quinta-feira, 27 de março de 2014

Descompasso aumenta e euforia torna-se perigosa


A pesquisa CNI-Ibope divulgada nesta quinta-feira pela CNI (Confederação Nacional da Indústria) provocou um movimento de euforia generalizado no mercado de capitais brasileiro. A aprovação do governo da presidente Dilma Rousseff caiu 7 pontos percentuais, de 43% em novembro do ano passado para 36% em março deste ano, registrando a primeira queda desde julho do ano passado.

Este resultado induziu os investidores e operadores a comprarem ações desesperadamente na bolsa de valores, precificando um cenário de alternância de poder. Entretanto, devem-se ressaltar duas considerações importantes: (i) ainda é muito cedo para o mercado começar a precificar qualquer tipo mudança no cenário político. As campanhas e os debates nem começaram. Sequer há conhecimento das propostas dos candidatos. (ii) a pesquisa divulgada hoje não revela intenção de voto, apenas mede a popularidade da presidente. Esta mesma instituição (Ibope) divulgou, na semana passada, uma pesquisa de intenção de voto, onde aponta reeleição da presidente Dilma no primeiro turno com 40% dos votos.

A pesquisa de aprovação do governo da presidente Dilma Rousseff foi feita entre os dias 14 e 17 de março. A pesquisa de intenção de voto foi feita entre os dias 13 e 17 de março. Ambas realizadas nas mesmas cidades e com o mesmo número de eleitores entrevistados. Isso mostra que embora a popularidade da presidente Dilma tenha caído 7 pontos percentuais, os eleitores não demonstraram intenção de votar em outro candidato.

Não há, portanto, sinalização de aumento na hipótese de transição de poder. O mercado está precificando um cenário inexistente, embasado numa avaliação equivocada.

Supondo que houvesse aumento significativo das intenções de votos aos candidatos da oposição, o mercado teria, inicialmente, motivos para subir e precificar o cenário de alternância de poder. Mas este movimento seria, provavelmente, fundamentado por curtíssima duração, pois este quadro (candidatos da oposição ganhando força na corrida eleitoral) estimularia o aumento de gastos do governo, com objetivo de recuperar os votos perdidos. Isso fatalmente implicaria em mais um descumprimento da meta de superávit primário neste ano, fato que poderia culminar num novo rebaixamento na classificação de risco do Brasil, com consequente perda do grau de investimento. O mesmo raciocínio vale para o surgimento de protestos nos próximos meses, dentro do período de margem de manobra política (até o mês de agosto ou meados de setembro).

O cenário ideal para o mercado contemplaria com aumento significativo das intenções de votos aos candidatos da oposição, bem como surgimento de protestos, às vésperas das eleições presidenciais, onde não haveria possibilidade de manobras/respostas, principalmente fiscais, por parte do governo.

Desse modo, pode-se observar o surgimento do primeiro descompasso no mercado: o da variável política.

O segundo descompasso pode ser notado pela variável técnica. Embora o índice Bovespa esteja trabalhando dentro de uma tendência de alta de curto prazo, houve sinalização relevante de realização de lucros emitida pelos candles dos dois últimos pregões. Esta sinalização foi invalidada hoje, num movimento técnico atípico, caracterizado pelo rompimento da importante barreira de resistência localizada na região dos 48.7k.


A forte alta desta quinta-feira jogou o Ibovespa para a região psicológica dos 50k. Em caso de superação desta nova faixa de resistência, o índice encontrará espaço para retornar à região dos 52k.

A variável econômica constitui o terceiro, e não menos importante, descompasso do mercado. O Relatório de Inflação divulgado hoje pelo Banco Central revelou novo aumento no ritmo de deterioração do quadro doméstico. Por um lado, a projeção de inflação aumentou de maneira expressiva, do outro, a projeção de crescimento reduziu. Ambos os indicadores estão se deslocando na direção contrária do ideal.

Conforme podemos observar na tabela abaixo retirada do Relatório de Inflação, a projeção para o IPCA do Banco Central parte de 6,0% no primeiro trimestre de 2014, sobe para 6,4% até o terceiro trimestre de 2014 e recua ligeiramente para 6,1% no fechamento deste ano. O ano de 2015 abre com uma estimativa de inflação perigosamente elevada de 6,0%. É esperado um recuo de apenas 0,5 p.p. até o encerramento de 2015. No primeiro trimestre de 2016, a projeção para a inflação encontra-se em 5,4%. Essas projeções foram traçadas em cima do seguinte cenário de referência: taxa Selic mantida inalterada durante o horizonte de previsão em 10,75% a.a. e permanência da taxa de câmbio em R$2,35.


As estimativas de inflação seguem piorando a cada trimestre. Havia expectativa de que o Relatório de Inflação demonstrasse esta quebra de rotina, já que houve redução no ritmo de aperto monetário e as últimas atas do Copom (Comitê de Política Monetária do Banco Central) mostraram menos preocupação da autoridade monetária com a inflação. Este cenário não se concretizou, pois surgiram, nos últimos meses, novas fontes de pressões inflacionárias, fato que poderá prolongar o atual ciclo de aperto monetário.

Soma-se isso à permanência da política fiscal expansionista, criação de expectativas de reajustes dos preços administrados, descrença na política monetária, provável surgimento de fontes de pressões inflacionárias externas e baixa confiança dos agentes, o quadro doméstico tende a continuar se deteriorando no médio prazo. Não há sequer uma estimativa do Banco Central para convergência da inflação ao centro da meta (4,5%), o que, de fato, não colabora em nada para a necessária recuperação da confiança entre investidores, agentes, empresários e instituições.

A combinação de inflação persistentemente elevada, baixo crescimento e taxa de juros mais alta é prejudicial ao desenvolvimento econômico e corrói profundamente a lucratividade das empresas.

O mercado está comprado e assim deve ser o posicionamento dos operadores. Entretanto, a identificação destes três importantes descompassos revela ausência de fundamentos que sustentam este movimento na bolsa, ainda que no curto prazo a tendência permaneça altista e sem apresentar ponto de saída.

No mercado de câmbio,o dólar trabalha vendido no curto prazo, porém aproximando-se da primeira zona de suporte relevante localizada levemente acima da região dos R$ 2,20, onde poderá apresentar mais um ponto de entrada para posicionamentos de médio e longo prazo.
  


Nos Estados Unidos o índice Dow Jones fechou o pregão de lado, mantendo-se dentro da zona de congestão de curtíssimo prazo, sem apresentar novidades.


28 comentários:

  1. esqueceu de dizer que tem um Fundo Duplo (W) no gráfico do ibovespa, isto explica parte das compras

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    1. Fundo duplo W, com cara de ficar bonito, está acontecendo na ARZZ3, ótima empresa. Comprei hoje e já vi resultado...não percebo claramente isto no IBOV

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    2. é que é um fundo duplo assimétrico. É aceitável alguma assimetria em figuras desse tipo.

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    3. Sim, mesmo porque o mercado trabalha dentro de uma tendência de alta iniciada na semana passada. A questão é que estes descompassos não deixam o movimento saudável e requerem uma atenção especial do operador.

      Abcs, bons negócios a todos

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  2. FI, para mim que estou comprado hoje foi um dia muito bom. vou começar a botar as barbas de molho, mas me pergunto quem está comprando. Será que há algum boato em precificação de mudança de ministério visando a retomada da confiança no (des)governo petista? O Mercado conhece coisas que nós desconhecemos...

    Edu

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    1. No ministério da Fazenda provavelmente haverá substituição. Após as eleições. Antes disso é improvável. Hoje foi um movimento de euforia, típico de massa. Nos últimos dias creio que as compras surgiram naturalmente, de sistemas com entradas um pouco mais atrasadas.

      Abcs, bons trades

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  3. Olá FI.
    Para mim, a locomotiva desse imenso trem, foi a Petro. Parece que estão todos rezando para ouvir uma notícia boa, nem que seja na queda da aprovação do governo, para justificar a compra desses papeis. O investidor ainda está inconformado com uma empresa que se dobrar o valor, chega mais ou menos no seu patrimônio líquido.
    Abs.

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    1. Sim, as compras dos peixes grandes parecem que se concentraram na Petro e se espalharam (contaminaram) para as demais blue chips. Creio que o objetivo seja o de aproveitar uma oportunidade de curto prazo, sem intenções de investimento de médio e longo prazo. Mas vamos ver no que isso vai dar rsrs... Por enquanto a tendência de longo prazo do papel é de baixa. No curto prazo, a tendência é de alta.

      Abcs, bons trades

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  4. FI,

    Será que a mudança política (Dilma x Campos ou Aécio) seria suficiente para provocar um novo bull market? Sinto que os mercados emergentes caminham na mesma direção (bear market).

    Uma mudança política talvez não fosse suficiente para provocar um novo bull market propriamente dito. O que vc pensa a respeito?

    Abs,

    Miguel

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    1. Seria necessário observar a sinalização de melhora por mais uma variável, além da política. Esta segunda variável seria a econômica. Mas só vamos ter certeza quando conhecermos as propostas (e como serão executadas) dos candidatos de oposição. Existe uma expectativa muito forte de que sejam tomadas medidas pró-mercado em caso de alternância de poder. Esta expectativa já seria o suficiente para provocar um bull market.

      Grande parte dos mercados emergentes operam hoje dentro de tendências de alta de curto, médio e longo prazo. Algumas praças importantes, tais como a indiana e a mexicana, já romperam suas respectivas máximas históricas. O desempenho do Ibovespa é uma exceção.

      Abcs, bons investimentos

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  5. Senhores, o mercado não se explica, ele apenas ocorre. Surfem a tendência e não se preocupem com A ou B. Realização vai ocorrer pelo caminho, é saudável, assim como ocorre nas quedas via repique. Lembremos que ativos importantes perderam mais de 50% nos últimos meses, e uma hora a conta viria. Feliz de quem não teve medo nos 44.000 pontos e comprou, pois na próxima vez que bater neste patamar de pontos - será para perder a mínima.

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    1. Explicação sempre tem, pois é o que fazemos aqui rsrs.. Diria que o ideal é manter-se fiel à estratégia. O processo de tomada de decisão não pode sofrer interferência de A, B ou C. Deve seguir, apenas, a recomendação do sistema operacional de cada investidor/operador. Com relação ao volume financeiro da operação, esse sim inevitavelmente sofre interferência de A, B, C, D e pode atrapalhar no processo de tomada de decisão.

      Abcs, bons trades

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  6. Já li algumas vezes o Tombini comentando que há um delay entre o aumento da Selic e redução da inflação. Contando com o tempo que esse ciclo foi iniciado, não estaria na hora da inflação responder?

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    1. Ela responde timidamente porque o executivo não faz a parte dele conduzindo as contas públicas para a austeridade. É o cachorro correndo atrás do próprio rabo.

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    2. Sim. O delay é de aproximadamente 9 meses. Não está respondendo da maneira desejada porque a política fiscal continua expansionista. Como disse o Anônimo, é o cachorro correndo atrás do próprio rabo. Ou tentar dirigir um veículo pisando no acelerador e no freio ao mesmo tempo. Enquanto o Banco Central atua com medidas contracionistas, o governo atua do outro lado com medidas expansionistas. Enquanto um tenta tirar dinheiro do mercado, o outro coloca cada vez mais. Isso minimiza a eficácia do aumento dos juros.

      Abs a todos

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  7. Eu acho que estamos vivendo o que o mercado americano vivenciou parte do ano passado por outras razões: o quanto pior , melhor. Pois cada vez que saí uma notícia ruim (downgrade, CPI Petro, insatisfação popular) , a chance de ocorrer uma das duas coisas aumenta: oposição ganha ou o governo muda de mentalidade. Os dois caminhos teoricamente levam a medidas pró-mercado. O ruim é, como o FI falou, a macroeconomia. Como estamos num pano de fundo de 'cenário desafiador' (inflação resiliente, aumento de desemprego, SELIC para 2015 maior, etc) qualquer notícia que confirme isto vai recair sobre o IBOV, como um castelo de cartas. Como já foi dito: todo cuidado é pouco!

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    1. É mais ou menos a teoria Tiririca: pior que tá, não fica!

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    2. Tomara que eu esteja errado, pois estamos precisando de uma transição de poder com um choque de gestão. Mas acho que a oposição não ganha as eleições e muito menos o governo muda de mentabilidade. A história mostra que é muito difícil derrubar governos populistas. O PT investiu muito na construção de sua base de eleitores fiéis. Se forem espertos, ficam no poder enquanto a vaca continuar dando leite.

      Abs, bons negócios

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    3. Não sei se você chegou a ler a notícia, mas parece que o Lula tem o projeto de voltar em 2022, quando fará 200 anos de Independência desta querida terrinha.

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    4. Eu sei que estavam surgindo rumores para o Lula se candidatar em 2018. Neste caso, em 2022 ele estaria disputando o segundo turno. Se a oposição não acordar vai ser 200 anos de Independência e 20 anos de PT.

      Abs, bom sábado!

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    5. Acabei de ler, Dilma está preparando um pacote de bonanças para levantar o ibope dela, vai ser dinheiro jogado fora.... quero ver as contas do país agora.

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    6. Estava claro que o governo iria (vai) fazer isso, não sei como o mercado ainda não percebeu este viés negativo e bastante preocupante. É um convite para sermos rebaixados para lixo (grau especulativo).

      O discurso da Dilma na abertura do BID mostra que o governo continua adotando a política da negação. Com palavras que parecem de marqueteiro, o discurso distorce os fatos e mostra que o governo vai continuar insistindo nos mesmos erros do passado. Isso é péssimo, pois não cria expectativa de mudança (nem para 2015).

      Abs, boa semana!

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    7. Discurso da Dilma no BID:

      http://br.reuters.com/article/businessNews/idBRSPEA2T00020140330

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    8. FI,

      Antevejo muita confusão ainda. To vendido nessa nova alta do ibovespa.

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  8. FI, na sua opinião, qual o ponto de entrada do dólar?

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    1. Como a tendência de curto prazo ainda é de baixa não há como saber. Mas é viável começar a fazer compras parciais na aproximação da LTA de 2011 (que hoje passa um pouco acima dos R$ 2,20), para posicionamentos de médio e longo prazo.

      Abs, bons investimentos

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