terça-feira, 18 de março de 2014

Yellen quer mudar os parâmetros para subir os juros


No último dia 18 de dezembro de 2013, o Comitê de Política Monetária do FED (Federal Reserve – Banco Central dos Estados Unidos) havia surpreendido o mercado ao anunciar o tapering (redução gradual no volume dos programas de estímulos monetários). Grande parte dos analistas esperavam que este anúncio aconteceria somente no primeiro trimestre de 2014.

A partir do mês de janeiro de 2014, a autoridade monetária aumentou sua carteira de títulos lastreados em hipotecas ao ritmo de 35 bilhões de dólares por mês (em vez de comprar 40 bilhões de dólares por mês), e sua carteira de títulos do Tesouro de longo prazo a um ritmo de 40 bilhões de dólares por mês (em vez de comprar 45 bilhões de dólares por mês). Com isso, o volume total dos programas de estímulos monetários (Operação Twist e Quantitative Easing 3, respectivamente) reduziu para 75 bilhões de dólares por mês.

Na reunião de Comitê do mês de janeiro, a autoridade monetária anunciou novo corte de outros 10 bilhões de dólares, na mesma proporção, reduzindo, portanto, o volume total dos programas de estímulos monetários para 65 bilhões de dólares. Amanhã, ao término da segunda reunião de Comitê deste ano, o FED deverá comunicar ao mercado um novo corte de 10 bilhões.

Mas o tapering não foi a única surpresa anunciada naquela reunião do dia 18 de dezembro do ano passado. O Banco Central dos Estados Unidos havia alterado o seu gatilho para subir a taxa básica de juros. Anteriormente o FED destacava em seus comunicados o compromisso de manter a Federal Funds Rate (taxa básica de juros nos Estados Unidos) entre zero e 0,25% até a taxa de desemprego atingir os 6,5%, pelo menos. Este compromisso mudou. Agora o Banco Central pretende manter a Federal Funds Rate entre zero e 0,25% “bastante tempo depois" que o índice de desemprego chegar aos 6,5%.

A mudança foi expressiva e tinha objetivo claro de acalmar o mercado. O Banco Central estava mostrando que a taxa básica de juros permanecerá na mínima história por um período de tempo suficientemente prolongado, acabando com as especulações de aperto monetário no curto/médio prazo.

Entretanto, Janet Yellen, atual presidente do FED, tem demonstrado interesse em mudar os parâmetros definidos nas reuniões de política monetária para subir os juros. Isso porque a taxa de desemprego, atualmente em 6,7% (muito próxima do patamar de 6,5%), não está refletindo, segundo Yellen, a real fragilidade do desemprego e subemprego no País.

A nova presidente do FED é uma forte defensora do máximo emprego sustentável nos Estados Unidos e já disse em ocasiões anteriores que a recuperação do mercado de trabalho está longe de ser completa, mesmo levando em consideração a queda da taxa de desemprego.

Por este motivo algumas bolsas fecharam com altas expressivas nesta terça-feira, pois há uma expectativa de que o FED anuncie amanhã, ao final da reunião de Comitê, novos parâmetros para subir a Federal Funds Rate, reforçando a perspectiva de que o aperto monetário ainda está longe de acontecer, fato que manterá o sistema financeiro altamente alavancado.

O índice Dow Jones subiu pelo segundo pregão consecutivo, recuperando a linha central de bollinger, muito próximo da máxima histórica.


O índice Bovespa disparou 2,29% nesta terça-feira, confirmando fundo, a princípio temporário, na região dos 44.9k. O candle de fechamento é um marubozu de alta e sugere rompimento da importante linha de resistência localizada na região dos 46.1k, fato que poderá abrir espaço para força compradora se sobressair nos próximos pregões.


Em caso de rompimento da LTB dos 56.7k e retomada da linha central de bollinger (barreiras na mesma região), o índice Bovespa abrirá condições técnicas para realizar um movimento ascendente consistente, que não acontece desde a pernada de baixa iniciada em outubro do ano passado.

Importante ressaltar que o quadro geopolítico na Ucrânia não melhorou. Pelo contrário, a agência de notícias Interfax informou hoje que houve troca de tiros em Simferopol, capital da Crimeia, deixando dois mortos (um militar ucraniano e um integrante das forças de autodefesa pró-russas) e dois feridos (também um militar ucraniano e um militar pró-russo).

A Crimeia está sob controle de forças russas e pró-russas que cercam os soldados ucranianos, presos em suas bases. O comandante da Marinha ucraniana, Serguei Gaiduk, disse hoje que as tentativas de invasão armada de unidades militares se multiplicaram na Crimeia. Já o primeiro-ministro da Ucrânia, Arseni Yatseniuk, considerou que o conflito com a Rússia passava da fase política para uma fase militar. Ainda hoje, o governo ucraniano informou que os seus militares na Crimeia foram autorizados a usar suas armas para se protegerem.

A ausência de destaque destas notícias negativas e preocupantes em noticiários do ocidente revela dois aspectos importantes (i) incapacidade de correta compreensão dos movimentos dos mercados; (ii) triunfo de Vladimir Putin. A Crimeia será anexada à Rússia numa bela jogada de xadrez, pois ninguém pode fazer nada do ponto de vista militar e econômico. As sanções impostas por Estados Unidos e União Europeia à 21 pessoas envolvidas na incursão militar da Rússia na Criméia são ridiculamente insignificantes.

6 comentários:

  1. "O Brasil saiu da crise mundial muito bem e não se justificam preocupações com sua economia”, diz Nobel de Economia.

    fonte:
    http://m.estadao.com.br/noticias/economia-geral,brasil-deixou-de-ser-vulneravel-ha-muito-tempo-diz-paul-krugman,179851,0.htm


    qual sua opinião a respeito FI ?

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    1. Olá Caio,

      Creio que o Krugman aproveitou duas oportunidades ao fazer este discurso: (i) defender os ensinamentos da escola keynesiana e (ii) "falar a língua do chefe". A revista Carta Capital, reconhecida por ser abertamente alinhada à esquerda política, foi a patrocinadora deste evento que contou com a palestra do Krugman.

      Portanto, na minha opinião, este é um caso clássico de falta de transparência e imparcialidade nas informações transmitidas pelo autor. Alguns trechos são completamente contraditórios com a realidade, tais como: "Há maior confiança no País" e "a política fiscal será mais responsável". Não há nenhum sinal de política fiscal responsável ou mesmo atitudes que nos levem a crer que a política fiscal será responsável no futuro, e muito menos indicação de maior confiança no País, sendo que, na verdade, estamos sofrendo uma crise de confiança.

      A minha avaliação é a mesma do FED. O Brasil está entre as cinco economias emergentes mais vulneráveis do planeta. Endividamento crescente e elevado, crescimento baixo, inflação persistentemente elevada, expectativas dos agentes, empresários e investidores deterioradas, baixa taxa de poupança interna, baixa taxa de investimento, déficit em transações correntes, baixa capacidade de gestão dos recursos públicos e sensibilidade aos movimentos de transição da economia chinesa são alguns dos fatores que colocam o Brasil entre as economias mais frágeis do planeta.

      Abcs, bons negócios

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  2. Caro FI, como sempre um excelente post.
    1 - Se os Federal Funds Rate continuarem neste ínfimo patamar por mais tempo (apesar do tapering) o que podemos esperar da cotação do USD frente à nossa moeda?
    Isto considerendo o nosso déficit comercial, inflação, risco de racionamento, enfraquecimento da China, provável sanções à Rússia etc.

    2 - Tentei localizar e não achei algum artigo seu referente ao cenário em que a China se encontra. Especificamente quanto à queda do iron ore, bolha imobiliária (cidades fantasmas) e bolha de crédito. Você já abordou estes pontos aqui? Se sim como faço para localizar? Se não, seria excelente um artigo abordando estes pontos.

    Sucesso e parabéns pelo site.

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    1. Obrigado Daniel,

      1) No longo prazo o real tende a continuar se desvalorizando gradualmente mesmo com a expectativa de manutenção da Federal Funds Rate na mínima histórica por mais algum tempo. No curto prazo a moeda está sujeita aos movimentos de correções rotineiras, que por sua vez deixam a tendência de longo prazo até mais saudável e sustentável. Choques de curto prazo não estão descartados. Podem ser influenciados pela China, pelo IPCA encostando novamente nos 6,5%, pelo déficit fiscal, pela falta de confiança, pelo aumento dos Yields dos Treasuries, pelo aperto monetário na Inglaterra (deve acontecer antes dos Estados Unidos), pelo próprio FED, etc.

      2) Sim, várias vezes, desde 2011, pelo menos. Você pode procurar no campo esquerdo ("pesquisar") ou no arquivo do blog. Normalmente aproveito algum acontecimento macro para descrever a situação na China. Existe sim uma bolha de crédito no sistema, que até o momento está sendo administrada pelo Banco Central da China. Quanto à queda do minério de ferro, isso já aconteceu outras vezes no passado. É normalmente empurrado pelas siderúrgicas chinesas, que deixam de comprar a commoditie num determinado período para forçar a queda. Mas o preço não se sustenta abaixo ou próximo de 100,00 dólares a tonelada (fica inviável para muitas mineradoras).

      Abcs, bons negócios

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  3. A postura dela está mais 'hawkish', conforme últimas e novíssimas informações.
    Abraços!!

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    1. Sim, a previsão do tempo que ela deu hoje foi bem hawkish. Caiu como uma bomba no mercado.

      Abcs, bons investimentos

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