sábado, 15 de março de 2014

Consequências do ciclo intervencionista no setor elétrico


Na quinta-feira do dia 6 de setembro de 2012, véspera das eleições municipais, a presidente Dilma utilizou o pronunciamento em rede nacional dedicado ao Dia da Independência para anunciar uma redução significativa nas tarifas de energia elétrica a partir do início de 2013.

Para fazer isso, o governo criou a Medida Provisória 597, propondo a renovação antecipada das concessões de energia elétrica, tanto das empresas geradoras, quanto das transmissoras. Mas para renovar, as empresas teriam que aceitar os termos do governo, definidos sem diálogo algum, com objetivo claro de reduzir significativamente os lucros das companhias. A pesada carga tributária incidente sobre as empresas do setor elétrico, grande responsável pelos preços elevados de energia no País, não foi sequer discutida.

A intervenção do governo desagradou de maneira generalizada as empresas do setor e disseminou um tremendo clima de insegurança, desconforto e baixa credibilidade no mercado nacional. Aparentemente motivadas por razões, sobretudo, políticas, Cemig, Copel e Cesp peitaram o governo. Estas empresas decidiram não aceitar os termos da Medida Provisória 597 e, consequentemente, não renovaram as concessões.

Com isso, começou a faltar energia no mercado e a iniciativa privada desistiu de investir no setor. Os leilões de energia micaram pela ausência de oferta. A conta pesou para as distribuidoras que passaram a comprar energia muito mais cara no mercado livre, onde o preço do megawatt disparou de pouco mais de R$ 100,00 para insustentáveis R$ 822,00. Para não repassar esta alta exorbitante ao consumidor, o governo pagou a conta bilionária utilizando recursos do Tesouro (ou seja, o dinheiro dos nossos impostos).

Fruto da ausência de investimentos, o País passou a conviver com a ingrata probabilidade de racionamento de energia. O novo pacote anunciado ontem resolve apenas o problema da saúde financeira de curto prazo das distribuidoras obrigadas a comprar energia a preços exorbitantes para vender mais barato ao consumidor, como manda o governo.

Além dos 9 bilhões de reais que já estavam previstos no orçamento, o governo vai aportar mais 4 bilhões de reais do Tesouro e permitirá a contratação de empréstimos de até 8 bilhões de reais pela CCEE (Câmara de Comercialização de Energia Elétrica), para cobrir o rombo das distribuidoras. Será realizado, também, um novo leilão de energia.

O custo deste novo leilão de energia será pago pelo consumidor a partir de 2015. Os 4 bilhões de reais adicionais do Tesouro serão compensados pelo aumento de impostos. Já os empréstimos contraídos pela CCEE virão dos bancos públicos (principalmente) e privados.

O resultado final desta conta é o custo da incompetência de quem está no poder. Por conta da primeira intervenção desastrosa de 2012, o governo se sentiu forçado em realizar novas intervenções, tapando os buracos de percurso, mas que por sua vez abrem novas rachaduras, exigindo mais intervenções, formando, assim, um ciclo vicioso.

Em uma só tacada, o governo conseguiu aumentar o rombo nas contas públicas, já que haverá necessidade de aporte do Tesouro para financiar os bancos públicos nas operações com a CCEE, aumentar a carga tributária e, ainda, criar expectativa de inflação futura. Todo este dispêndio financeiro relevante está sendo utilizado para sustentar aquele discurso do dia 06 de setembro de 2012.

Não há incentivo à conscientização do consumo, pelo contrário. Como a conta ficou mais barata, as pessoas se sentiram confortáveis em gastar mais energia, comprometendo a capacidade de oferta praticamente estagnada.

O efeito colateral a ser produzido pela inflação merece atenção redobrada do Banco Central. Boa parte do acréscimo da carga tributária poderá vir do aumento da taxação de produtos importados, com objetivo de preservar a popularidade do governo em ano de eleições presidenciais. Inevitavelmente a inflação subirá com os produtos importados ainda mais caros.

Por outro lado, a atual estratégia de represamento de preços acaba produzindo mais pressão inflacionária, pois cria-se uma expectativa concreta de que no futuro, o preço subirá. Por conta disso, os agentes, com a confiança abalada, antecipam os aumentos de preços dos seus produtos, como mecanismo de defesa. O vizinho do lado faz a mesma coisa para se defender também, e, assim, cria-se um ciclo vicioso de inflação.

Este quadro só alimenta as incertezas quanto à capacidade do poder de compra da moeda e podem exigir atitudes de respostas no futuro cada vez mais severas por parte da autoridade monetária num momento (2015) extremamente delicado, devido à normalização das condições monetárias nos países desenvolvidos.

No mercado de capitais o índice Bovespa fechou em baixa pela quarta semana consecutiva, aproximando-se da importante linha de suporte (enfraquecida) na região dos 44.1k, que dificilmente conseguirá segurar a tendência de baixa de curto, médio e longo prazo.


Na China a bolsa de Xangai também fechou a semana em baixa, colada na região de suporte dos 2.000 pontos. Mercado vendido e sem perspectivas de retomada (tanto no curto prazo, quanto no longo prazo).


A bolsa do México continua brigando com a média móvel simples de 200 períodos semanal. Esta semana o índice fechou com um candle de baixa, permanecendo vendido no curto prazo.


Na Índia a bolsa de Bombay fechou a semana de lado, mostrando um candle de indecisão após o rompimento da máxima história no início deste mês. Mercado permanece dentro da tendência de alta de curto, médio e longo prazo.
  
  
Na Europa, a bolsa de Frankfurt fechou em baixa pela segunda semana consecutiva, perdendo a linha central de bollinger. O movimento acelera a correção de curtíssimo prazo, mas ainda não ameaça a tendência de alta de médio e longo prazo.


Na Inglaterra, o principal índice da bolsa de Londres fechou em baixa pela terceira semana consecutiva, traçando um quadro técnico semelhante ao apresentado pela bolsa de Frankfurt.


Nos Estados Unidos o índice Dow Jones fechou a semana em baixa, após aproximar-se da máxima histórica. O movimento corretivo de curtíssimo prazo jogou o índice de volta a linha central de bollinger. Caso esta linha de sustentação seja perdida, tendência de curtíssimo prazo poderá ganhar força, rumo ao suporte na casa dos 15.4k.


Desejo a todos vocês um ótimo final de semana!

27 comentários:

  1. Pior que não há perspectivas de troca de comando. Precisamos todos nos unirmos em torno do "voto útil" pra derrubar este lixo de governo do poder. Essa bosta de manteiga é o ministro dos mais longevos da história, como pode isso????

    Anular o voto = votar no PT.

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    1. Perspectiva muito baixa, já que a popularidade da Dilma ainda está alta. Mas acho que o PT vai ter que levar no primeiro turno. Se der segundo turno, vai juntar todos os eleitores favoráveis à troca de poder num único candidato. Neste caso a briga vai ser mais acirrada.

      Abcs, boa semana!

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  2. Blog Excelente! Parada diária obrigatória.
    Abraço

    http://blogdouo.blogspot.com.br/

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  3. Este comentário foi removido pelo autor.

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  4. Seus textos são sempre excelentes... muitos parabéns pela forma como escreve e expõe para as pessoas leigas, como eu, os grandes problemas do nosso País.
    http://forretainvestimentos.blogspot.com.br/

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  5. E pensar que Mises constatou que intervenções estatais geram efeitos colaterais que precisam de mais intervenções, que gerarão outros efeitos, resultando em intervenções sem fim e em um estado totalitário... E fez isso a mais de 100 anos atrás...

    Como diz o ditado: "A história mostra que as pessoas não aprendem com a história."

    Abs.,

    Igor

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    1. Exatamente Igor. E ainda não aprendemos nem com os erros "em tempo real" dos nossos vizinhos. Impressionante.

      Abcs, boa semana!

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  6. FI, focando no longo prazo, me parece que o momento é bom para qualquer elétrica, até eletrobras, pois essa situação é insustentável no médio prazo, de tal forma que o governo deverá revisitar essa questão e, consequentemente, impactará as elétricas. Vc concorda com essa interpretação?

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    1. esse comentário me fez lembrar de julho de 2013, quando a petro estava em torno de R$14, e todo mundo falava pra comprar porque estava barato... hoje que está nos R$12, tem gente falando a mesma coisa....

      com o pt, nada é tão ruim que não possa piorar

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    2. Trader Lusitano,

      Entendo seu ponto de vista e, de fato, tem ótimas empresas negociadas praticamente a Valor Patrimonial, uma tentação.

      Por outro lado, haverá eleições nos Estados que poderão alterar os Diretores das "ótimas empresas"; E, além do exemplo do Mauricio, veja o caso da PDVsa da Venezuela - quem diria que iriam matar a única galinha de ovos de ouro daquele País - e não é que conseguiram ?!

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    3. Trades Lusitano,

      Possibilidade muito baixa com o PT no poder. Foge totalmente da base ideológica que eles seguem. Poderíamos esperar uma mudança de perspectiva em caso de transição do poder.

      Abcs, boa semana a todos!

      PS: Pegando um ganho no exemplo do Mauricio, aconteceu a mesma coisa com diversas empresas famosas no mercado desde 2008/2010. USIM5, CSNA3, GGBR4, BTOW3, entre tantas outras. Muito bem destacado o exemplo da PDVSA. Quando a vaca estava dando leite, poucas pessoas batiam de frente contra o governo, apenas a oposição. Agora quando o leite começa a secar, o povo, anteriormente beneficiado pelo sistema, começa ir as ruas exigir do governo. Isso marca o início da fase final do sistema político.

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  7. Excelente análise, FI.

    O caso da MP 597 só exemplifica a maneira de governar da Dilma. Ela ignora os verdadeiros problemas do país para seguir os conselhos do seu mentor e do seu marqueteiro eleitoral.

    Desta forma, ela joga para a torcida e, caso perca as eleições de outubro, ainda deixa como legado a impopularidade do 'remédio amargo' para o seu sucessor.

    Abraço!

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  8. Este comentário foi removido pelo autor.

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  9. O governo deu o tiro no próprio pé, que por sinal essa é uma particularidade do PT.
    O repasse ao consumidor ficou para 2015 para não atrapalhar os planos de reeleição, que se realmente ocorrer será trágico para a economia.
    O aumento de tributos será iminente para fechar essa conta e consequentemente acelerar ainda mais a inflação.

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    1. Sim. É mais uma demonstração de que não há capacidade de gestão.

      Abcs, boa semana!

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    1. Sim. E vai ser difícil engolir o choro por mais 4 anos. Vamos ver.

      Abcs, boa semana!

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  11. Parabéns, excelente texto!
    Reforma política, reforma agrária, reforma tributária e redução de impostos isso não pode... Com tantas promessas esquecidas fico desesperado quando vislumbro que o cenário mais provável é a reeleição!

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    1. Reforma agrária? Já concederam uma França pro MST e eles ainda não conseguem produzir nem pra própria subsistência sem dinheiro governamental. Deixa as terras com o agrobusines mesmo...

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  12. Análise perfeita. Sem mais.

    Um abraço!

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  13. Esse intervenção, desastrosa, me lembra o filme, Efeito Borboleta, em que toda fez que o protagonista queria "consertar" alguma coisa ele acabava piorando a situação.
    Hoje vemos, claramente, o quanto foi equivocada essa intervenção e o alto custo que ela já causou e causará. E esse é apenas um dos vários equívocos cometidos por essa gestão. Na realidade, não consigo ver uma decisão acertada dessa gestão.
    O problema e que não vejo um Prefeito que tenha feito um trabalho no mínimo razoável. O quadro politico atual e medíocre.
    Nós somos como aquele Coiote do desenho animado que só vai saber o tamanho do abismo depois que cair nele. E claro que vou votar em alguém da oposição mas tampando o nariz.
    Seu texto e elogiável. Oxalá tivéssemos mais blogueiros do seu quilate.
    Abraços.

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