sexta-feira, 4 de outubro de 2013

Surpreenda-se mais uma vez


A permanência do impasse nas negociações entre parlamentares Republicanos e Democratas para aprovação do Orçamento dos Estados Unidos provocou a paralisação, pelo quarto dia consecutivo, de alguns órgãos não essenciais do governo norte-americano.

A indignação do presidente Obama, a interrupção de visitas à Estátua da Liberdade e o fechamento de museus e parques nacionais não foram suficientes para pressionar o significativo grupo radical ideológico do partido Republicano (mais conhecido como Tea Party) a apoiar o projeto do Senado para aprovação do Orçamento do País e, assim, destravar o pleno funcionamento do governo.

A assessoria do presidente Obama demorou um pouco para entender que os eleitores do Tea Party não estão preocupados com o fechamento da Estátua da Liberdade. A paralisação do governo norte-americano não alterou a vida destas pessoas. Sem a pressão de seus eleitores, os deputados do Tea Party continuam com o aval para permanecerem de braços cruzados.

Mas então, o que fazer para cutucar (ou incomodar) os eleitores do Tea Party, na dosagem suficiente devida, para pressionar os seus representantes na Câmara? Provocando um colapso em Wall Street. Bastava o governo fomentar condições para que isso acontecesse. Foi então que, nesta última quinta-feira, o Departamento do Tesouro emitiu o seguinte comunicado:

“Um calote seria (um episódio) sem precedentes e tem potencial de ser catastrófico: os mercados de crédito podem congelar, o valor do dólar pode despencar, as taxas de juros americanas podem disparar. Pode haver uma crise financeira e uma recessão capazes de reproduzir os acontecimentos de 2008, ou coisa pior.”

Obviamente este cenário descrito pelo Departamento do Tesouro não vai acontecer, pelo menos no curto prazo. A intenção do comunicado era provocar uma queda rápida e agressiva de curto prazo nos preços dos ativos, de forma a pressionar os parlamentares a aprovarem logo o Orçamento dos Estados Unidos. Mas, para infelicidade do presidente Obama, o plano não funcionou.

As bolsas cederam pouco na quinta-feira e já se recuperaram do tombo nesta sexta-feira. A relativa calmaria dos mercados frente aos últimos acontecimentos, noticiários sensacionalistas e da própria tentativa (frustrada) de provocar um colapso de curto prazo nos preços dos ativos, mostra, mais uma vez, o poder de soberania do próprio mercado, além da falta de interesse dos investidores e agentes em acompanhar mais uma novela onde todos já sabem o que acontecerá no capítulo final.

O Orçamento do governo norte-americano será aprovado nos próximos dias ou nas próximas semanas. A nova elevação do limite de endividamento também será aprovada, mesmo com os rotineiros atrasos e impasses nas negociações entre Republicanos e Democratas. O País não parou mesmo sem a aprovação do Orçamento e não vai dar calote na dívida mesmo sem a elevação do limite de endividamento. 

Se você já sabe que o ônibus vai atrasar 30 minutos para chegar ao ponto, porque não andar 200 metros e pegar o metrô? É melhor do que ficar parado e perder 30 minutos do seu tempo no ponto. Se a economia fosse uma pessoa, ela pegaria o metrô. Simplesmente porque não faz o menor sentido ficar parado frente aos pequenos obstáculos de percurso.

Da mesma forma que o País não parou sem Orçamento, não vai dar calote só porque o cofre demorou pra abrir. Aliás, o cofre está fechado há quase seis meses. Desde então o governo vem usando medidas de emergência para economizar dinheiro. Os credores que tinham Treasuries (títulos públicos do governo norte-americano) vencidas neste período receberam o pagamento do governo em dia. Não por uma questão de desejo do Estado, mas por uma questão de obrigação. A Constituição dos Estados Unidos não permite calote na dívida pública, independente de qualquer motivo.

Portanto, não faz o menor sentido acreditar na possibilidade de paralisação ou calote do governo. Em algum momento os impasses serão superados, resultando na aprovação do Orçamento e do novo limite de endividamento.

Enquanto este dia não chega, a dramatização da novela vai fazer o possível para prender a sua audiência, mesmo que você tenha que ser induzido a acreditar em algo que não vai acontecer. Afinal de contas, o que mantêm a audiência elevada são as surpresas que sempre aparecem no último capítulo.

Levando em consideração os acontecimentos da semana, principalmente com relação ao comunicado do Tesouro norte-americano, as principais bolsas de valores mundiais acabaram cedendo de forma bastante acanhada.

O índice Dow Jones fechou em baixa pela segunda semana consecutiva, perdendo a linha central de bollinger. A próxima linha de suporte está localizada na região dos 14.760 pontos, onde o mercado poderá testá-la nos próximos dias.


O índice DAX (Alemanha) fechou a semana em leve baixa, mas ainda conseguindo se manter acima da importante linha de suporte na região dos 8.6k.


Na Índia a bolsa de Bombay também fechou a semana em leve baixa, mostrando reação após o teste sobre a linha central de bollinger.
  
  
Na China a bolsa de Xangai fechou a semana em leve alta, com uma oscilação praticamente inexpressiva.


No Brasil o índice Bovespa fechou a semana em baixa, mas ainda conseguindo se manter acima da importante linha de suporte na região dos 52.4k apesar das condições adversas (inclusive técnicas). Apesar do pavio inferior no candle semanal, ainda não há sinalização de fundo ou reversão na tendência de baixa de curtíssimo prazo.


Um ótimo final de semana a todos vocês!

14 comentários:

  1. Boa tarde FI!

    Primeiramente, parabenizo pelo bom comentario sobre os limites da divida dos paises. Muitos insights bons, entretanto nao sei se compartilho 100% de sua tranquilidade.
    A populacao esta envelhecendo, e os custos de manutencao de uma vida digna para um contingente cada vez maior de pessoas sera cada vez mais pesado.
    Usemos o exemplo da saude. Cada vez mais as pessoas querem viver mais (desejo digno), e a cada ano que passa fica mais caro manter uma pessoa viva. Sera que a sociedade ira ter que cobrir um custo de uma cirurgia cara para uma pessoa ter de 95 ter uma sobrevida esperada de cinco anos? Eu nao sei, a parte humana em mim diz que sim, mas a parte que comeca a entender que os recursos sao por enquanto infelizmente escassos diz que nao. O que acontece eh que talvez uma parcela significativa da populacao humana talvez fique excluida das benesses do desenvolvimento da medicina, a menos que toda sociedade via Estado banque. Se esse for o caminho, eu nao sei como pode ser sustentavel esses niveis de endividamento. O caso Brasileiro entao que temos gasto percentual do PIB com previdencia igual a alguns paises europeus, tendo menos da metade de idosos, para mim eh emblematico.

    Sobre a situacao dos EUA, acho que ha algo mais profundo, nao eh somente o Tea Party. A adocao do OBAMACARE eh um passo muito ousado para um pais que prima como direito sagrado a liberdade individual. As pessoas serao obrigadas a ter insurance, mesmo contra a vontade das mesmas, sob pena de aplicacao de multas. E se a pessoa nao gosta do sistema? A minha roommate eh o que voce poderia chamar de tipica liberal, e ela esta pensando em virar uma expat pois ela nao consegue entender ou admitir que sera obrigada a pagar por algo que ela abomina (industria farmaceutica, grandes corporacoes de saude, etc). Segundo li tambem, sera o maior aumento de impostos na historia dos EUA, serao 50 novas taxas (nao sei se estou correto ou nao), como aumento do imposto de ganho de capital sobre a venda de um segundo imovel. Portanto, ha sim, na minha visao, uma grande batalha ideologica nos EUA ocorrendo, e o OBAMACARE eh o pano de fundo.

    Desculpe a ausencia de acentos.

    Abraco!

    Soulsurfer

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    1. Concordo com o Soulsurfer, o OBAMACARE parece ser uma questão ideológica muito presente no cenário norte-americano atualmente, e certamente é uma dos pilares pra esse impasse. Pessoalmente tenho uma visão muito liberal (não encontrada em nenhum partido no Brasil) e acho que as pessoas deveriam ser livres pra escolher se querem ou não participar de um programa de saúde. Um ministro do Obama, aliás, apesar de ser democrata e a favor de impostos que cobrem sistemas assistencialistas, classificou o SUS brasileiro como completamente insustentável a médio e longo prazo. Lembrando que o SUS é um programa "integral e universal", e que um programa assim não existe em nenhum lugar do mundo até mesmo porque é insustentável financeiramente. E atualmente querem aumentar ainda mais o percentual do PIB destinado a saúde... Apesar de ser da área da saúde sou muito crítico a esse tipo de iniciativa que além de estrangular o desenvolvimento do país, é muito mal administrado pelo governo, e esse aumento de recursos NUNCA se traduz em melhora da saúde para a população.

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    2. Medico PI,
      Sempre bom ouvir a opiniao de um profissional da area, eu dou pitaco na area de saude como leigo. Entretanto, essa eh uma tematica que nos teremos que enfrentar no futuro. Em 2050, segundo os demografos, teremos feito nossa transicao demografica, e teremos um contigente de idosos muito maior. Como sera feito o atendimento dessas pessoas? Como manter uma vida digna para todos?
      Creio que sao questionamentos validos para termos enquanto sociedade.

      Eu trabalho diretamente com a area previdenciaria. Vejo diariamente as distorcoes que estamos criando. Falam em acabar com o fator previdenciario, que eh de uma ilogicidade sem tamanho. Querem criar aposentadoria especiais para garcom (nada contra essa nobre profissao), mas isso vai sair de algum lugar.

      Ou no futuro a tecnologia iria avancar tanto, que teremos uma produtividade fantastica para minorar os efeitos da escassez, ou nesse ritmo se nao pensarmos questoes vitais humanas, creio que eh possivel sim que nossos filhos e netos habitem um mundo pior do ponto de vista economicano e social do que o nosso (alias nao eh isso que ja esta acontecendo nos EUA, onde a geracao da minha idade de 30 anos esta comecando a ter uma vida pior do que a de seus pais?).

      Abraco!

      obs: CRICRI, estou passando alguns meses aqui apenas. Mas, estou lendo CNN todos os dias, e algumas outras midias, e estou conversando com pessoas comum por aqui das mais variadas matizes ideologicas, e o tema eh muito complexo e divide opinioes. Nao eh uma questao apenas do tea party.

      soulsurfer

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    3. Muito interessante as observações ressaltadas por vocês. Parabéns pelos ótimos comentários! Também acho que o Obamacare é apenas um pano de fundo, há uma grande batalha ideológica nos Estados Unidos que vem se arrastando nestes últimos anos. Só não concordo com a postura do Republicanos, estão utilizando uma reforma que já foi aprovada pelas duas casas como margem de manobra política. E parece que a popularidade dos Republicanos está sendo mais afetada do que a popularidade dos Democratas. As vezes chego a pensar alguns absurdos, como por exemplo forçar um impeachment do Obama. Se o presidente dos Estados Unidos violar a lei (dar o calote na dívida, por exemplo, passando por cima da Constituição) poderá sofrer um processo de impeachment.

      Abcs a todos e bom domingo!

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    4. Mas FI, os republicanos estão certos. Tem que paralisar mesmo. Isso é ótimo. E o povo americano nem liga pra isso apesar que a mídia libneral diz que está afetando a popularidade republicana.

      Acho que vc está mto do lado dos democratas nessa questão.

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    5. Na verdade não estou do lado de nenhum dos dois partidos rsrs.. De um lado acho que os Democratas (principalmente o presidente Obama) fraquejaram demais, fato que abriu espaço para os Republicanos fazerem este "carnaval político". Acho que os Democratas deveriam adotar uma postura muito mais firme e rigorosa. Isso já não é de hoje, é um cenário que vêm se arrastando nos últimos 3/4 anos atrás. Do outro lado acho que os Republicanos possuem até boas idéias, como estimular o corte nos gastos públicos (desde que gradual, visando o médio e longo prazo minimizando os impactos contracionistas na economia, já que não há necessidade de implementação de um programa rigoroso de curto prazo. Os Estados Unidos tem acesso fácil ao crédito barato) mas são desastrosos na forma como pretendem implementá-las.

      Abcs, bom domingo!

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  2. ola FI o que poderia causar uma rapida e repentina queda temporaria nos mercados seria essa situaçao se arrastando ate a data limite 17/10 uma repetiçao da ultima novela la pelos meados de agosto de 2011 onde houve um rebaixamento da nota de credito dos EUA . abraços

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    1. Sim, em caso de rebaixamento do rating pela Fitch ou Moody's (S&P já cortou), os mercados podem colapsar no curto prazo. Mas interessante é observar esta certa resiliência dos mercados frente ao comunicado "catastrófico" do Tesouro. A pressão vendedora ainda não está tão alta, como o de costume em correções mais graves.

      Abcs, bom domingo!

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    2. Ja por varias vezes desde setembro que fiquei com a nitida sensação que os valentes andam a fazer testes nos mercados de indices,com quedas superiores a 1% mas não tem conseguido generalizar a queda nos activos de risco.

      FI acha que faz sentido o que mencionei acima?

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    3. É bastante comum ocorrer este tipo de movimento em mercados que trabalham em tendência de alta de médio/longo prazo. São correções que não se sustentam por muito tempo ou não vão muito longe, justamente por conta da demanda compradora (significativamente maior em bull markets).

      Abcs, boa semana!

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  3. Bom dia a todos

    Bom dia FI

    Ler os seus artigos faz parte da minha rotina diária e aproveito para agradecer a sua dedicação.
    Aprecio muito seus comentários e o de hoje não foi diferente.
    Interessante também a opinião do SOULSURFER. Me parece que ele( a ) mora nos EUA e nos acrescenta uma visão bem local da situação.
    Gostaria de colaborar com a minha percepção de que as bolsas melhoraram ontem a tarde depois que o presidente da Câmara, John Boehner, começou a dar o braço a torcer e insinuou deixar um pouco de lado o Obamacare e se dedicar a um acordo mais amplo.

    Como sou muito detalhista vou me intitular CRICRI

    Abraços !



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    1. Obrigado amigo!

      Eu é que agradeço a todos vocês por participarem do blog. Os comentários são mais interessantes do que os posts rs.. Sim, também tive esta sensação de que John Boehner começou a mostrar que pode liberar para votação no Congresso do plano dos Democratas, já aprovado no Senado.

      Abcs, bom domingo!

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  4. Olá FI.
    Na sua opinião, alguma chance agora da Dilma não se reeleger?
    Abraços.

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    1. Fiquei mais aliviado com a eliminação da possibilidade de Marina Silva ser presidente. Com Eduardo Campos pegando os votos de Marina Silva pode ser que teremos segundo turno ano que vem. Mas o problema é que o marketing do PT é muito forte. Vamos ver.

      Abcs, bom domingo!

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