sexta-feira, 7 de março de 2014

Caiu a primeira peça do dominó


O inevitável aconteceu. A Shanghai Chaori Solar Energy Science & Technology entrou para a história nesta sexta-feira ao ser responsável pelo primeiro calote no mercado corporativo chinês.

A fabricante de equipamentos solares não realizou o pagamento de 89 milhões de yuans (14,5 milhões de dólares) em juros da dívida de 1 bilhão de yuans em bônus emitidos ao mercado há cerca de dois anos atrás. Liu Tielong, secretário do conselho da empresa, confirmou que a Shanghai Chaori falhou no pagamento.

Poucos dias antes, a empresa havia alertado que “por um aperto nas condições de crédito e pela dificuldade em levantar fundos”, não conseguiria arcar com os juros de 89,8 milhões de yuans. Esta prática é (era) bastante comum no mercado chinês. As empresas gritavam, pediam socorro e nos últimos instantes os governos locais interviam aportando recursos públicos nas companhias, visando evitar o default.

Mas desta vez foi diferente. A Shanghai Chaori realizou o procedimento padrão: gritou e pediu socorro. O governo “fingiu que não ouviu” e permitiu o default.

O calote é relativamente pequeno, mas bastante representativo. Demonstra uma importante mudança de postura do governo chinês, que parece não estar mais interessado em continuar sustentando uma enormidade de negócios improdutivos no País.

Muito provavelmente novos defaults surgirão no mercado corporativo chinês, ainda que escolhidos a dedo pelo governo, principalmente nos setores de metais, mineração e construção naval, segmentos com excesso de oferta e menos favorecidos pela nova estratégia de política econômica da China. Mais de 30% dos 4,6 trilhões de yuans (750 bilhões de dólares) em empréstimos fiduciários correntes (linha mais acessível às empresas em dificuldade) vencem este ano.

Consequentemente haverá uma nova precificação do risco de crédito no mercado chinês. Empresas improdutivas não terão mais acesso ao crédito barato. Os investidores ficarão mais seletivos ao emprestar dinheiro e exigirão retornos maiores para compensar o risco, que até ontem parecia não existir no mercado local. Este novo quadro é positivo para limpar o excesso de crédito podre (inestimável) no sistema.

Por outro lado esta nova precificação do risco de crédito deverá contaminar o mercado interbancário, onde há suspeitas de bancos falidos operando normamente no sistema. Além disso, algumas instituições pequenas não suportariam defaults em volumes maiores. São elementos mais do que suficientes para provocar uma crise de crédito em larga escala no mercado chinês, mas que deverá ser administrada pelo governo (segurando-a numa escala menor), que ainda tem bala na agulha para se sustentar no curto e médio prazo.

A notícia, divulgada após o fechamento das praças asiáticas, não afetou o desempenho da bolsa de Xangai, que fechou a semana estável, emitindo um candle de indecisão levemente acima da importante linha de suporte localizada na região dos 2.000 pontos.


A bolsa do México fechou a semana em leve alta, ainda lutando para se manter acima do importante patamar de sustentação de médio prazo formado pela média móvel semanal de 200 períodos e LTA de 2009.


O mercado indiano fechou a semana em forte alta, influenciado por fatores puramente técnicos. A bolsa de Bombay entrou para o grupo de praças financeiras que conseguiram superar suas respectivas máximas históricas. O topo histórico foi rompido de forma clássica (marubozu de alta), liberando espaço para manutenção da tendência de alta de curto, médio e, agora, de longo prazo.


A bolsa brasileira também fechou a semana com um marubozu, mas na direção contrária. O candle de baixa relevante revela aumento de pressão vendedora dentro da zona de congestão de curtíssimo prazo, enfraquecendo a linha de suporte na região dos 46.1k, seriamente ameaçada. Mercado em tendência de baixa de curto, médio e longo prazo.


A queda desta sexta-feira foi influenciada pelo novo tombo do preço do minério de ferro na China, cotado a 114,20 dólares por tonelada, menor patamar dos últimos 8 meses. O movimento reflete preocupações de desaceleração da demanda no gigante asiático, por conta da nova estratégia de crescimento do governo (menos focada nos investimentos).

A Comissão Nacional de Desenvolvimento e Reforma informou que o governo chinês buscará um crescimento de 17,5% em investimentos em ativos fixos neste ano, ritmo mais lento dos últimos 12 anos. Além disso, o governo também pretende fechar siderúrgicas estatais poluidoras e pouco eficientes, fato que reduzirá a demanda por minério de ferro.

Ainda no mercado doméstico, receberemos na próxima semana a visita de funcionários do alto escalão da agência de classificação de risco Standard&Poor’s para uma nova avaliação dos fundamentos da economia brasileira. Nos dias 10, 11 e 12, os diretores da S&P terão encontros com o setor privado. Nos dias 13 e 14 se reunirão com o ministro da Fazenda, Guido Mantega, com o secretário do Tesouro Nacional, Arno Augustin, secretário de Política Econômica, Márcio Holland, e o secretário executivo do ministério da Fazenda, Paulo Caffarelli. A S&P emitirá um relatório sobre a visita em até dois meses, extremamente relevante para sustentação (ou não) do nosso rating.
  
Nos Estados Unidos o índice Dow Jones fechou em alta pela segunda semana consecutiva, mantendo a tendência de curto, médio e longo prazo.
  

Na Alemanha o índice DAX fechou a semana em baixa, pressionado pela crise ucraniana. Entretanto, o movimento corretivo ainda não é capaz de alterar a tendência de alta de curto, médio e longo prazo.


Desejo a todos vocês um excelente final de semana! Bom descanso e até segunda.

9 comentários:

  1. Somente agora tive o prazer de ler sua análise da quarta (a do xadrez).

    Parabéns pela qualidade, vida longa ao FI!!!!

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    1. À rainha da Inglaterra e a todos nós! rsrs..

      Obrigado Clerton!

      Abcs, boa semana!

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  2. Não estou conseguindo receber por email suas postagens. como faço?

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    1. Olá Hudson,

      Basta assinar o Feed no canto inferior esquerdo do blog.

      Abcs, boa semana!

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  3. O bicho vai pegar para VALE...
    Vamos acompanhar.

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    1. Já pegou feio rs... Estão descendo a surra nela desde meados de fevereiro.
      Mas é bom ficar de olho pois o preço do minério de ferro tem um piso em torno de 100 dólares. Abaixo disso não compensa extrair.

      Abcs, boa semana!

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  4. Boa noite FI,
    você considera que existem ações em promoção no momento?
    Quais seriam ou que mais te agradam?
    Como está a VALE?
    Obrigado,
    Hoffnung

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    1. Tudo bom Hoffnung?

      Prefiro utilizar a palavra desconto. Algumas ações estão sim descontadas. Mas não atingiram níveis que consideraria promocionais. Não tem nada saltando aos olhos para comprar no mercado e as perspectivas não mudaram (são as mesmas traçadas no final de 2013). Além disso, o ambiente continua ruim para fazer stock picking, principalmente para o investidor individual.

      Abcs, boa semana!

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    2. Obrigado pela opinião FI!
      Sempre grandes posts!

      Abraço, Hoffnung

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