segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

Fly to safety


A perda de importantes patamares de sustentação dos principais índices mundiais detonou um movimento conhecido no mercado financeiro como fly to safety (voar para segurança), caracterizado pelo rápido desmonte de posições em ativos de risco no mercado de renda variável e remanejamento do capital para ativos seguros no mercado de renda fixa.

Este movimento aconteceu com o respaldo dos indicadores macroeconômicos divulgados nos últimos dois dias. O Índice Gerente de Compras da China caiu para 50,5 pontos no fechamento do mês de janeiro, ante os 51 pontos registrados em dezembro, confirmando a prévia divulgada no dia 23 de janeiro. O resultado mostra queda no ritmo de expansão da atividade industrial, indicando perda de fôlego da economia chinesa que passa por um momento importante de transição.

Já o crescimento do setor de serviços do gigante asiático desacelerou para uma mínima de cinco anos em janeiro ao atingir os 53,4 pontos. O indicador aprofundou as preocupações dos investidores com relação aos mercados emergentes, bastante dependentes da pujança econômica chinesa, que por sua vez vem mostrando sinais cada vez mais concretos de desaceleração do crescimento em 2014.

O Índice Gerente de Compras dos Estados Unidos, medido pelo Instituto Markit e banco HSBC, recuou para 53,7 pontos em janeiro deste ano, após bater nos 55,0 pontos em dezembro do ano passado. Já o índice medido pelo ISM (Instituto de Gestão de Fornecimento) caiu para 51,3 pontos no mês anterior, de 56,5 pontos no último mês do ano passado, atingindo o menor nível desde maio de 2013.


Ambos os indicadores registraram redução do ritmo de expansão da atividade industrial nos Estados Unidos, porém em diferentes intensidades basicamente por questões de metodologia de pesquisa. O mercado se apegou ao ISM para justificar o tombo nas bolsas de valores, já que a queda deste indicador foi bem mais expressiva.

O importante é que houve redução natural no ritmo de crescimento da atividade industrial, fortemente influenciada pelas condições meteorológicas extremamente adversas que dominaram o noticiário norte-americano no mês passado. A princípio, a queda de desempenho observada no mês de janeiro não se traduz numa ameaça à retomada econômica dos Estados Unidos.

Wall Street explorou o impacto psicológico causado pelos indicadores macroeconômicos para dar sequência ao movimento de correção nos preços iniciado há três semanas. A perda de uma importante região de suporte na casa dos 15.7k provocou aumento da pressão vendedora nos preços dos ativos e acabou atropelando a média móvel simples de 200 períodos diária do índice Dow Jones. Com a agressividade do movimento técnico, a tensão aumentou no mercado, provocando o fly to safety.


Prova disso é que o rendimento da Treasury de 10 anos (título público do Tesouro norte-americano) renovou a mínima histórica deste ano, ao pagar uma taxa de 2,61% ao ano nesta segunda-feira, cerca de 15% a menos do que pagava no início do mês passado.


A forte queda de curto prazo observada no rendimento da Treasury de 10 anos demonstra grande procura dos investidores por ativos de renda fixa (principalmente títulos do tesouro norte-americano) para se protegerem do aumento da volatilidade no mercado de renda variável.

Na Europa, a bolsa de Milão despencou 2,63% nesta segunda-feira.  A bolsa de Madri cedeu 1,96%. A bolsa Paris caiu 1,39%. O principal índice da bolsa de Frankfurt recuou 1,29%. O índice FTSE da bolsa de Londres caiu 1,11%.

No Brasil o índice Bovespa derreteu 3,13%, influenciado pelo rompimento do importante suporte na região dos 47.2k. A relevância do marubozu de baixa registrado nesta segunda-feira mostra que o nível de tensão no mercado nacional aumentou, deixando o ambiente sensível ao surgimento de pânico nos preços.
  

A próxima linha de suporte está localizada na região dos 44.1k, enfraquecida pelo aumento da força da tendência de baixa iniciada na região dos 56.7k. Os investidores estrangeiros estão desmontando suas posições compradas na Bovespa, em busca de maior segurança nas Treasuries. Até o dia 30 de janeiro, o saldo de investidores estrangeiros na Bovespa era negativo em 914,4 milhões de reais.

O mercado de renda fixa nacional também segue pressionado. O Tesouro Nacional realizou um leilão extraordinário de recompra de até 5 milhões de LTNs nesta segunda-feira para tentar reduzir a pressão vendedora nos títulos da dívida soberana. A operação não surtiu efeito e os títulos continuaram se desvalorizando, ou seja, os juros subiram e renovaram as máximas do ano. Amanhã haverá um novo leilão extraordinário nestes mesmos moldes.

A situação cada fez mais deteriorada do quadro doméstico limita o potencial de impacto dos leilões extraordinários do Tesouro Nacional. Hoje o Ministério de Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior informou que a balança comercial brasileira teve déficit de 4,057 bilhões de dólares em janeiro, o maior rombo na série histórica iniciada em 1994.

Ainda nesta segunda-feira, o ministro de Minas e Energia, Edison Lobão, disse que o governo estuda novos aportes do Tesouro (ou seja, do nosso bolso) para bancar novos gastos da CDE (Conta de Desenvolvimento Energético), utilizada para financiar a redução da conta de luz. Estes recursos serão repassados às distribuidoras de energia elétrica para cobrir gastos imediatos relacionados ao acionamento de termelétricas, que geram energia mais cara.

Na sexta-feira a Câmara de Comercialização de Energia Elétrica informou que o preço da energia elétrica de curto prazo atingiu recorde histórico para esta semana, a 822,83 reais por megawatt-hora. Esta é mais uma conta a ser quitada por todos os brasileiros, fruto da péssima gestão do governo federal. Incompetência custa caro.

15 comentários:

  1. Segue o PT estourando a economia. Bom que eu estou líquido e aproveitando as oportunidades.

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    1. Oportunidade hoje? Só se for na ponta vendedora porque o "fundo do poço" está lonnnnnnnnnge!

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    2. O tempero do almoço grátis melhorou. O momento está bom até para o dinheiro em caixa nas aplicações intermediárias (CDBs e LCIs pós-fixados de liquidez diária). No Tesouro ainda não temos novo gatilho de compra, mas pode surgir neste ano ainda numa NTNB 2019 ou LTN 2017. Na bolsa ainda não temos as condições ideais para iniciar a estrategia de compras parciais e crescentes nas quedas relevantes. A volatilidade precisaria subir mais um pouco. Mas, por outro lado, o momento está muito favorável para as operações de curto prazo dentro da tendência. Pernadas bem definidas e duradouras.

      Abcs a todos e bons trades

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  2. Boa noite!

    FI,peguei este seu comentario,de 29 janeiro:
    O momento ainda não é propício para iniciar a estratégia de compras parciais e crescentes (utilizada nas quedas relevantes de mercado, conforme demonstrado no livro), já que a volatilidade ainda está baixa, por mais que a bolsa comece a ficar um pouco descontada próxima dos 45k.

    Pode me dar algumas dicas,em que patamar do indice eu devo pensar em montar esta estrategia de compras parciais,é que eu nunca montei nenhuma estrategia assim...

    batistuta007

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  3. Há muitas ações de empresas com lucros consistentes que estão com valor de mercado inferior ao valor patrimonial. Não dá para prever quando a baixa acaba. Na minha opinião voce deveria ir comprando aos poucos. Aguardemos o FI dar dicas da estratégica, mas sugiro o ebook dele, fala sobre isto também.

    abs

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  4. Boa noite!

    É sempre bom iniciar com bastante cautela uma nova estratégia ou aperfeiçoamento da mesma. Operar com volumes reduzidos. Com relação ao patamar do índice, não existe uma região pré-definida, depende muito do nível de volatilidade, hoje ainda considerado baixo. Como o risco Brasil está mais alto, o desconto nos preços dos ativos está subindo para acompanhar o aumento do risco e assim voltar a chamar atenção dos investidores, o que provocaria, posteriormente, uma reação natural ascendente dos preços.

    Abcs, bons negócios a todos

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    1. O maior problema a juntar ao Brasileiro pela frente podera ser mais da china no curto prazo,Argentina é uma economia pequena.Por isso vamos ver nos 44xxx se furar fica sem fundo.

      batistuta007

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    2. Se fundo a vista.Mas é bom lembrar que quando o péssimismo toma conta da gente,tem alguem a comprar ele...ou seja uns estao cada vez mais ricos e outros cada vez mais pobres a conta disso ai...

      batistuta009

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    3. Sim, no âmbito global o Brasil talvez seja o País mais afetado pela desaceleração na China.

      Argentina é um problema sério para nós. Quem está de fora enxerga a Argentina como uma economia pequena/insignificante, e com razão. Mas para o Brasil, tanto a Argentina, quanto a Venezuela, ambas em crises graves, são importantes parceiros comerciais, conectados pelo canal da ideologia. O nosso único "pacto comercial", porcamente traçado, chamado de Mercosul, é uma importante válvula de escape para exportação de manufaturados brasileiros que ainda tentam sobreviver neste ambiente doméstico inóspito. Abastecemos nossos amigos bolivarianos camaradas com frango, óleo de soja e papel higiênico. Abastecemos a colônia Kirchner com as carroças 1.0 "made in Brasil", sapatos, chinelos, óleo de soja e trigo.

      Com estes dois países afundando no buraco, as exportações brasileiras diminuem e perdem competitividade por conta da depreciação cambial agressiva nestas duas economias. Como não corremos atrás de outros acordos comerciais mundo afora nos últimos 5/10 anos, o empresário industrial brasileiro vai ter que fazer o trabalho que o governo não fez e encarar uma jornada mundial oferecendo seus produtos de baixa qualidade a preço de custo pra desovar parte do estoque (aquele não consumido pelos parceiros bolivarianos em crise) e conseguir pagar suas contas. Se lucrar vai ser um herói. Parece com o trabalho daqueles vendedores de enciclopédias da década de 1990. Batem na porta de 100 casas, 99 irão recusar. 1 vai aceitar. Triste, mas é a realidade. O empresário industrial brasileiro vai ter que gastar muita sola de sapato nas antigas rotas comerciais Ásia-Europa da idade média pra conseguir sobreviver.

      Abcs,

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  5. Também estou acompanhando apenas quieto observando. Bolsa tem ainda muito o que cair.

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  6. o correto seria 'flight to quality"

    abs

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    1. Fly to safety também é utilizado no jargão do mercado, embora menos popular do que o Flight do quality. Tanto é que hoje apareceu um Fly to quality no jornal Valor Econômico rs...

      Optei por utilizar a expressão "Flight to Safety", pois na minha avaliação é uma fuga pra segurança. Basicamente defesa contra volatilidade nos ativos de renda variável. Considerei inadequado o "Flight to Quality" pois as ações estão bem fundamentadas em Wall Street e com boas perspectivas, portanto, com uma certa qualidade no preço. Os investidores não venderam bolsa porque esta qualidade deixou de existir, mas sim para se protegerem da volatilidade de curto prazo. Os preços dos ativos continuam bem sustentados pelos fundamentos. Houve sim um certo exagero no ano passado, corrigido neste momento pelo mercado.

      Abcs, bons trades

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  7. Tesouro e Mercado: queda de braço
    04/02/2014 por mansueto
    Meus amigos operadores no mercado financeiro me fizeram a gentileza de me atualizar sobre algo que vem ocorrendo desde o início do ano: a briga entre o Tesouro e o Mercado.

    No início deste ano algo como R$ 122 bilhões de títulos do Tesouro venceram e, sob circunstâncias normais de temperatura e pressão, montante próximo seria vendido ao mercado. Mas não foi.

    Até o dia 23 de janeiro, o Tesouro vendeu algo próximo a R$ 30 bilhões e,na semana passada, fez um leilão de R$ 3,25 bilhões. Resgate líquido em janeiro ficou perto de R$ 90 bilhões.

    Estamos nadando em dinheiro? Não. Banco Central fez a bondade de enxugar o mercado com operações compromissadas, venda de títulos por 30 dias. Nós trocamos um financiamento de prazo longo por um de prazo muito curto. Por que?

    Porque o Tesouro não está aceitando as taxas de juros que o mercado está pedindo. Os operadores estão em pânico. Acham que o governo está sem saída e, como 25% da divida pública tem que ser rolada este ano, estão apertando o governo que está com uma condição fiscal muito pior do que todos nós esperávamos.

    Hoje, o Tesouro mandou o seguinte comunicado para o mercado: “O Tesouro Nacional informa que, em razão das condições de mercado, não realizará o leilão tradicional de venda de LTN e NTN-F previsto para quinta-feira, 06/02/2014.“

    O que fazer? Se as expectativas melhorarem rapidamente, a estratégia do Tesouro pode dar resultado e o Tesouro vende seus títulos de prazo mais longo depois a um juros menor do que o atual. Mas acho difícil isso acontecer. E se não acontecer, vamos ter juros maiores e Banco Central aumentando operações compromissadas. Duas coisas ruins: juros em alta e prazo da divida encurtando.

    E ainda tem gente que se gaba que a divida pública bruta do Brasil é de “apenas” 57% do PIB. A nossa realidade é triste. No ano passado, o setor publico no Brasil pagou de juros 5,2% do PIB. Isso é mais ou menos o que pagou a Grécia, em 2012, com uma divida de mais de 150% do PIB.

    Para o Tesouro ganhar essa queda de braço terá que dar algum sinal concreto de melhora que ninguém hoje consegue enxergar. Por enquanto, o mercado está calmamente se preparando para a batalha e não está disposto a ser enganado novamente. Muito operadores acreditaram no discurso do governo e compraram títulos pré fixados com juros baixos no início de 2012 e hoje choram o prejuízo.

    A batalha vai continuar………

    http://mansueto.wordpress.com/2014/02/04/tesouro-e-mercado-queda-de-braco/

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