sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

A ridicularizada política monetária


O IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) divulgou nesta sexta-feira mais um número extremamente decepcionante para economia brasileira. O IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo, indicador oficial de inflação) de dezembro subiu 0,92%, marcando a maior alta dos últimos 10 anos.

Com a forte alta registrada no mês de dezembro, a inflação no Brasil fechou 2013 aos 5,91%, completamente distante da meta de 4,5% a ser perseguida pelo Banco Central. Este número, por si só, causa um sério desconforto, mas o contexto, infelizmente, é ainda pior.

Pelo quarto ano consecutivo a inflação brasileira fica próxima ou acima do patamar de 6%. O IPCA saiu de 5,91% em 2010, bateu nos 6,50% em 2011, recuou levemente para 5,84% em 2012 e voltou a subir em 2013, atingindo novamente os 5,91%. Pode-se observar claramente que a inflação brasileira atingiu, lamentavelmente, um perigoso ponto de equilíbrio na casa dos 6%.

Não há desculpa para justificar a permanência da pressão sobre os preços por tanto tempo. Não são fatores cíclicos, mas sim estruturais. O nível elevado da inflação brasileira, quase três vezes acima da média global, é um reflexo das estratégias equivocadas de política econômica do atual governo, excesso de flexibilização na política fiscal e desmantelamento da autoridade monetária.

Este último é desolador. O Banco Central fez papel de ridículo perante a sociedade. Os diretores da autoridade monetária repetiram inúmeras vezes no ano passado que a inflação de 2013 ficaria abaixo do índice registrado em 2012. O discurso era bastante firme e passava a imagem de que o Banco Central estava convicto na eficácia de sua política monetária. Soava como certa garantia, “não se preocupem, pois a inflação será menor este ano”.

E não foi. Mais uma vez a autoridade monetária estava errada. A imagem do Banco Central sofreu um novo arranhão. Perde-se credibilidade e aumenta-se a desconfiança.

Por meio de nota, o presidente do Banco Central, Alexandre Tombini, admitiu que a inflação no ano passado mostrou resistência "ligeiramente acima daquela que se antecipava", em grande parte por conta da depreciação cambial, custos originados no mercado de trabalho, além das recentes pressões no setor de transportes.

Os motivos ressaltados no comunicado do Banco Central são mais do que conhecidos. Estão todos muito bem detalhados nas últimas atas de reuniões do Copom (Comitê de Política Monetária), bem como nos Relatórios Trimestrais de Inflação e, portanto, não podem ser encarados como uma justificativa pela ineficácia da política monetária.

Por estarem presentes nas atas de reuniões do Copom, os potenciais de impacto inflacionário causado por estas variáveis foram amplamente discutidos e analisados nas reuniões de Comitê e, ao que parece, foram, infelizmente, negligenciados ou subestimados.

Tombini escolheu três culpados no seu comunicado, mas o que se observa é o retorno do perigoso ciclo de indexação (reajuste de preços baseado no índice oficial de inflação passada, realimentando a inflação futura). O índice de difusão do IPCA subiu novamente e atingiu os 69,3%, mostrando, mais uma vez, que a alta dos preços está disseminada e atinge todos os setores da economia.

O ano que já começou ruim com o aumento da desconfiança do mercado em relação à política fiscal ganha uma nova pressão negativa oriunda da ridicularizada política monetária. Grandes bancos de investimentos espalhados pelo mundo afora divulgaram uma bateria de relatórios nas últimas semanas com uma visão nada positiva do mercado brasileiro. A surpresa negativa do IPCA de dezembro poderá provocar uma nova onda de relatórios pessimistas, aumentando o clima de ceticismo na praça brasileira.

O índice Bovespa fechou a semana em baixa de 2,52%, parcialmente suavizada pelo repique de alta desta sexta-feira. O importante patamar psicológico de sustentação dos 50k foi rompido na última quinta-feira, acionando um novo pivot de baixa, alimentando a tendência de queda de curto prazo iniciada na região dos 56.7k.


O próximo ponto de sustentação está localizado no suporte dos 48k, mesma região por onde passa a importante LTA de 2002. Atualmente esta é principal zona de sustentação do índice Bovespa. A perda desta região tem potencial para jogar o Ibovespa abaixo da mínima registrada no ano passado (44k).

Nos Estados Unidos o índice Dow Jones fechou a semana em leve baixa, sinalizando indecisão (e possível reversão) na região da máxima histórica.


Desejo a todos vocês um ótimo final de semana e bons negócios em 2014! 

Observação: Estou retomando as atividades do blog num ritmo reduzido de postagens durante este período de férias do mercado financeiro, priorizando as análises nos dias relevantes ou no surgimento de novidades técnicas ou macroeconômicas.

19 comentários:

  1. Welcome Back FI! Ótimo 2014!

    Realmente o BC perdeu totalmente a credibilidade.
    "5,91%" é a inflação oficial, na prática, percebo que os os preços subiram bem mais que isso em 2013. A cesta básica por exemplo, subiu em média 10% em 2013.
    Tudo isso sem contar com a ingerência política na Petrobras, segurando o aumento dos combustíveis.

    abraço

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    1. Obrigado!

      Recuperar esta credibilidade vai ser uma tarefa bastante complicada. Primeiro por conta da comunicação que deixou muito a desejar. Segundo por conta da grave demonstração de descompromisso da autoridade monetária com a estabilidade dos preços.

      Abcs, boa semana!

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  2. Esta conjuntura de informações favorecem uma subida mais forte da selic do que os 0,25% prometidos? Aliás, isto compromete a estratégia de aperto monetério do BC, obrigando-o a subir SELIC para algo acima de 11%?

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    1. Na teoria sim. Mesmo que o IPCA de dezembro fosse 0. O próprio Relatório de Inflação aponta que o Banco Central está longe de atingir a meta utilizando esta calibragem na taxa básica de juros.

      Mas não temos indicações de que o Banco Central vai continuar subindo a taxa Selic até chegar nos 11% ou mais. Com a mudança de conteúdo na última ata do Copom, pode-se esperar que o atual ciclo de aperto monetário será interrompido quando a taxa Selic chegar nos 10,5% ou 10,75%. Por outro lado o Banco Central precisa dar uma resposta ao mercado, para evitar uma piora ainda maior nas expectativas dos agentes econômicos. Vamos ver se esta resposta será dada nesta semana, na reunião do Copom.

      Abcs, boa semana

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  3. Bem vindo de volta, tava fazendo falta brother FI.

    O que eu achei mais hilário foi alguns jornais da TV de grande poder falando que "inflação fica dentro da tolerância da meta" de forma comemorativa. Puta merda! Os caras são muito petistas que dá nojo ou são ignorantes econômicos. Pior, eles alimentam isso aí que você falou da inflação passada como referência indexadora pois eles admitem que 6% é nosso centro de inflação.

    Inflação alta fica complicadíssimo planejar algo, tudo caro, tudo aumenta, SP é mais cara que Nova Iorque, Tokyo, que porra é essa?

    O BC demorou a agir e agora tá fudido, toda a firmeza e recobrada do discurso firme foi pro espaço.

    É uma pena que a DIlma não seja nem um pouco arranhada. ENquanto tivermos pleno emprego, ela vai continuar com alta popularidade sendo recuperada. Enquanto a classe C e do nordeste e das periferias do sudeste continuarem sob pleno emprego nada tira o PT do governo. Não que eu esteja torcendo por merdas no mercado de trabalho ou mais tragédias econômicas, mas a verdade é que o país INTEIRO está refém da classe D e C nordestina e periférica de RJ, MG e SP. O PT não irá mover uma palha pra mudar o país pra favorecer o empresariado e a classe média C+ e B-+

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    1. Perfeito.
      E mais. Acrescento que, além de agradá-las, o PT incentiva a rixa entre esse pessoal e o das classes C+ e B-+. Sendo assim, muito mal podemos emitir opinião.

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    2. Sao jornais que estão comprados / comprometidos com a "causa" petista. Tá difícil achar isenção.

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    3. "Pobretao de vida ruim"Nem tudo são mâs noticias pelo menos para os bolsistas,Não sei quando mas algures este ano,a menos que o Ibov cumpra a LTA 2002,Espero que não ter a oportunidade de comprar acçoes brasileiras,numa maioria pelo que observo estaveis financeiramente em comparação a de outros mercados que estão atoladas em dividas,e melhor ainda, do indice principal ao preço da casca de banana...

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    4. Nem vale muito a pena discutir este modelo adotado pelo governo, pois nunca deu certo em lugar nenhum do mundo. Insistir neste erro é uma demonstração de estupidez e pior, quando chegarmos no "The End" (ainda vai demorar bastante, diga-se de passagem), a classe menos favorecida será a mais prejudicada. Para promover ascensão social de maneira sustentada, basta oferecer condições para melhoria da educação e do ambiente de negócios. Mas isso o governo não faz.

      Com relação à inflação, estamos numa situação bastante desconfortável. Ao frisar que a meta está sendo “cumprida” pela margem de tolerância (e não pelo deslocamento do índice de preços para a meta de inflação), podemos observar claramente uma tentativa de distorção dos conceitos básicos da política de metas de inflação. Como o governo tem repetido isso frequentemente, a mídia (não especializada em mercado financeiro) acaba replicando a informação, como se estivesse correta. Uma mentira repetida mil vezes torna-se verdade.

      Mais lamentável é que o próprio Banco Central comprou este discurso do governo, vide trecho do comunicado emitido na última sexta-feira, frisando a margem de tolerância e não o centro da meta.

      Nenhum país sério do mundo utiliza a margem de tolerância para avaliar se houve êxito ou fracasso na condução da política monetária. A margem de tolerância existe para cobrir eventuais tropeços de curto prazo e não para ser utilizada como objetivo a ser perseguido. O que está acontecendo no Brasil atualmente é que o objetivo a ser perseguido está no topo da margem de tolerância e não na meta de inflação.

      Isso é extremamente negativo, pois afeta a essência de um regime de metas de inflação. A sociedade entende que não há comprometimento público com a meta a ser perseguida, perde-se transparência e credibilidade na moeda, as expectativas são frustradas e revistas negativamente, os agentes econômicos passam a reajustar os preços com base no histórico passado e os índices de inflação engrenam numa trajetória ascendente bastante perigosa. É uma bola de neve e a situação só tende a piorar. Independente do que o Banco Central fizer este ano, a inflação corre sérios riscos de superar o teto da margem de tolerância (6,5%) e, assim, estabelecer um novo ponto de equilíbrio.

      Abcs a todos e boa semana

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    5. Viajo frequentemente a trabalho para a Venezuela desde 2010. Infelizmente O PT está reproduzindo o modelo de sustentação no poder adotado pelo chavismo. O controle dos meios de comunicação é parte desse modelo. O incentivo as rixas entre a classe C e D e a classe média é outro. As loucuras economicas que estamos vendo hoje no Brasil são suaves ainda, pois o PT tem um conforto para ganhar estas eleições. As armas de "destruição em massa" virão somente quando este estiver ameaçado (2018?). O pior é que esse cenário para mim seria terreno novo, pois tenho 40 anos e na decada de 80 não tinha nenhum patrimonio. Comecei a trabalhar já no plano real, com uma crença que trabalharia forte, acumularia um patrimonio e viveria bem na velhice. Acho que conseguiria proteger o patrimonio no medio prazo, 3 a 4 anos, mas se as coisas degringolarem é preciso ser mais rigoroso ( " se o barco for afundar, não afunde com ele, seja o primeiro a perceber e pule fora") .

      FI, sei que está de férias, mas em algum momento neste ano, se puder escrever sobre estratégias e opções para quem gostaria de diminuir a exposição ao mercado brasileiro e aumentar exposição exterior, para longo prazo , agradeço.

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    6. Muito bom o seu relato Galo da Comarca.

      Com relação às estratégias e opções para o investidor local aplicar no exterior, infelizmente vou ficar devendo, pois o nosso mercado é muito limitado. São pouquíssimas as opções disponíveis hoje, basicamente através de meia dúzia de fundos de investimentos multimercado com foco no exterior. Nikkei, DAX, FTSE, S&P, BSE entre tantos outros estavam (e alguns ainda estão) ótimos para long, mas não tínhamos (e ainda não temos) nenhuma opção para investir nestes índices daqui do Brasil. Long no Nikkei então nem se fala. Era a coisa mais fácil e banal do mundo. O BoJ implementou um programa extremamente agressivo de compras de ativos (inclusive em bolsa) para tirar a economia da deflação. Não havia outra possibilidade para o Nikkei a não ser disparar, reagindo as doses cavalares de compras de ativos do Banco Central. Mesmo identificando esta incrível oportunidade, não poderíamos aproveitar ou fazer nada com as opções disponíveis hoje em nosso mercado. A única solução seria procurar um banco no Japão, se informar do trâmite, enviar a remessa e fazer a compra por lá mesmo. Mas se tivéssemos um ETF do Nikkei por exemplo aqui no Brasil (como de costume em outros mercados), bastaria entrar no Home Broker e comprar como se fosse uma ação. Nada mais.

      O único ponto positivo é que o nosso leque de opções tende a aumentar com a evolução do mercado de capitais brasileiro. Este mês haverá lançamento de um fundo multimercado com objetivo de replicar o rendimento nominal do S&P500, sem a necessidade de armar hedge no câmbio. Mas ainda estamos muito distante (talvez décadas) de chegar perto do leque de produtos e opções disponíveis nas praças norte-americana, europeia e asiática. Para ir além das limitações do nosso mercado a única opção é fazer todo o processo manualmente, começando pela abertura de conta num banco no exterior.

      Abcs, boa semana

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  4. Olá, FI. Senti falta de seus textos.
    Agora a pergunta que não quer calar:
    Será que este resultado do IPCA de dezembro influenciará no aumento da SELIC semana que vem? Sua opinião para a taxa de juros em 2014 ainda permanece nos 10,75?

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    1. Também já estava sentindo falta de postar rs... O blog é um hobbie.

      Dificilmente o Banco Central toma decisão de política monetária levando em consideração eventos de curtíssimo prazo. O problema é que esta nova arrancada da inflação não é um evento de curtíssimo prazo. É um reflexo de falhas estruturais que vem se acumulando nos últimos 4 anos, pelo menos. O Banco Central está devendo uma postura correta ao mercado há bastante tempo (anos), mas não há sinalização de que esta postura aparecerá no curto prazo. Como o IPCA de dezembro atingiu um ponto psicológico (maior alta dos últimos 10 anos), o Banco Central precisa dar uma resposta ao mercado, com objetivo de evitar uma piora ainda maior nas expectativas dos agentes econômicos. Esta resposta pode ser um novo aumento de 0,5 p.p.,o que na prática não altera muita coisa.

      Ainda não estudei o cenário para fechamento da taxa Selic em 2014. Está em avaliação e depende das atitudes a serem tomadas pelo Banco Central nos primeiros mestes deste ano. Por este motivo não está descartada a possibilidade de novos aumentos, provavelmente no quarto trimestre deste ano.

      Abcs, boa semana

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  5. FI,

    Ao que tudo indica virá muita confusão ainda este ano. Fico imaginando quando o país for rebaixado.

    Vamos ver qual a decisão do Banco Central nesta semana sobre a Selic.

    É bom revê-lo novamente com seus posts,

    Miguel

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  6. Que bom que voltou FI! Seus posts são excelentes. Estava, fazendo falta.

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  7. FI, que relevância você daria para a LTA (primária?) que parte de 2002? Estou observando ela há algum tempo. O rompimento significaria, ou melhor, indicaria um "sujou de vez" atual e/ou futuro na bolsa e na economia brasileira em geral? Abçs

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    1. A princípio dedico baixa relevância às linhas de tendência. Depende das condições de rompimento também. Tento conciliar o movimento técnico com a situação/perspectivas macroeconômicas. O ponto no gráfico é mais importante, pois a LTA passa na mesma região da linha de suporte dos 48k (principal linha de apoio do índice, mais forte até do que os 44k).

      Abcs, bons trades

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