quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

Banco Central prepara o terreno para interrupção do ciclo de aperto monetário


A ata do Copom (Comitê de Política Monetária), divulgada hoje, esclareceu o polêmico comunicado do Banco Central emitido após o término da reunião de Comitê realizada na semana passada.

Inicialmente, os diretores de Comitê observaram certa melhora no ambiente externo. Na reunião do mês de outubro o Banco Central destacou os avanços, porém localizados, nas economias maduras. Na reunião do mês de novembro o Banco Central retirou a palavra “localizados” para dar ênfase à melhora generalizada do ambiente externo. Com relação às economias emergentes, a avaliação permanece pessimista, abaixo das expectativas, com destaque para o retorno de focos de tensão e de volatilidade nos mercados de moeda.

A preocupação com os efeitos inflacionários provocados pela depreciação do real, bem como a estreita margem de ociosidade do mercado de trabalho, continua exigindo uma resposta da política monetária, traduzindo-se numa nova elevação da taxa básica de juros.

A avaliação da política fiscal permanece contrária aos indicadores econômicos. O Banco Central continua trabalhando com a hipótese de que o balanço do setor público se desloque para a zona de neutralidade no horizonte relevante para a política monetária. Como as projeções de inflação são traçadas levando em consideração a geração de superávits primários estabelecidos na Lei de Diretrizes Orçamentárias, constituiu-se, portanto, a formação da primeira variável responsável pela frustração futura do Banco Central com o (novo) descumprimento da meta de 4,5% estabelecida pelo CMN (Conselho Monetário Nacional).

O Banco Central antecipou esta frustração ao reconhecer pela primeira vez, na ata da reunião do mês de novembro, a impossibilidade de garantir a trajetória descendente do índice de preços no próximo ano. O trecho a seguir foi eliminado da ata com este objetivo: “O Comitê avalia que essa decisão contribuirá para colocar a inflação em declínio e assegurar que essa tendência persista no próximo ano”.

Os diretores do Comitê também cortaram da ata o trecho que salientava que “a demanda doméstica será impactada pelos efeitos remanescentes das ações de política implementadas recentemente”, ao mesmo tempo em que foi mantida a parte que ressalta a relativa robustez da demanda interna, estabelecendo mais uma indicação de aceitação da trajetória dos índices de preço acima do centro da meta.

Por outro lado o Banco Central anexou na ata um novo trecho que destaca a defasagem da política monetária (“o Comitê pondera que a transmissão dos efeitos das ações de política monetária para a inflação ocorre com defasagens”), para justificar-se do descumprimento da meta em 2014 (coincidentemente ano de eleições presidenciais), abrindo espaço para um abrandamento da política monetária no curto prazo, focando esforços, possivelmente, para o cumprimento da meta somente em 2015.

Para não sinalizar uma interrupção imediata do ciclo de aperto monetário, o Banco Central manteve o compromisso de que, “com a devida tempestividade, o mesmo (elevada variação dos índices de preço) seja revertido”. A parte do texto em que o Copom “entende ser apropriada a continuidade do ritmo de ajuste das condições monetárias ora em curso” foi mantida para justificar a alta de 0,5 p.p. na reunião da semana passada e não para sinalizar uma nova alta de 0,5 p.p. na próxima reunião do Copom. Para isso, o Banco Central reduziu o destaque desta parte do comunicado. Anteriormente destinava-se um parágrafo exclusivo na ata para frisar a continuidade do ritmo de ajuste. Este parágrafo foi, agora, eliminado e a frase remanejada para o parágrafo anterior, no qual delibera os motivos responsáveis pelo deslocamento da taxa Selic a 10% ao ano.

Neste contexto, pode-se observar que os diretores do Comitê estão preparando o terreno para interrupção do ciclo de aperto monetário nas reuniões dos dias 25 e 26 de fevereiro ou 1 e 2 de abril. A hipótese de interrupção do ciclo de alta dos juros na reunião do mês de janeiro está descartada, já que o Banco Central optou por não retirar completamente os trechos destacados no parágrafo anterior.

A manutenção desta opção pode ser explicada pelo fato de que novas fontes de tensão e volatilidade poderão atingir os mercados de câmbio, sobretudo o brasileiro (que apresenta um quadro doméstico mais deteriorado e, portanto, mais vulnerável), quando o FED (Federal Reserve – Banco Central dos Estados Unidos) sinalizar o início da fase de redução no volume dos programas de estímulos monetários.

Por conta desta complexidade e incerteza do ambiente externo, não está totalmente descartada a possibilidade de uma nova elevação de 0,5 p.p. na taxa Selic, com objetivo extra de suavizar o impacto do câmbio na inflação. Segundo cálculos do próprio Banco Central, uma desvalorização de 20% do real frente ao dólar é capaz de provocar aumento de 1 ponto percentual no IPCA. O impacto é significativo e, portanto, precisa ser mitigado a fim de se eliminar o risco de extrapolar o teto da meta (6,5%) em 2014.

O deslocamento da taxa de câmbio para R$ 2,50 no início do ano que vem (aproximadamente 10% acima do cenário de referência traçado com o câmbio a R$ 2,30 na reunião da semana passada) criaria o gatilho para o Banco Central manter o ritmo de alta de 0,5 p.p. na taxa Selic ao invés de subir 0,25 p.p.

Esta possibilidade é relativamente remota, já que existem mecanismos alternativos (entre eles a queima de reservas cambiais – mais eficiente) que podem ser utilizados com objetivo de suavizar o movimento de depreciação de curto prazo da taxa de câmbio.

Desse modo, a redução do ritmo de aperto monetário (com novas altas de 0,25 p.p.), torna-se, no momento, o movimento de maior probabilidade para a taxa Selic. O Banco Central vai correr o risco de manter a inflação acima do centro da meta, interrompendo o ciclo de aperto monetário quando a taxa Selic chegar em 10,5% ou 10,75%, sustentando a atual complexidade do quadro doméstico para os próximos anos.

O índice Bovespa subiu 1,14% nesta quinta-feira, impulsionado, principalmente, pelas ações das siderúrgicas. Há uma expectativa por reajustes de 7% a 10% nos preços de contratos que costumam ser definidos ao final de cada ano junto às montadoras de veículos.

O movimento de alívio no índice Bovespa não invalida a tendência principal de baixa iniciada na região dos 56.7k. Existe espaço para manutenção do movimento de repique, embora a proximidade com a região dos 51.3k (pullback) tenha provocado um novo aparecimento de força vendedora no final do pregão.


Nos Estados Unidos o índice Dow Jones fechou o pregão em baixa de 0,43%, devolvendo boa parte da recuperação observada no final da tarde de ontem. A sinalização de fundo na região dos 15.8k está ameaçada. A perda deste patamar poderá agravar o movimento corretivo de curtíssimo prazo.
  

O mercado reagiu à segunda leitura do PIB (Produto Interno Bruto) do terceiro trimestre dos Estados Unidos (alta de 3,6%, ante os 2,8% por cento divulgados anteriormente), alimentando as especulações quanto à redução no volume dos programas de estímulos monetários.

13 comentários:

  1. Olá.
    Acredito que o BCB deixou no ar e com dúvidas sobre a selic.
    Mas uma coisa eu acredito: se ocorrer stop da selic, este será temporário.
    Motivo: FED.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Sim, por conta da possibilidade de aumento da volatilidade no mercado de câmbio. Nem mesmo o Banco Central conseguiu estimar ainda os impactos remanescentes da redução no volume do programa de estímulos monetários do FED.

      Abcs, bons negócios

      Excluir
  2. Qualquer coisa menor que 13%aa é insuficiente para trazer a inflação ao centro oficial da meta, mantidas as condições de gasto público fora de controle que este governo pratica.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Não sei se chegaria a tanto, mas as últimas projeções feitas pelo próprio Banco Central apontaram para uma inflação longe do centro da meta em 2014 e 2015. O próximo Relatório Trimestral de Inflação será divulgado no final deste mês, onde as novas projeções serão divulgadas ao mercado. Realmente a polícia fiscal expansionista é uma das principais fontes causadoras de inflação. E como se não bastasse, elimina parte dos efeitos provocados pelo ciclo de aperto monetário. Na prática, o Banco Central está tentando retirar dinheiro de circulação do mercado e o governo, do outro lado, faz o contrário, jorrando mais dinheiro na economia.

      Abcs, bons investimentos

      Excluir
    2. Corroborando com nossa tese, hoje a união autorizou mais 24 bilhões pro bndes...

      Excluir
  3. Verdade, gastos que serão potencializados com eleições,copa do mundo,etc,etc.. Como se fazia na Roma Antiga...
    Dê pão e circo e governe!!!

    ResponderExcluir
  4. E agora FI, comprar ou não essas LTNs a 12,5%?

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Compras parciais e crescentes apenas na LTN 2016 nos momentos de disparada dos Yields. Utilizar LFT 2017 (compras em menor volume) para complementar a formação da carteira de títulos públicos, visando diversificação (pré-fixado com pós-fixado). É recomendável, no momento atual, manter no mínimo uma posição dobrada no pré-fixado em relação ao pós-fixado. Ou seja, a cada R$ 1,00 de pós-fixado você deve ter no mínimo R$ 2,00 de pré-fixado.

      Os demais papéis estão desinteressantes para compra por conta da mudança projetada (2015/2016) para as principais taxas de juros mundiais. A retomada do crescimento econômico mundial, projetada para os próximos anos, impedirá a manutenção das atuais políticas monetárias extremamente expansionistas dos países desenvolvidos, caso contrário os Bancos Centrais criarão uma crise inflacionária sem precedentes a nível mundial. Por este motivo espera-se que a partir de 2015/2016 as taxas de juros voltem a subir, acompanhando o ritmo de crescimento da inflação global (provocada pela retomada no crescimento).

      Consequentemente as taxas de juros voltarão a subir no Brasil, já que os países emergentes costumam gerar mais inflação, pela natureza da própria economia em fase de desenvolvimento. Desta forma, as oportunidades de negócio disponíveis hoje estão limitadas aos títulos de curto prazo, pois os Yields observados hoje ficarão defasados em 2015/2016 com um novo ciclo de alta da taxa Selic.

      Abcs, bons negócios

      Excluir
  5. FI,

    Politicagem pura, vão deixar o aperto pra depois das eleições. A conta virá para os eleitores do PT.

    Abs,

    Miguel

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. O problema é que esta conta será socializada e pode chegar salgada em 2015.

      Abcs, bons investimentos

      Excluir
  6. Grande WT

    Por um lado não acredito que o BC esteja errado nessa posição, pois a tendência é que os aumentos anteriores da SELIC comecem agora a fazer efeito macroeconômico mais maduro, considerando um delay de 9 meses para a realidade brasileira. Prosseguir com uma política restritiva poderia deslocar negativamente a curva de investimentos e a politicagem do PT já deixou pouca margem para erro nesse sentido.

    Contudo, querendo ou não, o Bacen terá que balizar futuramente a sua política econômica em ajustar o cupom brasileiro a um spread que compense a imagem negativa de nossa situação fiscal diante dos investidores estrangeiros e compensar o aumento dos treasuries.

    Um abraço

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Num cenário de política fiscal contracionista a política monetária seria mais eficiente, pois tanto o governo quanto o Banco Central estariam atuando na mesma direção. Mas o que está acontecendo é o governo pisando no acelerador enquanto o Banco Central pisa no freio. Não vamos chegar a lugar algum assim. O PIB continuará baixo e a inflação permanecerá acima do centro da meta. Parte dos efeitos contracionistas da política de aperto monetário serão eliminados pela política fiscal expansionista. Tomar o remédio amargo já carrega um sacrifício (crescimento), mas nestas condições parte deste sacrifício ficará em vão. Também não é possível observar adoção de medidas concretas por parte do governo com objetivo de voltar a criar um ambiente de negócios favorável ao ressurgimento da oferta. A incapacidade de crescimento da oferta continuará mantendo o desequilíbrio da balança (demanda x oferta). Portanto, a política fiscal expansionista e péssimas condições do ambiente de negócios continuarão pressionando a inflação mesmo com a taxa Selic aos 10,5%. Perde-se a eficácia da política monetária.

      Abcs, bons negócios

      Excluir