terça-feira, 5 de novembro de 2013

Política da negação causa tensão no mercado brasileiro


Desde a última quinta-feira, quando dados do Tesouro Nacional e do Banco Central do Brasil mostraram um rombo bilionário nas contas públicas, o governo brasileiro tem recebido pesadas críticas (perfeitamente justificadas) do mercado. O pior resultado fiscal desde dezembro de 2008 praticamente eliminou a possibilidade da meta de superávit primário (saldo positivo entre as receitas e despesas. É a economia feita para o pagamento dos juros/dívida pública ajustada), já reduzida de 3,1% para 2,3% do PIB (Produto Interno Bruto), ser atingida neste ano.

Integrantes do primeiro escalão do governo resolveram contra-atacar o mercado nesta terça-feira, numa ação visivelmente coordenada, rebatendo críticas, inferiorizando a complexidade dos números e condenando as preocupações do mercado.

Esta lamentável postura, tendencialmente populista, foi o estopim para o aumento do clima de tensão no mercado financeiro nacional. O governo continua utilizando a estratégia da “política da negação”. Mantêm uma visão otimista, diante de dados pessimistas. Sustenta uma postura totalmente desencontrada com a realidade e as atitudes permanecem longe de representar as palavras cuidadosamente utilizadas nos discursos.

Ao jornal Valor Econômico, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, voltou a culpar a crise financeira mundial pelos nossos tropeços.  No Estado de São Paulo, o secretário do Tesouro Nacional, Arno Augustin, disse que a política fiscal está sob ataque especulativo da imprensa. Segundo Augustin, o resultado das contas públicas foi muito bom. Na Folha de São Paulo, a ministra da Casa Civil, Gleisi Hoffmann, negou a crise na área fiscal do governo e aproveitou para defender um regime de bandas para o superávit primário, no qual o resultado oscilaria dependendo do desempenho da economia.

O nível da política da negação claramente aumentou. O ministro da Fazenda parece perdido, fora de órbita, tropeçando na sua própria incompetência. Jogar a culpa na crise financeira internacional não convence nem o comissário de bordo que lhe serve o caviar no avião da FAB (Força Aérea Brasileira) em suas viagens de negócio. O suposto ataque especulativo da imprensa, citado pelo secretário do Tesouro, é uma tentativa de calar a razão/críticas do mercado, num momento sensível, onde a imprensa está sendo calada na Argentina. Por fim, a ideia absurda da ministra da Casa Civil seria a gota d’água para as agências de classificação de risco cortarem de vez o nosso rating, colocando em risco a sustentação do patamar considerado grau de investimento.

Esta lamentável postura do governo não só alimentou a desconfiança dos agentes econômicos com relação à política fiscal, como também aumentou as preocupações com a própria condução da política econômica. O impacto pode ser observado com mais intensidade no mercado de câmbio e da dívida soberana.

O dólar disparou para R$ 2,28, revertendo a tendência de baixa de curto prazo iniciada na região dos R$ 2,45. A moeda não atingiu o ponto de compra ideal na faixa de R$ 2,11 a R$ 2,08. O dólar conseguiu se sustentar na região dos R$ 2,17 e pegou impulso na semana passada após a divulgação do déficit fiscal.


Já no mercado da dívida soberana os Yields voltaram a encostar na máxima do ano, refletindo a deterioração da política fiscal, aumentando do clima de desconfiança no mercado. A taxa de juros da LTN 2016 atingiu os 11,64%, apresentando uma nova oportunidade de compra aos investidores que ainda não se posicionaram neste título.

As NTNBs continuam inviáveis por conta do prazo extenso demais, fora do timming do aperto monetário nos Estados Unidos (a partir de meados de 2015), que provocará uma defasagem nas taxas observadas neste nível atual. As LFTs (pós-fixado) continuam convidativas para complementar a posição. O investidor deve mesclar pré-fixados (curto prazo) de Yields elevados com pós-fixados favorecidos pelo ciclo de alta da taxa Selic.

Existe uma boa possibilidade das taxas de juros continuarem subindo no curto prazo, já que os títulos públicos brasileiros estão sofrendo pressões tanto do cenário doméstico (agregando um “plus” a mais na taxa), quanto do cenário internacional.

Os Yields dos treasuries voltaram a subir nos Estados Unidos com o retorno das especulações de que o FED (Federal Reserve - Banco Central do país) pode começar a reduzir os estímulos monetários ainda este ano. O movimento não passa de um novo capítulo da mesma novela repercutida no mercado durante terceiro trimestre deste ano, já que não há indicações da autoridade monetária de que os estímulos monetários serão reduzidos na próxima reunião de Comitê.

A taxa de juros do título público de 10 anos do tesouro norte-americano subiu para 2,69% nesta terça-feira, após formar piso na região dos 2,50%, revertendo o movimento de correção iniciado no início do mês de setembro.

Gráfico do título de 10 anos do Tesouro Americano

Ainda no cenário externo, o Banco Central chinês voltou a sinalizar preocupações com o mercado imobiliário e a dívida dos governos locais, afirmando a necessidade de controlar o excesso de crédito em circulação na economia. A postura reforça a posição da autoridade monetária em manter sua atuação no mercado com medidas de aperto monetário.

As bolsas de valores cederam pouco no cenário externo. Na França, a bolsa de Paris recuou 0,82%. Na Alemanha, a bolsa Frankfurt caiu 0,31%. A bolsa de Londres, na Inglaterra, cedeu 0,25%. Em Wall Street o índice S&P500 caiu 0,28%. Nasdaq subiu 0,08%. O índice Dow Jones recuou 0,13%, mostrando uma boa reação após encostar na faixa dos 15.5k.


A queda do índice Bovespa foi maior devido às preocupações com o cenário doméstico. Com uma queda de 1,11%, o índice voltou a se aproximar da principal linha de suporte de curto prazo (mínima em 53.6k), mesma região por onde passa a média móvel simples de 200 períodos diária.
  

O rompimento desta região voltará a criar condições para abertura de posições vendidas de curtíssimo prazo, podendo jogar o Ibovespa de volta à região de suporte dos 51.9k.

19 comentários:

  1. Visando 2015, 2016, esses Yields já estão pagando demais FI?

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    1. Em virtude da mudança projetada, a partir de 2015, para as principais taxas de juros mundiais, recomenda-se evitar posições em títulos de médio e longo prazo. Hoje os principais banqueiros centrais mundiais trabalham com a política de afrouxamento monetário agressiva, onde as taxas de juros estão próximas de zero. Mas a retomada do crescimento econômico mundial, projetada para os próximos anos, impedirá a manutenção das atuais políticas monetárias, caso contrário os Bancos Centrais criarão uma crise inflacionária sem precedentes a nível mundial. Por este motivo espera-se que a partir de 2015/2016 as taxas de juros voltem a subir, acompanhando o ritmo de crescimento da inflação global (provocada pela retomada no crescimento).

      Como os países emergentes costumam gerar mais inflação, pela natureza da própria economia em fase de desenvolvimento, o Banco Central do Brasil precisará entrar num novo ciclo de aperto monetário a partir de 2015/2016, acompanhando o movimento dos demais banqueiros centrais (jogando os Yields para um novo patamar, mais elevado). Desta forma, as oportunidades de negócio disponíveis hoje estão limitadas aos títulos de curto prazo.

      Abcs, bons negócios

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  2. se a selic está em ficará em 10%, por que deveria investir em LFT2017? É grande a possibilidade dela passa de 12% em intervalo de tempo considerável entre hoje até 03/2017?

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    1. Também tneho essa dúvida!

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    2. Para balancear a carteira, evitar uma posição num único título pré-fixado. Como não há certeza do patamar a ser atingido ao final do ciclo de aperto monetário, é interessante ter um título "pós-fixado", beneficiado pela alta dos juros. Lembrando que se a taxa Selic sobe, o rendimento da LFT também sobe. Pelas indicações do Relatório de Inflação e da ata do Copom, a taxa Selic continuará subindo no ano que vem. Isto é, o ciclo de aperto monetário não será interrompido quando a taxa atingir os 10% ao ano. Acho que dificilmente a taxa Selic irá ultrapassar o patamar de 11% ao ano, mas o Banco Central ainda não emitiu nenhuma sinalização neste sentido. Vale ressaltar que o percentual de alocação da carteira em LFT deve ser bem menor, já que o bônus do pré-fixado está bom. O quadro atual permite que para cada R$ 1 de LFT, você possa ter, pelo menos, R$ 2 de LTN 2016.

      Abcs, bons negócios a todos

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    3. Obrigado pela resposta, FI. Escrevi o questionamento em péssimo português. Devia ser o sono.

      Leonardo.

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    4. Por nada Leonardo. Tranquilo rs.. consegui entender.

      Abcs,

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  3. Essa declaração da casa civil de utilizar um sistema de bandas pro superávit é a tampa do caixão do grau de investimento... e o Mantega tentando jogar a culpa toda no gasto com seguro-desemprego... e a oposição lá, quietinha como sempre, no cantinho dela...

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    1. É por isso que estão sempre fazendo chacota do Brasil lá fora.

      Abcs, bons investimentos

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    2. FI ,

      FI , na atual conjuntura do mercado na sua opinião qual a melhor aplicação que vc recomenda nesse cenário brasileira da economia .Desde de já agradeço a sua atenção

      ASS: AT

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    3. A renda fixa está bem interessante. Compras parciais e crescentes de LTN 2016 e LFT 2017, visando o médio prazo (até 2016) e LCI pós-fixada de liquidez imediata visando curto prazo. Sempre quando a taxa subir no mercado futuro, ultrapassando o patamar da sua última compra, você utiliza recursos da LCI e remaneja para as LTNs 2016, preferencialmente dobrando o volume da sua última compra. A bolsa também está interessante, já que o mercado permanece dentro de uma tendência de alta de curto e médio prazo ainda sem sinal de reversão. Mas o risco para abrir posições agora é bem maior quando comparado aos meses anteriores.

      Abcs, bons negócios

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  4. FI, vc citou a retomada da economia mundial após 2015-2016, qual o setor que o Brasil poderá ser beneficiado (imobiliário, ações, taxa de desemprego...). Será que com a saída do capital especulativo pós copa e este acumulativo de m... feita pelo governo, o Brasil ainda terá chances de não entrar em crise como países desenvolvidos após periodo da copa

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    1. Basicamente commodities. A retomada do crescimento global já está em curso, porém num ritmo ainda moderado. Em 2014 deve começar a ganhar mais força, criando uma inflação para os próximos anos. Por isso em 2015/2016 as taxas básicas de juros tendem a subir no mundo inteiro, para combater a pressão inflacionária num momento (propício) onde o crescimento econômico estará bem mais forte.

      O calendário da copa não tem influência no fluxo de capitais. Acontece que os governos costumam aproveitar o ambiente popular positivo, em decorrência do evento copa do mundo, para gastar mais, prejudicando significativamente a parte fiscal. Portanto, uma fuga de capitais poderá ocorrer por conta da crescente deterioração das contas públicas. O impacto normalmente é mais forte na moeda e nos títulos da dívida soberana.

      O governo ainda tem margem de manobra. Bastante gordura pra queimar com gastos desnecessários. Basta trabalhar um pouco e deixar o populismo de lado. Este é o problema.

      Abcs, bons investimentos

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  5. FI, pra entrou em NTN-B no início deste ano aconselhado pela gerente do banco (BB, só pode né), vale a pena sair do fundo perdendo aproximadamente 15% do que investiu e entrar em LTN?

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    1. Se você vender NTNB e comprar LTN no mesmo dia estará fazendo uma troca de 6 por meia dúzia. Na NTNB você comprou caro e vai vender barato. Na LTN você vai comprar barato pra vender caro (até o dia do vencimento em 31/12/2015). De qualquer forma não vale a pena manter posições em fundos de inflação e a sua gerente lhe recomendou o produto no pior momento, portanto foi um erro que precisa ser admitido. É melhor você mesmo montar a sua carteira com LFTs e LTN 2016.

      Faça compras crescentes e parciais de LTN 2016. Sempre quando a taxa do título pré-fixado subir, ultrapassando o patamar da sua última compra, você realiza uma nova compra LTN, preferencialmente dobrando o volume da sua última compra. Na LFT você pode montar toda a posição desejada de uma só vez.

      Abcs, bons investimentos

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    2. RI, desculpa minha ignorância, mas sendo o NTN-B atrelado ao IPCA + juros, caso eu não precise resgatar esse valor investido agora ou nos próximos anos, não seria melhor "sentar e esperar" o vencimento do título?

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    3. Não. Pois neste caso você estará investindo pra receber um retorno abaixo da média do mercado, o que é um péssimo negócio na minha opinião. Hoje não é necessário esforço algum pra rentabilizar o capital dentro da média do mercado, basta aplicar nos títulos pós-fixados (CDB, LCI, LFTs...). Portanto, não vejo razões para o investidor aceitar um rendimento abaixo da média. Mas esta é a forma como enxergo o mercado financeiro. A maioria dos "especialistas" recomendam fazer o que você disse, "sentar e esperar", mesmo estando ciente do baixo retorno do investimento. Na verdade essa é a opção psicológica mais confortável, já que é muito difícil assumir um erro, principalmente quando você paga por ele. Mas isso faz parte do processo de evolução do investidor dentro do mercado financeiro. O processo (assumir o erro) é doloroso, mas essencial. E por incrível que pareça é o que vai permitir alavancar seus ganhos futuros.

      Abcs,

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  6. FI, não compreendi qdo vc diz que as NTNBs continuam inviáveis por conta do prazo.. Hoje a NTNb 2050 está pagando 6,03% + IPCA. Na minha opinião esta seria uma ótima taxa.
    No meu caso que tenho 27 anos, penso em comprar estes titulos para aposentadoria.
    Ou vc acha que a partir de 2015 estes titulos poderão pagar acima dos 6% de hoje? é isso?

    obrigado e parabens pelo site e informações, acompanho há tempos suas analises.
    abs

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    1. Exato, hoje a taxa está razoável. Mas vai ficar defasada. Se me permite, vou copiar e colar um comentário que deixei ontem no blog:

      Não vejo vantagem alguma por conta do prazo que é muito longo. Impossível projetar qualquer tipo de cenário. No curto prazo (até 2015/2016) já temos elementos suficientes capazes de levantar este Yield para acima dos 6,5% ou mais, quando a desalavancagem do sistema começar a ocorrer a partir da elevação da taxa básica de juros nos Estados Unidos. Imagina o que não poderá acontecer nos próximos 10 anos? rsrs.. Certamente o clima de tensão irá aumentar em alguns momentos, provocando uma disparada dos Yields, e, consequentemente, uma nova oportunidade de compra. Mas ao segurar um bônus neste nível por tanto tempo você corre sérios riscos de ter uma rentabilidade abaixo da média do mercado, além de deixar de aproveitar os momentos de disparada das taxas. A cereja do bolo da renda fixa aparece quando o mercado entra em pânico. Em 2008, por exemplo, as NTNBs chegaram a pagar um bônus de 10% ao ano.

      Poderia ser interessante pagar 6% numa NTNB pra vencer em 2015 ou 2016, coincidindo com o timming do FED, mas estes títulos não estão mais disponíveis para compra. A NTNB mais curta disponível no momento vence em 2019. Paga um Yield de 5,88%. Ainda não vejo vantagem. Até 2016 pode ser uma boa, mas a partir deste ano o Yield poderá ficar defasado com um novo ciclo de alta dos juros (a nível global). Se o Yield da NTNB 2019 se aproximar dos 6,5%, pode valer o risco de ganhar do mercado até 2015/2016 e perder moderadamente pro mercado a partir 2016.

      Você pode investir neste mercado com objetivo de longo prazo, mas não há necessidade de comprar títulos longos com Yields desinteressantes. Basta comprar títulos curtos, com Yields interessantes, e fazer novas compras após o vencimento, sempre pegando as taxas nos momentos de tensão do mercado. Assim você bate o CDI. Se as taxas dispararem demais, como ocorreu em 2008, pode ser interessante pegar um título de prazo maior (o que seria hoje uma NTNB 2024 ou NTNF 2023). Lembrando que o mercado é quem definirá o timming de compra e não o seu fluxo de caixa. Se você tiver recursos líquidos em momentos desinteressantes (títulos caros/Yields baixos: mercado em clima de otimismo), será melhor utilizar produtos de giro curto (como LCI pós-fixada ou mesmo a poupança) para rentabilizar o capital até o momento em que o mercado lhe apresentar uma boa oportunidade de entrada.

      Obrigado. Qualquer dúvida volte a me questionar.

      Abcs, bons negócios

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