quinta-feira, 10 de abril de 2014

Ata do Copom sugere pausa no ciclo de aperto monetário


Mesmo diante de uma nítida piora do quadro inflacionário, a ata do Copom (Comitê de Política Monetária), divulgada na manhã desta quinta-feira, esboçou fortes elementos que sugerem uma pausa no ciclo de aperto monetário, confirmando a expectativa criada em torno do comunicado emitido pelo Banco Central na semana passada.

A primeira indicação significativa refere-se à mudança estratégia de posicionamento do antigo parágrafo 30 nas atas de reuniões do Comitê (inclusive da última reunião realizada nos dias 25 e 26 de fevereiro deste ano).  Este é um parágrafo puramente técnico, ressalta as repercussões e consequências negativas causadas por índices de inflação elevados. Costumava aparecer no final da ata, após apresentação dos motivos responsáveis pela decisão de política monetária. Nesta parte do documento (final da ata), os diretores do Comitê traçam elementos importantes a serem analisados na próxima reunião de política monetária e que certamente possuem grau de influência relevante na futura decisão.

Este parágrafo foi retirado do final da ata e jogado para o início do documento, sinalizando que estes elementos foram avaliados na reunião de Comitê dos dias 1 e 2 de abril, mas que não serão mais levados em consideração (e/ou não exercerão poder de influência) na próxima reunião do Copom a ser realizada nos dias 27 e 28 de maio.

A segunda alteração significativa aparece no parágrafo onde os diretores do Comitê destacam repercussões negativas à inflação decorrentes do deslocamento da taxa de câmbio. O seguinte trecho (“os efeitos secundários dela decorrentes, e que tenderiam a se materializar em prazos mais longos, podem e devem ser limitados pela adequada condução da política monetária”) foi retirado da ata, numa clara sinalização de que o Banco Central não enxerga necessidade de novas elevações da taxa básica de juros para conter os efeitos da depreciação cambial. No final deste parágrafo, os diretores do Comitê acrescentaram que o choque de alimentos in natura é temporário e tende a se reverter nos próximos meses.

Nos parágrafos seguintes, o Banco Central retirou pequenos trechos que poderiam indicar novas elevações da taxa básica de juros. Na ata de reunião do mês de fevereiro, os diretores do Comitê ressaltaram que “o Copom entende ser apropriada a continuidade do ajuste das condições monetárias ora em curso”. Já na reunião realizada no mês de março, os diretores do Comitê destacam apenas que “o Copom entende ser apropriado ajustar as condições monetárias”. O Banco Central também retirou o trecho: “dando prosseguimento ao processo de ajuste da taxa básica de juros, iniciado na reunião de abril de 2013” do seu comunicado final, para reforçar a sinalização de que o ciclo de aperto monetário está chegando ao fim.

Na parte final do documento, após a decisão de política monetária, o Banco Central alterou sua avaliação do ritmo de expansão do consumo das famílias. A partir de agora, o ritmo de expansão tende a ser moderado. As condições financeiras, anteriormente favoráveis, agora são avaliadas como relativamente favoráveis.

Na sequência, os membros do Comitê acrescentaram um parágrafo novo na ata que merece ser destacado: “Para o Copom, considerando-se a experiência brasileira na vigência do regime de metas, infere-se que, de modo geral, as trajetórias de importantes indicadores econômicos durante o atual ciclo de ajuste da taxa Selic, bem como as perspectivas para essas trajetórias nos próximos trimestres, apresentam-se em linha com o que se poderia antecipar. Dessa forma, as informações disponíveis sugerem que os impulsos monetários introduzidos na economia desde abril de 2013 têm se propagado normalmente por intermédio dos principais canais de transmissão e que assim tendem a continuar nos próximos trimestres. Nesse sentido, como os efeitos das ações de política monetária sobre a inflação são cumulativos e se manifestam com defasagens, o Comitê entende que parte significativa da resposta dos preços ao atual ciclo de aperto monetário ainda está por se materializar. Além disso, é plausível afirmar que, na presença de níveis de confiança relativamente modestos, os efeitos das ações de política monetária tendem a ser potencializados”.

Este importante trecho localizado no final da ata praticamente confirma a expectativa de que os diretores do Comitê querem, agora, pausar o ciclo de aperto monetário e avaliar a eficácia da política monetária. Em outras palavras, o Banco Central quer deixar a Selic trabalhar, mantendo-se, apenas, vigilante e não mais “especialmente vigilante”, conforme destacado nos últimos documentos.

Esta nova postura do Banco Central é extremamente polêmica, haja vista que as projeções de inflação da própria autoridade monetária voltaram a piorar na reunião realizada semana passada. Com base no cenário de referência (manutenção da taxa de câmbio em R$2,30 e da taxa Selic em 10,75% ao ano em todo o horizonte relevante), a projeção para a inflação de 2014 aumentou, permanecendo bem distante da meta de 4,5%. Para 2015, a projeção de inflação também subiu, distanciando-se cada vez mais do centro da meta.

Somente no primeiro trimestre deste ano a inflação acumula alta de 2,17%. Isso significa que em três meses a inflação já subiu cerca de 50% da meta estipulada para um ano inteiro. Se nos próximos nove meses restantes a inflação subir, em média, 0,49% ao mês, o teto da meta (6,5%) será superado, deteriorando ainda mais as expectativas dos agentes, investidores, empresários e agências de classificação de risco.

É uma conta bastante apertada levando em consideração a retomada de crescimento da economia global (onde haverá efeito colateral da inflação), necessidade de reajustes dos preços administrados, aumento expressivo da demanda por produtos vinculados à copa do mundo (principalmente televisores) e da própria incapacidade de infraestrutura/atendimento das cidades frente ao aumento do número de turistas. São novas fontes de pressões sobre os preços que podem limitar os efeitos contracionistas provocados pelo ciclo de aperto monetário e acabar de vez com a reputação do Banco Central. Infelizmente daqui pra frente só resta torcer.

No mercado de capitais o índice Bovespa fechou o pregão desta quinta-feira de lado, deixando um candle de indecisão acima da média móvel simples de 200 períodos. A sinalização sugere certo alívio/respiro de curtíssimo prazo frente às vendas que dominaram os pregões nos últimos dois dias, desde o topo formado na região dos 53.4k.


Nos Estados Unidos o índice Dow Jones surpreendeu e despencou 1,62%, refletindo uma nova onda generalizada de vendas pesadas em ações de tecnologia e biotecnologia na bolsa eletrônica Nasdaq.
  

Destaque da agenda internacional do dia veio da China. Dados comerciais mostraram nesta quinta-feira que as exportações caíram inesperadamente pelo segundo mês seguido em março (6,6% ante o mesmo período do ano anterior), marcando a pior leitura em mais de quatro anos. Já as importações tiveram a pior queda dos últimos 13 meses em março (11,3% sobre igual período do ano anterior). O premiê da China, Li Keqiang, disse hoje que não importa se o crescimento ficar um pouco abaixo da meta oficial de 7,5%, em mais uma sinalização de que o governo não adotará medidas substanciais de estímulo no curto prazo.

11 comentários:

  1. O melhor na Ata do Bacen foi o termo "infere-se", rs. Agora não mexem em nada até as eleições... Rir pra não chorar.

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  2. Burros! Ou seriam pau-mandados?

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  3. Parece que o Banco Central também aderiu a estratégia da política da negação. Fica a impressão de que realmente falta autonomia lá dentro.

    Abs a todos e bons negócios

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  4. FI,

    Valer registrar que esta Ata foi preparada antes da informação da inflação de Março, o que provocou uma entrevista do Tombini entre a reunião e a divulgação da Ata, atitude muito fora do script.

    Talvez tenham que fazer um "repeteco" do passado, quando apesar de não previsto, têm que acabar dando ainda mais um aumento, não porque julguem influa na inflação imediata, mas porque necessitam de carry traders que auxiliem o BC em sua atividade de derrubar o preço do dólar para, esse mecanismo sim, baixar a inflação no spot.

    Apenas uma opinião...

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    1. Sim, faz sentido. Mas tem um fator que colabora para manutenção da Selic em 11%. Tempo. Até a próxima reunião do Copom, serão divulgados o IPCA de abril e maio. Se houver uma queda, mesmo que pequena, o Banco Central pode "afirmar" que o pico da inflação passou e por isso não será necessário novas elevações da taxa básica de juros.

      Abs, bom sábado!

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    2. Agradeço seu excelente argumento; É um prazer ler seus textos.

      Ótimo final de semana !

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  5. http://economia.estadao.com.br/noticias/economia-brasil,dilma-afirma-que-alta-da-inflacao-e-momentanea,181847,0.htm

    dilma já chegou dando voadora no tombini e afirmando que a inflação é causa do aquecimento global / el niño / la niña / qualquer outro fenômeno climático

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    1. Desde quando ela tomou posse está falando que a inflação alta é momentânea. Provavelmente momentâneo tem um significado diferente no vocabulário da presidente.

      Abs, bom sábado a todos

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  6. Podiam ser diretos, e falar o que vão fazer. Por isso a economia do brasil eh essa zona, e especulação rolando solta.

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    1. Pois é. Não dá nem pra comparar Banco Central do Brasil com o FED, por exemplo.

      Abs, bom sábado

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