ameaça de corte. Se não fizermos o dever de casa, em menos de dois anos seremos rebaixados para o mesmo nível de países como Azerbaijão, Marrocos e Espanha. Para evitar este desastre, precisamos mostrar ao mundo um crescimento econômico, consistente e sustentável, aliado à melhora na política fiscal, econômica e monetária.

Infelizmente apenas o Banco Central tem demonstrado comprometimento em fazer a sua parte do dever de casa. O ministério da Fazenda segue completamente desconectado com da realidade. Não faz o dever de casa, bagunça a sala de aula e ridiculariza o professor.

Conseguimos atingir o ponto do ridículo, onde o mercado ainda não sabe qual será a meta do superávit primário de 2014 a ser perseguida, tamanha a irresponsabilidade fiscal do governo. Vai ser 3,2% do PIB, conforme anunciado no orçamento, ou 2,1% do PIB com os novos abatimentos que poderão acontecer?

Dúvidas, incertezas, indefinições e desconfiança. Esta é a imagem que o mercado consegue enxergar de um governo intervencionista, criador de uma série de distorções em diversos setores. Um governo que gasta muito e gasta mal. Um governo que não consegue fazer a economia crescer de forma sustentável e ainda cria inflação. Um governo que desconhece as consequências de sua irresponsabilidade.

Na tentativa de atenuar as preocupações do mercado, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, informou que está estudando a possibilidade de tornar obrigatória a realização de um curso de qualificação de empregados que perderem seus empregos e buscarem o seguro-desemprego pela primeira vez.

Pasmem, mas esta é a estratégia do governo para economizar dinheiro: reduzir despesas com o pagamento de seguro-desemprego e abono salarial com a realização de um curso de qualificação profissional.

No mercado de capitais o índice Bovespa fechou o pregão em leve alta de 0,15%, mostrando um doji de indecisão colado na importante região de suporte dos 54k, juntamente com a linha central de bollinger.


O mercado abriu pressionado na parte da manhã por conta da liquidação de posições numa determinada ação que se despediu do índice Bovespa nesta quinta-feira. A reação do mercado começou após o toque na LTA dos 44.1k (mesma região por onde passa a média móvel simples de 200 períodos diária) e colabora para formação de fundo ascendente dentro da tendência, a ser confirmado nos próximos pregões.

O índice Bovespa fechou o mês de outubro marcando o quarto candle de alta consecutivo no gráfico mensal, mantendo a tendência de alta de curto e médio prazo. Destaque para a resistência relevante da média móvel simples de 20 períodos. Mais uma vez houve formação de pavio superior no candle mensal, mostrando a força da referida resistência.

desempenho Ibovespa outubro 2013

O último rompimento ascendente e consistente sobre a média móvel simples de 20 períodos do gráfico mensal ocorreu em julho de 2009. Esta já é a quarta tentativa de rompimento da referida média desde a formação de topo duplo na região da máxima histórica (novembro de 2010). O histórico mostra que o mercado não costuma ficar tanto tempo (mais de 2/3 anos) abaixo desta média mensal, mesmo em períodos de ciclos de correção. As condições técnicas seguem favoráveis à manutenção da tendência de alta.

Nos Estados Unidos o índice Dow Jones fechou em baixa pelo segundo dia consecutivo, mostrando uma reação natural do mercado após o teste na região da máxima histórica.


13 comentários:

  1. WT que 10B refletem "total irresponsabilidade da política fiscal do governo" não posso discutir, mas se esse resultado "conseguiu surpreender negativamente o mercado" aos analistas que previam pequeno superavit ou alguma coisa perto de zero, então são os analistas os que devem rever as suas metodologias pois errar por >10B não tem justificativa.

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    1. Os analistas erraram por ingenuidade. Acreditaram que haveria limite para o bunga-bunga do Mantega. Não tem.

      E se este ano as contas públicas já foram para o espaço, o que dizer do ano que vem, com eleição?

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    2. Esses erros são comuns. Em setembro quase todos estavam prevendo que o FED iria começar a cortar os estímulos monetários, mesmo sem qualquer indicação por parte da autoridade monetária. Mas acho que alguns acabaram depositando confiança de melhora na parte fiscal, esperando uma reação do governo aos avisos das agências de rating. Para o ano que vem a situação não é boa. O governo já admitiu que pode fazer novos abatimentos na meta do superávit (tanto é que não se sabe ao certo qual será a meta a ser perseguida na prática), justamente para deixar o caixa à disposição da campanha eleitoral, na minha humilde avaliação.

      Abcs a todos e bons negócios

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  2. A solução do Mantega é sensacional!!! O governo deve ter muito rabo preso com esse cara, não é possível ele continuar onde está até agora.
    Que terrível esse governo e que triste ver o PT destroçando o Brasil...

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    1. A solução é digna de pena.

      Realmente eu não entendo porque o governo o mantêm. Ele é um desastre uma completa mula.

      Dá saudades do Palloci.

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    2. Não passa de 2014. Mesmo se a Dilma conseguir ser reeleita outra pessoa deverá assumir a Fazenda (e tomara que seja o Meirelles). Ela só não fez a troca este ano para não dar o braço a torcer.

      Abcs, bons investimentos

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  3. FI, quais riscos para alguem que compra um título pré fixado do Brasil uma ltn 2017 se as contas públicas continuarem assim? Corro risco de tomar um calote? Isso é factível? Não sei se corro risco no mercado acionário , correndo o risco de tomar pau numa provável nova crise ou correr o risco de calote do tesouro direto... Onde vc investe o seu dinheiro?

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    1. LTN 2017 não é um título recomendável por conta do prazo. O Yield deste título ficará defasado quando o FED iniciar o ciclo de aperto monetário (provavelmente no segundo semestre de 2015). É melhor montar posição na LTN 2016, porém o Yield não está no ponto de compra ideal neste momento. Precisa acompanhar o movimento dos juros futuros para fisgar uma taxa mais alta. Além da LTN 2016, é interessante alocar parte do capital na LFT 2017. Os demais títulos estão desinteressantes.

      Sim, o descumprimento das metas de superávit primário causa certa tensão no mercado da dívida soberana, principalmente quando o endividamento do país aumenta. A segurança dos credores são bons resultados fiscais. Quando a situação fiscal começa a se deteriorar, os investidores passam a exigir um retorno maior (taxa de juros) para comprar dívida do governo, pois o risco aumenta. Por isso é importante manter números fiscais saudáveis. Não há risco de calote no curto prazo, mesmo com o descumprimento da meta de superávit primário. Muito provavelmente sua LTN será quitada em dia. Mas no longo prazo é impossível prever qualquer tipo de cenário, tanto positivo, quanto negativo.

      Abcs, bons investimentos

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    2. Calote?
      Beira o impossível. Aliás, mesmo com SELIC a 20%, o governo nunca deu calote.
      Tesouro Direto é mais seguro que deixar dinheiro no banco.

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