quarta-feira, 27 de novembro de 2013

Banco Central emite comunicado polêmico


O Copom (Comitê de Política Monetária do Banco Central) elevou nesta quarta-feira a taxa Selic de 9,5% para 10%, confirmando as indicações da última ata de reunião do Comitê, além do Relatório de Inflação divulgado no final do mês de setembro.

A elevação de 0,5 p.p. na taxa básica de juros não surpreendeu o mercado, que esperava manutenção no ritmo de aperto monetário. Ao final da reunião o Banco Central emitiu o seguinte comunicado: “Dando prosseguimento ao processo de ajuste da taxa básica de juros, iniciado na reunião de abril de 2013, o Copom decidiu, por unanimidade, elevar a taxa Selic para 10 por cento ao ano, sem viés.”

A grande novidade pode ser observada no texto do comunicado. Nas reuniões anteriores o Banco Central sempre repetia o mesmo comunicado para sinalizar ao mercado manutenção no ritmo de aperto monetário: “Dando prosseguimento ao ajuste da taxa básica de juros, o Copom decidiu, por unanimidade, elevar a taxa Selic para 9,50% ao ano, sem viés. O Comitê avalia que essa decisão contribuirá para colocar a inflação em declínio e assegurar que essa tendência persista no próximo ano.

Mas desta vez os diretores do Banco Central optaram por retirar do comunicado o seguinte trecho: “O Comitê avalia que essa decisão contribuirá para colocar a inflação em declínio e assegurar que essa tendência persista no próximo ano.”

Por que será que o Banco Central retirou o principal trecho do seu comunicado? A resposta estará na ata a ser divulgada na próxima semana. De imediato, pode-se estimar uma alteração do cenário traçado pelo Comitê entre a reunião do mês e outubro e esta última realizada neste mês. Pode ter ocorrido uma deterioração do quadro doméstico, na visão dos diretores do Copom, responsável pela retirada do trecho que sinaliza a expectativa de queda da inflação.

Além disso, os diretores fizeram duas pequenas alterações extremamente relevantes na primeira linha do comunicado: (i) trocaram a palavra “ajuste” por “processo”, o que pode sinalizar algo mais duradouro; (ii) enfatizaram a data de início do atual ciclo de aperto monetário, o que pode reforçar a hipótese da durabilidade deste ciclo.

O comunicado é polêmico. Esperava-se uma sinalização de redução no ritmo de aperto monetário (de 0,5 p.p. para 0,25 p.p.), mas o Banco Central acabou demonstrando o contrário. O ritmo pode ser mantido ou mesmo acelerado. Vale ressaltar que esta é a impressão no primeiro momento.  O conteúdo da ata vai esclarecer melhor qual a nova mensagem que o Banco Central está transmitindo ao mercado.

No mercado de capitais, o Ibovespa fechou o pregão desta quarta-feira em alta de 0,81%, mostrando reação após testar a principal linha de suporte de curto prazo (região dos 51.3k). O movimento foi impulsionado pelo repique dos papéis da Vale e do setor financeiro. Decisões judiciais importantes e de alto potencial de impacto no caixa destas empresas foram adiadas para o ano que vem.


Apesar do repique, o índice Bovespa continua sob ameaça de perder o importante patamar de sustentação dos 51.3k. Esta ameaça seria minimizada com o rompimento da LTB dos 54.3k, culminando numa retomada da região dos 52k, conforme podemos observar no gráfico de 60 minutos logo abaixo.
  

Nos Estados Unidos, os principais índices de Wall Street tiveram mais um dia de poucas oscilações. Dow Jones subiu 0,15%. Pregão irrelevante e de baixo volume financeiro por conta do feriado de Ação de Graças que começa amanhã.


12 comentários:

  1. Brilhante e extremamente rápido a sua manifestação.
    Parabéns.
    Considere, contudo, a possibilidade da taxa selic ter que aumentar mais do que previa, pois o governo insiste em ser perdulário e não dá sinais de estancar o forte sangramento.
    Abçs

    ResponderExcluir
  2. Olá FI.
    E talvez já esteja preparando a terra, pra colher os frutos de alguns reajustes de combustíveis, com ou sem regras.
    Abs.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Pode ser. Vale ressaltar que a inflação de preços administrados está abaixo de 2% ao ano (nível mais baixo dos últimos 10 anos), enquanto a inflação de preços livres está na casa dos 8% ao ano. Vamos tirar as dúvidas na ata. O comunicado foi muito curto, certamente vai gerar polêmica nestes próximos dias.

      Abcs, bons investimentos

      Excluir
  3. Tenho a impressão que a frase "O Comitê avalia que essa decisão contribuirá para colocar a inflação em declínio e assegurar que essa tendência persista no próximo ano." foi retirada porque o BC acha que a inflação já se encontra em declínio. Desde junho, o IPCA acumulado de 12 meses vem caindo.

    O próximo copom só em 14 de janeiro de 2014. Isso significa que o BC vai poder avaliar o IPCA de nov e dez. Se continuar caindo, o comunicado bate com uma possível parada. Se voltar a sumir, o copom continua o processo.

    Será? rs

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. IPCA de curto prazo (últimos meses) tem baixa relevância no processo de tomada de decisão, a não ser em casos extraordinários de movimento abrupto. As decisões do Copom são baseadas nas projeções de inflação para os próximos 12/24 meses. Este aperto monetário de 2013, por exemplo, tem objetivo de fazer a inflação recuar para o centro da meta em 2015. Já não é mais possível contornar os fatores que irão afetar a dinâmica dos preços em 2014, pois está fora do alcance das ferramentas convencionais de política monetária.

      A última estimativa de inflação divulgada pelo Banco Central (no final do mês de setembro) foi de 5,7% em 2014 e 5,5% em 2015. Esta projeção foi calculada em cima do seguinte cenário de referência: taxa Selic inalterada durante o horizonte de previsão em 9% ao ano e a taxa de câmbio fixada em R$ 2,35, também durante todo o horizonte de previsão. É impossível que um ajuste de mais 1 p.p. (Selic de 9% para 10%) seja suficiente para que o Banco Central considere satisfatória a calibragem dos juros para que a taxa Selic retorne ao centro da meta em 2015.

      Mas concordo com a sua colocação. O Banco Central pode estar sinalizando uma mudança de objetivo. Esta frase refere-se ao item 29 da última ata do Copom, que por sinal vem sendo repetida desde que o ritmo de aperto monetário aumentou para 0,50 p.p. A retirada deste item da ata pode mostrar que as projeções de inflação para 2014 e 2015 já apontam para uma desaceleração do IPCA, comparando-se com as estimativas do último Relatório de Inflação. Mas por outro lado o Banco Central estaria fugindo do seu objetivo de carregar a inflação para o centro da meta (4,5%).

      Quanto ao próximo Copom, acho que o Banco Central fez questão de deixar as opções em aberto, pois o comunicado foi muito curto e acabou gerando uma polêmica no meu ponto de vista. Estaria mais convicto de que o ritmo de aperto monetário será reduzido para 0,25 p.p. caso o Banco Central tivesse adotado um tom mais brando no comunicado. Mas acabou adotando um tom curto e grosso rsrs...

      Abcs, bons negócios

      Excluir
  4. FI,

    Desta vez devo concordar com o Sir Income.

    Finalmente o Copom agiu com coerência em relação a política econômica da Dilma. A "meta" de inflação seguida nunca foi a de 4,5% , mas sim a de 5,5%, ou algo em torno de 5%.

    Foi assim ano passado e será neste também. Quizá nos próximos. O comunicado do Copom vem reforçar a ideia da verdadeira meta de inflação do governo. A exclusão da menção da preocupação com a inflação no próximo ano deve ser entendida neste sentido.

    Ressalto também, que por fatores políticos, caso os juros subam além de 10,75% (o mesmo do início do governo Dilma), o Dilmão será o primeiro presidente desde FHC a terminar com juros maiores do que os do início de seu mandato, bandeira esta que seria sem dúvidas utilizada pela oposição.

    Haja vista o calendário das reuniões do Copom em 2014, pode-se deslumbrar no máximo duas altas de 0,25 em janeiro e fevereiro. Altas de 0,5 devem estar descartadas. Alta, alta mesmo acredito que só após as eleições.

    A menção ao "processo de alta iniciado em abril de 2013" deu um tom de despedida.

    De qualquer forma,a Ata deve esclarecer toda a "política" do Copom de Dilmão. A ver.

    Abs,

    Miguel

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Se este for realmente o caso teremos a confirmação de que o Banco Central nunca trabalhou com uma meta de 4,5%, mesmo quando esta expectativa (4,5%) estava bem explícita nos últimos documentos (quatro últimas atas e dois últimos relatórios trimestrais de inflação). Talvez o Banco Central vendeu esta expectativa para comprar a confiança dos agentes econômicos, visando combater a indexação de preços, que também estava sendo bem destaca na ata, mostrando uma preocupação dos diretores do Comitê. Não vai pegar bem no mercado. O Banco Central fez um trabalho difícil para retomar uma parte da confiança perdida no mercado subindo os juros num momento desfavorável (baixo crescimento). Perder esta confiança no início do ano que vem pode voltar a incentivar os mecanismos de indexação e a nossa margem de manobra vai ficando cada vez mais reduzida, já que a inflação global tende a subir a partir de 2015/2016. Não podemos chegar neste período com o IPCA longe do centro da meta. Mas vamos ver quais serão as explicações do Copom na ata.

      Abcs, bons negócios

      Excluir
  5. Caro Finanças,

    Tem-se que levar em conta que o governo está buscando fechar as contas com eventos .extraordinários como o leilão de libra e o refis que a vale do rio doce está aderindo. São valores que irão entrar na conta apenas no presente ano.

    Além disso não podemos esquecer a situação indefinida do QE3 e qualquer mudança impactará o valor do dólar e imediatamente nossa inflação.

    Anônimo menos ainda investidor (depois da vale).

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Sim, é uma tentativa de tapar o sol com a peneira. A política fiscal tende a permanecer expansionista até as eleições presidenciais. Lembrando que a Vale vai pagar 5,965 bilhões de reais à vista e mais 16,360 bilhões em 179 parcelas mensais, corrigidas pela taxa básica de juros.

      Abcs, bons investimentos

      Excluir
  6. Relembrar é viver.

    Esse Copom é o mesmo que em 31/08/2011, contrariando todas as expectativas, reduziu a Selic de 12,5% para 12%.

    Naquela época, o IPCA acumulado em 12 meses estava subindo. Era consenso no mercado que a inflação não iria para a meta, como não foi.

    A meta desse Bacen é 5,5% e podemos esperar qualquer surpresa. Só se os IPCAs de nov e dez vierem péssimos é que a coisa muda. Lembrando que o governo já vai prometer um controle fiscal para 2014 e o Copom colocará na ata para pautar a decisão. Enquanto isso, sangra Petrobras e talvez tarifas de ônibus fique congelada.

    Sei que minha visão é pessimista quanto ao controle da inflação, mas o histórico do governo e do Copom não me permite ser otimista.

    Abraços,
    Sir Income

    ResponderExcluir
  7. Este ano (2011) ficou manchado na história do Banco Central. Parece que existiu um acordo informal entre a política fiscal e monetária para implementar o experimento de derrubar a taxa de juro real para 2%. O Banco Central fez a sua parte, mas o governo não (acabou aumentando os gastos ao invés de cortá-los). A política fiscal expansionista é uma das principais causadoras da inflação persistentemente elevada. Observando que o experimento falhou, além da "traição" do seu parceiro, o Banco Central tratou de corrigir sua parte.

    Com relação ao fiscal, isso o Copom já está fazendo rs... Fato que acabou gerando críticas no mercado. Desde o mês de agosto tem aparecido este trecho na ata:

    "O Copom observa que o cenário central para a inflação leva em conta a materialização das trajetórias com as quais trabalha para as variáveis fiscais. Para o Comitê, criam-se condições para que, no horizonte relevante para a política monetária, o balanço do setor público se desloque para a zona de neutralidade. O Comitê nota ainda que a geração de superavit primários compatíveis com as hipóteses de trabalho contempladas nas projeções de inflação, além de contribuir para arrefecer o descompasso entre as taxas de crescimento da demanda e da oferta, solidifica a tendência de redução da razão dívida pública sobre produto e a percepção positiva sobre o ambiente macroeconômico no médio e no longo prazo."

    Só faltou combinar com os russos rs...

    Quanto aos combustíveis, tarifas de ônibus, entre outros, há uma outra preocupação. Tem uma boca de jacaré formada entre a inflação de preços administrados e a inflação de preços reais. A primeira está em torno de 2% no acumulado dos últimos 12 meses, enquanto a segunda está girando em torno de 8%. A disparidade está alta e fatalmente será reduzida, mais cedo ou mais tarde, com uma alta dos preços administrados.

    Abcs,

    ResponderExcluir