sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

Maior gestor de renda fixa do mundo perdeu a paciência com o Brasil


O aumento no ritmo de deterioração do quadro doméstico observado durante todo o ano de 2013 foi a gota d’água para a Pimco (Pacific Investment Management Company, uma das maiores gestoras de recursos no mundo, líder no segmento de renda fixa) perder de vez a paciência com o Brasil.

Se já estava difícil segurar as apostas em um país que continua apresentando um péssimo ambiente de negócios, infraestrutura deficitária, excesso de burocracia, carga tributária elevada e baixo nível de educação, ficou praticamente impossível suportar os novos problemas relacionados à inflação persistentemente elevada e distante do centro da meta (4,5%), crescimento medíocre (abaixo da média de países emergentes e da média do PIB global), rápida deterioração da política fiscal, insistência em estratégias equivocadas de política econômica e crescente perda de confiança e credibilidade entre investidores, empresários, instituições e agências de rating.

O relatório do Total Return Fund (um dos principais fundos da Pimco, com patrimônio de 237 bilhões de dólares), divulgado recentemente, mostrou que a Pimco reduziu significativamente sua exposição em ativos brasileiros (de 4,18% da carteira para 3,27%). A movimentação não aparenta ser um simples movimento de acerto de portfólio. Levando em consideração a limitação de liquidez do nosso mercado, a Pimco foi bastante agressiva ao conseguir retirar mais de 2,3 bilhões de dólares do Brasil num curto período de tempo.

Rápidas realocações nas carteiras de grandes fundos de investimentos não costumam ocorrer em períodos de estabilidade e/ou manutenção mínima das expectativas/fundamentos. Este tipo de movimentação soa como um sinal de alerta ao mercado, pois mostra que um “big player”, bastante respeitado por sinal, identificou uma possibilidade de deterioração ainda maior do quadro doméstico, responsável por provocar esta redução agressiva em seu portfólio. Provavelmente uma nova variável ainda não precificada/conhecida pelo público em geral no mercado financeiro.

A Pimco perdeu a paciência com o Brasil após um longo relacionamento de pouco mais de uma década. A gestora ganhou reputação mundial ao fazer uma aposta acertada em 2002, através da compra de títulos da dívida soberana brasileira que haviam despencado nas vésperas das eleições presidenciais.

A forte desvalorização dos títulos públicos brasileiros não assustou a Pimco em 2002, mas o escorregão de 2013 sim. As perspectivas em 2002 eram favoráveis por conta da iminência de um super ciclo de valorização das commodities, respaldo das reformas estruturais relevantes realizadas no governo anterior, boas projeções de crescimento, permanência da política de combate à inflação e manutenção minimamente sustentável das contas públicas. Todos estes pilares de sustentação encontrados em 2002 não existem mais ou foram destruídos pelo governo. Esta é a primeira, e uma das principais, fontes de preocupação.

A segunda está relacionada à necessidade de normalização das condições monetárias mais rápido do que se esperava nos Estados Unidos. O plano do FED (Banco Central norte-americano) é fazer esta transição da maneira mais gradual possível, a fim de minimizar os impactos econômicos, principalmente no curto prazo (fase mais sensível da nova trajetória de crescimento). Mas se as projeções de inflação começarem a subir num ritmo acima do esperado pela autoridade monetária, a transição gradual precisará ser abortada e passará a ser abrupta, provocando choques nos mercados financeiros.

O Brasil faz parte da lista dos países que seriam mais afetados pela transição abrupta das condições monetárias norte-americanas. Embora o quadro aponte para uma possibilidade improvável de ocorrência deste evento, o risco, negligenciado pelo governo brasileiro, tem aumentado a cada dia em que surgem novas surpresas positivas nos indicadores econômicos dos Estados Unidos.

Com o crescente aumento do endividamento público e privado (lembrando que um número considerável de empresas brasileiras captaram recursos no exterior e estariam sujeitas, portanto, às variações cambiais), ausência de reformas estruturais e deterioração fiscal, a única manobra de defesa acabaria sobrando para uma elevação ainda maior da taxa básica de juros, visando frear uma fuga de capitais pelo aumento de atratividade (leia-se bônus) dos ativos brasileiros.

No mercado de capitais o índice Bovespa fechou em baixa pela terceira semana consecutiva, mantendo a tendência de queda de curto prazo sem apresentar novidades. O movimento de repique iniciado no início desta semana foi abortado na tentativa de retomada do ponto de pivot na região dos 50.2k. Neste momento houve reaparecimento da força vendedora, voltando a se mostrar superior nas horas/pregões seguintes.


Já os principais índices de Wall Street fecharam de lado pela terceira semana consecutiva, mostrando sinalização de indecisão em regiões de máximas históricas.


Na Alemanha o índice DAX fechou a semana em alta, renovando a máxima histórica. Mercado sobrecomprado, mas trabalhando dentro de uma boa tendência de alta de curto, médio e longo prazo.
  
  
Na Índia a bolsa de Bombay permanece dentro de uma congestão de curto prazo, colada no topo histórico, ainda na tentativa de rompimento. Mercado atualmente travado, mas em tendência de alta de médio e longo prazo.


Na China a bolsa de Xangai fechou a semana com uma alta inexpressiva, ainda irrelevante para provocar a invalidação da tendência de baixa de curto prazo. Mercado pressionado pela atuação do Banco Popular (Banco Central da China), que tem utilizando instrumentos para retenção de liquidez no mercado interbancário.


Bom descanso a todos e um ótimo final de semana!

19 comentários:

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    1. Começou com o pé esquerdo rs..

      Abcs, bom sábado!

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  2. Boas!
    Gostaria que você comentasse um pouco sobre a tragédia que tem sido o desempenho das construtoras na Bovespa. Vejo um futuro muito complicado pra elas em curto prazo...

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    1. "Vejo um futuro muito complicado pra elas em curto prazo"

      ora, se você vê o futuro, vai querer que mais opinião?!

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    2. Realmente, a SUA opinião eu não quero mesmo ;)

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    3. Em qualquer segmento podemos encontrar empresas boas e ruins. Eztec e Helbor são exemplos de empresas boas no ramo de construção civil e que contam com uma excelente administração. Entretanto, boa parte das empresas do setor trabalham alavancadas demais, aumentando o risco num segmento naturalmente muito sensível aos ciclos econômicos. As perspectivas não são favoráveis, a partir do segundo semestre deste ano o mercado imobiliário será afetado pelo ciclo de aperto monetário do Banco Central.

      Abcs, bom final de semana a todos

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  3. Olá, FI.
    No meio desse caos atual (e futuro, aparentemente), vc enxerga oportunidades em algum setor, para crescimento e/ou dividendos ? Qual (quais) setor(es) seria (m) recomendado(s) para sobreviver nestes tempos ? Commodities, bancos, consumo, algo pode se "salvar"?
    Muito obrigada e parabéns por suas análises diárias ! Flávia.

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    1. Flávia,
      Short Selling!
      Julio

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    2. Sim, empresas com boa parte das receitas em dólares e despesas em reais, beneficiadas pelo deslocamento do câmbio e retomada da economia global. Você pode encontrar estas empresas no setor de commodities (basicamente Vale, porém a empresa sofrerá impacto no curto prazo com os números do 4 TRI/13) e siderurgia. Além disso, vale a pena pesquisar melhor sobre as opções disponíveis hoje no ramo de infraestrutura e alguma coisa relacionada ao setor de educação. Não vai ser um trabalho fácil selecionar e acompanhar o desempenho destas empresas, o ambiente no Brasil é muito instável e os riscos são elevados.

      Por conta deste ambiente desfavorável, a melhor estratégia para o investidor pessoa física continua sendo aproveitar, dentro do possível, o direcional dos movimentos técnicos de curto prazo. Como o Julio disse, a bolsa continua vendida. Operações preferencialmente abertas na ponta vendedora.

      Abcs, bom sábado a todos

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    3. Muito obrigada, FI e Julio.
      Abs e boa semana.

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  4. Caro Finanças Inteligentes,

    Ao longo dos últimos anos acompanhando as empresas de diversos setores que apresentavam excelentes resultados terem seus lucros afetados por interferências diversas. Desnecessário seria mencionar os fatos e tais empresas, pois acompanhamos nos últimos anos a queda contínua do ibovespa, a despeito da elevada inflação ao longo do período.

    Agora os péssimos resultados devem começar a atingir os fundos de pensão e consequentemente a alimentar a redução do volume e dos resultados da bolsa.

    Anonimo Investidor

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    1. O impacto já chegou. O volume dos fundos depende basicamente da movimentação do investidor pessoa física, que por sua vez nunca esteve tão pessimista com a bolsa. O giro está muito baixo no pregão, nas mínimas históricas. Quem sustenta a bolsa hoje são os investidores estrangeiros nas operações de curto prazo.

      Abcs, bom final de semana

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  5. Mais um soco no PT e na Dilma lixo.

    2014 começou com péssima situação para o governo consertar e ele NÃO vai fazer nada devido as eleições. Infelizmente o povo não vê essas críticas pois ele tem emprego e consegue comprar cerveja 600 ml no bar preferido e pagar as contas aos trancos e barrancos. A inflação ainda é administrável pelo pobre da periferia do nordeste e do sudeste.

    Explosão da inflação é o que faria a Dilma perder (ou desemprego aumentar). Como ela não vai deixar a inflação explodir, ela vai segurar os preços públicos (fodendo a área fiscal e piorando o superávit primário), vai gastar mais para se eleger com mais benesses e concessões ao povo para evitar protestos na copa e usará o tesouro para cobrir o rombo das elétricas e vai demorar para tirar as desonerações que fez em 2013. Tudo isso aumentará o caos do governo na área fiscal MAS O POVO NÃO VÊ ISSO PRA ELE NADA IMPORTA ENQUANTO EMPREGO E INFLAÇÃO ESTIVEREM CONTROLADOS.

    Quando o governo começar a ter graves problemas fiscais e afetar a população aí sim o governo terá que fazer o ajuste que o país precisa. Até lá nosso futuro é refém do Nordeste e do Rio de Janeiro.

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    1. Também estou achando que o governo não vai fazer nada. Nem antes, nem depois das eleições. O governo já mostrou que não se importa em pagar mais para rolar dívida no mercado, desde que permaneça no poder. E ainda vai contar com uma ajuda da retomada econômica dos países desenvolvidos, que permitirá a nossa manutenção em cima da corda bamba, sustentada pela soja e minério de ferro.

      Abcs, bom sábado

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  6. Gestão Dilma

    Lamentavelmente o país está em grande sofrimento na gestão Dilma.
    Não se trata de discussão da linha política equivocada ou da forma demagoga de governar, mas trata-se de uma política econômica errada, de pífio crescimento do PIB, inflação mascarada e mesmo assim controlada apenas às custas da elevação da SELIC. Agravam o quadro e o perpetuam o gargalo de nossa defasada infraestrutura, a burocracia sem fim.
    Não temos presente e perdemos o bonde do crescimento que foi melhor aproveitado pelos emergentes. Vivenciamos um ambiente na América Latina que apenas o Chile parece ter corretamente se afastado. Nosso país “Orloff” (eu sou você amanhã) – a Argentina – vive um período tenebroso com sua péssima presidenta que controla preços, disfarça os números inflacionários e ameaça a imprensa. (pelo visto estamos já meio caminho andado rumo a “argentinalização”)
    Ok, pensemos no nosso futuro então : escolas públicas de péssima qualidade e não melhoradas, faculdades com cursos nivelados por baixo para absorver os cotistas que claramente possuem um nível cultural muito aquém dos não cotistas. Além de não melhorarmos a educação básica, nós anarquizamos a educação pública superior.
    A classe baixa vive na ilusão, recebe uma série de pequenas esmolas, e entra em dívidas sem fim. Em troca vende seu voto obrigatório para o governo, já que este insiste em dizer que a oposição irá acabar com as esmolas eleitoreiras travestidas de projetos sociais.
    A classe média está cada vez mais sufocada pela alta carga tributária, necessária para bancar a falta de responsabilidade fiscal do governo que só aumenta os gastos. E agora mais que nunca necessária para bancar o país, que perde a cada instante mais e mais investidores.
    Para que um investidor colocará o dinheiro no país, se este não cumpre acordos (vide contratos do pré-sal), se este em momentos puramente demagógicos arrebenta os lucros das empresas de energia elétrica, trucida a fantástica estatal Petrobrás em prol de mascarar a inflação mantendo preços irreais da gasolina, bagunça os bancos públicos em prol de mais demagogia, etc. No que ele poderia investir? Que tal em um setor fundamental como infraestrutura, necessária e quase inexistente? Não, o governo controlaria suas tarifas ou pedágios.
    Assim tivemos hoje mais um triste capítulo desse filme que é real, mas que o governo quer que pensemos que seja apenas um complô. A Pimco (Pacific Investment Management Company) resolveu pular do barco que está a deriva. Ela reduziu e muito seus investimentos neste país continental. Os investidores estão realmente perdendo a confiança na presidenta. “A desconfiança emana das más políticas econômicas da atual administração”, disse Peter Lannigan, diretor de gestão do CRT Capital Group. “Taxas tão altas nesse tipo de ambiente de crescimento – é um cenário macro desafiador”.
    Não sou partidário de A ou B corrente política, até porque não acredito que nosso sistema político tenha correntes distintas e bem definidas. Sem querer parecer piegas sou partidário do país. E infelizmente vejo um futuro tenebroso nos próximos 2 anos. O estrago já está feito. É bom que a atual gestão, que deve continuar nas próximas eleições, pare de viver no mundo do faz de contas e perceba o buraco que estão nos enfiando. Não quero que venhamos a virar uma Argentina ou uma Venezuela ou uma Cuba.

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    1. Ótimas colocações! Parabéns pelo texto! Complementaria apenas que este buraco ainda tem muita terra para ser escavada. Estamos numa longa trajetória agonizante, perdendo oportunidades de crescimento e desenvolvimento sustentável.

      Abcs, bom sábado

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  7. Olá FI.
    Achei interessante a questão da Flavia, até porque o mercado tem ondas de pessimismo e de otimismo. Acredito também, que mesmo com todas essas perspectivas negativas, devam existir algumas empresas/setores para se investir.
    Abraços.

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    1. Sim, claro. São poucas, mas existem, conforme comentário acima. A questão principal fica por conta do risco, hoje muito elevado, principalmente para o investidor pessoa física fazer estas escolhas sozinho. Há momentos onde o stock picking é mais favorável e pode ser feito tranquilamente pelo investidor PF.

      Abcs, bom final de semana

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