quarta-feira, 6 de novembro de 2013

Efeito inverso


O ministro da Fazenda, Guido Mantega, veio a público novamente nesta quarta-feira com novas desculpas esfarrapadas na tentativa de acalmar os ânimos do mercado frente ao cenário de deterioração das contas públicas.

Mantega admitiu que o superávit primário (saldo positivo entre as receitas e despesas. É a economia feita para o pagamento dos juros/dívida pública ajustada) poderá ficar abaixo da meta ajustada de 2,3% do PIB (Produto Interno Bruto), mas jogou a culpa nos Estados e Municípios. Segundo o ministro, provavelmente a meta do superávit primário não será cumprida porque os governadores e prefeitos estão gastando mais do que deveriam.

O ministro da Fazenda continuou utilizando a estratégia da política da negação, afirmando que “o governo tem total controle fiscal”, que o país está numa “fase de transição”, que “este ano foi um pouco mais difícil”, etc. Enfim, a mesma história que os empresários, investidores, analistas e agências de rating estão cansados de ouvir nos últimos anos.

O mercado não engoliu as desculpas esfarrapadas do ministro da Fazenda, pelo contrário, os ânimos acabaram se exaltando ainda mais, jogando as taxas de juros dos títulos públicos do governo federal para o nível mais elevado deste ano.

Não é fácil reverter o clima de desconfiança e pessimismo quando o nível de tensão aumenta nos mercados. Muitos investidores acabam agindo por impulso, influenciados pelo emocional. Neste caso, declarações controversas dos representantes políticos tendem a gerar um efeito inverso do desejado.

O mercado não esfriou mesmo com a importante declaração de Lisa Schineller, diretora de ratings soberanos para América Latina da agência de classificação de risco Standard & Poor's. Schineller afirmou que o rebaixamento do rating do Brasil não é iminente, contradizendo o boato que corria nas mesas de operações das corretoras.

Vale ressaltar que o fato do rebaixamento não ser um evento iminente para o curto prazo, não descarta a possibilidade de um futuro corte no rating brasileiro no médio prazo, já que a perspectiva da nota brasileira é negativa e o governo ainda não apresentou melhoras na política econômica e fiscal para reverter esta possibilidade.

O índice Bovespa voltou a ceder nesta quarta-feira, na contramão dos mercados externos. Um pivot de baixa foi acionado no gráfico horário com o rompimento da mínima em 53.6k, prolongando a tendência de baixa de curtíssimo prazo.


O índice conseguiu se segurar acima da média móvel simples de 200 períodos diária, mas ainda sem mostrar sinais de fundo ou reversão. A próxima linha de suporte está localizada na região dos 51.9k.

Pode-se observar que a pressão vendedora é maior nos ativos de baixa liquidez (small caps), refletindo o fluxo de pequenos fundos de value investing, além da própria movimentação do investidor pessoa física nacional, influenciados pelo clima de desconfiança e pessimismo com o quadro doméstico.

Já os ativos de alta liquidez (blue chips), seguem influenciados pelo fluxo de investidores estrangeiros, em nível recorde, refletindo a perspectiva favorável para determinadas empresas em decorrência da valorização do dólar (melhorando a competitividade) e retomada do crescimento global (aumentando a demanda por commodities).

Por este motivo há uma diferença significativa de desempenho no curto prazo entre o índice Bovespa (linha preta) e o índice Small Caps (linha verde).
  

Nos Estados Unidos o índice Dow Jones subiu 0,82%, rompendo a máxima histórica. Mercado em tendência de alta de curto, médio e longo prazo, sem resistências pela frente.


21 comentários:

  1. Creio que as empresas com maior participação no índice bovespa estejam sendo poupadas para evitar um queda maior no índice. Enquanto isto os investidores vão desovando ativos de menor liquidez. Deseovados estes ativos de menor liquidez então partirão para vendas mais pesadas naqueles com maior participação no índice. Concorda FI? Ou posso estar equivocado? Postado por Seren

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    1. Olá Seren,

      Acho difícil um número considerável de investidores pensarem desta mesma forma. As blue chips estão apresentando melhor desempenho por conta da perspectiva positiva e do fluxo de capital estrangeiro na Bovespa, hoje na máxima histórica. Se o desempenho da bolsa fosse 100% influenciado pelo capital estrangeiro, estaríamos hoje bem acima dos 74k.

      Abcs, bons negócios

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  2. Pelo andar da carruagem com as contas do país em franca deterioração e sem perspectiva de reversão nem a curto ou médio prazo, o rebaixamento do rating é certamente inevitável. Então este descompasso entre o DJ e IBOV é possivelmente uma antecipação a este fato. Portanto, há grandes possibilidades de queda da bolsa brasileira.até a confirmação da nota pelas agências de classificação de risco. E isto vai afetar a rentabilidade das empresas, principalmente aquelas que dependem de financiamentos externos onde os juros cobrados serão maiores. Então podemos esperar por mais quedas! Estão de acordo com esta previsão? Postado por Seren

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    1. A situação realmente não é das melhores. A questão principal é que não pode continuar do jeito que está. O governo tem que fazer o mínimo do seu dever de casa. É muita irresponsabilidade perder o rating por uma questão totalmente administrável. Temos bastante gordura pra queimar com gastos volumosos e desnecessários.

      Abcs,

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  3. Boa tarde FI,
    Pode comentar, com todo o seu conhecimento, um pouco sobre o risco cambial para investidores estrangeiros? Explico-me. Se um 100 milhoes de dolares entrarem com dolar a R$ 2,25 num titulo publico que remunera 11.67% e se esse dinheiro precisar sair do Brasil com um dolar a R$ 2,50, tera sido um pessimo investimento.
    Eu nao vejo muito analistas falando sobre esse risco cambial para investidores estrangeiros.
    Se o cenario a medio prazo eh desvalorizacao do real, mesmo com a bolsa descontada e a subida dos yields dos titulos publicos, nao eh verdade que essa especie de risco pode dificultar ainda mais a entrada de dolares (pensando numa perspectiva mais de medio prazo)?

    obs: desculpe novamente pela ausencia de acentos.

    Abraco!

    soulsurfer

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    1. O risco de desvalorização da moeda nacional espanta um determinado grupo de investidores, talvez mais conservadores/tradicionais. É bem mais confortável investir numa economia onde existe boa possibilidade de apreciação da moeda. Mas ainda assim estamos conseguindo atrair fluxo estrangeiro na bolsa, não tanto quando comparado aos nossos concorrentes emergentes, mas ainda assim um fluxo relevante para o nosso mercado (pequeno/baixa liquidez), hoje em máximas históricas. Estes estrangeiros que estão entrando na Bovespa provavelmente amarraram suas operações com hedge cambial. Basta comprar contratos futuros de dólar na BM&F.

      Abcs, bons investimentos

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    2. Claro, FI. Entretanto, Hedge tem custo, nao eh mesmo? Assim, se os investidores estrangeiros cobram um premio de risco para colocar dinheiro aqui, sera que esse premio nao tem que ser maior ainda tendo em vista a possibilidade de desvalorizacao cambial no medio prazo? Tenho lido Damodaran, e estou tentando aprender um pouco sobre valuation.
      Estou na metade do livro " Japanese Candlestick" do Steven Nilson. Bem interessante, mas nao sei se eu estou convencido da tecnica. Talvez tenha que estudar e praticar mais.

      Mudando de assunto, o que acha do BBAS3? Atingiu a banda superior de bollinger algumas vezes e continuou subindo. Entretanto, em R$ 30,00 talvez haja uma resistencia psicologica forte. Qual a sua opiniao?
      Estou com quase 40% de upside nesse papel desde julho.

      Abraco!

      soulsurfer

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    3. O custo do hedge é insignificante. Basicamente taxa de corretagem, além da tributação. Com relação ao prêmio de risco, sim. O investidor/operador de Wall Street precisa enxergar um potencial de valorização maior dos nossos ativos, comparado com as inúmeras opções existentes no seu mercado, para montar uma operação aqui. Na maioria dos casos os investidores olham a questão do valuation das empresas. Havendo atratividade eles entram pra ganhar no movimento do papel e não da moeda. Em alguns casos, além de montarem proteção no câmbio, os estrangeiros também se protegem no índice, vendendo Ibovespa futuro.

      Funciona. Mas não é algo que se aprende em uma semana. Muitos acabam decorando os padrões de candles, mas isso é insuficiente. É importante saber fazer a leitura dentro de um contexto mais amplo e não somente focar nas formações dos padrões, para entender a característica de movimentação dos preços dos ativos (são bastante específicas, diferem de um ativo para outro).

      BBAS3 é banco bom e barato. Creio que o preço já está embutindo o risco do governo. Mesmo com todo este upside dos últimos 4 meses o papel ainda não ficou caro. Tem espaço pra continuar subindo no médio prazo, tanto por técnica, quanto por fundamentos. No curto prazo está um pouco esticado. Uma realização de lucros maior cairia bem pro papel, já que não forma fundo ascendente no semanal desde quando valia R$ 19,00.

      Abcs, bons trades

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  4. A Dilma devia ter ouvido a The Economist.

    Agora é tarde! rs

    Abraços,
    Sir income

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    1. Bem lembrado rsrs.. Pois é, preferiu continuar dando cabeçada na parece.

      Abcs, bons negócios

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    2. Pois é Sir income, ela acha que sabe muito quando na realidade não sabe. Fazer o que?

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  5. FI,

    Não estaria havendo um excesso de terrorismo do mercado agora?

    Sei que o PT não vale nada, e a administração deles é inócua, mas me parece que o mercado de uma guinada muito radical sem haver nada de novo para isso.

    seu trecho:
    Não é fácil reverter o clima de desconfiança e pessimismo quando o nível de tensão aumenta nos mercados. Muitos investidores acabam agindo por impulso, influenciados pelo emocional. Neste caso, declarações controversas dos representantes políticos tendem a gerar um efeito inverso do desejado.

    Será que esse clima de terrorismo não tende a passar, em vez de aprofundar - como a maioria tem achado?

    Abs e bom post,

    Miguel

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    1. Repare que, no fechamento de hoje:
      NTNF 010123 01/01/2023 12,20% 12,26%

      Já tá oferecendo mais de 12% a.a., acho difícil o Bacen elevar a Selic acima disso...

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    2. Acrescentando: pelo menos até 2015/2016...

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    3. Miguel,

      Isso faz parte da dinâmica do mercado. Não é incomum observar aumento de tensão e, com isso, gerar certos exageros nos preços dos ativos. As oportunidades de compra aparecem justamente nestes momentos. As taxas estão esticadas no mercado futuro, precificando um patamar que muito provavelmente não será alcançado neste ciclo de aperto monetário.

      No momento ainda não há sinalização de que esta tensão vai acabar, mas não costuma durar tanto tempo assim. Quanto mais o mercado exagera, menor o espaço pro elástico ficar mais esticado.

      Abcs, bons negócios

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    4. "de uma guinada muito radical sem haver nada de novo para isso."

      Ah claro... a culpa é do mercado que ficou radical... pelo amor..

      Vai lá ver o estado das contas públicas e veja o desastre da política econômica e do Pibinho. Olha a atividade industrial.

      Acorda, só deu um refresco pq o BC acordou e saiu da submissão.

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  6. Eu Gosto deste Governo FI.

    Vai me dar chances pra entrar em VALE a 26 ano que vem. BBAS a 19, CMIG a 16, BBDC a 24 e assim vai.

    Nao vejo a hoar de eles ferrarem tudo

    :)

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    1. Esse bonde já passou faz uns quatro meses rsrs... Dificilmente a bolsa volta aos patamares registrados no mês de julho deste ano, levando em consideração as perspectivas atuais. A não ser que o governo consiga a proeza de provocar uma redução no rating ou apareça um evento macroeconômico negativo de alta relevância.

      Abcs, bons investimentos

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    2. É de se esperar uma caída nos Yields passada essa turbulência?

      Abs!

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    3. Sim.

      O mercado sempre corrige os exageros formados no período de tensão/turbulência. Mas se o Banco Central indicar que a taxa Selic vai parar perto dos 11%, o potencial de correção nos Yields será menor. Talvez 0,5 p.p.

      Abcs, bons negócios

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