terça-feira, 26 de novembro de 2013

Casa da mãe Joana


155,9 bilhões de reais. Alguém se lembra deste número? Esta era a meta de superávit primário (saldo positivo entre as receitas e despesas. Economia feita para o pagamento dos juros/dívida pública) a ser perseguida pelo governo este ano. No início de 2013 as lideranças políticas mostravam total convicção de que esta meta seria devidamente cumprida, diferentemente do que havia acontecido 2012.

A nossa credibilidade já não era das melhores, consequência da falta de compromisso do governo perante aos objetivos fiscais dos anos anteriores. As manobras contábeis realizadas em 2009, 2010 e 2012 também não caíram bem (obviamente) no mercado. Investidores, empresários, analistas e agências de classificação de risco mostram-se incomodados com rumo da política fiscal brasileira. Esta sequência negativa e deteriorante não poderia continuar em 2013. Não poderíamos falhar neste ano. Havia uma dívida de comprometimento do governo a ser quitada no mercado.

Havíamos pegado a estrada errada, aquela cheia de buracos e sem acostamento. Mas o governo não se preocupou em pegar um desvio para correção da rota. Pelo contrário, procurou um posto da Petrobras, encheu o tanque com gasolina (aproveitando a cortesia da empresa em vender o combustível mais barato pelo preço que pagou) e seguiu estrada adentro. E aquela dívida de comprometimento? O governo levantou o dedo do meio pro mercado e foi-se embora.

Não demorou muito para a meta de superávit primário ser reduzida de 3,1% para 2,3% do PIB (Produto Interno Bruto). Além de cortar a meta, o governo alterou o estatuto do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) para fazer mais uma manobra contábil. E mesmo assim a conta não iria fechar.

Mexe na regra, corta a meta, faz uma manobra aqui, outra acolá. Não deu certo? Corta a meta de novo. Continua não dando certo? Muda a legislação. Uma verdadeira confusão. Ninguém entende nada. Desordem generalizada. Não se pode confiar em nada. Parece que estamos na casa da mãe Joana. Mas na verdade estamos, infelizmente, tentando entender o superávit primário do governo brasileiro.

O ministro da Fazenda, Guido Mantega, disse hoje, sem a menor cerimônia, que o governo federal se compromete a fazer um superávit de 73 bilhões de reais. Este valor é menos da metade do que foi prometido por ele mesmo no início deste ano.

A nova regra predominante na casa da mãe Joana é de um superávit primário de 1,5% do PIB, mais alguns trocados que serão economizados pela boa vontade dos Estados e municípios.

Investidores, empresários e analistas são obrigados a trabalhar com informações incorretas/infundadas, que parecem mais uma demonstração de desprezo do fornecedor. Insatisfeito com este tratamento, o mercado penaliza o governo pagando mais para lhe emprestar recursos. No geral, as taxas dos títulos pré-fixados do Tesouro Nacional já subiram 4 pontos percentuais desde o mês de novembro do ano passado.


Como se não bastasse, os empresários reunidos hoje na Confederação Nacional da Indústria, ávidos por uma demonstração realista/respeitosa do governo, foram obrigados a escutar o ministro da Fazenda dizendo que estamos “bem na foto”.

A bolsa cedeu forte após as declarações de Guido Mantega repercutirem na mídia. O índice ainda foi pressionado pela queda de mais de 6% das ações da Petrobras, refletindo a indefinição sobre o reajuste nos preços dos combustíveis.

O ministro da Fazenda disse que o mecanismo para os reajustes dos combustíveis não pode ser de improviso e tampouco inflacionário. Por outro lado, a Petrobras pode vender gasolina no prejuízo para tapar buracos imprevistos e segurar a inflação.

Graça Foster, que não pediu licença para entrar na casa da mãe Joana ao dar sua grande cartada no final do mês passado, parece estar perdendo a queda de braço contra o governo federal. Mas a proposta submetida ao Conselho de Administração está amarrada ao robusto programa de investimentos da companhia. Se o governo barrar o reajuste, a empresa vai cortar seus investimentos por necessidade de sobrevivência. Os dois saem perdendo.

Com o tombo desta terça-feira o Ibovespa retornou à principal linha de suporte de curto prazo na região dos 51.3k. A perda deste patamar confirmará o término da tendência de alta de curto prazo, prolongando a tendência de baixa iniciada na região dos 56.7k.
  

Nos Estados Unidos o índice Dow Jones fechou mais um pregão de lado, mostrando o segundo candle de indecisão. Permanece com a mesma análise de ontem.


11 comentários:

  1. Olá FI.
    É muita cara de pau. A frase dele agora pouco foi: Se não tivermos algum acidente de percurso como uma seca nos EUA por exemplo, a inflação para 2014 não sofrerá risco de sair da meta.
    O comentarista do jornal parou uns segundos, ficou olhando pro nada e rapidamente se recompôs. Acho que deu uma vontade de falar umas verdades.
    Boa noite vai.
    Abs.

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    1. Piada. Difícil é ouvir umas asneiras dessas e ficar calado. Como não temos oposição, o governo aproveita e fala o que quer.

      Abcs, bons negócios

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  2. Lembrei do Bull market político do Luis Stuhlberger.

    Essa frase do Mantega é interessante: "O ministro da Fazenda disse que o mecanismo para os reajustes dos combustíveis não pode ser de improviso e tampouco inflacionário."

    O reajuste da gasolina não pode ser inflacionário, mas o reajuste do salário mínimo nem pensaram se seria ou não inflacionário. Parece piada!

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    1. Sim, uma das análises mais bem acertadas do Stuhlberger.

      Muito bem observado! Sem contar que o efeito de indexação do reajuste do salário mínimo causa mais impacto na inflação do que o próprio reajuste dos combustíveis, que em tese seguiria os preços praticados no mercado externo (podendo ser reajustado para cima ou para baixo).

      Abcs, bons investimentos

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  3. FI,

    Mesmo levando em conta a incompetência do PT, maquiagem nas contas públicas, etc. Você vê algum espaço de "reajuste" do patamar destes Yields atualmente, ou teriam eles vindo para ficar?

    Exemplo: se a Selic for a 10,50%, e fechar o ciclo por aí, como que ficam esses Yields pagando acima de 12%a.a. ?

    Abs,

    Miguel

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    1. São basicamente 3 variáveis que estão pesando na curva dos juros futuros:

      a) Política monetária
      b) Política fiscal
      c) FED

      a) e c) são confiáveis, parcialmente previsíveis e podem aliviar a curva ou o corrigir o excesso de percurso. O problema está na b),imprevisível e traiçoeira.

      Levando em consideração que o ciclo de aperto monetário seria interrompido quando a taxa Selic chegar nos 10,5%, manutenção da taxa de juros do título de 10 anos do Tesouro norte-americano abaixo do patamar psicológico de 3% (já dentro da fase de redução dos estímulos monetários), juntamente com a sinalização de melhora consistente na política fiscal do governo federal, os Yields no Brasil deveriam corrigir o excesso na curva que pode ser observado hoje. Possivelmente encontrando um piso ao redor de 11%, ou um pouco mais no pré-fixado (apresentando um prêmio pequeno em relação à média/almoço grátis de mercado - LFT). Mas essa análise tem muito "se" ou muita possibilidade para pouco chão no momento. O mercado ainda não tem uma sinalização de definição no Banco Central do Brasil e no FED.

      Abcs, bons negócios

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    2. Boa resposta FI, agradeço.

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  4. Olá!
    Se o FED elevar em 2015-2016 seus juros para 3%aa, vc teria um chute para dar para a SELIC do Brasil, já considerando um cenário de queda (mais uma ou, infelimente, mais DUAS) do rating brasileiro?
    Obrigado

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    1. Muito difícil citar um número. Não temos embasamento nem pra chutar no momento rs...

      Primeiro porque temos muito chão pela frente. A Selic pode se movimentar (pra cima ou mesmo pra baixo) novamente até 2015/2016. Segundo porque ainda não se sabe qual será a intensidade da retomada da inflação global. Quanto mais rápida, pior. Terceiro porque dependerá, também, das condições de mercado do momento. Em caso de fuga de capitais mais acentuada, o Banco Central teria que subir a taxa Selic até conseguir frear debandada de dólares (ou seja, teremos um aperto monetário sem limites/metas, a ser definido pelo mercado). A única sinalização do momento é que não há condições macro que permitam uma redução da taxa Selic neste período.

      Abcs, bons negócios

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  5. É interessante como o governo é tão burro. Burrice mesmo.

    A Petrobras é um monstro, atua praticamente no Brasil inteiro. E o Brasil precisa de investimentos. Se a empresa estivesse funcionando normalmente, haveria caixa e não haveria cortes nos investimentos.

    O governo não consegue enxergar um passo à frente nos benefícios gerados pelo fato da empresa trabalhar normalmente.

    Se ele não consegue controlar a inflação, não vai ser uma redução temporária nos combustíveis que vai reduzir. Venezuela possui gasolina a U$ 0,01 e a inflação lá já está no nível de hiperinflação. Fora o desabastecimento, violência, etc, etc, etc

    O pior cego é aquele que não quer enxergar. E, infelizmente, ele está no poder.

    []s!

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    1. Exato. O governo adota uma postura difícil de entender. É um raciocínio tão simples. Tem todas as condições para seguir o caminho correto, mas faz questão de fazer o mais complicado (errado). Impressionante.

      Abcs, bons investimentos

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