quarta-feira, 5 de março de 2014

O xadrez do gás


A Rússia assustou o mundo no último final de semana. Veículos militares cruzaram a fronteira com a Ucrânia, ocupando pontos estratégicos na província de Crimeia. Soldados russos portando fuzis de assalto retiraram as insígnias de seus uniformes e cercaram bases militares ucranianas de Sevastopol (a mais importante, pois abriga os esquadrões de caças MIG da força aérea ucraniana), Balaklava, Perevalnoye, Feodosiya e Kerch.

O ministro das Relações Exteriores russo, Sergei Lavrov, justificou a invasão para defender os direitos fundamentais dos russos que vivem na Ucrânia, ameaçados, segundo o ministro, pelas ações das novas autoridades ucranianas.

O poder na Ucrânia está agora nas mãos de um governo interino presidido por Aleksandr Turchinov desde que uma revolta civil conseguiu desbancar o anterior líder, apoiado pelos russos, Viktor Yanukovich, no último dia 22 de fevereiro.

É importante ressaltar que a Rússia tem uma ligação histórica com esta região desde a época de Catarina a Grande, quando o exército russo conseguiu conquistar a península pertencente ao antigo Império Otomano.

Em 1944, durante a Segunda Guerra Mundial, o líder russo Joseph Stálin deportou cerca de 300 mil pessoas de origem tártara da Crimeia, sob a acusação de cooperação com o regime nazista alemão.

Em 1954, o então líder soviético Nikita Khrushchev, de origem ucraniana, permitiu que a Crimeia fosse anexada à Ucrânia. Já em 1991, quando a Ucrânia conquistou a independência, o presidente russo Boris Yéltsin aceitou que a Crimeia continuasse parte da Ucrânia, desde que a frota russa do Mar Negro permanecesse em Sevastopol, notoriamente devido à relevância geopolítica da região.

Foi assinado, então, um acordo com a Ucrânia. A Rússia pode manter até 25 mil soldados na península. Atualmente, 16 mil soldados das forças militares russas estão na região. Restam, portanto, 9 mil militares russos para estourar o limite definido nos termos do acordo. Esta foi a brecha “legal” encontrada pela Rússia para violar as leis internacionais e realizar as manobras descritas no primeiro parágrafo deste artigo.

Entretanto, a probabilidade de um conflito militar na região é extremamente baixa. As hipóteses levantadas pela mídia são puramente sensacionalistas. Por trás das cortinas, a Rússia está realizando, na verdade, uma manobra econômica desesperadora e não militar.

O PIB (Produto Interno Bruto) da Rússia avançou apenas 1,3% no ano passado e as projeções recentes do Banco Central russo apontam para um crescimento econômico inferior a 2% até 2016. O mercado global de energia evolui de maneira desfavorável aos russos, deixando a economia do País numa situação delicada, devido à forte dependência das exportações de commodities, sobretudo de fontes de combustíveis não renováveis.

A Rússia é o maior fornecedor de gás natural da Europa. 30% de todo o gás natural importado pelos países europeus vêm da Rússia. Metade desse gás passa pela Ucrânia. Está claro, portanto, o primeiro alicerce desta manobra econômica.

Mas a trajetória de consumo de gás russo pelos países europeus é vertiginosamente descendente. Segundo estatísticas da União Europeia, em 2003, 45% de todo o gás natural importado pelos países europeus eram de origem russa. Além disso, a Europa está menos dependente da conexão de gás russo que passa pela Ucrânia, devido à construção de novas rotas no mar Báltico, na Polônia e na Bielorússia.

Tudo isso tem irritado os russos nos últimos dez anos, que resolveram agir de maneira desesperadora, frente à menor entrada de euros/dólares em seus cofres. Hoje, o fornecimento de gás rende à Rússia cerca de 100 milhões de dólares por dia, o que representa cerca de 3% de toda a produção econômica do País. O teatro russo na Crimeia provocou uma elevação de 10% nos contratos futuros de gás no início desta semana. Está definido, portanto, o segundo alicerce desta manobra econômica. A Rússia quer/precisa do dinheiro do ocidente para respirar e encontrou uma maneira de ganhar mais no curto prazo.

A princípio, as ameaças de ambos os lados não passam de blefes, ainda que perigosos. Os Estados Unidos congelaram suas poucas ações militares e comerciais que estavam em andamento com a Rússia, mas nenhuma sanção foi imposta. O impacto deste congelamento é insignificante, pois não afeta os acordos firmados no passado. Além do mais, os Estados Unidos não estão nem entre os dez maiores parceiros comerciais da Rússia. Por este motivo, Barack Obama, presidente dos Estados Unidos, tem adotado um discurso mais duro com Vladimir Putin, presidente da Rússia.

A Alemanha está cautelosa, tanto por motivos geopolíticos (próxima à Ucrânia), quanto por motivos econômicos (1/3 das importações de gás da Alemanha vêm da Rússia). Os ingleses não pretendem apoiar sanções comerciais ou fechar o centro financeiro de Londres aos investidores russos, que estão entre os principais players locais.

A adoção de sanções comerciais relevantes de países da União Europeia contra a Rússia é altamente improvável e prejudicaria os dois lados. A Rússia retaliaria as sanções interrompendo seu fornecimento de gás para os europeus, que seriam obrigados a comprar gás mais caro de outros países, como a Noruega, por exemplo, fato que prejudicaria a debilitada recuperação econômica da zona do euro. Já a deteriorada economia russa também seria prejudicada, com a perda de mercado relevante na Europa.

Fora da Europa, os japoneses não querem criar atrito com os russos. O desastre de Fukushima, em 2011, forçou o fechamento de importantes usinas nucleares no País. Para compensar a perda de energia nuclear, o Japão é obrigado a importar grandes quantidades de combustíveis fósseis, sobretudo da Rússia. O primeiro-ministro japonês Shinzo Abe assumiu o poder a pouco mais de um ano, mas já realizou cinco reuniões formais com Vladimir Putin.

A China é o segundo maior parceiro comercial da Rússia e mantém-se distante das polêmicas em torno do conflito. O governo chinês tem uma agenda de transição econômica difícil pela frente e precisa, mais do que nunca, preservar suas relações comerciais com seus principais parceiros.

Observando as peculiaridades das principais potências econômicas mundiais, a Rússia encontrou espaço para realizar um pequeno movimento com a sua torre no tabuleiro de xadrez do gás. A Europa é o “bispo”. O Japão é o “cavalo”.  A China é a “rainha”. E os Estados Unidos é o “rei”, justamente a única peça que poderia apimentar este jogo. Mais não vai, pois está bloqueada pelas demais.

No mercado de capitais o índice Dow Jones cedeu 0,22% nesta quarta-feira, mantendo-se dentro do movimento de recuperação observado nos últimos pregões, rumo à máxima histórica, que deverá ser superada nos próximos dias/semanas.


O topo histórico do índice S&P500 foi superado esta semana, conforme podemos observar no gráfico abaixo.


Na Europa, as bolsas de Londres (Inglaterra) e Frankfurt (Alemanha) trabalham próximas de suas respectivas máximas históricas. Já no Brasil, o índice Bovespa foi novamente barrado pela LTB dos 56.7k, formando mais um topo descendente na região dos 47.8k.
  

O retorno para a região de suporte dos 46.1k, num curto espaço de tempo, sinaliza que apesar de o mercado estar congestionado no curtíssimo prazo (entre os 48.7k e 46.1k), a balança está pesando mais para o lado vendedor.

22 comentários:

  1. FI, interessantíssima análise. Parabéns.

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  2. FI, atenção à crise gerada pela OTAN na instalação do escudo antimísseis voltado contra a Rússia.

    Na Romênia já estará operacional em 2015, enquanto que o sistema estará 100% em 2018 na Polônia e Turquia.
    http://www.diariodarussia.com.br/internacional/noticias/2013/10/29/estados-unidos-e-otan-iniciam-instalacao-do-escudo-antimisseis-europeu/

    As autoridades russas já sinalizaram um ataque preventivo para destruir a "ilusão do lançamento de um ataque destrutivo impune" ( chefe do Estado-Maior General das Forças Armadas russas, Nikolai Makarov).
    http://www.jn.pt/PaginaInicial/Mundo/Interior.aspx?content_id=2455083

    No Pacífico, os EUA também estão implementando o sistema contra a China, que já se mostrou inquieta.
    http://noticias.terra.com.br/mundo/asia/eua-defendem-ampliacao-de-escudo-antimisseis-china-critica,8752d29cae47d310VgnCLD2000000dc6eb0aRCRD.html

    Medvedev em rede nacional (2011) também advertiu o Ocidente sobre os riscos do escudo.
    http://www.youtube.com/watch?fv=lzxqw_f6hTU

    Resumindo, a OTAN está promovendo um cerco contra a Rússia, que tem até 2018 para deter a escalada e a ilusão de um ataque nuclear sem retaliação dos russos, ao mesmo tempo que na Ásia segue a mesma política de confronto com a China.

    Há muito mais em jogo, e os interesses russos são urgentes no sentido de sobreviver à desestabilização promovida pelos americanos. A questão do gás está presente, mas é apenas mais um fator da equação, que pode causar a fratura dos EUA com os ingleses e alemães.

    Ricardo

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    1. Boas observações Ricardo!

      Evitei adentrar muito nesta questão militar para não prolongar o texto e fugir do nosso foco. Apesar de tudo, a possibilidade de ocorrer um conflito armado entre dois países é significativamente baixa. Hoje em dia as guerras são diplomáticas e a instalação deste escudo aumenta a pressão e margem de manobra do Ocidente. Não se utiliza mais a força militar para derrubar um País num mundo globalizado, basta adotar sanções econômicas.

      Abcs, bons negócios

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  3. E o tal de BRICs vai aos poucos desmoronando...

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    1. Sim, a situação está um pouco complicada para todos. Uns mais, outros menos.

      Abcs, bons investimentos

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  4. Muito bem observado, como de costume. O setor energético, gás e petróleo, responde como a maior pauta de exportação russa, tornando o desempenho de sua economia dependente desse setor. E ao mesmo tempo, o gás acaba sendo também um forte argumento (moeda de troca) dos russos no leste europeu, servindo para financiar grupos mais ligados etnicamente à influência Russa. No momento onde necessidade encontra oportunidade, esses choques acabam acontecendo. Mesmo que na verdade, sejam mais amostras de influência do que ameaças a paz realmente.

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  5. Concordo que os objetivos primários de Putin sejam econômicos, mas é fato que ele representa um dos adeptos do Eurasianismo, que está nascendo como uma nova força perante o Ocidente, cujas ideias questionam inclusive a democracia ocidental como um sistema ideal.

    Parabéns pelo artigo.

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  6. A Rússia está ciente do que pode acontecer caso ela se descontrole e gere uma guerra na Ucrânia, por este motivo eles não irão entrar em conflito, pois sabem que se outros países ajudarem a Ucrânia ela estará em uma situação muito delicada.
    Agora, que ela controla boa parte do gás isso é verdade, e com isso ela pode cessar o fornecimento criando um caos em grande parte da Europa, e este é um pequeno ponto que pode estar deixando os europeus um pouco desconfortáveis.

    Estagiário
    http://oblogdoestagiario.blogspot.com/

    Uta!

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    1. Sim, do ponto de vista econômico estão todos no mesmo barco. Se houver sanções, haverá retaliação e todos afundariam abraçados no barco.

      Abcs, bons negócios

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  7. Todas as guerras, via de regra, estão vinculadas ao poder econômico. E a Russia já tem experiência nesse riscado. O episódio da Chechênia não é tão antigo para estar nos livros de história...

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    1. Antigo realmente não é. Mas envolve um contexto bem diferente.

      Abcs, bons investimentos

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  8. Muito boa, vou compartilhar com os colegas. abraço

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  9. http://www.diariodarussia.com.br/internacional/noticias/2014/03/09/henry-kissinger-analisa-situacao-da-ucrania-e-da-russia-em-artigo-no-washington-post/

    Uma analise histórica e cultural interessante, mas afirmar que "a União Europeia não está contribuindo para resolver o problema ucraniano, mas sim para fortalecer a crise" não bate com a questão do gás.
    Esses velhos políticos judeus, não os entendo. Mesmo já com um pê na cova ainda insistem no uso de hipocrisia para defender seus interesses (quem não está contribuindo são os EUA!). Vai jogar bingo, vêio!

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  10. Parabéns ! Muito informativo, de fácil leitura..

    OBS: Rachei na parte: '' A Europa é o “bispo”. O Japão é o “cavalo”. A China é a “rainha”. E os Estados Unidos é o “rei”, justamente a única peça que poderia apimentar este jogo. Mais não vai, pois está bloqueada pelas demais.''

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