terça-feira, 21 de janeiro de 2014

A migração do crescimento


O relatório de Perspectiva Econômica Global divulgado nesta terça-feira pelo FMI (Fundo Monetário Internacional) reforçou a tese de que os países desenvolvidos serão os principais responsáveis pela retomada da economia global.

A redução dos impactos provocados pelas políticas de austeridade fiscal na Europa, superação das incertezas políticas/econômicas nos Estados Unidos, aumento da confiança no Reino Unido e os estímulos fiscais no Japão estão provocando uma nova migração do crescimento, desta vez saindo dos países emergentes em direção aos mercados desenvolvidos.

O FMI espera que a economia global apresente um crescimento de 3,7% neste ano, superior a projeção do Banco Mundial de 3,2%. Para 2015, a taxa de crescimento deve atingir os 3,9%, também superior à expectativa do Banco Mundial (3,5%).

Embora o FMI apresente um otimismo maior em suas projeções, as duas instituições concordam na questão da migração do crescimento. As expectativas de avanço da atividade nos países emergentes são menores por conta da normalização das condições monetárias nos países desenvolvidos, que por sua vez provocará um novo aumento das taxas de juros globais.

Países emergentes são bem mais sensíveis às oscilações das taxas de juros internacionais. Com o retorno da atratividade dos ativos em países desenvolvidos, economias emergentes mais dependentes de financiamento externo (como o Brasil, por exemplo) serão mais afetadas pela menor entrada de dólares no sistema. O impacto será ainda maior aos países que abandonaram a importante agenda de reformas estruturais, relaxaram demais a política fiscal e aumentaram o endividamento (lamentavelmente como o Brasil, por exemplo).

A projeção de crescimento do FMI para o Brasil, este ano, caiu de 2,5% para 2,3%, praticamente no mesmo nível da projeção apontada pelo último relatório do Banco Mundial (2,4%). O potencial de crescimento para o PIB brasileiro é bastante limitado, amparado basicamente pelo aumento da demanda por commodities, devido aos sinais de insustentabilidade do modelo econômico.

Na ausência de drivers positivos, o índice Bovespa voltou a ceder nesta terça-feira, pelo quarto pregão consecutivo, mantendo a tendência de baixa de curto e curtíssimo prazo, aproximando-se da principal linha de apoio de curto e médio prazo na região dos 48k.


No mercado de renda fixa as taxas de juros voltaram a se aproximar das máximas registradas no final do ano passado, reagindo à maior deterioração do quadro inflacionário interno, divulgação de uma ata mais azeda do Copom (Comitê de Política Monetária) na próxima quinta-feira e perspectiva de novas reduções nos volumes dos programas de estímulos monetários do FED (Federal Reserve – Banco Central dos Estados Unidos).

A nova composição do Comitê do Banco Central norte-americano ficará menos dovish (economistas mais tolerantes com a inflação e defensores de juros mais baixos) e mais hawkish (economistas menos intolerantes com a inflação e defensores de juros mais altos) que o de costume. Embora a presidente Janet Yellen tenha uma postura notoriamente mais dovish, a rotação anual de presidentes regionais entre os membros votantes (5 com poder de voto entre os 12 chefes regionais) incluirá dois diretores reconhecidamente hawkish pelo mercado: Charles Plosser, do FED de Filadélfia e Richard Fisher, do FED de Dallas.

Apesar da troca de cadeiras entre membros votantes ainda ser insuficiente para provocar uma mudança no curso da política monetária norte-americana, pois os diretores do conselho (7 no total) tendem a votar junto com o presidente, as discussões no FED ficarão mais acaloradas daqui pra frente com o aumento da alta mais hawkish com poder de voto.

Ainda no mercado local os papéis da Vale e siderúrgicas estão sendo afetados pela forte correção de curto prazo do preço do minério de ferro. A commoditie caiu para 123 dólares a tonelada no mercado à vista chinês, atingindo a menor cotação desde 8 de julho de 2013.

A queda do preço é um reflexo da significativa desaceleração do ritmo de compras das siderúrgicas chinesas. Isso normalmente ocorre quando o preço do minério de ferro sobe demais no curto prazo. Os players chineses “comprometem-se” em reduzir suas compras de minério de ferro no mercado, justamente para provocar uma queda no preço da commoditie. Entretanto, o preço da placa de aço também recuou na China, para 564 dólares a tonelada métrica, atingindo o menor patamar dos últimos 16 meses.

O gigante asiático fechou 2013 com um PIB de 7,7%. Os dados divulgados no último domingo mostraram enfraquecimento do avanço do investimento e da produção industrial nos últimos meses do ano passado. Esta desaceleração pode se aprofundar neste ano já que o governo está comprometido em reorganizar seu modelo de crescimento, ainda muito dependente das altas taxas de investimento.

O primeiro ministro do país, Li Keqiang, disse hoje estar comprometido em “manter a economia estável e desenvolvê-la de modo mais saudável”. Isso mostra que não há intenção do governo em promover uma aceleração do ritmo de crescimento, acima de 7,7% (ou 7,5%, meta do governo), mas sim um compromisso de reestruturação do modelo de crescimento, mais focado no consumo doméstico.

Nos Estados Unidos o índice Dow Jones fechou o pregão em baixa de 0,27%, mantendo-se dentro de uma zona de congestão de curtíssimo prazo entre a região dos 16.6k e 16.2k, sem apresentar novidades.


O mercado internacional não reagiu à injeção de dinheiro do Banco Popular (Banco Central da China), na tentativa de acalmar os ânimos no mercado interbancário local. O Banco Popular injetou mais de 255 bilhões de iuanes (cerca de 42 bilhões de dólares) no sistema financeiro na última segunda-feira e avisou que poderá injetar mais dinheiro nos próximos dias para evitar uma disparada das taxas referenciais no mercado interbancário.

A Shibor Rate de 1 semana (taxa do mercado interbancário chinês, considerado o melhor indicador das condições de liquidez no sistema) recuou mais de um ponto percentual num único dia, caindo de 6,59% para 5,40%.

  
A demanda por dinheiro aumentou com força nestes últimos dias por conta da aproximação do feriado do Ano Novo Lunar chinês, principal data comemorativa no País.

14 comentários:

  1. FI,

    Levando em conta o início da alta dos juros dos EUA (2015/2016) há alguma perspectiva de duração deste ciclo de alta do FED? Ou pelo menos em termos históricos atingiria alguma máxima?

    É de se esperar um aumento mais forte da taxa de juros americanas devido a grandeza dos estímulos dispendidos na economia americana?

    Agradeço.

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    1. Não. A Federal Funs Rate voltará a subir após um longo período de juros zero na economia. Nunca antes na histórica dos Estados Unidos a taxa básica de juros ficou entre zero e 0,25% ao ano por tanto tempo. É um evento inédito e por isso não há como projetar patamar de juros nos Estados Unidos. A única certeza é que os juros irão subir e provocarão uma mudança significativa de longo prazo em todos os segmentos de mercado, especialmente da dívida soberana, que já entrou em bull market (taxas futuras).

      A retomada dos juros e o retorno da inflação mundial serão as duas principais ferramentas de redução da liquidez do sistema financeiro. E, mais uma vez, nunca antes na história ocorreu uma desalavancagem no sistema semelhante ao que irá acontecer nos próximos anos. Por este motivo o novo ciclo de aperto monetário nos Estados Unidos será diferente dos demais. Vamos entrar no terreno que ninguém pisou. Nem os diretores do FED fazem a menor ideia do que irá acontecer ou qual será o novo patamar da Federal Funds Rate. Creio que os aumentos serão pequenos e graduais no início, na tentativa de suavizar os choques nos mercados. Mas tudo dependerá de como estará o crescimento econômico e a inflação. Quanto mais forte, maior será a calibragem na taxa.

      Abcs, bons investimentos

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  2. Fi boa noite,
    A pergunta não está relacionada diretamente ao post mas de qualquer forma gostaria de sua opinião. O que você acha da emissão de debentures da Vale, isentas de IR, que vão pagar de IPCA + 6.4 a 7.3% (+ou-) a depender do book e da série. Você não acha que por serem da Vale e isentas de IR o risco/retorno é muito bom, considerando levar as debentures até o vencimento.
    Obrigado.

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    1. Boa noite,

      Não há problema. O espaço é livre para comentarmos sobre qualquer assunto relacionado ao mercado financeiro, não necessariamente ao post do dia.

      Não vejo atratividade no produto por conta do prazo. Receber IPCA + 7% pode ser bom negócio hoje, mas não será amanhã. A normalização das condições monetárias nos Estados Unidos está promovendo um bull market nas taxas de juros futuros a nível global. Quando o aperto monetário começar, de fato, nos países desenvolvidos, as taxas de juros no mundo inteiro estarão bem mais elevadas, com o mercado precificando o novo patamar de juros. Hoje a Treasury de 10 anos paga 2,85%. Inevitavelmente este Yield vai subir. O simples fato de o Bernanke ter avisado em junho do ano passado que poderá reduzir os estímulos monetários provocou uma alta de 1 p.p. na Treasury de 10 anos. Daqui há dois/três anos o Yield deste título pode estar em 4% ou 5%. Inevitavelmente as taxas subirão aqui no Brasil para manter atratividade dos ativos e, assim, evitar uma fuga de capitais.

      Por este motivo não é vantajoso comprar nenhum produto no mercado financeiro com fixação de taxa para o médio e longo prazo. Como o vencimento das debêntures ocorrerão em sete, dez, doze e quinze anos, não há vantagem em adquirir o título e ficar com um rendimento defasado (abaixo da média de mercado) a partir de 2015/2016.

      Abcs, bons negócios

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  3. FI

    1) Em seu post "Começa a nova temporada de negociações nos Estados Unidos", de 04/12/2013, o Investidor Troll fez notar um OCO no gráfico do Ibovespa, com ombro em cerca de 52K e topo da cabeça ao redor de 57K.
    Embora tal figura fôsse encarada com cautela então, parece que o Ibovespa vai mesmo até a projeção (47K), né?!
    Pode-se ter pruridos com respeito à capacidade preditiva das figuras da AT, mas que foi interessante, foi...
    Pontos para a figura OCO?!

    2) Esse menor preço para os produtos siderúrgicos poderá sobrepujar-se aos fatores estruturais que indicam o setor siderúrgico como um dos que ainda se salvam no quadro brasileiro?

    Abcs

    Ramses

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    1. Olá Ramses,

      Respondendo as suas perguntas:

      1) Ponto 0 para qualquer figura da AT rsrs... Há muitos anos estudei todas estas figuras, testei em vários ativos/índices nacionais e internacionais. Nenhuma deu resultado satisfatório. Os testes mostraram que na maioria dos casos estas figuras falham. E pior, hoje são tantas as figuras inventadas pela indústria da análise técnica, que é bastante comum enxergar duas figuras (uma bull e outra bear) numa mesma periodicidade gráfica.

      2) Sim, pode. Ainda há excesso de oferta no mercado (nível global). Mas a tendência é que o aumento da demanda provoque uma diminuição no desequilíbrio da balança.

      Abcs, bons negócios

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  4. Prezado FI

    considerando o ipca anual em 5,95% (dados da sua homepage) e os juros reais de 7% e um risco baixo de inadimplência (dificilmente a vale irá falir no periodo e não honrar o compromisso). Considero, para os níveis atuais um bom investimento.

    E mesmo com a inflação disparando o investimento está protegido pelo ipca.

    Tirando a liquidez (eu acho que só pode resgatar no fim da série) não vejo atualmente nenhum produto financeiro garantindo esse retorno.

    Parabéns pelo blog! Saudações Tricolores!

    Flusão Sinistro

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    1. No quadro atual sim, poderia ser considerado uma boa opção de investimento. Acontece que o investimento precisa ser avaliado levando em consideração as transformações significativas do cenário para os próximos sete, dez, doze e quinze anos (vencimento das debêntures). E nunca esteve tão fácil avaliar o cenário para os próximos anos, já que o FED tem antecipado ao mercado os seus objetivos de médio prazo. A elevação das taxas de juros não é uma possibilidade, mas sim uma certeza. Portanto, as taxas fixadas hoje ficarão bem defasadas quando o aperto monetário começar nos países desenvolvidos. Com 7% + IPCA você pode bater o mercado até os próximos 2 anos, no máximo. Mas vai perder nos próximos 3, 4, 5, 6, 7..., amargurando uma rentabilidade abaixo da média de mercado.

      Obrigado! Tricolor nada, aqui é galo doido rsrs...

      Abcs!

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  5. Boa tarde FI,
    você poderia opinar sobre CSNA3, GGBR4, VALE5 e KBLN4? Vale a pena comprar agora?
    No setor da educação, ainda tem algo que não esteja supervalorizado?

    Obrigado,
    Hoffnung

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    1. As perspectivas são boas para CSNA3, VALE5 e GGBR4 com a retomada do crescimento global. Mas no curto prazo a CSNA3 está sofrendo. Se o negócio da Namisa for desfeito, a CSN terá que pagar uma multa bilionária. Já a VALE5 apresentará um rombo no balanço do 4TRI/13, já que ajudou a financiar o superávit primário do governo com o pagamento da primeira parcela do Refis. Com relação a KLBN4, as perspectivas também são boas, mas não gosto da gestão da empresa.

      No setor de educação pode sim ter alguma coisa não muito cara, as perspectivas são boas, mas confesso que não fiz a garimpagem, por ser um trabalho mais demorado e não estar no meu foco no momento.

      Abcs, bons negócios

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    2. Obrigado FI!

      A VALE5 está sendo bastante castigada mas se continuar caindo vou comprar mais.

      Quando comparo os indicadores fundamentalistas, CSNA3 é consideravelmente mais atrativa do que a GGBR4. Nunca tive CSNA3 na carteira, mas não seria mais arriscado comprar GGBR4? Já tive um certo lucro no ano passado na GGBR4, me desfiz e agora estou pensando em montar uma posição nessa ação novamente mas acabei fazendo essa comparação com CSNA3.

      Você acredita que no segmento da KLBN4 há outra empresa com melhores perspectivas?

      Obrigado,
      Hoffnung

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  6. Olá FI.
    Meio fora de hora e assunto, mas acompanho pelas notícias que a Da. Dilma deve se pronunciar amanhã em Davos, a respeito da tão cobrada confiança do investidor estrangeiro. Especialistas que são em retórica, tanto Dilma como Lula, etc, não parece que ela deve pintar um quadro bastante otimista com promessas, pedidos de confiança e implorar aos investidores que migrem investimentos ao Brasil? Não sei se eu é que estou sendo otimista de mais, mas acho que não poderia ser diferente seu discurso e acho também que o mercado de fora cai facilzinho nessa nova arapuca, só que deve ser o último suspiro.
    Abraços.

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    1. Isso o governo vem fazendo há muitos anos rsrs... Quando não é feito pela presidente, é feito pelos ministros. Já foram até na sede do Goldman Sachs mas levaram um baita não como resposta. Estes discursos não enganam os investidores. Tudo é avaliado na ponta do lápis.

      Abcs, bons investimentos

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