segunda-feira, 24 de março de 2014

Chegou mais uma conta


Falta de aviso não foi. O Brasil está entre os países que mais receberam puxões de orelhas nos últimos anos com os relatórios de advertências de diversas instituições. O governo desdenhou, jogou a culpa nos outros. Em junho de 2013 recebemos mais um alerta da Standard & Poor's, nossa perspectiva foi rebaixada de estável para negativa. Era o aviso final. Se não fizéssemos o dever de casa seríamos rebaixados.

O governo não fez nada. Pelo contrário, conseguiu piorar o que já estava ruim. Percebendo o aumento do ritmo de deterioração do quadro brasileiro, a S&P tratou de enviar logo uma “visita surpresa” para realizar uma nova avaliação dos fundamentos da economia brasileira. Nos dias 10, 11 e 12 deste mês, os diretores da S&P se encontraram com representantes do setor privado. Nos dias 13 e 14 as reuniões aconteceram com integrantes do primeiro escalão do governo, incluindo o ministro da Fazenda, Guido Mantega e o presidente do Banco Central, Alexandre Tombini. A S&P se comprometeu em emitir um relatório sobre a visita em até dois meses.

Não foi necessário o prazo de dois meses e muito menos emitir um relatório completo ao mercado. A situação se deteriorou de tal forma que o rating brasileiro foi rapidamente rebaixado após a visita, surpreendendo alguns analistas que esperavam uma decisão sobre o rating somente depois das eleições presidenciais.

Em comunicado divulgado hoje a noite, a S&P afirmou que "o rebaixamento reflete a combinação de derrapagem fiscal, a perspectiva de que a execução fiscal permanecerá fraca em meio a um crescimento moderado nos próximos anos, uma capacidade limitada para ajustar a política antes da eleição presidencial de outubro e um certo enfraquecimento das contas externas do Brasil. A perspectiva de crescimento lento reflete tanto fatores cíclicos como estruturais, incluindo o investimento como parcela do PIB de apenas 18% em 2013 e uma desaceleração do crescimento da força de trabalho. Combinados, esses fatores destacam o espaço diminuído do governo para manobrar em face de choques externos."

O documento também ressalta que “a credibilidade da conduta da política fiscal enfraqueceu sistematicamente, à medida que o governo isentou vários itens de receita e de gastos da meta fiscal, além de rebaixar a própria meta ao longo do tempo. O uso persistente de bancos estatais, financiados por recursos "por baixo do pano" do Tesouro, também minou a credibilidade e a transparência da política.”

Por fim, a agência de classificação de risco citou preocupações com o setor elétrico, riscos fiscais negativos dos governos estaduais e municipais, aumento da vulnerabilidade e perdas no setor bancário (fruto da iminente decisão do Supremo Tribunal Federal sobre as contas de poupança).

Com esta decisão, o rating brasileiro caiu de BBB para BBB-, atingindo o último degrau do grau de investimento. Isso significa que se houver mais um rebaixamento, o Brasil perderá a classificação de grau de investimento e passará a ser considerado como grau especulativo, fato que poderá provocar uma fuga de capitais sem precedentes. Entretanto, a perspectiva foi alterada para estável, indicando que S&P não deverá fazer novos rebaixamentos no curto prazo.

BBB- pode ser considerada uma nota até mesmo generosa frente às graves deteriorações dos últimos anos. Bastou o super ciclo de alta das commodities chegar ao fim para o mercado enxergar o estrago feito pelo governo nos fundamentos da economia. Estes buracos só serão tapados quando aparecer alguém disposto a arregaçar as mangas para fazer o dever de casa acumulado dos últimos anos. A tarefa não é fácil.

O rebaixamento do rating brasileiro foi anunciado após o fechamento dos mercados. No entanto, o Ibovespa continua superando a bateria de notícias negativas dos últimos dias. O índice subiu nesta segunda-feira, registrando sua sexta alta consecutiva. A superação de barreiras importantes na semana passada liberou espaço para manutenção do movimento ascendente, fortalecendo a pernada de alta iniciada na região dos 44.9k, a mais forte dos últimos 5 meses.

O movimento é sustentado puramente por fatores técnicos/psicológicos. Tal como aconteceu na semana passada, a agenda macroeconômica continua apresentando indicadores negativos, que, em condições normais, afetariam diretamente o desempenho do mercado.

A prévia do Índice Gerente de Compras da China recuou para 48,1 pontos no mês de março, acendendo o sinal amarelo do governo. Este é o menor nível dos últimos oito meses e mostra uma contração preocupante da atividade, que não se fortaleceu após o extenso feriado do Ano Novo Lunar.

O quadro também está se deteriorando na Rússia. O clima tenso e de instabilidade não fornece o incentivo para que as empresas invistam, num momento crítico de desaceleração do ritmo de crescimento. O País ainda convive com o risco de agravamento do déficit em transações correntes, fato que prejudica, também, o combate à inflação. Mesmo após o Banco Central do país aumentar inesperadamente a taxa básica de juros em 150 pontos porcentuais, o ministro de Economia russo, Alexei Ulyukayev, espera que a inflação atinja uma taxa anualizada de 7% em breve, bem acima da meta de 5% a ser perseguida.

O déficit em transações correntes no Brasil também está aumentando. No mês passado, a conta corrente do país fechou com saldo negativo de 7,44 bilhões de dólares, impactada pelo déficit na balança comercial, remessas de lucros/dividendos e gastos líquidos com viagens internacionais. Para o ano de 2014, o Banco Central espera agora que o déficit em transações correntes alcance 80 bilhões de dólares, superior à projeção anterior de 78 bilhões. O rombo continua aumentando, mantendo o País numa situação desconfortável, menosprezada pelo governo.

Mas como o humor do mercado mudou radicalmente no início da semana passada (de pessimismo para otimismo exagerado), as notícias negativas acabaram perdendo força de influência sobre a trajetória de preços. Nestas condições, o índice Bovespa subiu cerca de 3.000 pontos desde o fundo registrado na segunda-feira da semana passada, aproximando-se de uma importante barreira localizada na faixa dos 48.7k.


Entretanto, o humor dos investidores/operadores deverá azedar, adicionando novamente pressão negativa sobre os preços, já que o rating brasileiro foi cortado e os gráficos de 60 minutos estão sobrecomprados.

Nos Estados Unidos o índice Dow Jones fechou o pregão em baixa insignificante de 0,16%, tentando se sustentar acima da linha central de bollinger, próximo à máxima histórica.

20 comentários:

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    1. O jeito é passar o Manteiga no pão...

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    2. Está difícil meus amigos. O brasileiro precisa fazer uma faxina generalizada em Brasília no mês de outubro. Caso contrário, vamos ter que assumir as consequências.

      Abs, boa semana a todos!

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  2. Muito bom o seu texto.

    Abrasss

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  4. A gente vê como estes idiotas banqueiros acham que nós somos burros.

    Subida puramente especulativa depois vai matar tudo que é sardinha na descida. Não há UMA notícia que justifique esta ridícula subida do Ibovespa.

    Sobre o nosso DESgoverno, ora, finalmente rebaixaram nossa nota.

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  5. O governo já esperava por isso. A dupla Mantega e Tombini fizeram de tudo para ser depois da eleição e levaram uma bica da S&P.

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    1. Sim. Agora está explicado porque o Tombini falou tanto sobre os "sólidos" fundamentos econômicos brasileiros na semana passada. Provavelmente estava tentando persuadir a S&P a não rebaixar o nosso rating.

      Abs, boa semana

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  6. FI,

    Em termos históricos, haveria precedente para o Brasil perder a grau de investimento ainda este ano ?

    Pergunto porque desconheço um pouco a sistemática do tempo das agências (entre uma decisão e outra). Mas me parece claro que o Brasil caminha para perder o investment grade.

    Ótimo post,

    Miguel

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    1. * o grau de investimento

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    2. Obrigado Miguel,

      Normalmente o prazo é de até 2 anos para as agências confirmarem ou alterarem o rating após uma mudança de perspectiva. A S&P rebaixou o Brasil com menos de 1 ano após a mudança de perspectiva. Isso não é bom, pois mostra agravamento no ritmo de deterioração dos fundamentos econômicos. Sim, infelizmente. Se o governo não mudar sua postura, vamos perder o investment grade nos próximos anos.

      Abs, boa semana!

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  7. e o IBOPE já saiu com a mangueira na mão pra apagar o incêndio:

    http://www.valor.com.br/politica/3492466/ibope-minimiza-efeito-de-rebaixamento-de-rating-do-brasil-nas-eleicoes

    não me perguntem porque alguém do ibope tem que dar pitaco sobre o assunto, vai ver tá em algum contrato que assinaram com o governo

    eu já imagino que isso já está precificado, o dólar começou a subir depois que mudaram a perspectiva pra negativa, agora que já está consumado o ato, é só relaxar e gozar, e esperar que dentro de um ano eu imagino que vem a pancada final, quando irão mudar a perspectiva para negativa, aí sim vai ser bonito de ver (pra quem não morar no brasil, claro)

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    1. Neste ponto eu concordo com você. Ela minimizou o efeito do rebaixamento antes mesmo de ser devidamente avaliado por uma pesquisa. Pisou na bola.

      Detalhe importante é que ela fez este comentário antes mesmo do anúncio ser divulgado pela S&P no início da noite.

      De fato, o rebaixamento está precificado no mercado. O que deve mudar é o humor dos investdores/operadores, que estava exageradamente otimista nos últimos dias, superando os acontecimentos macroeconômicos negativos dos últimos dias. Isso (mudança de humor no mercado) pode influenciar na trajetória de preços nos próximos dias. A postura do governo também será avaliada nos próximos dias, havendo sinalização de que esta (postura) continuará a mesma de sempre, o clima de tensão poderá retornar.

      Abs, boa semana

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  8. E continua a política da negação: http://www1.folha.uol.com.br/mercado/2014/03/1430314-fazenda-diz-que-rebaixamento-de-nota-e-contraditorio-com-solidez-do-brasil.shtml

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    1. Sim, lamentavelmente continuam adotando a política da negação. Mau sinal. Fiquei curioso para saber o nome da cachaça que proporcionou a construção desta frase: "o ministério afirma que o Brasil tem gerado um dos maiores superávits primários do mundo".

      Abs, boa semana

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  9. Quem recebe bolsa isso e bolsa aquilo nem sabe o que é isso, não se interessa e por esta razão perpetuará aquele que lhe permite receber o auxílio sem a contra-partida...

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  10. Essa subida do Ibovespa, nos últimos dias, e o canto da sereia.
    Apertem os cintos pois o piloto sumiu!

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