quarta-feira, 19 de março de 2014

Yellen deixou escapar a previsão do tempo


A reunião do Comitê de Política Monetária do FED (Federal Reserve - Banco Central dos Estados Unidos) terminou na tarde desta quarta-feira. Houve novo corte de 10 bilhões de dólares nos programas de estímulos monetários, reduzindo o montante total para 55 bilhões de dólares. Conforme esperado, a autoridade monetária também mudou os parâmetros para subir a taxa básica de juros.

Até ontem, a promessa era de que a Federal Fundas Rate (taxa básica de juros dos Estados Unidos) seria mantida entre zero e 0,25% bastante tempo depois que o índice de desemprego chegar aos 6,5%.

Em comunicado divulgado após a reunião de Comitê, o Banco Central dos Estados Unidos descartou oficialmente a taxa de desemprego como gatilho para subir os juros. Essa decisão vai depender, agora, de uma ampla gama de fatores sobre o mercado de trabalho, inflação e situação do sistema financeiro.

Ainda assim, os integrantes do Comitê esperam que, mesmo depois de o emprego e a inflação estarem perto de níveis mais consistentes (na fase final do tapering), as condições econômicas podem, por algum tempo, justificar a manutenção da taxa de juros entre zero e 0,25%.

Um repórter do Wall Street Journal aproveitou a coletiva de imprensa realizada após a reunião de Comitê para perguntar à Janet Yellen, presidente do FED, o que seria esse “por algum tempo”, destacado no comunicado do Banco Central. Ou, em outras palavras, por quanto tempo depois do término do tapering a Federal Funds Rate começaria a subir?

Yellen não fugiu da pergunta, mas deixou escapar a previsão do tempo que todos estão querendo ouvir há bastante tempo no mercado financeiro: cerca de seis meses.

A julgar pelo ritmo de redução no volume dos estímulos monetários, pode-se projetar que o programa será totalmente extinto no mês de outubro deste ano. Isso significa que o ciclo de aperto monetário nos Estados Unidos poderá começar já no mês de Abril de 2015 (seis meses após o término do tapering).

A presidente do FED ressaltou na entrevista que esta não é uma data pré-definida e dependerá da evolução do mercado de trabalho, do ritmo de retomada econômica e das projeções de inflação.

De qualquer maneira a informação é extremamente relevante. O mercado agora já tem uma noção do timming do aperto monetário nos Estados Unidos. Grande parte dos gestores, investidores, players e operadores que trabalhavam com expectativas mais longas (final de 2015 e/ou meados de 2016) revisarão suas respectivas estratégias.

Houve uma mudança relevante no calendário do FED. As expectativas de aperto monetário anteriormente transmitidas nos comunicados da autoridade monetária eram mais longas, dando a entender que a Federal Funds Rate subiria apenas no final de 2015 ou em meados de 2016.

Hoje, 13 dos 16 membros do Comitê de Política Monetária do FED esperam subir a taxa básica de juros já no próximo ano. Dois esperam subir em 2016 e apenas um em 2014.

A taxa de inflação pode ser a grande responsável por este encurtamento no calendário do FED. Para 2014, as projeções do Banco Central norte-americano apontam para uma inflação entre 1,5% e 1,6%, ligeiramente mais apertada frente à última estimativa de 1,4% a 1,6% realizada em dezembro do ano passado. Para 2015, a previsão aponta para uma taxa de inflação entre 1,5% a 2%.

Já a taxa de desemprego deve cair para 6,1% a 6,3% em 2014, melhor do que a última projeção de 6,3% a 6,6% realizada em dezembro do ano passado. Para 2015, a previsão também melhorou, passando de 5,8% a 6,1% para 5,6% a 5,9%.

O PIB (Produto Interno Bruto) dos Estados Unidos deve subir entre 2,8% e 3% em 2014, ligeiramente inferior à última projeção de 2,8% a 3,2% realizada em dezembro do ano passado. Para 2015, o Banco Central espera um avanço de 3% a 3,2%, ante os 3% a 3,4% previstos anteriormente.

A mão dos integrantes do Comitê está mais pesada para subir os juros. A última projeção de dezembro do ano passado apontava que a Federal Funds Rate atingiria os 1,75% no final de 2016. Hoje as autoridades do FED já esperam encerrar 2015 com uma taxa básica de juros em 1%. Para 2016, a estimativa subiu para 2,25%.

Os investidores tiveram pouco tempo para digerirem estes dados importantes, mas foi possível observar impacto imediato no mercado. O Yield (taxa de juros) do título público de 10 anos do Tesouro norte-americano disparou para 2,78% no final do pregão.


O índice Dow Jones caiu forte após a presidente do FED soltar a previsão do tempo (cerca de seis meses) na coletiva de imprensa. Caso a linha central de bollinger seja perdida amanhã, a região de suporte (agora enfraquecida) localizada na faixa dos 16k deverá ser testada novamente.
  

No Brasil o índice Bovespa foi na direção contrária do mercado e fechou o pregão em alta de 0,90%, impulsionado pelas condições técnicas que favoreceram o rompimento da linha de resistência localizada na região dos 46.1k. O mercado encontrou uma brecha técnica para subir no curtíssimo prazo, mas já encostou na LTB dos 56.7k e linha central de bollinger, resistências importantes para definição de tendência.


17 comentários:

  1. segura essa, diuminha.

    tombini, para de gaguejar, e começa a pensar outside the box pra tentar segurar o dólar agora, gordinho

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  2. Isso me surpreendeu. Eu era um dos que achava que o aumento da FFR ficaria para 2016. Achei, inclusive, que a tal fala da Yellen seria no sentido de colocar mais certeza nesse "muito tempo depois". Mas se agora a análise é de que poderá ser já no 1º semestre de 2015, então estávamos interpretando errado antes?

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    1. Não creio que houvesse uma interpretação errada, mas o fato é que os números recentes dos EUA têm se mostrado consistentemente melhores que as previsões; Até a inflação dá sinais de visar o alvo dos 2%.

      Mudando os fatos, muda-se a velocidade de implementação da estratégia, concorda ?

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    2. flashfs,

      Surpreendeu o mercado inteiro rs... Não estávamos interpretando de maneira errada. O FED indicava isso desde o segundo semestre do ano passado e insistiu bastante neste ponto. Ganharam tempo e conseguiram derrubar temporariamente o Yield da Treasury de 10 anos. Mas a avaliação da autoridade monetária mudou. Conforme destacou o PB, os indicadores econômicos estão surpreendendo as projeções do FED. Quanto maior a velocidade de retomada econômica, menor será o tempo de permanência da Federal Funds Rate entre zero e 0,25%.

      Abcs, bons negócios a todos

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  3. Caro FI,

    Interessante a informação referente ao prazo aproximada de 6 meses.
    A nossa Selic nos 11% e os Federal Funds Rate nem aumentaram! Quando começar para valer, o que acontecerá com o no Brasiillll?
    Vejo que o pior poderá acontecer se não tivermos uma alternância no Poder. Inflação alta (sem perspectiva de baixa em 2015), taxa de juros elevadas, pibizinho, contabilidade criativa etc.
    Obrigado pela resposta.
    Bons negócios tb

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    1. Daniel,

      Situação bastante complicada, pois a taxa básica de juros subirá também na Inglaterra (provavelmente já no final deste ano). Na verdade os juros subirão nas principais economias mundias, pois estará iniciando um novo ciclo de alta da inflação global (reflexo da retomada econômica). Inevitavelmente este ciclo de inflação global atingirá o Brasil. Se hoje o Banco Central não consegue conter a inflação no objetivo de 4,5%, fruto exclusivo das pressões internas, será ainda mais difícil atingir a meta a partir de 2015/2016 quando a inflação receberá fonte relevante de pressões externas. Os países desenvolvidos e alguns emergentes próximos de subir os juros trabalham com margens confortáveis, já que seus índices de inflação oscilam, atualmente, abaixo do centro da meta. Nós já não temos esta gordura para ser queimada, já que a inflação oscila no teto da meta. Portanto, o aperto aqui poderá ser mais forte, infelizmente.

      Abcs, bons investimentos

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    2. Gostaria de saber o que vai acontecer ao emprego quando este cenário se instalar de vez.

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    3. No Brasil o desemprego tende a aumentar. Mas a intensidade deste movimento dependerá da política fiscal, enquanto expansionista os impactos no mercado de trabalho serão limitados.

      Abcs, bons negócios

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  4. Resumidamente,apos a ultima crise os mercados e o sistema financeiro foi salvo e os indices das economias desenvolvidas dispararam para novos maximos.Mas na realidade o povo vive pior em toda aparte do mundo,pelo menos é o que me parece,por exemplo nos EUA o setor de varejo esta nas ruas da amargura o que me leva a pensar que se os interesses dos mercados foram salvos ja os da desigualdades sociais agravaram-se....Agora na sua opinião o que o FI acha entretanto,o que vai suceder relação aos mercados, ja que se vao tirando os estimulos inclusive a subida da taxa de juro?
    No caso dos emergentes pelo que ja pude ler aqui mesmo estando deprimidos podem ser os mais penalizados,mas e os que andam em maximos historicos,são sustentaveis a estes niveis...ja que os fundamentos se aplicam com melhorias nos PIB?
    Ou na verdade ja esta praticamente tudo absorvido e logo vai haver uma correção forte nos desenvolvidos?

    paulo baptista

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    1. Ou seja da para ter uma pequena ideia temporal sobre atê quando os mercados desenvolvidos podem andar nesta consolidação e ou ate ainda subir mais,atualmente da-me a ideia que o mercado me esta a falar que ainda vai subir mais principalmente no que toca a commodities uma vez que ainda esta muito abaixo não digo de 2007 porque isso parece-me impossivem,mas dos maximos 2011 parece-me credivel,ou seja como sabemos os indices podem estar a subir ou cair que ha sempre setores que tambem estao em contraciclo,que foi precisamente o que aconteceu com as commodities.

      Agradecido pelo esclarecimeto

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    2. Haverá impacto significativo nos mercados como um todo. Tanto em praças desenvolvidas, quanto em praças emergentes. No Brasil o choque será maior no mercado da dívida soberana. Nos Estados Unidos o impacto pode ser maior no mercado de ações. Este estudo que fiz em julho de 2013 responde seus questionamentos, muito bem levantados por sinal. Qualquer dúvida volte a me contactar.

      Uma lanterna no meio da escuridão
      http://www.financasinteligentes.com/2013/07/uma-lanterna-no-meio-da-escuridao.html

      Abcs, bons trades

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    3. No seguimento do seu link,eu concordo que para nos é sempre dificil ou impossivel prever o quer que seja no comportamento dos indices,mas penso que os Morgan Stanleys e etc sabem onde se encontra as diferenças para o comportamento dos mercados em 1972 e o atual(na minha opinião).para isso teriamos de saber como estava o futuro da economia(s) de 1972 e anos pra frente para o atual 2014/15 e ate 2016.De toda a maneira é provavel que os indices neste patamar não sejam mesmo sustentaveis e haja uma bolha com um nome ainda desconhecido para nos...

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    4. Não tenha a menor dúvida. Esse pessoal está anos luz na nossa frente rsrs... A equipe destes bancos de investimentos é muito forte.

      Abcs, bom final de semana!

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  5. Muito bom, parabéns !

    FI, você afirma que o aperto monetário será maior em países subdesenvolvidos, no brasil, esta crise poderá ser igual ou pior que a de 2003 ?

    Acredita que este aperto monetário poderá ser feito por dilma cortando programas populares caros como MCMV, controle de preços do petróleo e energia, enfim , acredita que este governo incomPTente vai encarar a crise com medidas ''impopular'' ?

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    1. Obrigado!

      Há maior risco de impacto nos Países mais vulneráveis (entre eles o Brasil). Entretanto, alguns países emergentes (que fizeram o dever de casa nos últimos anos), estão hoje com uma situação mais confortável para gerenciar estes choques futuros. Ainda não há possibilidade de mensurar o grau de impacto no Brasil, isso porque depende do que vai acontecer nos próximos 10 meses em matéria de política fiscal, econômica e monetária. Temos sim uma perspectiva de que não haverá melhora no quadro. Isso não é bom. Particularmente não acredito na adoção de uma bateria de medidas impopulares (qual seria a motivação política para isso, em caso de reeleição?). Acho que o governo fará apenas o necessário para "empurrar com a barriga". O Minha Casa Minha Vida deverá continuar. A inflação tende a continuar sendo administrada, ao invés de combatida (devidamente). O ajuste maior deverá ficar por conta da taxa de juros, num novo ciclo de alta. Infelizmente, é mais uma conta que vamos pagar.

      Abcs, bos investimentos

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  6. FI, o comentário da Yellen não é tão inédito assim vez que você mesmo já havia mencionado o assunto no seu estudo “Uma lanterna no meio da escuridão” conforme segue: O FED (Federal Reserve - Banco Central dos Estados Unidos) já adiantou que em meados de 2015 um evento tão raro, que chega a ser inédito, vai atingir o mercado de capitais”.

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    1. Sim, essa análise da "lanterna" foi baseada na minha perspectiva e com os dados que eu tinha naquele momento. Mas o Bernanke reverteu isso meses depois e os documentos do FED passaram a indicar que o aperto monetário iria demorar ainda mais um pouco. Por isso o mercado criou esta expectativa, revertida novamente agora pela Yellen. Na verdade foi uma bela jogada do FED para suavizar a curva das Treasuries.

      Abcs, bom final de semana!

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