quarta-feira, 12 de março de 2014

Em ritmo de copa do mundo, inflação fica pra torcida


O IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) informou nesta quarta-feira que o IPCA de fevereiro subiu para 0,69%, número ligeiramente acima da média das expectativas do mercado. Nos últimos 12 meses a inflação oficial acumula alta de 5,68%, mantendo-se próxima ao perigoso ponto de equilíbrio (na casa dos 6%) observado nos últimos três anos.

O resultado foi influenciado pela alta nos preços de educação. Os reajustes nas mensalidades de cursos regulares subiram 7,64% e exerceram a maior pressão sobre o índice. O forte reajuste do setor de educação provocou uma queda do indicador de difusão do IPCA para 63,6%, após atingir 71,5% no mês de janeiro, mostrando certo arrefecimento no movimento de alta generalizada dos preços. Ainda assim, difusão de 63,6% é considerado um patamar elevado/desconfortável e precisa ser reduzido para que as expectativas atualmente deterioradas dos agentes não se propaguem para outros segmentos da economia.

Mas a grande preocupação é que nova fonte de pressão inflacionária provocada pela estiagem ainda não atingiu o IPCA. A primeira prévia do IGP-M de março, divulgada hoje pela Fundação Getúlio Vargas, disparou para 1,16%, refletindo os preços mais altos dos alimentos no atacado, principalmente das hortaliças e legumes (mais prejudicados pela seca).

O movimento de aceleração dos preços de alimentos constatado no atacado chegará ao varejo nas próximas semanas/meses, aumentando a pressão sobre o IPCA. O quadro permanece preocupante, pois novas fontes relevantes de pressões sobre os preços impactarão a inflação no curto prazo e não há margem de manobra para o Banco Central evitar um estouro da meta (6,5%) no final deste ano, já que há um delay de pelo menos 9 meses para que as ações de política monetária gerem impacto efetivo na economia.

A inflação acumulada do primeiro bimestre deste ano deixou um espaço de apenas 5,26 pontos percentuais para serem distribuídos pelos 10 meses restantes de 2014 (inflação média de 0,53% por mês) para que o teto da meta estabelecida pelo CMN (Conselho Monetário Nacional) não seja superado, deteriorando ainda mais as expectativas dos agentes, investidores, empresários e agências de classificação de risco.

É uma conta bastante apertada levando em consideração a retomada de crescimento da economia global (onde há o efeito colateral da inflação), necessidade de reajustes dos preços administrados, aumento expressivo da demanda por produtos vinculados à copa do mundo (principalmente televisores) e da própria incapacidade de infraestrutura/atendimento das cidades frente ao aumento do número de turistas. São novas fontes de pressões sobre os preços que podem limitar os efeitos contracionistas provocados pelo ciclo de aperto monetário.

O presidente do Banco Central, Alexandre Tombini, fez os comentários sobre a política monetária durante sua palestra para investidores na Conferência Macroglobal no Brasil, promovida pelo banco Goldman Sachs em São Paulo, provavelmente com a finalidade de conter os ânimos no mercado. Tombini afirmou que tem atuado para garantir que a inflação vá para a trajetória de metas, mas não disse como e nem quando, já que a última projeção do Relatório de Inflação, divulgada no mês de dezembro, revela que o Banco Central está muito longe de atingir o seu objetivo, conforme podemos verificar no quadro abaixo:


A estimativa do Banco Central mostra um ligeiro recuo do IPCA para 5,5% até o segundo trimestre de 2014, mas volta a subir para 5,7% no terceiro trimestre e encerra o ano em 5,6%. Em 2015 a taxa de inflação abrirá perigosamente pressionada em 5,7%, apresentando um pequeno recuo nos próximos trimestres, encerrando o ano em 5,4%.

Daqui pra frente, só resta torcer. Torcer para que o câmbio não ultrapasse os R$ 2,40. Torcer para o governo ser responsável na política fiscal. Torcer contra a indexação. Torcer para que os agentes sejam otimistas e não pessimistas. Torcer para empresas e famílias economizarem água e luz, mesmo sem o alerta do Estado. Torcer para que a alta dos preços administrados seja modesta. Torcer para as pessoas se virarem e não contratem serviços. Torcer para os agricultores e pecuaristas serem gentis e não subirem mais os preços. Torcer para que as TVs fiquem encalhadas nas lojas. E por que não torcer para que a Bósnia-Herzegovina seja a campeã da copa do mundo? É quase a mesma coisa.

No mercado de capitais o índice Bovespa fechou o pregão em alta de 0,36%, mostrando um pequeno movimento de alívio de curtíssimo prazo, ainda insuficiente para provocar uma reversão na tendência de baixa, já que a linha dos 46.1k não foi superada.


Nos Estados Unidos o índice Dow Jones cedeu 0,07%, deixando um candle de indecisão abaixo da LTA dos 15.3k, não confirmando rompimento desta linha de sustentação.


9 comentários:

  1. Grande FI, por mais que ficar na torcida seja sempre desconfortável, quando nada se pode fazer para remediar a situação, o PT tem sido muito sortudo nos seus 12 anos de poder, dos quais haverão pelo menos mais 4 pela frente. E essa que é a desgraça, pois se não houvesse super ciclo das commodites, o segundo mandato do Lula já teria trazido tantos revezes que hoje o PT nem cogitaria reeleição de Dilma. Entretanto, o PT foi sortudo e acredito que teremos mais 8 anos de PT a vista.

    Para o povão, acredito que uma política de indexação acabará sendo criada para rolar o problema para o futuro, acreditando eles que o Brasil poderá novamente pegar carona em uma futura fase de crescimento global. E se alguma coisa nesse sentido por acaso acontecer, a política predatória do PT ganha mais uns bons meses de sobrevida. Não vejo outra resposta do governo nesse momento.

    Particularmente eu sou favorável a certa indexação, pois, por mais que agrave a inflação como um todo, consegue manter pelo menos em parte o poder de compra de quem trabalha. O problema que, como tudo no Brasil, esse fenômeno deve se dar de forma tanto politiqueira, criando um problema de 3x quando seria possível ser de apenas x.

    O problema da falta de investimento no Brasil, que se deve sobretudo ao governo, sempre poderá ser atribuído "aos especuladores, aos Estados Unidos e aqueles que não querem ver o Brasil crescer" e as outras baboseiras semelhantes que povoam o imaginário popular desde a década de 1980.

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    1. Concordo plenamente com a primeira parte do seu comentário. Já a segunda parte, referente à indexação, é um caminho sem volta que ainda pode ser evitado, desde que o governo faça o seu dever de casa criando condições para o ressurgimento da oferta. Esta é a melhor forma de combater a inflação. Mas confesso que esta possibilidade é remota. Na minha opinião é mais provável que o governo continue tentando administrar o índice utilizando todos os mecanismos possíveis (intervenções, Tesouro, eliminar barreiras aos importados, etc). Também não vai funcionar, apenas prolongar o problema.

      Abcs, bons negócios

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  2. Por que o BC não está atuando pra conter a inflação via aumento do compulsório?

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    1. Boa pergunta!
      Acho que o Banco Central está guardando esta carta na manga (as chamadas medidas macroprudenciais) para utilizar no terceiro ou quarto trimestre deste ano, quando ficar evidente que a inflação fechará longe do centro da meta (4,5%). São medidas de impacto bastante limitado, mas que servem para mostrar ao mercado que a autoridade monetária está atuando para "combater a inflação".

      Abcs, bons investimentos

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    2. O BC não atua via aumento de compulsório porque se o fizesse deixaria de tornar investimentos internos interessantes, o que poderia levar a uma disparada do dólar, apesar da "ração diária".

      A disparada do dólar volta a elevar a inflação, então melhor usar a tática de elevar juros, politicamente mais negativa porém atua em ambas as frentes: diretamente freando consumo e também atraindo dólares via carry trade.

      Abraços,

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  3. Eu estou fazendo meu dever cívico de manter luzes e computadores ligados 24 x 7. É dever de todo o cidadão consciente fazer isso para demover o PT do poder.

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    1. Sim. É preciso colocar os "pingos nos is".

      Abcs, bons negócios

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    2. Sim. É preciso colocar os "pingos nos is".

      eu diria melhor, algumas azeitonas em algumas cabeças

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  4. IBOV aparentemente perdeu a LTA primária. Embora você tenha dito não dar muita relevância a isso, não seria, pelo menos, um péssimo sinal?

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