sábado, 25 de janeiro de 2014

Discurso bonito e promessa de campanha não engana investidor


Quem chega atrasado à sala de aula, perde o melhor lugar. Quem chega atrasado à estação de ônibus/trem, viaja em pé. Quem chega atrasado ao teatro, senta nos fundos. Quem chega atrasado à entrevista, perde o emprego. Quem chega atrasado à reunião, perde o negócio. E quem chega atrasado em Davos, perde o que? Credibilidade.

A presidente Dilma Rousseff chegou três anos atrasada em Davos, na Suíça. Subestimou a importância do maior Fórum Econômico Mundial em 2011, 2012 e 2013. Durante estes três anos a presidente optou por atacar as políticas econômicas dos países desenvolvidos, destratar os investidores e culpar o mercado pelo nosso fracasso. Atitude de mau perdedor.

A inclusão do Brasil no “seleto” grupo das economias mais vulneráveis do planeta não passa de uma consequência da alta ineficiência administrativa do atual governo. A culpa é toda nossa por continuarmos proporcionando um péssimo ambiente de negócios, infraestrutura deficitária, excesso de burocracia, carga tributária elevada, baixo nível de educação, inflação persistentemente elevada e distante do centro da meta (4,5%), crescimento medíocre (abaixo da média de países emergentes e da média do PIB global), rápida deterioração da política fiscal, insistência em estratégias equivocadas de política econômica e crescente perda de confiança e credibilidade entre investidores, empresários, instituições e agências de rating.

Dilma rebateu críticas direcionadas aos mercados emergentes e tentou vender o Brasil aos investidores e empresários nervosos/insatisfeitos com a situação do nosso cenário interno. Mas com a credibilidade baixa e uma pilha de sujeira de baixo do nosso tapete, o Fórum Econômico Mundial não tem muito a oferecer. Discurso bonito e promessa de campanha não engana investidor. Vamos ganhar um até logo e um tapinha nas costas. “Se pretende angariar alguns dólares, faça uma parte do seu dever de casa e esteja aqui no ano que vem.”

Curiosamente, enquanto a presidente discursava no Fórum Econômico Mundial, acontecia uma tempestade nos mercados financeiros, atingindo principalmente as praças emergentes mais vulneráveis. As moedas locais se depreciaram rapidamente nos últimos dias, os Yields (taxas de juros) dos títulos da dívida soberana dispararam e as ações despencaram na bolsa, mostrando que alguns investidores estão pulando fora dos mercados mais sensíveis ao tapering (redução gradual no volume dos programas de estímulos monetários) nos Estados Unidos e a perda do ritmo de crescimento na China.

Este último merece atenção especial. O dado preliminar do Índice Gerente de Compras recuou de 50,5 pontos em dezembro para 49,6 pontos em janeiro, revelando a primeira contração dos últimos seis meses. O indicador mostrou que o setor manufatureiro chinês está sim sofrendo impacto do aumento dos custos da mão de obra no país e das flutuações cambiais (que tornam seus produtos menos competitivos no exterior). Em 2013, o yuan se valorizou 7% em relação ao dólar.

Esses dados aumentaram o desconforto dos investidores com o Brasil. O receio é de que uma desaceleração na China possa criar ainda mais problemas aos países que fornecem matérias-primas para o gigante asiático.

O déficit de 81,37 bilhões de dólares na conta corrente brasileira em 2013 (maior rombo em mais de seis décadas) mostra que o capital está fazendo as malas, fugindo para outras praças menos vulneráveis. O CDS brasileiro (credit default swaps, mais conhecido como risco Brasil, título que mede a probabilidade de calote dos títulos da dívida emitida por empresas e governo) praticamente dobrou em 12 meses, passando de 108 em janeiro do ano passado para 193 neste mês.

Esses novos números causam grande preocupação. Com o fluxo de saída de dólares superando o fluxo de entrada, a depreciação da taxa de câmbio continuará aumentando, pressionando ainda mais a inflação doméstica persistentemente elevada. Já a forte elevação do nosso CDS anula o efeito de atratividade dos ativos brasileiros provocado pela subida da taxa Selic. Mesmo oferecendo um rendimento melhor, os títulos da dívida soberana não são capazes de atrair mais capital para o Brasil, já que o risco tem aumentado numa proporção superior ao retorno dos ativos.

Não vai ser fácil reverter esta perigosa espiral. Davos não vai resolver o problema do Brasil que chegou atrasado. Precisamos atrair investimentos, falando menos e trabalhando mais. Lamentavelmente o governo continua insistindo em falar demais, adotando discursos fora da realidade, e fazer de menos.

No mercado de capitais o índice Bovespa fechou em baixa pela quarta semana consecutiva, levemente abaixo de sua principal região de sustentação de curto e médio prazo, formada pela LTA de 2002 e suporte dos 48k.


Repiques de curtíssimo prazo poderão surgir nos próximos pregões por conta da elevação dos níveis de sobrevenda, mas a tendência de baixa iniciada na região dos 56.7k está ganhando força com a abertura das bandas de bollinger. São pequenas as possibilidades de fundo e reversão nesta região dos 48k.

O mercado mexicano, que também apresenta vulnerabilidades, embora em menor grau, fechou a semana em queda aproximando-se de sua principal linha de suporte de curto e médio prazo na região dos 250 pontos, coincidindo com a passagem da média móvel simples de 200 períodos semanal.


Já os ativos indianos não foram afetados pela tempestade nos mercados financeiros. A Bolsa de Bombay fechou em alta pela segunda semana consecutiva, impulsionada por fatores técnicos, trabalhando o rompimento de sua máxima histórica.


O mesmo aconteceu com a bolsa de Xangai que conseguiu subir forte na semana, impulsionada pela importante linha de suporte na região dos 2.000 pontos.


Nos Estados Unidos o índice Dow Jones cedeu forte na semana, confirmando topo na região dos 16.6k. A importante região de suporte na casa dos 15.6k deverá ser testada nos próximos pregões, onde o seu rompimento poderá prolongar a tendência de baixa de curtíssimo prazo.
  
  
Na Alemanha o índice DAX também cedeu forte na semana, confirmando topo na região dos 9.8k. Mercado bastante sobrevendido e com espaço de sobra para manutenção do movimento corretivo de curtíssimo prazo, podendo se estender para prazos maiores sem afetar a tendência de alta de médio e longo prazo.


A bolsa de Londres despencou nesta semana após uma nova tentativa de superação da máxima histórica. A sinalização de venda poderá jogar o índice de volta à LTA de 2009.


Bom descanso a todos e até segunda!

16 comentários:

  1. FI,
    Post bem elucidativo.

    Não tá achando que a bolsa americana tá caindo demais ? Será que já começou a correção lá fora por ocasião do movimento do FED?

    Abs.

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    1. Levando em consideração a forte arrancada dos últimos anos, esta queda atual é praticamente insignificante. A correção parece ser um movimento de curto prazo, basicamente movido por fatores técnicos/psicológicos. Tem bastante espaço para manter este movimento sem afetar a tendência de alta de médio e longo prazo. O movimento do FED com potencial de causar maior impacto nos mercados financeiros está na elevação da taxa básica de juros, mas isso ainda vai demorar um pouco, de acordo com os dados divulgados na última reunião de Comitê.

      Abcs, boa semana!

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  2. Olá FI.
    Você estava certo a respeito da opinião dos investidores, estão todos cansados desses discursos.
    Agora, o seu comentário: “Se pretende angariar alguns dólares, faça uma parte do seu dever de casa e esteja aqui no ano que vem.” , poderia ser um pouco mais otimista como: "... e não apareça mais por aqui."
    Abs.

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    1. rsrs... mas justamente quem faz o dever de casa deve comparecer em Davos. É um ambiente propício pra fazer contatos e atrair investimentos. Chegar lá sem nada na mão, ou sem ter feito o dever de casa, é a mesma coisa que tentar vender areia no deserto.

      Abcs, boa semana!

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  3. Como sempre, volto a repetir FI: O povo burro não vê isso. Hoje é sábado e tá todo mundo tomando cerveja à 7 reais e vendo o início do campeonato paulista. Não tenho nada contra isso porque eu faço isso mas o pessoal vai premiar a Dilma este ano que continuará a afundar o país até a bomba estourar.

    O mais irritante é ver infomoney e afins elogiando o desempenho dela no Fórum.

    Passos largos rumo a argentinização.

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    1. Espero que o Brasil perca essa copa, de preferência para a argentina (ou Uruguai) na final... Assim quem sabe esse povo burro acorda para a realidade.

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    2. Infelizmente não vai adiantar nada rsrs... Brasileiro não sabe votar. Não acompanha política/economia. Só vai mudar alguma coisa quando a educação melhorar significativamente.

      Abcs, boa semana a todos!

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  4. FI, a situação está se deteriorando. Você indicaria alguma alternativa de investimento para proteger capital e, ao mesmo tempo, manter uma certa liquidez visando oportunidades futuras?

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    1. Ninguém melhor do que o FI para dar uma opinião profissional, mas considerando que a economia do país está azedando, nada melhor do que comprar uns dólares.

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    2. Proteção no momento está no dólar. Em casos extremos partir para ativos reais (imóveis, terrenos, etc). Ouro seria uma terceira opção, mas ainda está dentro do movimento de forte correção (crash), não chegou o momento.

      Manter uma parcela considerável do capital em ativos líquidos (LCIs, CDBs, DIs, etc) é essencial para aproveitar as oportunidades futuras, tanto no mercado de renda fixa (Tesouro), quanto no mercado de renda variável (bolsa). Priorizar as formações de posição nos momentos de disparada da volatilidade, conforme demonstrei no livro.

      Abcs, boa semana!

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    3. Recomendar compra de imóvel com esta bolha imobiliária insana me parece um erro...

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    4. Somente em casos extremos (risco sistêmico, por exemplo, onde qualquer tipo de papel no mercado financeiro vira pó).

      Abcs,

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  5. Obrigado pela resposta do post de terça FI!

    A VALE5 está sendo bastante castigada mas acredito que vele a pena comprar mais se continuar caindo.

    Quando comparo os indicadores fundamentalistas, CSNA3 é consideravelmente mais atrativa do que a GGBR4. Nunca tive CSNA3 na carteira, mas não seria mais arriscado comprar GGBR4? Já tive um certo lucro no ano passado na GGBR4, me desfiz e agora estou pensando em montar uma posição nessa ação novamente mas acabei fazendo essa comparação com CSNA3.

    Você acredita que no segmento da KLBN4 há outra empresa com melhores perspectivas?

    Obrigado,
    Hoffnung

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    1. As ordens Hoffnung!

      Realmente o preço da CSNA3 é mais atrativo. O ativo está mais descontado quando comparado à GGBR4, e, portanto, tem um potencial maior de valorização no longo prazo, após superar esta fase crítica no curto prazo. O problema é quando e como a CSN vai conseguir superar isso. No caso da GGBR4, são poucos os drivers que podem afetar o papel no curto prazo. Por fim, enquanto Jorge Gerdau estiver no comando, o acionista minoritário pode ficar tranquilo rs...

      Papel e celulose não. Posso estar errado. Mas nenhuma empresa neste setor chamou a minha atenção.

      Abcs, bons negócios

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