quinta-feira, 6 de março de 2014

Está na hora de deixar a Selic trabalhar


A última ata de reunião do Copom (Comitê de Política Monetária), realizada nos dias 25 e 26 de fevereiro, divulgada nesta quinta-feira, apresentou pouquíssimas alterações. O documento é praticamente uma cópia da ata de reunião dos dias 14 e 15 de janeiro.

Entretanto, as pequenas modificações apresentadas no texto do documento são extremamente relevantes ao futuro da política monetária. O título deste artigo resume a mensagem transmitida pelo Banco Central ao mercado: “está na hora de deixar a Selic trabalhar”.

De maneira geral, as pequenas alterações no texto foram suficientes para demonstrar que o Banco Central está menos hawkish (defensor de juros mais altos) do que o de costume. A primeira sinalização técnica relevante refere-se à interrupção da trajetória ascendente das estimativas de inflação feitas pela autoridade monetária.

A projeção para a inflação de 2014 permanece acima da meta de 4,5%, mas se manteve relativamente estável comparativamente ao valor considerado na última reunião do mês de janeiro deste ano. Para 2015, a projeção de inflação reduziu-se em relação ao valor considerado na reunião do Copom de janeiro, embora continue acima da meta. Estas novas estimativas do Banco Central revelam o início de uma melhora constatada nas trajetórias dos índices de preço, a serem confirmadas nas próximas reuniões, apresentando uma inflação futura menos pressionada, tendencialmente descendente.

Vale ressaltar que as novas projeções da autoridade monetária foram traçadas em cima do seguinte cenário de referência: manutenção da taxa de câmbio em R$ 2,40 e da taxa Selic em 10,50% ao ano em todo o horizonte relevante. Estes números poderão melhorar com o novo patamar da taxa Selic em 10,75% na próxima reunião do Copom a ser realizada nos dias 1 e 2 de abril.

Já no campo que delibera os fatores responsáveis pela implementação da política monetária, onde ficou decidido subir a taxa Selic em 0,25 p.p., para 10,75% ao ano, os integrantes do Comitê acrescentaram no parágrafo 21 que a expansão da absorção interna se aproxima paulatinamente das taxas de crescimento do PIB (Produto Interno Bruto), fato que reforça a constatação de redução do significativo desequilíbrio entre oferta e demanda, fonte clássica causadora de pressões inflacionárias.

A próxima modificação aparece apenas no parágrafo 26 da ata. “O Copom pondera que, não obstante moderação observada na margem, a elevada variação dos índices de preços ao consumidor nos últimos doze meses contribui para que a inflação ainda mostre resistência, que, a propósito, tem se mostrado ligeiramente acima daquela que se antecipava.” A expressão “não obstante moderação observada na margem” foi adicionada para dar ênfase à mudança direcional nas perspectivas de inflação, agora menos pressionada.

Por fim, o parágrafo 31 salienta a mensagem transmitida pelo Banco Central destacada no título desta analise. Na ata de reunião dos dias 14 e 15 de janeiro “o Comitê pondera que a transmissão dos efeitos das ações de política monetária para a inflação ocorre com defasagens.” A palavra “transmissão” foi retirada do documento divulgado hoje, para indicar que os primeiros efeitos da política de aperto monetário (mais especificamente ciclo de alta dos juros do segundo trimestre de 2013) não estão mais em fase de transição e já atingiram a economia.

Os membros do Comitê ainda acrescentaram a palavra “cumulativos” no trecho final do parágrafo 31 (“os efeitos das ações de política monetária sobre a inflação são cumulativos e se manifestam com defasagens”) para salientar que os impactos na economia tendem a aumentar nos próximos trimestres deste ano, reflexo da continuação do ciclo de aperto monetário durante o terceiro e quarto trimestre de 2013.

Estas indicações reforçam a percepção de que o atual ciclo de aperto monetário está próximo do fim. Um novo e derradeiro aumento de 0,25 p.p. na taxa básica de juros deverá marcar o fim deste ciclo. A partir do segundo trimestre deste ano o Banco Central deverá manter a taxa Selic em patamar próximo aos 11% ao ano, enquanto avaliará a potência do impacto provocado pelo ciclo de aperto monetário em 2013. Em outras palavras, a autoridade monetária quer deixar a taxa Selic trabalhar e, posteriormente, analisar o seu desempenho (satisfatório ou não).

No mercado de capitais, o índice Bovespa realizou um movimento de recuperação nesta quinta-feira, sustentado pela alta das ações dos principais bancos do País, refletindo à divulgação da ata do Copom. A reação observada hoje deixa dúvidas quanto ao potencial de novas altas no curtíssimo prazo, já que o mercado permanece pressionado pela LTB dos 56.7k, mantendo-se dentro de uma zona de congestão entre os 48.7k e 46.1k.


O Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior informou que a balança comercial brasileira registrou déficit recorde para o mês de fevereiro, no valor de 2,12 bilhões de dólares. O mercado esperava um rombo ainda maior, em torno de 3 bilhões. O resultado foi influenciado pelos aumentos nas importações de petróleo e bens de consumo duráveis.

Na Europa o BCE (Banco Central Europeu) decidiu manter a taxa de juros na mínima histórica de 0,25% e não apresentou nenhuma outra medida para impulsionar a retomada econômica na zona do euro, mesmo com fortes indícios de inflação mais baixa nos próximos meses/anos. Segundo Mario Draghi, presidente do BCE, “a recuperação está nos trilhos e não há necessidade de novos estímulos por enquanto.”

A bolsa de Londres fechou em alta de 0,19%. Frankfurt encerrou o dia estável. Paris avançou 0,59% e Milão subiu 0,39%.

Nos Estados Unidos o índice Dow Jones avançou 0,38%, num pregão marcado de poucas oscilações e falta de novidades, aproximando-se da máxima histórica.

6 comentários:

  1. Mesmo o FED cortando os estímulos, vc acredita que a Selic continue neste mesmo patamar? Acredito que haverá uma interrupção do aumento da Selic até as eleições, a partir do quarto trimestre acho que não terá como o desgoverno manter a atual taxa.

    Ivan

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    1. Sim. Por enquanto o tapering não tem causado impacto relevante no mercado, mesmo porque o excesso de liquidez no sistema começará a ser retirado apenas quando a federal funds rate subir. Nesta fase crítica de desalavancagem, sim. A taxa Selic provavelmente entrará numa segunda onda de aperto monetário.

      Abcs, bons trades

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  2. O ano está nebuloso. Acho que essa análise vale até a eleição aconteça o que acontecer. Mas o altíssimo déficit na balança comercial nesses dois primeiros meses pode relaxar o controle do dólar, que pode aumentar ainda mais a taxa de inflação em conjunto com a inevitável liberação dos preços administrados. Só uma retração muito grande da economia manteria essa taxa nesse nível. Não temos mais moral e confiança, esse é o ponto.

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    1. Exatamente. Não é uma estratégia de longo prazo do Banco Central, mas sim de curto e médio prazo. A taxa Selic deverá permanecer estável nos próximos dois trimestres, enquanto a autoridade monetária avalia o impacto do aperto monetário. No longo prazo (a partir de 2015), novos aumentos da taxa Selic são inevitáveis, acompanhando o aumento do prêmio (juros da dívida soberana) nos desenvolvidos e retomada da inflação global.

      Com relação ao câmbio, o Banco Central ainda tem bastante margem de manobra antes de recorrer à medida desesperadora (choque de juros) para segurar uma fuga de capitais e, consequentemente, disparada da inflação. Este cenário é improvável no curto prazo.

      Abcs, bons negócios

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  3. E mais um ano em que o governo trabalhará com um número irreal no centro da meta de inflação.

    Está bem claro que há um discurso usando 4,5% como centro de meta, mas tolera-se sem qualquer problema 6,5%...

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    1. Sim, não há ninguém no mercado que acredite no objetivo de 4,5%. As expectativas estão corroídas, isso é péssimo e alimenta os efeitos de indexação.

      Abcs, bons negócios

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