terça-feira, 28 de janeiro de 2014

Banco Central da Turquia cede à pressão dos mercados


Seis dias após a realização da última reunião de Comitê, o Banco Central da Turquia voltou a se reunir hoje, nesta terça-feira, em caráter emergencial para tentar frear o pânico no mercado local.

A decisão de política monetária do último dia 22 de janeiro gerou um aumento significativo do clima de pessimismo e provocou uma fuga de capitais da praça turca. O Banco Central optou por não subir sua taxa básica de juros em meio às pressões políticas. A medida impopular (aperto monetário) afetaria ainda mais a imagem do governo, já bastante deteriorada devido aos casos de corrupção.

O imobilismo do Banco Central (manutenção da política monetária) frente à disparada da inflação local causou uma disparada do dólar contra a lira turca, forçando sua própria intervenção no mercado de câmbio pela primeira vez nos últimos dois anos. Não gerou resultado. O movimento de depreciação da moeda turca continuou nos dias seguintes, forçando a marcação de uma nova reunião de Comitê, em caráter emergencial (fora do calendário).

Muito provavelmente a taxa básica de juros será elevada nesta terça-feira, na tentativa desesperadora de se frear o fluxo de saída de capitais através do aumento de atratividade dos ativos turcos. Por conta do caráter emergencial, o aumento da taxa básica de juros deverá ser superior ao que se podia esperar na reunião da semana passada, quando a autoridade monetária acabou não fazendo nada.

Numa única tacada o Banco Central da Turquia poderá subir a taxa básica de juros em dois pontos percentuais ou mais. Aumentos emergenciais são normalmente abruptos devido à necessidade de se causar impacto relevante no mercado, restaurando parte da confiança dos investidores/operadores.

O Banco Central da Turquia cedeu à pressão dos mercados. Outros banqueiros centrais de países emergentes podem acabar fazendo o mesmo caso permaneçam relutantes em subirem seus respectivos prêmios de risco (leia-se taxa de juros) frente aos desafios internos e/ou normalização das condições monetárias nos países desenvolvidos.

Observando os acontecimentos recentes no mercado turco, os diretores do Comitê de Política Monetária do Banco Central da Índia decidiram elevar nesta terça-feira a taxa básica de juros para 8% ao ano. O aperto monetário não era esperado pelo mercado. Além de combater a inflação local, também elevada, a medida visa minimizar o risco de fuga de capitais da praça indiana. Em seu comunicado, a autoridade monetária destacou o risco potencial de contágio no mercado financeiro.

Alexandre Tombini, presidente do Banco Central do Brasil, disse em entrevista ao Financial Times que “a elevação das taxas de juros em mercados desenvolvidos atuaria como um aspirador de pó sugando o dinheiro dos mercados emergentes e exigindo taxas de juros domésticas mais altas”.

Esta foi a primeira vez que o presidente do Banco Central do Brasil comenta sobre o que chamo de bull market das taxa sde juros globais. As declarações de Tombini reforçaram a mensagem (também nova) presente na última ata de reunião do Copom, onde o Banco Central considera elevado o risco à estabilidade financeira global provocado pelos “derivados de mudanças na inclinação da curva de juros em importantes economias maduras”.

Isso mostra que, ao menos por enquanto, não existe meta nem teto para a taxa Selic, daqui pra frente, bastante dependente das condições macroeconômicas.

No mercado de capitais o índice Bovespa abriu o pregão desta terça-feira em forte alta, influenciado por uma possível resposta positiva na Turquia, fruto da marcação da reunião extraordinária do Banco Central. Mas como o clima ainda está pesado, o movimento não encontrou força de sustentação durante o pregão e foi barrado pelo ponto de pivot (caracterizando pullback) na região dos 48.4k.


Nos Estados Unidos o índice Dow Jones trabalha um movimento de repique natural após se aproximar da importante linha de suporte localizada na região dos 15.7k. O mercado segue atento à reunião de Comitê do FED (Banco Central norte-americano), que termina na quarta-feira.


30 comentários:

  1. Finalmente começaram a cogitar acerca do bater de asas do FED.
    Já haviam alguns pouquíssimos analistas alertando sobre esse ponto completamente colocado debaixo dos panos pela maioria do mercado.
    Acredito que o aumento será maior do que o mercado cogita.
    Esses dias li uma info do FMI em que eles largaram uma primeira opinião sobre quanto os juros americanos chegariam: apostaram em algo na faixa dos 3%.
    Acho até viável, apesar de eu entender que possa chegar nos 5%.
    Vamos ver...

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    1. Levando em consideração a programação do FED para o aperto monetário, ainda é cedo. Mas acontece que os juros futuros não estão precificando ainda este evento de alto potencial de impacto. Houve "apenas" uma inversão de longo prazo na trajetória da curva. A parte mais consistente, ou de inclinação mais agressiva, está para acontecer e ainda é muito cedo para projetar algo. O que está acontecendo hoje nos mercados financeiros atualmente é apenas um "ensaio" numa escala bastante reduzida.

      Abcs, bons negócios

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  2. FI,

    Interessante notar as similaridades econômicas e políticas que a Turquia vem tendo com o Brasil. Lamento que aqui a indignação esteja mais contra o sistema, e não o governo em si.

    Os emergentes devem enfrentar grandes dificuldades, até mesmo porque a questão da China também está meio indefinida nos próximos anos.

    Bom post,

    Miguel

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    1. Exatamente Miguel. Na verdade é o governo que consegue administrar e conduzir muito bem esta indignação. Basta observar como os discursos são cuidadosamente preparados. A diferença entre o governo turco e o brasileiro está no marketing.

      Abcs, bons investimentos

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  3. Caro FI: O BC terá que aumentar a Selic na minha humilde opinião.São muitos os fatores q impedem a Selic ficar menor q 12%. Me corrija se eu estiver errado mas a tal conta salgada q vc se refere em pots anteriores chegou ( e bota sal nisso infelismente).

    Rodrigo

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    1. Infelizmente sim Rodrigo. Mesmo com uma eventual interrupção deste ciclo no final do primeiro trimestre deste ano, novas altas na taxa Selic não estão descartadas e deverão acontecer até 2016.

      Abcs, bons negócios

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  4. será que o BCB aprende com o bc turco?

    4,25 de aumento numa tacada só

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    1. Que pancada. A decisão surpreendeu, mesmo esperando um movimento abrupto.

      Mas na verdade é o Banco Central turco que não aprendeu com o Banco Central brasileiro. Neste ponto saímos na frente. O Brasil foi uma das primeiras praças a iniciar o ciclo de aperto monetário nesta nova fase de retomada do crescimento global. Neste caso a transição está sendo mais suave para nós, com o câmbio se depreciando numa velocidade aceitável e os juros futuros subindo gradativamente, minimizando o efeito da volatilidade no mercado financeiro. Já os turcos foram relutantes em buscar atratividade para os seus ativos (subir os juros), devido à pressão/oposição do primeiro-ministro Tayyip Erdogan, que visivelmente interferia no Banco Central. O resultado é que o processo de transição está sendo muito mais doloroso agora para a Turquia. Quando o Banco Central observou que não estava adiantando queimar suas reservas, convocou acertadamente a reunião de emergência. Quando chega neste ponto é uma batalha perdida. Medida de último caso e que custa muito caro.

      Abcs, bons negócios

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  5. Cara, se continuar explodindo os yields de título... vou calcular aqui se eu não chego no milhão num título de 2025 usando todo meu dinheiro..

    Olha olha..

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    1. Comprando hoje, digamos uns 150k, uma NTNF 2025, sem pagar corretagem, irá resgatar líquidos algo na faixa de R$ 336.338,03.
      Com as taxas atuais, nesse tipo de título, precisaria ter algo na orla dos 450k para atingir 1kk em 2025.
      Ou seja, é bem insuficiente e precisará aportar por bastante tempo ainda.

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    2. Ainda é muito cedo para almejar qualquer posicionamento em títulos longos. É recomendável manter cautela. No momento não há títulos disponíveis interessantes ofertados pelo Tesouro. Estes prêmios de risco negociados hoje pelo mercado ficarão defasados em 2015/2016, quando o FED começar o ciclo de aperto monetário.

      Abcs, bons investimentos

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  6. Olá FI, veio 4.5% de uma vez só. Caramba, e você achando que iria vir algo como 2%.
    Estou longe de ser especialista, mas essa notícia, junto com a reunião do FED de amanhã, não coloca mais pressão no Brasil? Ora, se os emergentes começarem a subir suas taxas de juros assim, vai ficar difícil segurar os dólares aqui com essa Selic.
    Qual a sua opinião?

    Soulsurfer

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    1. Olá Soullsurfer. Sim, esperava um movimento abrupto na taxa, mas não nesta magnitude. Coloca pressão, mas o Banco Central do Brasil está conseguindo frear a volatilidade aqui. A nossa transição está sendo mais suave, já que o nosso ciclo de aperto monetário começou no mês de abril do ano passado. A situação aqui ainda é administrável e são pequenas as probabilidades de movimentos abruptos na taxa Selic no curto prazo. O Banco Central ainda não queimou suas reservas cambiais.

      Abcs, bons negócios

      PS: A alta na taxa básica de juros na Turquia foi de 4,25% p.p. Saiu de 7,75% para 12%. O BC também subiu a taxa para as operações compromissadas de uma semana (de 4,5% para 10%).

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  7. Agora que a LTN2016 saiu do mercado você recomenda que todos deixem de comprar títulos até o processo de ajuste chegar com força?

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    1. Exato. É melhor ficar de braços cruzados (manter ainda boa parte do capital em LCIs, CDBs, DIs pós-fixados de liquidez diária) do que fazer um mau negócio. Não vale a pena fixar taxa de juros hoje com vencimento pós-aperto monetário nas economias desenvolvidas, pois os prêmios de risco subirão. A trajetória de longo prazo da curva de juros futuros ainda está na fase inicial.

      Abcs, bons investimentos

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    2. FI, sou um investidor com pouco recursos. Dei uma pesquisada e vi que esses investimentos que vc recomendou(cdb, di pós e LCI ) são mais difíceis pro pequeno investidor por exigirem valores maiores pra aplicação.
      Vc não recomendou a LFT por causa da liquidez semanal? Pro pequeno investidor como eu (faço aportes de R$500 a R$3000), ainda pode ser uma alternativa?

      Desde já, agradeço!

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    3. Boa tarde erick,

      Você pode comprar LFT para compor sua carteira de renda fixa, fazendo o balanceamento entre posições pré-fixadas e posições em pós-fixadas. Mas não vejo necessidade de utilizar a LFT como produto intermediário, ou seja, como destino inicial do seu capital antes de alocar o recurso num momento mais favorável (disparada das taxas futuras), pois você vai pagar taxa de custódia da BM&F, além da taxa de administração da instituição financeira pra ter um rendimento 100% Selic. Você consegue 100% Selic no mercado sem pagar taxa alguma comprando CDBs e LCIs, basta procurar nos bancos pequenos e médios. O Sofisa, por exemplo, tem um CDB que remunera 100% do CDI com liquidez diária, independente do valor aplicado.

      Abcs, bons negócios

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    4. Vc está dizendo que liquidez semanal seria ruim para pegar taxas tops num pequeno intervalo temporal, num futuro vindouro?
      Bom, sei lá, acho a liquidez semanal suficiente para vender no TD, receber na corretora e trocar a carteira por um título top, e acredito que a janela de oportunidade durará bem mais do que uma semana.
      Ok, tem instituição que cobra taxa. Mas tem as que não cobram.
      Ok, tem os 0,3% anuais do tesouro, mas tenho certos receios em deixar a grana diretamente com bancos pequenos, médios.
      Dessa forma estou tentado a deixar tudo em LFTs.
      Enfim, não estou visualizando grandes diferenças nessa questão de liquidez diária para semanal. Se fosse em bolsa de valores, aí tudo bem.
      O que achas?

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    5. A liquidez não é um problema, mas sim as taxas. Mesmo optando por uma instituição que não cobre taxa de administração, você vai ter que pagar a tarifa de DOC/TED para transferir os recursos a cada compra realizada no Tesouro Direto, já que estas instituições de taxa zero não oferecem produtos intermediários para aplicação dos recursos enquanto não surgem as oportunidades de compra. Quanto ao receio aos bancos pequenos/médios, isso é bastante comum. Mas para isso existe o FGC.

      Abcs, bons investimentos

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  8. FI,

    O BC do Brasil ainda não queimou suas reservas cambiais de 362 bi USD, mas o Brasil já se tornou devedor internacional, de acordo com o FT.

    Em swap cambiais já estão comprometidas 21% das reservas até 31.Dez.2013; Até Jun/14 seguindo somente o cronograma já estão 27% comprometidos, apesar de crível uma atuação mais potente do BC em momentos de volatilidade que elevaria este percentual

    Existe ainda as dívidas externas de 312 bi USD.

    E no total, hoje, já o Brasil é devedor em dólares de uns 20 bi USD... Ref.: http://goo.gl/cT4xIU

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    1. Sim, bem observado. Mas este raciocínio só vale quando se pressupõe que estas operações de swap serão liquidadas no curto prazo. O dinheiro, por enquanto, ainda não saiu do caixa. Para evitar o desembolso, o Banco Central pode rolar os swaps, por exemplo. O mesmo vale para a dívida.

      Abcs, bons negócios

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  9. FI,

    Peguei isso esse trecho de um texto que fala sobre o FED

    " Efeito aspirador. Uma das consequências da reversão da política monetária expansionista do Fed é a forte escassez de moeda estrangeira nos países emergentes. Em seu depoimento na London School of Economics na última segunda-feira, o presidente do Banco Central do Brasil, Alexandre Tombini, advertiu para o “efeito aspirador” sobre os países emergentes. É novo fator que exige aumento dos juros básicos também no Brasil. "

    Sinceramente só vejo no horizonte sobre a economia brasileira uma desgraça

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    1. Sim, o Tombini reforçou este novo trecho da ata do Copom:

      "O Copom considera que, desde sua última reunião, os riscos para a estabilidade financeira global permaneceram elevados, em particular, os derivados de mudanças na inclinação da curva de juros em importantes economias maduras".

      É um reconhecimento importante. As taxas de juros no mundo inteiro tendem a subir gradativamente no médio e longo prazo. É o que chamei de bull market nas taxas de juros no último post do blog no ano passado.

      Abcs, bons negócios

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  10. FI, sabes qual é a data final para aquisição das LTN com vencimento em 01/2017? Abraços.

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    1. Boa tarde Andrei. Costuma acontecer quando o prazo para o vencimento se torna menor do que 2 anos.

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    2. Boa tarde,

      Provavelmente até o mês de janeiro do ano que vem. Conforme disse o Investidor Aprendiz, o Tesouro Direto não costuma oferecer títulos com vencimentos inferior a 2 anos.

      Abcs, bons investimentos a todos

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    3. Ok, obrigado. Como vi que este ano as LTN2016 foram negociadas até dia 26/01 do corrente, fiquei um pouco em dúvida. Abraços.

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    4. Fez bem em perguntar. Estamos aqui é pra isso mesmo.

      Abcs!

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