sexta-feira, 8 de novembro de 2013

Alta do dólar provoca nova fuga de mercados emergentes


O Departamento de Trabalho dos Estados Unidos informou nesta quinta-feira a criação de 204 mil novos postos de trabalho no mês de outubro. O número superou significativamente a expectativa do mercado, que girava em torno de 125 mil vagas.

A alta inesperada reforçou a onda de especulações em torno da possibilidade de redução no volume do programa de estímulo monetário na próxima reunião do FED (Federal Reserve - Banco Central norte-americano).

Mas a análise feita pelos principiais veículos de comunicação do mercado financeiro nacional está, mais uma vez, equivocada. Tal como ocorreu com o indicador da taxa de crescimento divulgado ontem, a análise realizada em cima dos números do mercado de trabalho norte-americano mostram, na verdade, que não há condições para redução dos estímulos monetários na próxima reunião de Comitê do Banco Central dos Estados Unidos.

A abertura, acima do esperado, de novos postos de trabalho foi influenciada pela criação de empregos temporários ou de meio período, elevando a possibilidade de revisões para baixo nos próximos indicadores. Além disso, a taxa de desemprego acabou subindo para 7,3% no mês de outubro, ante os 7,2% registrados no mês de setembro, distanciando-se da meta (em torno de 7%) do FED para iniciar a fase de redução no volume dos programas de estímulos monetários.

Os números fracos do PIB (Produto Interno Bruto) norte-americano divulgados ontem, juntamente com uma taxa de inflação significativamente baixa (1,1% no acumulado dos últimos 12 meses) e distante do centro da meta (2,0%), em meio ao cenário de elevada taxa de desemprego, movimentando-se na direção contrária à meta do FED, praticamente confirmam a expectativa (do nosso blog) de manutenção dos programas de estímulos monetários.

Outro aspecto relevante e com alto potencial de causar impacto nos números de crescimento e, consequentemente, no mercado de trabalho, está na queda do índice de confiança entre consumidores e empresários. A pesquisa preliminar da Universidade do Michigan, em parceria com a Reuters, informou nesta sexta-feira que a confiança do consumidor americano caiu para o menor nível em quase dois anos, atingindo 72 pontos. Os reflexos da queda expressiva do índice de confiança ainda serão refletidos nos indicadores de crescimento e emprego, corroborando para um cenário mais desafiador neste quarto trimestre.

No mercado de juros futuros, o movimento de retomada nos Yields (taxas) dos títulos públicos do governo norte-americano pode estar preocupando, novamente, os diretores do FED. Nesta sexta-feira, a taxa do título de 10 anos do Tesouro norte-americano subiu para 2,77%, mantendo o forte movimento de arrancada iniciado no final do mês passado.


O movimento dos Yields está entrelaçado com o deslocamento do dólar. A moeda norte-americana voltou a se valorizar, perante a uma cesta de moedas globais, no final do mês de outubro, conforme podemos observar no gráfico abaixo.


A recente valorização do dólar, somada à elevação dos Yields, tem provocado uma nova fuga de capitais, ainda modesta, das praças emergentes. Estes países são os mais afetados, pois além do risco embutido (maior) em seus respectivos títulos e ativos, o movimento regional do câmbio (desvalorização da moeda local) desfavorece a manutenção de posições estrangeiras conservadoras/tradicionais ou desprotegidas nestas praças financeiras. São fatores relevantes responsáveis por provocarem fugas de capitais em momentos de retomada da atratividade dos ativos em mercados desenvolvidos, sobrepondo-se ao risco embutido nos ativos de mercados emergentes.

Em países como o Brasil, o movimento de fuga de capitais torna-se mais agressivo por conta da baixa capacidade de gestão do governo federal (especial atenção para a recente deterioração das contas públicas), alimentando um clima ainda maior de pessimismo e desconfiança dos investidores.

Esta tese é reforçada pela diferença expressiva de desempenho das bolsas de valores de países desenvolvidos entre as bolsas de valores de países emergentes. Nos Estados Unidos, o índice S&P500 fechou em alta pela quinta semana consecutiva, colado na máxima histórica. O mesmo quadro pode ser observado no índice Dow Jones, também colado na máxima histórica.


O principal índice do mercado europeu também fechou em alta pela quinta semana consecutiva, mantendo firme sua tendência de alta de curto, médio e longo prazo.


O bom desempenho das bolsas de valores de países desenvolvidos confirma o equívoco da mídia em atrelar a queda do mercado à expectativa de redução no volume dos programas de estímulos monetários no final deste ano. Na verdade apenas as bolsas de valores de países emergentes cederam forte na semana, reagindo a movimentação do dólar.

Na Índica a bolsa de Bombay fechou a semana mostrando um candle de baixa relevante, após experimentar o rompimento da máxima histórica. Mercado deverá testar novamente a importante linha de suporte na região dos 20k, onde o seu rompimento aumentará a força da tendência de baixa de curtíssimo prazo.


A bolsa do México também caiu forte na semana, voltando a se aproximar da média móvel simples de 200 períodos semanal, importante patamar de suporte de curto e médio prazo.
  
  
Na China a bolsa de Xangai fechou a semana em baixa, voltando a retestar a linha central de bollinger. A perda desta importante linha de sustentação deixará o mercado sem patamar de suporte relevante até a região dos 1.9k.


O índice Bovespa despencou na semana, voltando a testar o principal patamar de sustentação de curto prazo (51.9k). A LTA formada na região dos 44.1k foi perdida nesta semana com um candle de força relevante. O movimento sugere que novas quedas poderão ocorrer nas próximas semanas, confirmando a interrupção da tendência de alta de curto prazo.


A tendência de alta de médio prazo ainda não foi invalida, mas seguirá ameaçada em caso de perda do suporte em 51.9k.

A todos vocês um ótimo final de semana!

13 comentários:

  1. FI,

    Esse clima de especulação é o que tem forçado os Yields do Brasil a subirem tanto? Você acredita que caso os estímulos sejam diminuídos, poderá haver algum movimento relevante na renda fixa (fuga de capitais) - ou isso já aconteceu.

    Digo isso porque noto, dia a dia, que os Yields tem subido fortemente. Não sou expertise no assunto, mas fica difícil encontrar razão para esse movimento meio "radical".

    Repare que de hoje pra ontem (sem alguma razão clara ou um fato novo) o tesouro já passou a oferecer 12,39% na NTNF 2023. Todas as NTN-Bs já estão pagando mais de 6 %.

    Tá normal isso, a tendência é isso se manter?

    Abs e bom fds,

    Miguel

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    1. Acrescentando:

      Sei que o governo do PT é a coisa mais abjeta em termos de política fiscal, mas me parece que esse movimento nos Yields só pode ser explicado realmente por um ataque especulativo. Mas não sou expertise... Abs.

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    2. Acho que não cabe a nós questionarmos. O que cabe a nós é encher a cesta de títulos, cada um com sua estratégia, e colher os benefícios que a bagunça fiscal brasileira traz pra quem poupa.

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    3. Inevitável. O movimento dos Treasuries (títulos do governo norte-americano) causam impacto nos Yields de praticamente todos os títulos do mercado soberano a nível global, em maior ou menor intensidade, a depender da situação econômico/monetária/fiscal de cada país. Como no Brasil a situação econômico/fiscal está deteriorada, o impacto acaba sendo maior.

      Pode-se observar sim um certo exagero na curva dos juros, reflexo do aumento do clima de tensão no mercado. Não vejo como uma radicalização do mercado, existe uma base de sustentação para subida dos Yields, não é uma "exuberância irracional" (como gosta de dizer o Alan Greenspan). Mas como a tensão aumentou, o movimento tende a se agravar gerando um certo excesso na curva.

      Quanto à redução dos estímulos monetários, o potencial de impacto vai depender muito da estratégia adotada pelo FED. Evidentemente o Banco Central vai querer suavizar este movimento na curva de juros futuros (Treasury 10 anos), já que uma possível disparada das taxas brecaria a recuperação da economia.

      Neste ano já tivemos fuga de capitais. O movimento começou no mês de maio, mas durou pouco (até o mês de junho). Apesar da curta duração, o impacto no mercado foi relevante. O índice Bovespa despencou para os 44.1k sem cerimônias, enquanto os Yields brasileiros dispararam, chegando a apresentar um spread de 3,26 p.p. acima da taxa Selic (durante o pico no mês de agosto). A movimentação desta semana, tanto no mercado de renda fixa, quanto no mercado de renda variável, sugere que os estrangeiros começaram a desmontar posições, influenciados pela alta do dólar. Este pode ser o início "da segunda fase" da fuga de capitais deste ano. Como o nosso mercado gira em baixa liquidez, tudo é muito dependente do fluxo de capital estrangeiro.

      Passado o clima de tensão, os títulos tendem a corrigir este excesso. Lembrando que o Banco Central do Brasil ainda não sinalizou ao mercado até quando/onde pretende subir a taxa Selic. Com as possibilidades em aberto, o mercado acaba tendo um espaço maior para precificar os juros futuros.

      Sim, desde o início de 2012 o mercado não apresentava oportunidade para abertura de posições em renda fixa (títulos do tesouro). Esta oportunidade apareceu agora em meados de 2013. É importante aproveitar. Sabe-se lá quando voltaremos a ter um novo ponto de entrada. Talvez somente em 2015/2016.

      Abcs a todos e bom sábado!

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    4. Correção:

      "chegando a apresentar um spread de 3,26 p.p. acima da taxa Selic (durante o pico no mês de agosto)"

      Correto:

      chegando a apresentar um spread de 3,76 p.p. acima da taxa Selic (durante o pico no mês de junho).

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    5. Agradeço a resposta FI. Vamos ter até quando dura isso, bom fds.

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  2. Não bastasse o clima desfavorável aos emergentes por razões explicadas no texto, acrescenta-se a isto a baixa confiabilidade dos investidores na capacidade de gestão firme e competente por parte das autoridades financeiras do nosso país.Vejam que as contas públicas estão se deteriorando e mesmo assim as nossas autoridades vêm a público dizer que está turdo bem, que é normal,que é assim mesmo, e tal...... Ora, a impressão que se tem é que eles não tem muita noção do que de fato esteja acontecendo ou simplesmente querem enganar o sr.mercado e ele não perdoa porque os investidores são preparados e bem informados,portanto não caem nessa armadilha.. E com isso batem pesado porque falta credibilidade na capacidade de gestão por parte de nossas autoridades financeiras.
    Postado por Seren

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    1. Exatamente. Repare que os números fiscais foram divulgados na quinta-feira da semana passada. Mas o clima de tensão aumentou somente na terça-feira desta semana, depois que o governo adotou aquela estratégia coordenada da política da negação, ridicularizando a situação fiscal. Isso pressionou bastante.

      Abcs, bom final de semana!

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  3. Boa noite, FI.

    Tudo o que sei é que hoje eu sentei na minha cadeira, na frente do computador, e esperei o anúncio do mercado de emprego americano. Quando a bomba explodiu, foi só esperar o Tesouro Direto fazer a parte dele. Então, fui obrigado a fazer a minha. Comprei LTN2016 a 12,11%, e diversifiquei comprando uns trocados de LTN2017 a 12,39% e NTNB principal a 6,21%. Não resisti.

    LFB.

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    1. Para retiradas no vencimento, ok, razoável.
      Mas terão perda de rentabilidade se retirarem antes do vencimento, além de perderem a futura taxa de custo de oportunidade quando o FED romper os céus, fodendo essa republiqueta de bananas

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    2. Sexta-feira foi emocionante, porque muitos no mercado já estavam esperando por isso e o Tesouro simplesmente fechou as portas na parte da manhã. Não abriu as negociações e não soltou sequer um aviso, como costuma fazer. Era uma sinalização de que poderia aparecer uma espécie de "pequeno overshooting" na curva, em decorrência do desequilíbrio entre oferta x demanda. Não deu outra rs.. Quando abriram o mercado (pouco depois do meio dia, bastante atrasado por sinal, visando reduzir o desequilíbrio) já estava com a mão no enter pra passar a sacola nas LTNs 2016. Os demais títulos ainda considero desinteressantes, por conta do prazo (pós FED).

      Não haverá perda de rentabilidade no título de curto prazo (LTN 2016), mesmo retirando antes do vencimento. Observem que mesmo atingindo a máxima histórica (em 12,11% nesta sexta-feira), a LTN 2016 está mais cara. Em junho, quando a taxa atingiu a máxima (na época) em 11,73% a LTN 2016 era negociada a R$ 754,84. Ontem, quando a taxa atingiu 12,11% a LTN 2016 era negociada a R$ 783,45. Isso ocorre por conta do fator tempo. Quanto mais o títulos se aproximam do vencimento, mais caro eles ficam. Evidentemente, o efeito do fator tempo é muito mais visível/relevante aos títulos de curto prazo.

      Abcs a todos e bom sábado!

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